Baratas
Capítulo 43
QUARTA-FEIRA, 22 de JANEIRO
A irmã de Harry parecia feliz ao telefone. Tinha conhecido um rapaz, Anders. Ele havia acabado de se mudar para Sogn, para o mesmo corredor do abrigo, e era um ano mais novo que ela.
— E usa óculos também, mas não faz mal, porque ele é lindo de morrer.
Harry riu, enquanto tentava visualizar o novo namoradinho de sua irmã.
— Anders é totalmente maluco. Ele acha que vão deixar a gente ter filhos. Imagina só.
Harry só imaginou; talvez conversas difíceis estivessem por vir. Naquele momento, porém, se sentia feliz por sua irmã parecer tão contente.
— Por que você está triste?
A pergunta de sua irmã veio acompanhada de um suspiro, como se não tivessem mudado de assunto, como se ela ainda estivesse falando que seu pai tinha ido visitá-la.
— Estou triste? — perguntou Harry, sabendo que sua irmã sempre conseguia diagnosticar seu estado de espírito melhor que ele próprio.
— Está, sim, tem alguma coisa deixando você triste. É a moça sueca?
— Não, não é Birgitta. É um assunto que está me chateando no momento, mas logo vai ficar tudo bem. Logo vou resolver tudo.
— Que bom.
Como sua irmã não falou mais nada, ficaram em um silêncio incomum. Harry disse que era melhor encerrarem a ligação.
— Harry?
— Oi?
Ele pôde perceber que ela reunia coragem para dizer algo.
— Você não acha que a gente pode deixar tudo pra lá?
— Tudo o quê?
— Sabe, aquele homem... Anders e eu, a gente... a gente está bem. Eu não queria mais pensar naquilo.
Harry ficou em silêncio. Então respirou fundo.
— Ele agrediu você.
A voz dela imediatamente deixou transparecer as lágrimas.
— Eu sei. Você não precisa me dizer isso de novo. Só estou dizendo que não quero mais pensar nisso.
Ela fungou, e Harry sentiu um aperto no peito.
— Por favor, Harry?
O detetive a imaginou do outro lado da linha, a mão apertando o fone com toda força.
— Não pense nisso. Não pense nisso. Vai ficar tudo bem.
Estavam deitados no capim-elefante havia quase duas horas, esperando o sol se pôr. A cem metros dali, à entrada de um bosque, havia uma pequena casa construída no estilo tailandês tradicional, em bambu e madeira, com um pátio no centro. A casa não tinha portão, apenas uma trilha de cascalho que levava à porta principal. Na frente, era possível ver algo semelhante a uma gaiola colorida pendurada em um poste. Era um phra phum, santuário dedicado ao espírito protetor de um determinado lugar.
— O dono precisa acalmar os espíritos pra que eles não se mudem pra dentro da casa — explicou Liz, esticando as pernas. — Então, oferece a eles comida, incenso, cigarros e assim por diante, pra que fiquem felizes.
— E isso basta?
— Não nesse caso.
Não tinham ouvido nem visto qualquer sinal de vida. Harry tentava pensar em outra coisa que não fosse o cenário que poderia encontrar lá dentro. O trajeto de carro de Bangkok até ali levara apenas uma hora e meia; no entanto, era como se tivessem desembarcado em outro mundo. Haviam conseguido estacionar atrás de uma cabana com um chiqueiro ao lado, à beira da estrada, e encontraram uma trilha que percorria uma encosta íngreme e arborizada até um platô onde, conforme a explicação de Roald Bork, ficava a casinha de Klipra. O bosque ali perto era verdejante, o céu, azul, e pássaros de todas as cores do arco-íris sobrevoavam o ponto onde Harry, deitado de costas, escutava o silêncio. De início, achou que tinha algodão nos ouvidos, até se dar conta de que, desde Oslo, não sabia o que era silêncio.
Quando a noite caiu, o silêncio se foi. Primeiro vieram os ruídos dispersos dos insetos que passavam raspando ou zunindo, uma orquestra sinfônica afinando os instrumentos. Em seguida, teve início o concerto de grasnidos e cacarejos, num crescendo, até que uivos e guinchos altos e estridentes vindos das árvores se somaram à orquestra.
— Esses animais estavam aqui esse tempo todo? — perguntou Harry.
— Não me pergunte — respondeu Liz. — Sou uma garota da cidade.
Harry sentiu uma coisa fria e escorregadia tocar sua pele e retraiu a mão.
Løken deu uma risadinha.
— São só os sapos saindo pro passeio noturno — falou.
E não deu outra: logo eram muitos, por todo lado, pulando para onde lhes desse na telha.
— Bom, desde que sejam só sapos, tudo bem — comentou Harry.
— Sapos também servem de comida — lembrou Løken, puxando um capuz preto para cobrir a cabeça. — Onde tem sapo, tem cobra.
— Está de brincadeira!
Løken deu de ombros.
