Baratas

Jo Nesbo · Capítulo 14 de 54

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Baratas

Capítulo 12

 

DOMINGO, 12 de JANEIRO

 

P or fim, decidiram estacionar e procurar o endereço a pé. Nho tentou explicar o engenhoso sistema de endereços de Bangkok, com suas ruas principais e transversais numeradas, chamadas sois. O problema era que a numeração das casas não obedecia a uma sequência, pois, quando uma nova casa era construída, ganhava o próximo número livre, não importando onde estivesse localizada na rua.

Caminharam por ruelas estreitas nas quais as calçadas funcionavam como extensão da sala de estar, com pessoas lendo jornais, costurando em máquinas de pedal, cozinhando ou fazendo a sesta. Quando eles passaram, algumas meninas vestidas com uniformes escolares gritaram e deram risadinhas. Nho apontou para Harry, respondendo alguma coisa. As meninas uivaram de tanto rir, levando a mão à boca.

Nho conversou com uma senhora sentada atrás de uma máquina de costura, e ela indicou uma porta. Bateram, esperaram um pouco, e a porta foi aberta por um sujeito de short cáqui e camisa aberta. Harry estimou a idade do homem em 60 anos, o que só transparecia pelos olhos e pelas rugas. O cabelo liso e preto, penteado para trás, exibia mechas grisalhas, e o corpo magro e musculoso podia bem ser o de um rapaz com metade da idade.

Nho disse algumas palavras, e o sujeito assentiu, olhando para Harry. Em seguida, pediu licença e saiu. Voltou um minuto depois, agora vestindo uma camisa de manga curta branca recém-passada e calça comprida.

Trazia consigo duas cadeiras, que colocou na calçada. Falando um inglês surpreendentemente bom, indicou uma delas a Harry, sentando-se ele próprio na outra. Nho permaneceu de pé ao lado deles e, com um leve movimento de cabeça, recusou a sugestão de Harry, que sinalizava ao policial que se sentasse em um degrau da escada.

— Sou Harry Hole, da polícia norueguesa, sr. Sanphet. Gostaria de fazer algumas perguntas sobre Molnes.

— Sobre o embaixador Molnes, o senhor quer dizer.

Harry olhou para o homem. Estava sentado reto como uma estaca, as mãos morenas e sardentas pousadas no colo.

— Embaixador Molnes. Claro. O senhor é o motorista da embaixada da Noruega há quase trinta anos, segundo eu soube.

Sanphet piscou em sinal de confirmação.

— E respeitava muito o embaixador?

— O embaixador Molnes era um grande homem. Um grande homem com um grande coração. E uma ótima cabeça.

Tocou a testa com um dedo e lançou um olhar de repreensão para Harry, que estremeceu ao sentir uma gota de suor descendo pelas costas e entrando na calça. O investigador olhou em volta à procura de alguma sombra para onde pudessem deslocar as cadeiras, mas o sol estava a pino e as casas da rua eram baixas.

— Viemos procurá-lo porque o senhor é quem melhor conhecia os hábitos do embaixador, sabia os lugares que ele frequentava e com quem se encontrava. E também porque claramente tinha boa relação pessoal com ele. O que aconteceu no dia em que o embaixador morreu?

Sentado ali e bastante calmo, Sanphet relatou que o embaixador tinha saído sem dizer para onde estava indo, apenas que queria dirigir, o que era bastante incomum em horário de trabalho, uma vez que ele, Sanphet, não tinha outras funções além da de motorista. Havia então esperado na embaixada até as cinco horas antes de seguir para casa.

— O senhor mora sozinho?

— Minha mulher morreu em um acidente de trânsito há catorze anos.

Alguma coisa dizia a Harry que o homem seria capaz de informar exatamente o número de meses e dias que se passaram desde aquela morte. O casal não tivera filhos.

— Aonde o senhor costumava levar o embaixador?

— A outras embaixadas. Reuniões. Casas de cidadãos noruegueses.

— Que cidadãos noruegueses?

— De todo tipo. Gente da Statoil, da Hidro, da Jotun e da Statskonsult.

A pronúncia dos nomes noruegueses era perfeita.

— O senhor conhece algum destes aqui? — perguntou Harry, passando uma lista ao homem. — São pessoas com quem o embaixador manteve contato pelo celular no dia em que morreu. A lista nos foi passada pela operadora de telefonia.

