Baratas
Capítulo 29
SEXTA-FEIRA, 17 de JANEIRO
M aisan e Harry caminharam por uma rua estreita, onde uma brisa abafada espalhava o lixo ao longo dos muros frágeis das casas. Nho ficou no carro; segundo Maisan, ele podia ser reconhecido como policial a quilômetros de distância. Além disso, seria suspeito se três pessoas aparecessem ao mesmo tempo no Miss Duyen.
— Fumar ópio não é exatamente uma atividade social — explicou Maisan, com um sotaque levemente americano. Harry se perguntou se o sotaque e a camiseta do The Doors não estavam um pouco exagerados para um policial da Narcóticos à paisana. Maisan parou em frente a um portão de ferro, pisou na guimba de cigarro no asfalto com o salto da bota direita e entrou.
Por ter vindo do sol forte, Harry não conseguiu distinguir nada logo de cara, mas pôde ouvir vozes baixas, murmúrios, e percebeu duas pessoas de costas desaparecendo dentro de uma sala.
— Merda! — exclamou Harry ao bater a cabeça no batente da porta e se virou ao ouvir uma risada familiar.
Pensou distinguir uma enorme figura na escuridão perto da parede, mas devia estar enganado. Woo devia estar tentando se manter quietinho por um tempo. Harry se apressou para não perder de vista as duas pessoas que seguiam à frente. Elas desapareceram escada abaixo, e Harry foi atrás delas. O dinheiro passava de uma mão a outra, e uma porta se abriu apenas o suficiente para que eles pudessem entrar.
Lá dentro, o cheiro era de terra, mijo, fumaça e ópio.
A única imagem que Harry tinha de uma casa de ópio vinha de um filme de Sergio Leone no qual Robert De Niro era atendido por mulheres de sarongues de seda, e todos se deitavam em camas macias com grandes almofadas; tudo era iluminado por uma luz suave, amarela, que dava um toque divino a toda a cena. Pelo menos era assim que se lembrava. Tirando a iluminação suave, havia muito pouco da versão hollywoodiana ali. A poeira flutuava no ar, dificultando a respiração, e, com exceção de alguns beliches junto às paredes, todos estavam deitados em tapetes e esteiras de bambu no chão duro.
A escuridão e o ar úmido, somados a tosses abafadas e ruídos roucos ecoando pelo ar, levaram Harry a supor que havia poucas pessoas ali, mas, gradualmente, conforme seus olhos foram se acostumando à luz, ele pôde ver que a sala era bem grande, sem divisórias, e devia ter uma centena de pessoas ali, quase todas homens. Apesar da tosse, o local era estranhamente silencioso. A maioria parecia estar dormindo, enquanto outros mal se moviam. Harry viu um idoso segurando um cachimbo com as mãos, e ele o fumava com tanta intensidade que a pele enrugada das maçãs do rosto se esticava.
A loucura era organizada; eles ficavam deitados em fileiras que, por sua vez, eram divididas em quadrados, para que houvesse espaço para caminhar entre os corpos, algo muito parecido com um cemitério. Harry seguiu Maisan pelas fileiras, examinando os rostos e tentando prender a respiração.
— Está vendo o seu cara? — perguntou Maisan.
Harry balançou a cabeça.
— Está escuro demais.
Maisan sorriu.
— Eles tentaram colocar luz de neon um tempo atrás, para prevenir os roubos. Mas as pessoas deixaram de vir.
Maisan avançou ainda mais na escuridão do cômodo. Logo, emergiu das sombras e apontou para a saída.
— Disseram que um garoto negro às vezes vai ao Yupa House, nessa mesma rua. Algumas pessoas compram o ópio e fumam lá. O dono não se incomoda.
Agora que as pupilas de Harry tinham se adaptado para enxergar no escuro, elas eram novamente submetidas à enorme lâmpada de dentista no céu lá fora. Harry apanhou os óculos escuros e os colocou.
