Baratas
Capítulo 20
TERÇA-FEIRA, 14 de JANEIRO
Oadvogado conseguiu liberar Woo em quatro horas. — Dr. Ling. Trabalha pro Sorensen — disse Liz na reunião matinal e soltou um suspiro. — Nho só teve tempo de perguntar onde Woo estava no dia do crime.
— E o que o detector de mentiras indicou? — quis saber Harry.
— Nada — respondeu Nho. — O cara não quis contar pra gente o que quer que fosse.
— Nada? Merda, e eu achando que tailandeses eram especialistas em tortura com água e choques elétricos. Então agora um gigante psicopata que quer me ver morto está à solta por aí.
— Será que alguém poderia, por favor, me dar uma boa notícia? — implorou Liz.
Ouviram o farfalhar das folhas de um jornal.
— Liguei de novo para o Maradiz Hotel. A primeira pessoa com quem falei contou que um farang costumava ir lá com uma mulher da embaixada. Esse cara disse que a mulher era branca, e que o casal conversava numa língua que ele achava que talvez fosse alemão ou holandês.
— Norueguês — disse Harry.
— Tentei conseguir uma descrição dos dois, mas o que ouvi não foi muito preciso.
Liz suspirou de novo.
— Sunthorn, pegue o carro e vá até lá com algumas fotos. Veja se alguém é capaz de identificar o embaixador e a esposa dele.
Harry franziu o cenho.
— Marido e mulher frequentando um ninho de amor a alguns quilômetros de casa por duzentos dólares a diária? Isso não é um pouco fora de propósito?
— De acordo com o sujeito com quem falei hoje, o casal passava alguns fins de semana lá
— informou Rangsan. — Consegui algumas datas.
— Eu apostaria o que ganhei na arena ontem que a mulher não era a esposa — disse Harry.
— Talvez não — ponderou Liz. — Enfim, isso provavelmente não vai nos levar muito longe.
A inspetora encerrou a reunião dizendo à equipe que usasse o restante do tempo para botar em dia a papelada dos casos que foram deixados de lado por conta da prioridade dada ao assassinato do embaixador.
— Então estamos de volta à estaca zero? — perguntou Harry, depois que os outros saíram.
— Sequer saímos dela — respondeu Liz. — Talvez você consiga o que os noruegueses querem.
— O que nós queremos?
— Conversei com o chefe de polícia hoje de manhã. Ele tinha falado ontem com um tal sr. Torhus, da Noruega, que queria saber quanto tempo esse negócio ainda ia demorar. As autoridades norueguesas pediram esclarecimentos até o fim da semana, caso não tivéssemos nada de concreto. O chefe respondeu que esta é uma investigação tailandesa e que não engavetamos casos de assassinato assim, sem mais nem menos. Só que, mais tarde, ele recebeu um telefonema do nosso Ministério da Justiça. Foi uma boa a gente ter feito o tour pela cidade enquanto havia tempo, Harry. Parece que você vai voltar pra casa na sexta. A menos que, como foi dito, surja algo de concreto.
— Harry!
Tonje Wiig veio ao encontro dele na recepção, o rosto corado e um sorriso tão vermelho que ele suspeitou que ela tivesse passado batom antes de sair da sala.
— Precisamos tomar um chá — disse ela. — Ao!
Quando Harry chegou à embaixada, a srta. Ao o fitou com uma expressão muda de medo, um medo que ainda persistia em seus olhos mesmo depois de ele ter dito que sua visita nada tinha a ver com ela. Parecia um antílope bebendo água em um rio sob o olhar dos leões. Ela deu as costas a Harry e Tonje e os deixou a sós.
— Moça bonita — comentou Tonje, perscrutando Harry com o olhar.
— Linda — respondeu ele. — E jovem.
Parecendo satisfeita com a resposta, Tonje o conduziu até sua sala.
— Tentei ligar para você ontem à noite — continuou ela —, mas você obviamente não estava em casa.
Harry podia perceber que Tonje queria que ele perguntasse o motivo da ligação, mas se conteve. A srta. Ao entrou com o chá, e ele esperou até que ela saísse da sala.
— Preciso de umas informações — retomou Harry.
— Pois não?
— Você era a encarregada de negócios aqui quando o embaixador estava fora, então imagino que mantinha um registro das ausências dele.
— Naturalmente.
Harry passou quatro datas a ela, que as verificou em sua agenda. O embaixador tinha estado em Chiang Mai três vezes e uma vez no Vietnã. Harry anotou aquilo calmamente enquanto se preparava para fazer mais perguntas.
