Baratas

Jo Nesbo · Capítulo 34 de 54

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Baratas

Capítulo 32

 

 

SÁBADO, 18 de JANEIRO

 

Qualquer um pode arrombar uma casa — tudo que precisa fazer é colocar um pé de cabra na moldura da porta, na altura da fechadura, e pressioná-lo com o peso do corpo até as linguetas saírem voando. Invadir, por outro lado, entrar na casa de forma que o ocupante não perceba que teve visitas, é uma arte. Uma arte que logo ficou claro que Sunthorn dominava com perfeição.

Ivar Løken morava em um complexo de apartamentos do outro lado da ponte Phra Pinklao. Sunthorn e Harry ficaram dentro do carro na frente do prédio por quase uma hora até o verem sair. Esperaram mais dez minutos, até terem certeza de que Løken não retornaria para buscar algum objeto esquecido.

A segurança do local era meio negligente. Dois homens uniformizados estavam ao lado da porta da garagem batendo papo; eles repararam no homem branco e no tailandês relativamente bem-vestido indo na direção do elevador e retomaram a conversa.

Quando Harry e Sunthorn pararam na porta de Løken, no décimo terceiro andar, ou 12B como sugeria o botão do elevador, Sunthorn segurou duas pinças, uma em cada mão, e as inseriu na fechadura. No segundo seguinte, ele as retirou.

— Calma — sussurrou Harry. — Não se estresse. Temos todo tempo do mundo. Tente com outras pinças.

— Não tenho outras. — Sunthorn sorriu e abriu a porta.

Harry mal podia acreditar. Talvez Nho não estivesse brincando ao dar aquela indireta sobre a ocupação de Sunthorn antes de entrar para a polícia. De qualquer forma, se não tinha sido um criminoso, certamente agora era, pensou Harry enquanto tirava os sapatos e entrava no apartamento escuro. Liz havia explicado que, para conseguir um mandado de busca, era preciso ter a assinatura de um advogado, o que significava informar o chefe de polícia a respeito. Isso seria um problema, segundo Liz, já que o chefe tinha ordenado expressamente que os esforços fossem concentrados em Jens Brekke. Harry havia retrucado que não estava sob a jurisdição do chefe de polícia e só pretendia dar uma passada no apartamento de Løken para ver se conseguia alguma coisa. Liz, entendendo o subentendido, respondera que queria saber o mínimo possível do plano de Harry. No entanto, tinha comentado que Sunthorn era uma boa companhia.

— Vá pro carro e espere — sussurrou Harry. — Se Løken aparecer, ligue pra esse número e deixe-o tocar três vezes, não mais, ok?

Sunthorn assentiu e foi embora.

Harry acendeu a luz assim que se certificou de que não havia janelas com vista para a rua. Em seguida, localizou o telefone e verificou se estava funcionando. Então, enfim, deu uma olhada no lugar. Era um típico apartamento de solteiro, desprovido de quaisquer objetos decorativos ou calor humano. Três paredes nuas, a quarta coberta com estantes repletas de livros, e uma TV portátil modesta. O centro da sala tinha uma mesa de madeira sustentada por cavaletes e uma luminária.

Em um canto havia duas sacolas de viagem abertas com equipamento fotográfico, e um tripé para câmera estava encostado na parede. A mesa estava coberta com tiras de papel, presumivelmente aparas, pois havia ali em cima duas tesouras, uma grande e uma pequena.

Duas câmeras, uma Leica e uma Nikon F5 com uma lente teleobjetiva, fitavam Harry sem nada registrar. Ao lado delas, binóculos com visão noturna. Harry já havia visto binóculos assim antes; eram israelenses, e ele já tinha usado esse tipo de equipamento para vigiar suspeitos. As baterias captavam as fontes externas de luz e permitiam que se enxergasse bem mesmo em ambientes que estivessem em total escuridão.

Uma porta levava ao quarto. A cama estava desfeita, o que fez Harry supor que Løken pertencia à minoria de estrangeiros em Bangkok que não tinha uma empregada. O serviço não era caro, e haviam comentado com Harry que os tailandeses meio que esperavam que os estrangeiros contribuíssem para aumentar dessa forma a oferta de empregos no país.

Ao lado do quarto existia um banheiro.

Harry acendeu a luz e se deu conta de imediato do motivo para Løken não ter uma empregada.

O banheiro claramente também servia como câmara escura. O local cheirava a produtos químicos, e as paredes estavam cobertas por fotografias em preto e branco. Uma fileira havia sido pendurada para secar em uma cordinha que ia de uma ponta a outra da banheira. Elas mostravam o perfil de um homem, do peito para baixo, e Harry agora podia ver que não era a moldura da janela que prejudicava o enquadramento da foto: a parte superior da janela tinha um intricado mosaico de vidro com desenhos de lótus e Buda.

Um menino que não tinha mais do que 10 anos estava sendo forçado a realizar sexo oral, e o zoom da câmera tinha ampliado e aproximado tanto a cena que Harry podia ver os olhos da criança. Estavam distraídos e distantes, pareciam não registrar mais nada. Ele usava apenas uma camiseta.

Harry se aproximou da imagem granulada. O homem tinha uma mão na cintura e a outra na parte de trás da cabeça do menino. O detetive conseguia distinguir a sombra do perfil no mosaico de vidro, mas era impossível discernir qualquer outro detalhe.

