Baratas
Capítulo 19
SEGUNDA-FEIRA, 13 de JANEIRO
R una Molnes não parecia muito feliz com a ideia de ser levada até em casa. — Obrigada, posso me virar sozinha. Bangkok é tão perigosa quanto Ørsta em uma segunda à noite.
Como Harry nunca tinha estado em Ørsta em uma segunda à noite, chamou um táxi e abriu a porta para a moça. Ela embarcou com relutância, murmurou um endereço e ficou olhando pela janela.
— Mandei o taxista seguir pro River Garden — disse ela, depois de um instante. — É lá que você fica, né?
— Acho que as instruções eram que você deveria ir pra casa primeiro, fröken Molnes.
— Fröken? — Ela riu e o encarou com os mesmos olhos negros da mãe. As sobrancelhas quase unidas davam-lhe a aparência de um elfo. — Parece minha tia falando. Quantos anos você tem, afinal?
— O que importa é a idade mental — respondeu Harry. — Então acho que estou com uns 60.
Ela o fitava com curiosidade agora.
— Estou com sede — falou de repente. — Se me pagar uma bebida, deixo você me acompanhar até a porta de casa depois.
Harry se inclinou para a frente e começou a informar o endereço dos Molnes ao motorista.
— Nem adianta tentar — avisou ela. — Vou insistir em ir pro River Garden, e ele vai achar que você está forçando a barra. Quer que eu faça um escândalo?
Runa começou a gritar quando Harry tocou no ombro do motorista, que meteu o pé no freio com tudo, fazendo Harry bater com a cabeça no teto. O taxista virou para o banco de trás, Runa tomou fôlego para gritar outra vez e Harry se rendeu, levantando as mãos.
— Está bem, está bem. Pra onde, então? Imagino que Patpong seja caminho.
— Patpong? — Ela revirou os olhos. — Você é coroa mesmo. Só velhos tarados e turistas frequentam aquele lugar. A gente vai pra Siam Square.
Ela trocou algumas palavras com o motorista; aos ouvidos de Harry, parecia falar um tailandês impecável.
— Você tem namorada? — perguntou Runa, já com uma cerveja diante dela, na mesa, depois de ameaçar fazer outro escândalo
Sentados em um restaurante amplo, ao ar livre, no alto de uma escadaria monumental apinhada de jovens — estudantes, presumiu Harry —, eles olhavam para o tráfego lento e observavam um ao outro. Ela havia lançado um olhar desconfiado para o suco de laranja dele, mas aparentemente, considerando de onde vinha, estava acostumada a abstêmios. Ou talvez não. Harry tinha a sensação de que nem todas as regras tácitas do Partido haviam recebido a devida atenção da família Molnes.
— Não — respondeu Harry, acrescentando em seguida: — Por que todo mundo me pergunta isso?
— Por que será, hein? — Ela se remexeu na cadeira. — Imagino que geralmente essa pergunta é feita por mulheres, não?
Ele soltou um riso baixo e irônico.
— Você está tentando me deixar constrangido? Então me conta dos seus namorados.
— De qual deles?
Ela mantinha a mão esquerda escondida no colo, levando o copo de cerveja à boca com a direita. Com um sorriso zombeteiro, recostou-se na cadeira e o encarou com um olhar firme.
— Não sou virgem, se é o que está pensando.
Harry quase cuspiu o suco em cima da mesa.
— Por que eu deveria ser? — prosseguiu ela, levando novamente o copo aos lábios.
É, por que deveria?, pensou Harry.
— Você está chocado? — Runa pousou o copo de cerveja de volta na mesa e assumiu uma expressão séria.
— Por que eu deveria estar? — A pergunta pareceu mais um eco, e ele se apressou a acrescentar: — Acho que minha primeira vez foi com a sua idade.
— Pode ser, mas não com 13 anos — disse a moça.
Harry respirou fundo, ponderou o comentário dela com cuidado e expirou lentamente. Uma mudança de assunto o deixaria feliz agora.
— Sério? E quantos anos ele tinha?
— Isso é segredo. — Ela voltou a assumir uma expressão zombeteira. — Diga, por que você não tem namorada?
Antes de falar, ele fez uma pausa, talvez avaliando se seria capaz de usar a mesma estratégia de choque. Poderia dizer a Runa que as duas mulheres que ele, com toda certeza, tinha amado estavam mortas. Uma, pelas próprias mãos; a outra, pelas mãos de um assassino.
— É uma longa história — respondeu por fim. — Eu as perdi.
— Elas? São várias? Imagino que tenha sido por isso que você levou um pé na bunda. Você traía elas?
Harry percebia na voz dela o entusiasmo infantil e o riso. Ele não conseguiu reunir coragem para perguntar que tipo de relação ela mantinha com Jens Brekke.
— Não — falou. — Só não dei a devida atenção.
— Agora você ficou sério.
— Desculpe.
Continuaram ali, em silêncio. Ela cutucava o rótulo da garrafa de cerveja. Erguia os olhos para Harry. Como se estivesse tentando se decidir a respeito de algo. O rótulo finalmente se desprendeu.
— Venha — disse ela, pegando-o pela mão. — Vou mostrar uma coisa a você.
