Baratas
Capítulo 22
TERÇA-FEIRA, 14 de JANEIRO
Depois de muito procurar, Harry enfim encontrou a portinha entre dois bares de striptease na Soi 1, em Patpong. Subiu as escadas e adentrou a penumbra de uma sala, onde um gigantesco ventilador de teto girava preguiçosamente. Em um movimento involuntário, ele se encolheu sob as enormes pás; seu corpo já carregava algumas marcas de como os vãos das portas, entre outras coisas, não eram adaptados aos seus quase dois metros de altura.
Hilde Molnes o esperava em uma mesa ao fundo, no salão do restaurante. Seus óculos de sol, com os quais pretendia passar despercebida, acabavam chamando ainda mais atenção, pensou Harry.
— Na verdade não gosto de vinho de arroz — disse ela, terminando de enxugar o copo. — Exceto Mekhong. Posso oferecer uma dose a você, detetive?
Harry balançou a cabeça. Ela fez um sinal com os dedos, e encheram sua taça novamente.
— O pessoal já me conhece aqui — continuou. — Param de me servir quando acham que já bebi o bastante. E geralmente têm razão. — Ela riu, a voz rouca — Espero que não seja um problema pra você a gente se encontrar aqui. Lá em casa o clima anda... um pouco triste no momento. Por que você me chamou pra conversar, detetive?
Hilde enunciava as palavras com clareza, como as pessoas fazem quando estão tentando disfarçar que beberam demais.
— Acabou de chegar até nós a informação de que você e Jens Brekke se hospedam juntos no Maradiz Hotel com alguma regularidade.
— Bingo! — respondeu Hilde Molnes. — Finalmente alguém que trabalha direito. Se você conversar com aquele garçom ali, ele poderá confirmar que herr Brekke e eu também nos encontramos aqui com alguma regularidade. — Ela cuspiu as palavras. — O lugar é escuro, discreto, não é frequentado por outros noruegueses e, mais importante de tudo, serve o melhor plaa lòt da cidade. Gosta de enguia, Hole? Enguia de água salgada?
Veio à mente de Harry um cadáver sendo resgatado do mar em Drøbak. Tinha ficado desaparecido por alguns dias, e no rosto cadavérico e pálido a expressão era de surpresa infantil. Alguma coisa havia comido suas pálpebras. Mas o que tinha chamado a atenção de Harry era a enguia. A cauda que saía da boca do sujeito e se remexia de um lado para o outro feito um chicote prateado. Harry ainda conseguia se lembrar do cheiro de salmoura no ar, de modo que aquela devia ter sido uma enguia de água salgada.
— Meu avô se alimentava quase que só de enguias — contou a viúva. — Desde pouco antes da guerra até a morte. Ele se entupia delas e nunca enjoava.
— Também recebi algumas informações sobre o testamento.
— Sabe por que ele comia tanta enguia? Ah, claro que você não sabe. Meu avô era pescador, mas isso foi antes da guerra, quando as pessoas não queriam saber de comer enguia em Ørsta. E sabe por quê?
Ele percebeu no rosto dela o mesmo lampejo de dor que tinha visto na mansão da família.
— Fru Molnes...
— Eu fiz uma pergunta: sabe por quê?
Harry balançou a cabeça.
Hilde Molnes baixou a voz. Tamborilava na toalha de mesa com as unhas compridas e vermelhas enquanto pronunciava cada sílaba.
— Bom, naquele inverno, um barco naufragou. Isso aconteceu em plena calmaria e a apenas algumas centenas de metros da costa, mas fazia tanto frio que nenhum dos nove homens a bordo sobreviveu. Havia uma corrente submarina no local em que o barco afundou, e por isso nenhum corpo foi encontrado. Mais tarde as pessoas contaram que um grande número de enguias apareceu no fiorde. Dizem que enguias se alimentam dos cadáveres de pessoas que se afogaram, sabe. Várias vítimas eram parentes de moradores de Ørsta, o que fez a venda de enguias despencar. Foi então que meu avô pensou que seria um bom negócio vender todos os outros peixes que pescasse e comer ele mesmo as enguias. Nascido e criado em Sunnmøre, sabe como é...
Ela tomou um gole e voltou a pousar o copo na mesa. Um círculo escuro surgiu na toalha.
— Aí acho que ele tomou gosto pela coisa. “Eram só nove náufragos”, dizia o vovô. “Não deve ter sido o suficiente pra alimentar muitas. Posso até ter comido uma ou duas das que devoraram os pobres coitados, mas e daí? Não senti nenhum gosto diferente mesmo.” Nenhum gosto diferente! Essa é boa.
Parecia que ele já tinha ouvido aquilo antes.
— O que você acha, Hole? Será que as enguias comeram os náufragos?
Harry coçou atrás da orelha.
— Bom, tem gente que garante que a cavala também come carne humana. Sei lá. Provavelmente todos tiram uma casquinha, imagino. Os peixes, quero dizer.