— Harry, sei de um lugar barato onde você pode comprar...
— Valeu. Estou bem com esses.
Chamaram Nho. No Yupa House, teriam que mostrar uma identificação da polícia tailandesa para terem acesso ao livro de hóspedes, e Maisan não queria dar bandeira no bairro.
— Obrigado — disse Harry.
— Se cuida — respondeu Maisan, desaparecendo nas sombras.
O recepcionista do Yupa House parecia um reflexo dos espelhos deformantes nos parques de diversão. Um rosto comprido se assentava sobre um pescoço fino, por sua vez enterrado em ombros estreitos e atarracados. Tinha cabelos ralos e uma barba pegajosa. Era formal, educado e, como vestia um terno preto, lembrava a Harry um agente funerário.
O homem assegurou a Harry e Nho que ninguém com o nome de Jim Love estava hospedado ali. Quando descreveram Love, o homem sorriu e negou com a cabeça. Acima da recepção havia uma placa declarando as regras básicas da casa: proibido armas, objetos aromáticos e fumar na cama.
— Com licença — disse Harry para o recepcionista, puxando Nho em direção à porta. — Então, você não é o mestre em saber quem está mentindo?
— Com ele é mais complicado — respondeu Nho. — Ele é vietnamita.
— E daí?
— Você não sabe o que Nguyen Cao Ky disse sobre seus compatriotas durante a Guerra do Vietnã? Que os vietnamitas nasceram mentirosos. Está nos genes, depois de serem ensinados geração após geração que a verdade só traz má sorte.
— Você está dizendo que ele está mentindo?
— Estou dizendo que eu não faço ideia. O cara é bom.
Harry se virou, voltou à recepção e pediu a chave mestra. O recepcionista sorriu, nervoso.
O detetive elevou um pouco a voz, articulando a palavra “chave mestra”, e deu um sorriso forçado.
— Gostaríamos de dar uma olhada no hotel, quarto por quarto. Entende? Se encontrarmos alguma irregularidade, seremos, naturalmente, obrigados a fechar o hotel para uma averiguação mais minuciosa, mas eu duvido de que iremos nos deparar com qualquer problema.
O recepcionista balançou a cabeça, e de repente era como se não entendesse inglês.
— Eu disse que duvido de que vamos encontrar um problema. Estou vendo a placa que proíbe as pessoas de fumar na cama.
Harry apanhou a placa e bateu com ela no balcão.
O recepcionista olhou fixamente para a placa. Era possível distinguir algo pulsando em seu pescoço fino.
— No quarto 304 está registrado um homem chamado Jones — disse. — Pode ser ele.
Harry se virou e sorriu para Nho, que deu de ombros.
— O sr. Jones está lá?
— Ficou no quarto desde que fez o check-in.
O recepcionista os levou até o andar de cima. Eles bateram na porta, mas ninguém respondeu. Nho fez um sinal para que o recepcionista a abrisse, e, de um coldre na panturrilha, sacou uma Beretta 35 milímetros preta, carregada e com a trava de segurança liberada. O recepcionista começou a ter um tique nervoso, mexendo a cabeça como se fosse uma galinha. Ele girou a chave e deu dois passos apressados para trás. Harry abriu a porta com cautela. As cortinas estavam fechadas, e o quarto estava escuro. A mão do detetive esgueirou-se para dentro e acendeu a luz. Deitado na cama, Jim Love repousava imóvel, os olhos fechados e com fones no ouvido. Um ventilador de teto girava e zumbia, agitando as cortinas. O cachimbo estava no criado-mudo, ao lado da cama.
— Jim! — chamou Harry, mas Jim Love não reagiu.
Ou estava dormindo, ou o som nos fones estava muito alto, pensou Harry, olhando ao redor para se assegurar de que Jim não tinha companhia. Então viu uma mosca emergindo lentamente da narina direita do rapaz. Harry caminhou até a cama e colocou a mão em sua testa. Era como tocar mármore frio.