Desceram as escadas por entre os estudantes, seguiram pela calçada e subiram uma passarela estreita sobre a ampla avenida. Pararam no meio da travessia.
— Veja — falou Runa. — Não é lindo?
Harry ficou observando o fluxo de veículos que vinha na direção deles e se afastava em seguida. A avenida se estendia até onde a vista alcançava, e os faróis de caminhões, ônibus, carros, motos e tuk-tuks pareciam um rio de lava que desembocava em uma única faixa amarela mais adiante.
— Não parece uma cobra se contorcendo com um padrão luminoso no dorso?
Ela se apoiou no parapeito da passarela.
— Sabe o que é estranho? Em Bangkok, algumas pessoas ficariam felizes em matar alguém como eu pra ficar com o pouco que tenho no bolso agora. E mesmo assim nunca senti medo aqui. Na Noruega, a gente sempre ia passar o fim de semana no chalé nas montanhas. Conheço a cabana e as trilhas todas como a palma da minha mão. Passávamos todos os feriados em Ørsta, onde todo mundo se conhecia e um furto em uma loja vira notícia de primeira página nos jornais. Mas é neste lugar que me sinto mais segura. Aqui, cercada de desconhecidos. Não é estranho?
Harry não soube o que responder.
— Se eu pudesse escolher, passaria o resto da vida nesta cidade. E aí viria até essa passarela pelo menos uma vez por semana pra apreciar a paisagem.
— O trânsito?
— Sim, adoro o trânsito. — Ela se virou de repente para ele. Tinha um brilho nos olhos. — Você não?
Harry fez que não com a cabeça. Ela voltou a olhar para a avenida.
— É uma pena. Sabe quantos carros estão circulando nas ruas de Bangkok neste momento? Três milhões. E mais mil entram em circulação a cada dia. Um motorista em Bangkok passa de duas a três horas dentro do carro todos os dias. Já ouviu falar do Comfort 100? Dá pra comprar em postos de gasolina. É um saco pra fazer xixi caso a pessoa fique presa em um engarrafamento. Você acha que os esquimós têm uma palavra pra definir o trânsito? Ou os maoris?
Harry deu de ombros.
— Pensa só em tudo que estão perdendo — continuou Runa. — Essas pessoas que moram em lugares em que não há multidões como aqui. Levante o braço... — Ela tomou a mão dele e a ergueu. — Consegue sentir? A vibração? É a energia de todo mundo à nossa volta. Está no ar. Se você estiver morrendo e achar que ninguém pode salvá-lo, basta sair e abrir os braços pra absorver um pouco da energia. É possível encontrar a vida eterna aqui. Verdade!
Os olhos dela ainda brilhavam, o rosto todo brilhava, e Runa levou a mão de Harry ao rosto.
— Posso sentir que você vai ter uma vida longa. Muito longa. Mais longa que a minha.
— Não diga isso — retrucou Harry. A pele do rosto dela queimava na palma da mão dele. — Traz má sorte.
— Melhor ter má sorte do que sorte nenhuma, era o que meu pai dizia.
Ele retraiu a mão.
— Você não quer a vida eterna? — sussurrou a moça.
Ele piscou e soube naquele instante que seu cérebro estava tirando uma fotografia instantânea dos dois naquela passarela, com pessoas indo e vindo apressadas e uma cintilante serpente marinha lá embaixo. Como acontece quando alguém tira foto de lugares que sabe que não voltará a visitar por muito tempo. Harry já tinha feito aquilo outras vezes; certa noite no meio de um salto no Frogner Lido, ou em outra noite, em Sydney, quando uma cabeleira ruiva esvoaçou ao vento, ou ainda na tarde fria de fevereiro, no Aeroporto de Fornebu, quando sua irmã o esperava em meio aos fotógrafos da imprensa e de uma tempestade de flashes. Ele sabia que, independentemente do que acontecesse, sempre poderia voltar àquelas fotografias, as quais jamais ficariam esmaecidas; ao contrário, se tornariam mais nítidas ao longo dos anos.
Foi quando sentiu uma gota d’água no rosto. Então mais uma. Olhou para o alto, espantado.
— Tinham me dito que não chovia antes de maio — falou.
— São as chuvas pré-monções — comentou Runa, erguendo o rosto para o céu. — Elas vêm de vez em quando. O céu vai desabar já, já. Vamos...
Harry estava quase pegando no sono. O ruído do tráfego não era tão invasivo, e ele percebia uma espécie de regularidade, um ritmo previsível. Na primeira noite, o som das buzinas o acordava. Dali a algumas noites, porém, provavelmente seria acordado se não as ouvisse. O ronco de um escapamento furado não vinha do nada; ocupava um lugar no caos aparente. Apenas levaria um pouco de tempo para se adaptar, como aprender a manter os pés firmes dentro de um barco no mar.
Tinha combinado de encontrar Runa em um café perto da universidade no dia seguinte para fazer-lhe algumas perguntas sobre o pai. O cabelo dela ainda pingava quando desceu do táxi.
Pela primeira vez em muito tempo, Harry sonhou com Birgitta. O cabelo grudado à pele clara. Mas ela sorria e estava viva.