Baratas
Capítulo 46
SEXTA-FEIRA, 24 de JANEIRO
Segundo Liz, Supawadee era a pessoa que resolvia a maior parte dos casos de homicídio na Tailândia. Seus instrumentos mais importantes eram um microscópio, alguns tubos de ensaio e papel tornassol. Sentado diante de Harry, ele estava radiante como o sol.
— É isso mesmo, Harry. Os pedaços de gesso que você nos forneceu contêm a mesma solução de cal da argamassa na chave de fenda encontrada no porta-malas do carro do embaixador.
Em vez de se limitar a dizer sim ou não à pergunta de Harry, ele repetia toda a questão em sua resposta, para que não houvesse mal--entendidos. Supawadee tinha excelente noção de linguística; sabia que, em inglês, perguntas e respostas podem soar complicadas para um tailandês. Se Harry pegasse um ônibus, começasse a desconfiar de que estava na linha errada e perguntasse a outro passageiro “Este não é o ônibus pra Hua Lamphong, é?”, dependendo da pronúncia e da entonação, o tailandês poderia responder repetindo “é”, querendo dizer que sim, o interlocutor estava certo e aquele não era o ônibus para Hua Lamphong. Farangs sabem que isso acontece. Pela experiência de Supawadee, muitos deles, não muito inteligentes, não se davam conta de como funcionavam essas perguntas e respostas, de modo que tinha chegado à conclusão de que era melhor repetir tudo tintim por tintim.
— Também está certo, Harry. O conteúdo do saco do aspirador de pó encontrado no esconderijo de Klipra era muito interessante. Continha fibras do carpete do porta-malas do carro e do terno do embaixador e também do paletó de Klipra.
Harry anotava tudo, cada vez mais animado.
— E quanto às duas fitas que mandei pra você? Você as enviou a Sydney pelo correio?
Supawadee ficou ainda mais radiante, se é que isso era possível, pois essa seria a melhor parte.
— Estamos no século XX, detetive, não tem mais essa de enviar pelo correio. As fitas demorariam pelo menos uns quatro dias pra chegar lá. Passamos as gravações pra uma fita DAT e as enviamos por e-mail pra esse especialista em áudio que você indicou.
— Nossa, dá pra fazer isso? — retrucou Harry, meio resignado, meio para deixar Supawadee feliz. Esse pessoal que gostava de informática sempre o fazia se sentir velho. — E o que diz Jésus Marguez?
— De início falei com ele que achava absolutamente impossível distinguir o local de onde uma pessoa estava telefonando com base em uma mensagem de secretária eletrônica. Mas seu amigo foi extremamente persuasivo. Falou um monte de coisas sobre frequência e hertz, o que foi bastante instrutivo. Por exemplo: você sabia que em um microssegundo o ouvido é capaz de distinguir um milhão de sons diferentes? Acho que ele e eu podíamos...
— Qual foi a conclusão, Supawadee?
— A conclusão dele é de que são duas pessoas diferentes nas gravações, mas há grande probabilidade de que ambos os registros tenham sido feitos no mesmo recinto.
Harry já sentia o coração batendo mais rápido.
— E quanto à carne no congelador?
— Você tinha razão de novo, Harry. A carne no congelador era de porco.
Supawadee piscou e riu, eufórico. Harry sabia que tinha mais por vir.
— E...?
— Mas o sangue não era só de porco. Havia um pouco de sangue humano.
— E você já sabe de quem?
— Bom, vai levar alguns dias pra gente chegar a uma resposta definitiva a partir do teste de DNA, mas já temos noventa por cento de certeza.
Se Supawadee tivesse um trompete à mão, pensou Harry, ele com certeza tocaria uma fanfarra antes de prosseguir.
— O sangue é do nosso amigo, nai Klipra.
Finalmente, Harry conseguiu falar com Jens no escritório.
— Como estão as coisas, Jens?
— Bem.
— Tem certeza?
— Como assim?
— Você parece... — Harry não conseguiu encontrar uma palavra que descrevesse o tom de voz do outro. — Você parece um pouco triste — concluiu.
— É. Não. Não é muito fácil falar sobre isso. Ela perdeu a família inteira e...
A voz sumiu.
— E você?
— Não comece.