Harry não estava nem um pouco a fim de saber a verdade, mas não conseguiu deixar de perguntar:
— Que tipo de cobra?
— Cinco ou seis diferentes tipos de naja, cobra-verde, víbora de Russell e outras tantas. Fique ligado. Dizem que, das trinta variedades mais comuns na Tailândia, vinte e seis são venenosas.
— Merda. E como a gente sabe quais são venenosas?
Løken dirigiu a Harry aquele olhar que o fazia se sentir como um recruta esforçado.
— Harry, se você levar em conta as probabilidades, acho que deve simplesmente partir do pressuposto de que todas são.
Eram oito horas.
— Estou pronta — disse Liz, impaciente, verificando pela terceira vez se sua Smith & Wesson 650 estava carregada.
— Com medo? — quis saber Løken.
— Só do chefe de polícia descobrir o que estamos aprontando antes de a gente terminar o serviço — respondeu a inspetora. — Sabe qual é a expectativa média de vida de um guarda de trânsito em Bangkok?
Løken pousou a mão no ombro dela.
— Certo, vamos nessa.
Mantendo a cabeça abaixada, Liz correu no meio da grama alta e desapareceu na escuridão.
Løken perscrutou a casa com seu binóculo, enquanto Harry cobria a parte da frente com o rifle de caçar elefantes que Liz havia pegado no depósito de armas da polícia com um revólver, um Ruger SP101. Ele não estava acostumado com coldre de perna, mas não se usa o de ombro em lugares onde jaquetas são impensáveis. A lua cheia, alta no céu, proporcionava luz suficiente para que distinguisse o contorno das janelas e das portas.
Liz piscou a lanterna uma vez: era o sinal de que estava em posição junto a uma janela.
— Sua vez, Harry — falou Løken, ao perceber a hesitação do detetive.
— Merda, por que você tinha que falar das cobras? — praguejou Harry, verificando se estava com a faca no cinto.
— Você não gosta delas?
— Bom, as que eu conheci me deixaram uma péssima impressão.
— Se for picado, não deixe de pegar a cobra pra poder receber o antídoto certo. Aí não vai ter problema se levar uma segunda picada.
Harry não conseguiu ver se Løken sorria no escuro, mas tinha o palpite de que sim.
Correu na direção da casa, que se destacava na escuridão da noite. Ao correr, tinha a impressão de que a silhueta feroz da cabeça de dragão no topo do telhado também se movia. E, apesar disso, o aspecto da casa era o de um lugar sem vida. Ele sentia o cabo da marreta na mochila batendo em suas costas. Tinha parado de pensar nas cobras.
Chegou à segunda janela, fez um sinal para Løken e se agachou. Fazia um bom tempo que não corria uma distância assim; provavelmente era por isso que seu coração agora batia tão rápido. Ouviu uma respiração leve ao seu lado. Era Løken.
Harry tinha sugerido gás lacrimogêneo, mas Løken havia rejeitado a ideia na mesma hora. O gás não os deixaria enxergar mais nada, e não tinham nenhuma razão para acreditar que Klipra estivesse esperando por eles com uma faca no pescoço de Runa.
Løken ergueu um dos punhos, o sinal combinado com Harry.
O detetive assentiu. Podia sentir a boca seca, um sinal de que a adrenalina percorria suas veias na dose exata. Apalpou a coronha da arma com a mão úmida. Certificou-se de que a porta abria mesmo para dentro antes de Løken preparar o golpe com a marreta.
A luz da lua reluziu no ferro, e, por um segundo, Løken pareceu um jogador de tênis prestes a sacar quando, enfim, a marreta desceu com enorme força e arrebentou a fechadura com um estrondo.
No instante seguinte, Harry estava dentro da casa, a luz da lanterna vasculhando a sala. Ele a viu imediatamente, mas o feixe de luz seguiu adiante, como se agisse por vontade própria. Prateleiras da cozinha, uma geladeira, um banco, um crucifixo. Não escutava mais o barulho dos bichos. Estava de volta a Sydney, e tudo que ouvia agora era o ruído das correntes, ondas batendo na lateral de um barco ancorado em uma marina e gaivotas grasnando sem parar, talvez porque Birgitta estivesse no convés, morta para sempre.
Uma mesa com quatro cadeiras, um armário, duas garrafas de cerveja, um homem no chão, imóvel, a cabeça sobre uma poça de sangue, a mão oculta no cabelo dela, uma arma sob a cadeira, um quadro que retratava um prato com frutas e um vaso sem flores. Stilleben. Nature morte. Natureza-morta. A luz da lanterna voltou para ela, e mais uma vez ele viu: a mão erguida, apoiada em uma das pernas da mesa. Ouviu a voz de Runa:
— Consegue sentir? A gente pode ter a vida eterna!
Como se ela estivesse tentando reunir energia para um último protesto contra a morte. Uma porta, um freezer, um espelho. Antes de não ver mais nada, Harry contemplou a própria imagem por um breve instante — uma figura vestida de preto, com um capuz cobrindo a cabeça. Estava parecendo um carrasco. Ele deixou a lanterna cair.