Harry esperou ela terminar a bebida antes de continuar:
— Um colega meu em Oslo acabou de falar com o advogado do seu marido, Bjørn Hardeid, em Ålesund. Conforme você talvez saiba, um advogado pode violar a cláusula de confidencialidade quando o cliente morre se achar que divulgar determinada informação não vai prejudicar a reputação do morto.
— Não, eu não sabia disso.
— Pois é, mas Bjørn Hardeid preferiu não dizer nada. Então meu colega ligou pro irmão de Atle, mas infelizmente também não conseguiu muita coisa. Ele se manteve em silêncio especialmente quando meu colega apresentou a teoria de que Atle não era dono de uma parte tão grande da fortuna da família, ao contrário do que muitos talvez pensassem.
— O que faz você achar isso?
— Um sujeito que não consegue pagar uma dívida de jogo de 750 mil coroas não necessariamente precisa ser pobre, mas definitivamente não é alguém que tivesse à disposição parte substancial dos 200 milhões da fortuna de família.
— De onde...?
— Meu colega consultou o cartório de registros de Brønnøysund e conseguiu os dados da Móveis Molnes. O capital que consta nos livros é menor do que o real, claro, mas ele descobriu que a empresa está na bolsa de valores, então ligou pra um corretor e pediu que ele calculasse o valor pelo qual as ações poderiam ser negociadas. A empresa da família, a Molnes Holding, tem quatro acionistas, três irmãos e uma irmã. Todos com assento na diretoria da empresa, e não consta que algum deles tenha vendido suas ações desde que foram transferidas pelo Molnes pai pra essa holding; ou seja, a menos que seu marido tenha negociado a parte dele na holding com um dos demais acionistas, deveria ter direito a pelo menos... — Harry deu uma olhada no bloco em que havia anotado cada palavra do que lhe fora dito por telefone. — Cinquenta milhões de coroas.
— Estou vendo que fizeram uma pesquisa meticulosa.
— Não entendi metade do que acabei de dizer, só sei que significa que alguém está bloqueando o dinheiro do seu marido, e eu gostaria de saber por quê.
Hilde Molnes o espiou por cima do copo.
— Gostaria mesmo?
— E por que não?
— Acho que o pessoal que enviou você a Bangkok não imaginou que teria que mergulhar tão fundo na... vida pessoal do embaixador.
— Eu já sei coisas demais, fru Molnes.
— Sabe sobre...?
— Sim.
— Pois justamente...
Ela fez uma pausa para terminar a dose de Mekhong. O garçom se aproximou para encher o copo, mas Hilde o dispensou.
— Se você também já sabe que a família Molnes tem uma longa tradição de carolas e integrantes do Partido Democrata Cristão, talvez possa deduzir o resto.
— Talvez. Mas ficaria grato se você me contasse tudo.
Ela estremeceu, como se só agora tivesse percebido o gosto forte do vinho de arroz.
— A decisão foi do pai de Atle. Quando o boato começou a se espalhar por causa da candidatura dele a líder do partido, Atle contou a verdade ao pai. Uma semana depois, o velho já tinha mudado o testamento. Decidiu que a parte de Atle na fortuna da família continuaria no nome do filho, mas que o direito de usufruto seria transferido pra Runa quando ela completasse 23 anos.
— E quem detém o direito sobre a fortuna até lá?
— Ninguém. O que significa que ela faz parte dos negócios da família.
— E o que acontece agora que seu marido morreu?
— Agora Runa vai herdar todo o dinheiro — disse Hilde, o dedo percorrendo a borda do copo. — E o direito de usufruto passa a ser da pessoa responsável por ela até que ela complete os 23 anos.
— Então, se estou entendendo direito, isso significa que a herança está liberada e à sua disposição.
— É, parece que sim. Até Runa fazer 23 anos.
— E esse direito de usufruto implica o que, exatamente?
Hilde Molnes deu de ombros.
— Não parei pra pensar muito sobre isso, na verdade. Soube disso há apenas alguns dias. Foi Hardeid quem me informou.
— Quer dizer que até então você não sabia dessa cláusula que dava a você o direito de usufruto da herança?
— Talvez eu tenha ouvido alguma menção a isso em algum momento. Assinei uns papéis, mas isso tudo é tão complicado, você não acha? Enfim, nunca prestei muita atenção...
— Não? — falou Harry, zombeteiro. — Parece que ouvi um comentário seu sobre gente nascida e criada em Sunnmøre...
Hilde exibiu um sorriso cansado.
— Nunca fui uma cidadã exemplar de Sunnmøre.
Harry a encarou. Será que fingia estar mais bêbada do que realmente estava? Ele coçou a nuca.
— Há quanto tempo você e Jens Brekke se conhecem?
— Há quanto tempo a gente trepa, você quer dizer?
— Bom, isso também.
— Então vamos colocar os fatos na cronologia certa. Deixa eu pensar...