De repente, o banheiro apertado e fedido pareceu se encolher; era como se as fotografias na parede sitiassem Harry. Ele cedeu ao impulso, arrancando as fotos, meio furioso, meio desesperado, o sangue latejando nas têmporas. Observou seu rosto no espelho antes de cambalear, tonto, para fora da sala, com uma pilha de fotos embaixo do braço. Sentou-se pesadamente em uma cadeira.

— Voyeur do caralho! — murmurou quando a respiração voltou ao normal.

Tinha acabado com o plano. Como não estavam com um mandado de busca, o acordo era de que não deixariam vestígios; iam apenas descobrir o que havia no apartamento e, depois, caso houvesse algo, voltariam com um mandado.

Harry olhou fixo para a parede, tentando se convencer de que era necessário ter provas concretas para persuadir a mula teimosa do chefe de polícia. Se fossem rápidos, podiam encontrar um advogado e voltar com o mandado antes que Løken voltasse do jantar. Enquanto pesava os prós e os contras, apanhou o binóculo com visão noturna, ligou-o e olhou para fora. A janela dava para um quintal, e, inconscientemente, Harry procurou um mosaico de vidro, como o das fotos, mas só conseguiu enxergar paredes caiadas envoltas pelo brilho verde do binóculo.

Harry olhou para o relógio. Concluiu que devia pendurar as fotos de volta. O chefe de polícia teria que se contentar com a sua palavra. Então seu sangue gelou.

Tinha ouvido alguma coisa. Na verdade, podia ouvir mil coisas, mas um som em particular não pertencia à cacofonia já familiar das ruas. E vinha do corredor. Foi um clique bem discreto. Óleo no metal. Quando a corrente de ar comprovou que alguém tinha aberto a porta, pensou em Sunthorn, mas logo se deu conta de que a pessoa que havia acabado de entrar tentava fazer o mínimo de barulho possível. Harry prendeu a respiração enquanto seu cérebro acelerava, vasculhando seus arquivos sonoros em um ritmo furioso. Um especialista em sons na Austrália tinha lhe dito que a membrana do ouvido pode distinguir a diferença de pressão entre um milhão de frequências distintas. E aquele não tinha sido o som de uma maçaneta sendo aberta; era o de uma arma recentemente lubrificada sendo engatilhada.

Harry estava no fundo do cômodo, um alvo contra as paredes brancas, e o interruptor ficava na parede oposta, perto da porta. Apanhou a tesoura maior que estava no meio da mesa, agachou-se e seguiu o fio da luminária até a tomada na parede. Arrancou o plugue e enfiou a tesoura na tomada com toda a força.

Uma luz azul brilhou na tomada, e depois dela houve uma pequena explosão. Então o cômodo ficou escuro como breu.

O choque elétrico anestesiou seu braço, e, com o cheiro de plástico queimado e metal em suas narinas, esgueirou-se pela parede, gemendo.

Harry tentou escutar, mas tudo o que conseguia distinguir era o tráfego e seu próprio coração. O ritmo das batidas era tão forte que Harry podia senti-lo; era como um cavalo galopante a toda velocidade. Ouviu algo ser cuidadosamente colocado no chão e percebeu que a pessoa tinha tirado os sapatos. Harry ainda estava com a tesoura na mão. Era uma sombra se mexendo? Impossível dizer; estava tão escuro que mesmo as paredes brancas não eram visíveis. A porta do quarto rangeu, e um clique soou em seguida. Harry percebeu que o intruso estava tentando acender a luz, mas o curto-circuito obviamente tinha estragado todos os fusíveis do apartamento. Pelo menos agora sabia que a pessoa estava familiarizada com o apartamento. Mas, se fosse Løken, Sunthorn teria ligado. Teria? Por um instante imaginou a cabeça de Sunthorn recostada na janela do carro, um pequeno buraco na têmpora.

Harry pensou que talvez devesse tentar engatinhar em direção à porta da frente, mas alguma coisa lhe dizia que era isso que a outra pessoa estava esperando. Quando abrisse a porta, sua silhueta seria como um dos alvos da galeria de tiro em Økern. Merda! O sujeito devia estar sentado no chão em algum ponto do apartamento, com a arma apontada diretamente para a porta.

Se ao menos pudesse fazer contato com Sunthorn! De repente se deu conta de que ainda tinha o binóculo pendurado no pescoço. Colocou o aparelho junto aos olhos, mas viu apenas uma névoa verde, como se alguém tivesse cuspido nas lentes. Ajustou o foco para o mais longe possível. A lente ainda estava embaçada, mas Harry foi capaz de discernir a silhueta de uma pessoa de pé junto à parede do outro lado da mesa. O braço estava dobrado, e a arma, apontada para o teto. A distância entre a beirada da mesa e a parede devia ser de uns dois metros.

Harry se lançou para a frente, agarrou o tampão da mesa com as duas mãos e o segurou na frente do corpo, como um aríete. Ouviu um gemido e o baque de uma arma caindo no chão, então saiu de trás da mesa e agarrou o que parecia ser a cabeça de seu oponente. Apertou o braço ao redor do pescoço.

— Politiet! — gritou. O homem ficou paralisado quando Harry pressionou o aço frio da lâmina da tesoura contra seu rosto quente. Por um tempo os dois ficaram assim, agarrados um ao outro, dois estranhos na escuridão, ambos tentando recuperar o fôlego como se tivessem acabado de correr uma maratona.

— Hole? — murmurou o outro homem.

Harry se deu conta de que, na hora do pânico, tinha gritado em norueguês.

— Gostaria que você me soltasse. Sou Ivar Løken e não vou fazer nada.