— Você está bem? — quis saber Liz, pousando uma mão em seu ombro.
Ele fez menção de responder, chegou a abrir a boca, mas não saiu nada.
— É Ove Klipra, com certeza — informou Løken. Estava agachado ao lado do morto, a cena iluminada por uma lâmpada no teto. — Que coisa. Pensar que espionei esse cara por meses.
Ele pôs a mão na testa de Klipra.
— Não toque nele! — Harry agarrou Løken pelo colarinho e o suspendeu do chão. — Não...! — Soltou-o em seguida. — Desculpe, eu... Só não toque em nada. Ainda não.
Løken não respondeu; apenas ficou olhando para Harry. Uma ruga profunda ocupou o espaço entre as sobrancelhas inexistentes de Liz.
— Harry?
O detetive desabou em uma cadeira.
— Acabou agora, Harry. Sinto muito, todos sentimos, mas acabou.
Harry balançou a cabeça. Liz se debruçou sobre ele e pousou a mão grande e quente em seu pescoço. Do jeito como sua mãe costumava fazer. Merda, merda, merda.
Harry ficou de pé, desvencilhou-se de Liz e saiu da casa. Podia ouvir os dois conversando aos sussurros lá dentro. Olhou para o céu, em busca de uma estrela, mas não conseguiu encontrar nenhuma.
Era quase meia-noite quando Harry chegou à porta da casa. Hilde Molnes o atendeu. Ele baixou os olhos; não havia telefonado antes e, pelo modo como ela respirava, sentiu que logo viriam as lágrimas.
Sentaram-se um de frente para o outro na sala de estar. Pelo que Harry podia ver, não tinha sobrado nada da garrafa de gim, mas ela parecia suficientemente sóbria. Hilde enxugou as lágrimas.
— Ela queria ser atleta de saltos ornamentais, sabe?
Harry assentiu.
— Mas não deixavam ela participar de competições normais. Alegavam que os juízes não saberiam como avaliar os saltos dela. Algumas pessoas diziam que era injusto. Que ela levaria vantagem com um braço só.
— Sinto muito — falou Harry. Foi a primeira coisa que disse desde que chegou ali.
— Ela não sabia — retomou Hilde. — Se soubesse, não teria falado comigo daquele jeito.
Hilde chorou, as lágrimas descendo pelas rugas junto à boca feito pequenos córregos.
— O que ela não sabia, fru Molnes?
— Que estou doente! — gritou Hilde, antes de cobrir o rosto com as mãos.
— Doente?
— E por que mais eu estaria me anestesiando desse jeito? Logo meu corpo terá sido consumido. Está podre, só há células mortas.
Harry não disse nada.
— Eu queria ter contado a ela — sussurrou Hilde, a voz escapando pelos dedos. — Os médicos me deram seis meses de vida. Eu queria esperar um dia bom pra contar. — Falava de forma quase inaudível agora. — Mas não tivemos nenhum.
Sem conseguir permanecer sentado, Harry se pôs de pé. Andou até a grande janela com vista para o jardim, desviando os olhos das fotos de família na parede, pois sabia quem encontraria ali. A luz da lua se refletia na piscina.
— Eles já ligaram, os caras pra quem seu marido devia dinheiro?
Hilde afastou as mãos do rosto. Os olhos estavam vermelhos, disformes de tanto chorar.
— Ligaram, mas Jens estava aqui e falou com eles. Depois disso eu não soube de mais nada.
— Então quer dizer que ele cuida de você, é isso?
Harry ficou pensando por que tinha feito aquela pergunta. Talvez fosse uma tentativa desastrada de consolá-la, de lembrá-la de que ainda tinha alguém com quem podia contar.
Hilde assentiu em silêncio.
— E agora vocês vão casar?
— Tem alguma objeção?
Harry se virou para ela.
— Não, por que deveria ter?
— Runa... — Hilde não conseguiu prosseguir, as lágrimas descendo de novo pelo rosto. — Não cheguei a sentir muito amor nessa vida, Hole. É pedir demais querer alguns meses de felicidade antes do fim? Será que ela não podia me conceder isso?
Harry viu uma pequena pétala que flutuava na piscina. Lembrou-se dos navios cargueiros da Malásia.
— Você o ama, fru Molnes?
No silêncio que se seguiu, ele quase ouviu uma fanfarra.
— Amor? Que importância tem isso? Imagino que sim. Acho que sou capaz de amar qualquer um que me ame. Você entende?
Harry olhou na direção do bar. Estava a apenas três passos de distância. Três passos, dois cubos de gelo e um copo. Fechou os olhos e chegou a ouvir o tilintar dos cubos de gelo no cristal, o gorgolejar da garrafa que vertia o líquido marrom e, por fim, o chiado da soda se misturando ao álcool.