— O embaixador conhecia alguma mulher norueguesa em Bangkok além da esposa?
— Não... — respondeu Tonje. — Não que eu saiba. Bom, sem contar eu mesma, claro.
Harry esperou que ela pousasse a xícara na mesa antes de perguntar:
— O que diria se eu afirmasse que você estava tendo um caso com o embaixador?
Tonje Wiig ficou boquiaberta. Ali estava um atestado da qualidade dos serviços odontológicos na Noruega.
— Ah, minha Nossa Senhora! — exclamou ela, e tão sem ironia que Harry só pôde concluir que a expressão “minha Nossa Senhora” ainda fazia parte do vocabulário de mulheres mais jovens.
Ele pigarreou.
— Acho que você e o embaixador passaram essas datas que acabamos de checar no Maradiz Hotel e, se isso for verdade, gostaria que você assumisse o relacionamento e me informasse onde estava no dia da morte dele.
Era surpreendente que alguém já tão branca como Tonje Wiig pudesse ficar ainda mais pálida.
— Devo procurar um advogado? — perguntou ela, por fim.
— Não se você não tiver o que esconder.
Harry percebeu que uma lágrima se formava no canto do olho dela.
— Não tenho nada a esconder — afirmou a mulher.
— Se é assim, sugiro que me conte tudo.
Ela secou a lágrima com cuidado para não borrar a maquiagem.
— Às vezes eu tinha vontade de matar ele, detetive.
Harry reparou na mudança de tratamento e aguardou, paciente.
— Tanto que quase fiquei feliz quando soube da morte.
Harry notou pelo tom de voz que ela começava a soltar a língua. Era importante agora não dizer nem fazer nada que interrompesse o fluxo de pensamento. Uma confissão sempre vem precedida de outras.
— Por que ele se recusava a se separar da esposa?
— Não! Você não está entendendo. Porque ele estragou tudo pra mim! Tudo que...
O primeiro soluço foi tão amargurado que Harry percebeu que finalmente havia chegado a algum lugar. Então ela se recompôs e secou os olhos.
— A nomeação do embaixador foi política. Ele não tinha nem de longe a qualificação necessária pra esse cargo. Foi enviado pra cá na maior pressa, como se não pudessem perder tempo pra tirá-lo da Noruega. Havia indícios de que a principal candidata ao cargo era eu, mas fui obrigada a entregar as chaves do gabinete do embaixador pra alguém que não sabia nem a diferença entre um encarregado de negócios e um adido. E nunca tivemos nenhum tipo de relacionamento. Essa ideia é totalmente absurda pra mim.
— O que aconteceu então?
— Quando fui chamada pra identificar o corpo, de repente esqueci essa história toda da nomeação, esqueci que estava ganhando uma nova oportunidade ali. Em vez disso, lembrei-me do bom homem que ele foi, um homem inteligente. E foi mesmo! — enfatizou, como se Harry tivesse feito alguma objeção. — Mesmo não sendo muito bom como embaixador, na minha opinião. Há coisas mais importantes que um emprego e uma carreira. Talvez eu nem devesse me candidatar ao cargo. Vamos esperar pra ver. Tenho muito que pensar. Certo, não, não vou dar nenhuma resposta definitiva agora.
Fungou algumas vezes e pareceu se recuperar.
— Sabe, é bem incomum um encarregado de negócios ser nomeado embaixador na mesma embaixada. Que eu saiba, isso nunca aconteceu.
Tonje sacou um espelho e conferiu a maquiagem antes de dizer, aparentemente para si mesma:
— Mas imagino que pra tudo haja uma primeira vez.
No táxi de volta para a delegacia, Harry decidiu riscar o nome de Tonje Wiig de sua lista de suspeitos. Em parte porque a moça tinha sido convincente, em parte porque ela podia provar que estivera em outro lugar nas datas em que o embaixador se hospedara no Maradiz Hotel. Tonje também havia confirmado que o número de mulheres norueguesas residentes em Bangkok não era tão grande para que restassem muitas opções.
Pareceu, portanto, um golpe em seu plexo solar o fato de ele de repente ser obrigado a pensar o impensável. Porque simplesmente não era tão impensável assim.
A garota que entrou pela porta de vidro do Hard Rock Café era diferente da que ele havia conhecido na mansão e encontrado no funeral, de expressão desafiadora e mal-humorada e linguagem corporal discreta e introvertida. O rosto de Runa se iluminou com um sorriso ao vê-lo sentado com uma garrafa vazia de Coca-Cola e um jornal diante de si. Ela usava um vestido florido azul de mangas curtas e fazia a prótese ficar quase imperceptível com a habilidade de uma ilusionista experiente.