— Qual é, Jens.
— É só que, se em algum momento eu quis pular fora desse casamento, isso agora é absolutamente impossível.
— Por quê?
— Meu Deus, eu sou a única pessoa que restou na vida dela, Harry. Sei que deveria estar pensando nela e em tudo que ela passou, mas em vez disso estou pensando em mim mesmo e nesse negócio em que estou me metendo. Óbvio que sou uma pessoa ruim, mas isso tudo me assusta. Entende?
— Acho que sim.
— Que inferno. Se se tratasse só de dinheiro... pelo menos disso eu entendo. Mas esse negócio de...
Jens ficou procurando a palavra.
— Sentimentos? — sugeriu Harry.
— Exato. Que merda. — Ele deu um sorriso triste. — Enfim, decidi que uma vez na vida vou fazer alguma coisa que não seja só por interesse próprio. E quero que você esteja lá e me dê um cutucão se perceber o mais leve sinal de resistência. Hilde precisa pensar em outras coisas, então a gente já definiu a data. Quatro de abril. Páscoa em Bangkok, que tal? Ela até já começou a ficar mais alegre; decidiu dar uma refreada na bebedeira. Você vai receber o convite pelo correio, Harry. E não esqueça: estou contando com você, então não me venha com palhaçada de pular fora.
— Se você acha que sou a opção mais adequada de padrinho, não consigo nem imaginar como é sua vida social, Jens.
— Já passei a perna em todo mundo que conheço pelo menos uma vez. Não quero que o padrinho mencione qualquer história do tipo em seu discurso, sabe?
Harry riu.
— Certo, me dê alguns dias e prometo pensar no assunto. Mas liguei pra pedir um favor a você. Estou tentando descobrir alguma coisa sobre uma empresa conhecida como Ellem Ltd, que consta da lista de acionistas da Phuridell, mas tudo que consegui encontrar no registro da empresa é uma caixa postal em Bangkok e a confirmação de que o valor do capital social foi pago.
— Deve ser um acionista relativamente novo. Nunca ouvi falar dessa empresa. Vou dar uns telefonemas e ver se consigo encontrar alguma informação. Ligo pra você.
— Não, Jens. Esse negócio é estritamente confidencial. Só Liz, Løken e eu sabemos disso, de modo que você não deve comentar isso com ninguém. Nem mesmo o restante do pessoal da polícia sabe. Nós três vamos fazer uma reunião secreta hoje à noite, então seria ótimo se você tivesse alguma coisa até lá. Ligo pra você, tudo bem?
— Certo. Parece coisa importante. Achei que o caso já estivesse morto e enterrado.
— Hoje à noite vai estar.
O ruído das britadeiras na rocha era ensurdecedor.
— Você é George Walters? — gritou Harry no ouvido do sujeito de capacete amarelo que os outros homens de macacão tinham lhe indicado. Ele se virou para o detetive.
— Sim, e você, quem é?
Vinte metros abaixo de onde estavam, o tráfego se arrastava lentamente, feito uma lesma. Mais uma tarde de engarrafamentos.
— Inspetor Harry Hole. Da polícia norueguesa.
Walters enrolou o desenho técnico que segurava e o entregou a um dos dois rapazes que o acompanhavam.
— Ah, certo.
Fez sinal para que o sujeito da britadeira desse um tempo na tarefa, e, quando a máquina foi desligada, o relativo silêncio que se seguiu invadiu os tímpanos.
— Uma Wacker — comentou Harry. — Modelo LHV5.
— Ah, conhece a máquina?
— Há alguns anos, durante o verão, trabalhei em um canteiro de obras. Detonei os rins operando uma dessas.
Walters assentiu. Tinha as sobrancelhas desbotadas pelo sol e a aparência cansada. As rugas já haviam deixado marcas profundas no rosto de meia-idade.
Harry apontou para a via de concreto que, como um aqueduto romano, cruzava a selva de pedra de casas e arranha-céus.
— Então esse é o novo elevado, a salvação de Bangkok?
— Sim — falou Walters, olhando na mesma direção de Harry. —Você está bem em cima dele.