Hilde Molnes franziu o cenho, semicerrou os olhos e voltou-os para o teto. Tentou apoiar o queixo na mão, mas ela escorregou, e então Harry viu que tinha se enganado. Ela estava bêbada feito um gambá.
— A gente se conheceu na festa que foi oferecida ao Atle dois dias depois da nossa chegada a Bangkok. Começou às oito horas, no jardim em frente à residência do embaixador, e toda a comunidade norueguesa foi convidada. Ele me comeu na garagem, imagino que umas duas ou três horas depois do começo da festa. Quando digo que ele me comeu, é porque eu provavelmente estava tão bêbada na hora que nem precisei cooperar. Ou consentir. Mas, na vez seguinte, sim. Ou na outra, não lembro. Enfim, depois de alguns encontros a gente acabou se conhecendo melhor. Era o que você queria saber? E, claro, desde então continuamos a aprender um sobre o outro. Agora já nos conhecemos muito bem. É o suficiente pra você, inspetor?
Harry estava irritado. Talvez pela maneira como ela alardeava sua indiferença e seu autodesprezo. Ela não lhe oferecia, enfim, nenhuma boa razão para que continuasse a tratá-la com delicadeza.
— Você disse que estava em casa no dia em que seu marido morreu. Em que cômodo, exatamente, você estava entre as cinco horas da tarde e o momento em que foi informada da morte do embaixador?
— Não lembro.
Ela riu, e a risada soou como o guincho de um corvo no silêncio de uma floresta. Harry percebeu que eles estavam começando a chamar a atenção. Ela quase caiu da cadeira, mas recuperou o equilíbrio.
— Não esquente tanto a cabeça, detetive. Tenho um álibi, sabe. Não é assim que se chama? Isso, isso mesmo, um álibi fantástico. Acho que minha filha poderá confirmar em depoimento que, naquela noite, eu mal podia me mexer. Lembro-me de ter aberto uma garrafa de gim depois do jantar, e meu palpite é que peguei no sono, aí acordava, tomava outro gole, pegava no sono outra vez, acordava, e por aí vai. Sei que você já entendeu o que quero dizer.
Harry havia compreendido.
— Alguma outra coisa que você queira perguntar, Hole?
Arrastou a pronúncia das duas vogais do nome do detetive, mas não muito, apenas o suficiente para provocá-lo.
— Só mais uma: se você matou seu marido, fru Molnes.
Com um movimento incrivelmente rápido e ágil, ela apanhou o copo da mesa e, antes que Harry pudesse detê-la, ele sentiu o objeto roçar sua orelha e ouviu-o se espatifar contra a parede atrás deles. Ela fez uma careta.
— Depois dessa você pode não acreditar, mas fui a melhor artilheira do campeonato feminino de Ørsta, categoria 14 a 16 anos.
A voz era calma, como se ela já nem se lembrasse do que tinha acontecido. Harry viu que rostos assustados se voltavam para eles.
— Dezesseis anos, isso faz um bom tempo. Eu era a garota mais bonita do... humm, provavelmente já contei isso a você. E tinha curvas, não como as que tenho agora. Uma amiga e eu costumávamos entrar no vestiário dos árbitros sem querer querendo, só de toalha, dizendo que tínhamos errado de porta a caminho do chuveiro. Tudo pelo time, claro. Mas não acho que funcionasse muito bem. Os caras provavelmente se perguntavam por que a gente estaria tomando banho antes do jogo.
Então ela subitamente ficou de pé e começou a gritar:
— Ørstagutt hei, Ørstagutt hei, Ørstagutt hei hei hei.
E desabou de volta na cadeira. O salão ficou em silêncio.
— Era nosso grito de guerra. Torcíamos para os meninos porque o grito de guerra não fica bom se usarmos a palavra equivalente à “menina”. Desanda o ritmo. Bom, talvez a gente só gostasse de se exibir.
Harry a tomou pelo braço e a ajudou a descer a escada. Deu ao taxista o endereço dela e uma nota de cinco dólares e pediu que ele a deixasse em casa. O sujeito provavelmente não entendeu muita coisa, mas pareceu captar o sentido geral do que Harry tinha dito.
O detetive entrou em um bar da Soi 2, no final da rua, já na saída para o distrito de Silom. O balcão estava quase vazio e, no palco, duas prostitutas ainda dançavam. Até aquele momento não haviam conseguido nenhum cliente e claramente não alimentavam grandes esperanças de que isso iria acontecer. Pareciam estar fazendo uma faxina ali, diligentemente balançando as pernas enquanto os seios subiam e desciam ao som de “When Susannah Cries”. Harry não sabia qual delas achava mais triste.
Alguém colocou diante dele uma cerveja que não tinha sido pedida. Harry deixou a garrafa intocada, pagou a conta e ligou de um telefone junto ao banheiro masculino para a delegacia. Não parecia haver banheiro feminino.