Baratas

Jo Nesbo · Capítulo 32 de 54

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Baratas

Capítulo 30

 

SEXTA-FEIRA, 17 de JANEIRO

 

Todos, exceto Rangsan, estavam reunidos na sala de Liz naquela noite. — Diga que temos uma pista — falou Liz, em tom ameaçador.

— O pessoal da perícia tem muitas — disse Nho. — Mandaram três homens pra lá e encontraram um monte de impressões digitais, cabelos e fibras de tecido. Disseram que o Yupa House parece ter passado uns seis meses sem uma faxina.

Sunthorn e Harry riram, mas Liz se limitou a olhar para eles.

— Alguma pista que possa realmente estar ligada ao assassinato?

— Ainda não sabemos se é um homicídio — falou Harry.

— Sabemos sim — respondeu Liz. — Sujeitos suspeitos de serem cúmplices de um assassinato não tomam uma overdose acidentalmente poucas horas antes de serem presos.

— Quem nasceu pra forca não morre afogado, como diz um ditado norueguês — comentou Harry.

— O quê?

— Concordo com você.

Nho acrescentou que overdoses eram raras entre os usuários de ópio. Geralmente, eles perdem a consciência antes de conseguirem inalar demais. A porta se abriu, e Rangsan entrou na sala.

— Novidades — disse, sentando e apanhando um jornal. — Descobriram a causa da morte.

— Achei que o resultado da necropsia só sairia amanhã — disse Nho.

— Não foi necessário fazer a necropsia. Os caras da perícia encontraram uma leve camada de cianureto no ópio. O sujeito deve ter morrido na primeira tragada.

Por um momento, a mesa ficou em silêncio.

— Chame o Maisan. — Liz estava novamente animada. — Temos que descobrir onde Love comprava o ópio.

— Melhor não ficar muito otimista — advertiu Rangsan. — Maisan conversou com o principal fornecedor do Love, e o cara disse que não via o sujeito fazia um bom tempo.

— Ótimo — falou Harry. — De qualquer forma, pelo menos sabemos que alguém tentou botar a culpa pelo assassinato em Brekke.

— Isso não ajuda em nada — disse Liz.

— Eu não teria tanta certeza — retrucou Harry. — Não sabemos se Brekke foi um bode expiatório escolhido aleatoriamente. Talvez o assassino tenha uma razão pra escolher ele; quem sabe uma rixa não resolvida.

— E daí?

— Se soltarmos Brekke, alguma coisa pode acontecer. Talvez a gente consiga tirar o assassino da toca.

— Desculpe — disse Liz. E olhou para a mesa. — Brekke vai continuar preso.

— O quê? — Harry não podia acreditar no que ouvia.

— Ordens do chefe.

— Mas...

— É assim que funciona.

— Temos também uma nova pista que aponta pra Noruega — retomou Rangsan. — A perícia mandou os resultados dos testes feitos na gordura presente na faca pros seus colegas noruegueses, pra ver a opinião deles. Os caras da Noruega descobriram que se tratava de gordura de rena, e não há muitos desses bichos na Tailândia. Um dos caras da perícia sugeriu que a gente deveria prender o Papai Noel.

Nho e Sunthorn riram.

— O pessoal de Oslo explicou que a gordura de rena é usada pelos lapões, na Noruega, para proteger a lâmina das facas.

— Uma faca tailandesa com gordura norueguesa. Isso está ficando cada vez mais interessante. — Liz se levantou de repente. — Boa noite a todos. Espero que amanhã apareçam descansados e prontos pra ação.

Harry deteve Liz perto do elevador e pediu uma explicação.

— Olha, Harry, estamos na Tailândia, e aqui as regras são diferentes. Nosso chefe de polícia se antecipou e falou pra comissária em Oslo que a gente tinha pegado o assassino. Ele achou que Brekke era o culpado e, quando reportei as últimas novidades, não ficou muito satisfeito. Insistiu que o sujeito fosse mantido sob custódia, pelo menos até que apresentasse um álibi.

— Mas...

— Vamos encarar os fatos, Harry. Não se esqueça de que, na Tailândia, você é condicionado a nunca admitir um erro.

— E quando todo mundo sabe quem cometeu o erro?

— Daí todo mundo coopera pra que não pareça um erro.

As portas do elevador se abriram e se fecharam, poupando Liz de ouvir a opinião de Harry sobre o assunto. Harry pensou na canção “All Along the Watchtower”. Especialmente na parte que dizia que devia haver algum jeito de ir embora dali.

Será que havia?

Do lado de fora do seu apartamento existia uma carta, com o nome de Runa no verso.

Harry desabotoou a camisa. O suor escorria como uma fina camada de óleo por seu peito e seu abdome. Tentou se lembrar de como era ter 17 anos. Tinha se apaixonado por alguém? Provavelmente.

Colocou a carta em cima da mesa de cabeceira, fechada, do jeito que pretendia devolvê-la, e deitou-se na cama. Meio milhão de carros e um sistema de ar-condicionado tentaram niná-lo.

Pensou em Birgitta, a garota sueca que havia conhecido na Austrália e que tinha dito que o amava. O que Aune havia falado mesmo? Que ele tinha “medo de se comprometer com outras pessoas”? O último pensamento que passou pela sua cabeça foi que qualquer redenção só se torna completa com uma ressaca. E vice-versa.