Baratas
Capítulo 21
TERÇA-FEIRA, 14 de JANEIRO
Os galhos brancos e congelados se erguiam como dedos apontados para o céu pálido de inverno dos Jardins do Palácio Real. Dagfinn Torhus estava junto à janela e observava um sujeito que, trêmulo, com a cabeça enterrada entre os ombros, corria pela Haakon VIIs Gate. O telefone tocou. Torhus olhou para o relógio e viu que era hora do almoço. Acompanhou o homem até perdê-lo de vista na estação de metrô, então tirou o fone do gancho e disse o próprio nome. Antes que a voz chegasse ao seu ouvido, escutou um zunido e um crepitar na linha.
— Vou dar mais uma chance a você, Torhus. Se não aproveitar, garanto que o Ministério vai procurar outra pessoa para ocupar seu cargo em menos tempo do que você leva pra dizer “Diretor do Ministério de Relações Exteriores sabota investigação policial”. Ou “Embaixador norueguês gay é vítima de crime passional”. Ambas dão belas de umas manchetes, não acha?
Torhus se sentou.
— Onde você está, Hole? — perguntou ele, por falta de coisa melhor para dizer.
— Acabei de ter uma longa conversa com meu chefe da Divisão de Homicídios. Perguntei a ele de uns quinze jeitos diferentes por que diabos Atle Molnes acabou indo parar em Bangkok. Pelo que descobri até agora, menos improvável que Molnes como embaixador só mesmo o falante Reiulf Steen. Não consegui arrancar do meu chefe a chave pra solucionar esse mistério, mas pelo menos consegui confirmar que existe uma chave. Imagino que ele tenha feito um juramento de confidencialidade, de modo que me encaminhou pra você. A pergunta é a mesma de antes. O que você sabe que eu não sei? Pra sua informação, tenho aqui ao meu lado um aparelho de fax e os números de telefone dos jornais Verdens Gang, Aftenposten e Dagbladet.
A voz de Torhus chegou a Bangkok como o frio do inverno norueguês.
— Ninguém vai querer publicar as alegações infundadas de um policial alcoólatra, Hole.
— Acho que vai, sim, se esse policial alcoólatra for uma celebridade.
Torhus não respondeu.
— Por falar nisso, parece que o Sunnmørsposten também vai cobrir o caso.
— Você também fez o juramento de manter o caso sob sigilo — disse Torhus, sem se alterar. — Vai ser processado.
Hole soltou uma risada.
— Entre a cruz e a espada, hein? Se, sabendo o que sei, eu não investigar o caso, estaria incorrendo em abandono de responsabilidade. Também posso ser punido por isso, como você sabe. E, não sei por que, mas minha impressão é de que tenho menos a perder do que você, caso não cumpra o juramento de confidencialidade.
— O que me garante... — retomou Torhus, mas foi interrompido por um ruído na linha. — Alô?
— Estou ouvindo.
— O que me garante que o que eu disser a você vai ficar só entre a gente?
— Nada.
O eco fez parecer que Harry havia pronunciado a resposta três vezes.
Silêncio.
— Confie em mim — falou Harry.
Torhus bufou.
— E por que deveria?
— Porque você não tem escolha.
O diretor olhou para o relógio e viu que ia se atrasar para o almoço. O rosbife ao molho do restaurante dos funcionários provavelmente já tinha acabado, mas isso não importava muito, pois havia perdido o apetite.
— O que vou contar a você agora não deve vazar — disse ele. — E estou falando muito sério.
— Não é essa a intenção.
— Certo, Hole. De quantos escândalos envolvendo o Partido Democrata Cristão você já ouviu falar?
— Não muitos.