— Chegou cedo — disse ela, muito satisfeita.
— É difícil chegar no horário com esse trânsito — respondeu ele. — E eu não queria chegar atrasado.
Runa sentou-se em uma cadeira e pediu um chá gelado.
— Ontem, sua mãe...
— Estava dormindo — cortou ela. Tão abruptamente que Harry pensou ser uma advertência. Mas não tinha mais tempo a perder com rodeios.
— Estava bêbada, você quer dizer?
Ela ergueu os olhos na direção dele. O sorriso feliz tinha desaparecido.
— Era sobre a minha mãe que você queria conversar?
— Entre outras coisas. Como era a relação dela com seu pai?
— Por que você não pergunta pra ela?
— Porque acho que você não sabe mentir tão bem quanto ela — foi a resposta sincera de Harry.
— Ah, é? Então posso dizer que eles se davam tão bem que quase botavam fogo na casa.
A expressão desafiadora tinha voltado.
— Estava tão feio assim, é?
Ela demonstrou embaraço.
— Sinto muito, Runa, mas isso é o meu trabalho.
Ela deu de ombros.
— A gente não se dá muito bem, minha mãe e eu. Mas meu pai e eu éramos grandes amigos. Acho que ela ficava com ciúmes.
— De quem?
— De nós dois. Dele. Sei lá.
— Por que dele?
— Ele não parecia precisar dela. Minha mãe era vazia demais pra ele...
Harry não conseguia acreditar que faria a próxima pergunta, mas tinha visto muitas coisas terríveis ao longo dos anos. Fez uma pausa.
— Seu pai às vezes levava você a hotéis, Runa? Pro Maradiz Hotel, por exemplo?
Harry viu o espanto no rosto dela.
— Como assim? Por que ele faria isso?
Ele baixou a vista para o jornal em cima da mesa, mas se obrigou a encarar a garota novamente.
— O quê? — explodiu ela, mexendo a colher na xícara a ponto de o chá derramar. — Você diz cada coisa absurda! Onde está querendo chegar?
— Olha, Runa, sei que isso é difícil, mas acho que seu pai fez coisas das quais ele ainda ia se arrepender.
— Meu pai? Meu pai sempre se arrependia. Ele se arrependia e levava a culpa e reclamava... mas a bruxa não o deixava em paz. Ficava perseguindo ele o tempo todo, porque você não é isso e você não é aquilo e me arrastou pra cá e assim por diante. Ela achava que eu não ouvia nada, mas eu ouvia. Cada palavra. Que ela não servia pra viver com um eunuco, que era uma mulher cheia de energia. Falei pro meu pai que ele precisava se separar dela, mas ele suportou tudo. Por minha causa. Não dizia que era por isso, mas eu sabia que era.
— O que eu estou tentando dizer — falou Harry, baixando a cabeça para olhar nos olhos dela — é que seu pai não tinha as mesmas preferências sexuais de outros.
— É por isso que você está tenso desse jeito? Porque acha que eu não sabia que meu pai era gay?
Harry teve que se conter para não ficar boquiaberto.
— Como assim, gay? O que você quer dizer exatamente? — perguntou.
— Bicha. Homossexual. Boiola. Viado. Nasci de uma das poucas trepadas que a bruxa conseguiu arrancar do meu pai. Ele a achava nojenta.
— Seu pai disse isso?
— Ele era bom demais pra dizer uma coisa dessas. Mas eu sabia. Era a melhor amiga dele. Isso ele me disse. Tinha vezes que eu parecia ser a única amiga que ele tinha. “Você e os cavalos são as únicas coisas de que eu gosto”, ele me disse uma vez. Eu e os cavalos. Essa é boa, né? Acho que ele teve um namorado quando era estudante, antes de conhecer minha mãe. Mas o cara terminou com ele, não quis assumir o relacionamento. Normal. Meu pai não queria também. Faz muito tempo isso. As coisas eram diferentes naquela época.
Runa disse a última frase com aquela inabalável confiança dos adolescentes. Harry levou o copo de Coca à boca e bebeu devagar. Precisava ganhar tempo. As coisas não estavam saindo como ele havia previsto.
— Você quer saber quem se hospedava no Maradiz Hotel? — perguntou Runa. — Minha mãe e o amante dela.