O respeito com que falava do projeto, além do fato de que estava ali e não em algum escritório, era um indício, para Harry, de que o diretor da Phuridell encontrava mais satisfação na engenharia do que na administração; de que ficava mais empolgado ao ver o projeto ganhando forma do que se envolvendo com as dívidas da empresa.
— Lembra a Grande Muralha da China — arriscou Harry.
— Essa é uma obra pra unir as pessoas, não separá-las.
— Estou aqui pra fazer umas perguntas sobre Klipra e este projeto. E sobre a Phuridell.
— Trágico — respondeu Walters, sem especificar a que exatamente se referia.
— Você conhecia Klipra, sr. Walters?
— Não chegaria a afirmar isso. Nós nos encontramos em várias reuniões da diretoria, e ele me ligou uma ou duas vezes. — Walters colocou os óculos de sol. — Não passou disso.
— Ele ligou pra você uma ou duas vezes? A Phuridell não é uma empresa de porte respeitável?
— Temos mais de oitocentos funcionários.
— Você é o diretor e mal falava com o dono da empresa?
— Bem-vindo ao mundo dos negócios.
Walters perscrutou o elevado e a cidade, como se não tivesse interesse em nada mais.
— Klipra investiu uma quantia considerável na Phuridell. O que você está tentando me dizer é que ele não estava nem aí?
— Ele obviamente não fazia qualquer objeção ao modo como a empresa estava sendo administrada.
— Você sabe alguma coisa de uma empresa chamada Ellem Ltd?
— Conheço o nome da lista de acionistas. Temos tido outras preocupações ultimamente.
— Resolver o problema da dívida em dólares da empresa, por exemplo?
Walters se virou para Harry novamente. O detetive viu a própria imagem distorcida nas lentes dos óculos de sol do diretor.
— O que você sabe sobre isso?
— O que sei é que sua empresa precisa de refinanciamento, caso queira sobreviver. Como não é obrigada a divulgar informação nenhuma, uma vez que não está mais listada na bolsa, a empresa pode muito bem esconder os problemas do mundo exterior por um tempo, na esperança de que apareça um salvador com uma nova injeção de capital. Seria frustrante ter que jogar a toalha, logo agora que está em boa posição pra obter outros contratos no projeto do elevado, certo?
Walters sinalizou para os engenheiros que poderiam fazer uma pausa.
— Meu palpite é que esse salvador vai aparecer — retomou Harry. — Vai comprar a empresa por uma merreca e, quando os contratos começarem a surgir, provavelmente vai ficar muito rico. Quantas pessoas sabem da situação da Phuridell?
— Escuta aqui, cara...
— É Hole. A diretoria, claro. Mais alguém?
— Informamos a todos os acionistas. Além deles, não vemos razão pra que todo mundo fique sabendo de assuntos que não dizem respeito a mais ninguém.
— Quem você acha que vai comprar a empresa, sr. Walters?
— Sou o diretor administrativo — retrucou o engenheiro. — Sou empregado dos acionistas. Não me envolvo em questões relativas à propriedade da empresa.
— Mesmo que isso possa significar desemprego pra você e outros oitocentos funcionários? Mesmo que acabe perdendo a oportunidade de levar isso aqui adiante? — Harry indicou com o queixo a estrutura de concreto que se estendia a perder de vista sob a névoa.
Walters não respondeu.
— Na verdade, talvez isso aqui esteja mais pra estrada dos tijolos amarelos de O mágico de Oz. Conhece?
George Walters assentiu com um movimento da cabeça.
— Olha só, sr. Walters, liguei pro advogado de Klipra e pra alguns pequenos acionistas. Nos últimos dias, a Ellem Ltd comprou ações da Phuridell. Nenhum dos outros acionistas teria como refinanciar a empresa, então todos ficaram satisfeitos porque, mesmo deixando a Phuridell, não perderam todo o investimento. Você diz que não se envolve nas questões relativas à propriedade da empresa, mas me parece um sujeito responsável. E a Ellem é quem está no controle agora.
Walters tirou os óculos e esfregou os olhos com o dorso da mão.
— Vai ou não me contar quem está por trás da Ellem Ltd, sr. Walters?
A britadeira voltou a trabalhar, e Harry precisou chegar mais perto para escutar.
O detetive assentiu.
— Só queria ouvir isso da sua boca — respondeu, aos berros.