— Exato. Durante anos, os democratas-cristãos têm sido esse partidinho acolhedor com o qual ninguém nunca se preocupou muito. Enquanto a imprensa vasculhava coisas sobre a elite do poder do Partido Socialista e os esquisitões do Partido Progressista, os democratas-cristãos quase sempre puderam tocar seus negócios sem serem incomodados. Com a mudança de governo, isso não foi mais possível. No momento de nomear os integrantes do gabinete, logo ficou claro que Atle Molnes, apesar da competência inquestionável e da longa experiência no Parlamento, não estaria entre os ministeriáveis. Sua vida privada implicaria um risco que um partido cristão que defende certos valores pessoais não poderia correr. Não tem como o partido ser contra a ordenação de padres homossexuais e, ao mesmo tempo, nomear ministros gays. Acredito que o próprio Molnes tinha consciência disso. Mas, quando saíram os nomes do novo governo, surgiram vários questionamentos na imprensa. Por que Atle Molnes não estava entre eles? Algum tempo antes, quando ele saiu de cena pra dar espaço ao primeiro-ministro, que então se tornou líder do partido, a maioria dos analistas considerou que Molnes seria o segundo na hierarquia, ou pelo menos o terceiro ou o quarto. Vieram as perguntas e, com elas, ressurgiram os rumores sobre o homossexualismo do embaixador, que tinham começado quando ele renunciou à candidatura à liderança do partido. Claro, sabemos que muitos parlamentares são gays; então, por que essa comoção toda?, alguém poderia perguntar. Ora, a questão, nesse caso, além do fato de se tratar de um democrata-cristão, era a amizade muito próxima de Molnes com o primeiro-ministro; tinham estudado juntos e até dividido uma quitinete. Era apenas questão de tempo pra que esses detalhes chegassem à imprensa. Molnes não estava no governo, mas a coisa ainda assim estava se tornando, do ponto de vista pessoal, um problema para o primeiro-ministro. Se todo mundo sabia que ele e Molnes tinham sido os grandes aliados políticos desde o início, quem acreditaria nele se dissesse que, ao longo de todos esses anos, nunca havia tido conhecimento das preferências sexuais do amigo? O que seria dos eleitores que tinham apoiado o primeiro-ministro por causa da posição clara do partido em relação à união civil e outras ideias degradantes, se ele próprio alimentava uma serpente no seio do partido, pra usar uma metáfora bíblica? Como ganhar a confiança das pessoas desse jeito? A popularidade do primeiro-ministro era, até então, um dos fatores mais importantes para sustentar um governo minoritário, e tudo que ele não precisava era que um escândalo viesse à tona. Óbvio que teriam de mandar Molnes pra fora do país o mais rápido possível. Decidiram, então, que um posto de embaixador seria a melhor solução, pois aí ninguém poderia acusar o primeiro-ministro de banir um colega que prestou grandes serviços ao partido. Foi nesse momento que entraram em contato comigo. Agimos rápido. A nomeação formal pra embaixada em Bangkok ainda não tinha saído, e o cargo colocaria Molnes a uma distância suficiente pra que a imprensa o deixasse em paz.
— Meu Deus — falou Harry, depois de uma pausa.
— Pois é — disse Torhus.
— Você sabia que a esposa dele tem um amante?
Torhus conteve uma gargalhada.
— Não, mas você teria que me oferecer muito dinheiro pra que eu não apostasse que ela tem um.
— Por quê?
— Primeiro, porque imagino que um marido homossexual faria vista grossa a esse tipo de situação. Segundo, há algo na cultura do Ministério que parece encorajar casos extraconjugais. Isso às vezes até leva a novos casamentos, na verdade. Difícil a pessoa andar pelos corredores desse lugar sem esbarrar em ex-cônjuges ou amantes antigos ou atuais. Somos notórios pela endogamia. Conseguimos ser piores que a porcaria da Rede Pública de Televisão da Noruega.
Torhus continuava a abafar o riso.
— O amante não é do Ministério — esclareceu Harry. — Tem um norueguês aqui, um corretor de câmbio, espécie de Gekko local. Jens Brekke. De início pensei que estivesse envolvido com a filha, mas parece que o caso é com Hilde Molnes. Os dois se conheceram logo depois da mudança da família, e, segundo a filha, o negócio é mais do que sexo sem compromisso. É bem sério, na verdade, e a moça acha que cedo ou tarde eles vão morar juntos.
— Isso pra mim é novidade.
— Isso no mínimo sugere que a esposa podia ter uma motivação. E o amante também.
— Molnes poderia ser um obstáculo?
— Não, pelo contrário. De acordo com a filha, Hilde Molnes se recusava a dar o divórcio ao marido. Depois de ele ter aceitado que não iria longe em suas aspirações políticas, imagino que a fachada proporcionada pelo casamento deixou de ser tão importante. Ela deve ter chantageado Molnes, dizendo que tiraria dele o direito de visitar a filha. Não é o que geralmente acontece? A motivação é provavelmente ainda menos nobre. A família Molnes é dona de metade de Ørsta.
— Exato.
— Pedi à Divisão de Homicídios que verificasse se existe um testamento e qual seria a parte de Atle nos bens da família.
— Bom, isso não é da minha alçada, Hole, mas você não acha que isso já não é complicar um pouco as coisas? Um maluco simplesmente pode ter batido na porta do embaixador e o matado com uma facada.
— É uma possibilidade. Tem alguma importância, em princípio, se esse maluco é ou não norueguês, Torhus?
— Como assim?
— Malucos de verdade não esfaqueiam uma pessoa e removem toda e qualquer prova da cena do crime. Deixam várias peças de um quebra-cabeça, de modo que nós possamos brincar de polícia e ladrão depois. Nesse caso, temos uma faca com ornamentos orientais e só. Acredite em mim, esse foi um assassinato cuidadosamente planejado por alguém que não estava de brincadeira, que queria que o serviço fosse feito e o caso fosse arquivado por falta de provas. Mas vai saber; talvez o cara precise mesmo ser um maluco pra cometer um crime desses. E os únicos malucos que encontrei até agora nesse caso são noruegueses.