Sanphet sacou um par de óculos, mas mesmo com eles precisou segurar o pedaço de papel à distância de um braço enquanto lia em voz alta:

— Onze e dez. Serviço de Apostas de Bangkok.

Espiou por cima dos óculos.

— O embaixador gostava de apostar nos cavalos. — E acrescentou com um sorriso: — Até ganhava, às vezes.

Nho se remexeu no lugar.

— O que significa “Worachak Road”? — perguntou o motorista.

— Uma chamada de um telefone público. Continue, por favor.

— Onze e cinquenta e cinco. Embaixada da Noruega.

— O curioso é que ligamos pra embaixada hoje de manhã, e ninguém lá, nem mesmo a recepcionista, se lembra de ter atendido um telefonema do embaixador naquele dia.

Sanphet deu de ombros, e Harry fez sinal para que ele prosseguisse.

— Meio-dia e cinquenta. Ove Klipra. O senhor já ouviu falar dele, imagino.

— Talvez tenha ouvido.

— É um dos homens mais ricos de Bangkok. Li no jornal que acabou de fechar a venda de uma hidrelétrica no Laos. Mora em um templo — murmurou Sanphet. — Ele e o embaixador se conheciam de outros tempos. Eram da mesma região da Noruega. O senhor já ouviu falar de Ålesund? O embaixador convidou...

O motorista ergueu os braços, interrompendo-se. Não valia a pena falar daquilo agora. Voltou à lista.

— Uma e quinze. Jens Brekke.

— Quem é?

— Corretor de câmbio. Há alguns anos deixou o emprego no Den Norske Bank pra vir trabalhar no Barclays Tailândia.

— Certo.

— Cinco e cinquenta e cinco. Mangkon Road?

— Outra chamada de telefone público.

Não havia mais nomes na lista. Harry praguejou consigo mesmo. Não sabia bem o que estava esperando, mas o motorista não acrescentou nada de novo à conversa que ele havia tido com Tonje Wiig uma hora antes.

— O senhor sofre de asma, sr. Sanphet?

— Asma? Não. Por quê?

— Encontramos uma cápsula no carro. Pedimos ao laboratório que a analisasse. Não precisa se assustar, sr. Sanphet. Procedimento de rotina. Tratava-se de remédio pra asma. Mas ninguém na família Molnes sofre da doença. O senhor sabe dizer a quem poderia pertencer essa cápsula?

Sanphet negou com a cabeça.

Harry puxou sua cadeira para mais perto do motorista. Não estava acostumado a interrogatórios no meio da rua, e a sensação era de que todo mundo sentado ali, naquela ruela estreita, espichava-se para ouvir a conversa deles. Baixou a voz.

— Com todo o respeito, o senhor está mentindo. Vi com meus próprios olhos que a recepcionista da embaixada toma medicação pra asma, sr. Sanphet. Faz trinta anos que o senhor passa metade dos seus dias naquele lugar, e imagino que não se troque um rolo de papel higiênico lá sem que o senhor fique sabendo. Está dizendo que não sabia que ela sofre de asma?

Sanphet o encarou com olhos frios e calmos.

— Estou dizendo que não sei quem poderia ter deixado cair esse remédio pra asma no carro, senhor. Um monte de gente em Bangkok tem asma, e, dessas pessoas, algumas podem ter estado no carro do embaixador. Até onde sei, a srta. Ao não é uma delas.

Harry o examinou. Como ele conseguia ficar sentado ali, sem nem uma gota de suor na testa, enquanto o sol brilhava no céu feito um gongo de bronze? Harry baixou a vista para o bloco de anotações, como se tivesse escrito a pergunta seguinte nele.

— Alguma vez o embaixador transportou crianças no carro?

— Como é?

— O senhor às vezes ia buscar crianças, levava o embaixador a escolas, creches ou algum lugar do tipo? Entende o que eu quero dizer?

Sanphet nem piscou, mas empertigou-se.

— Entendo. O embaixador não era um desses — respondeu o motorista.

— Como o senhor sabe?

Um sujeito ergueu os olhos do jornal, e Harry percebeu que tinha levantado a voz. Sanphet inclinou ligeiramente a cabeça, cumprimentando-o.

Harry se sentiu um idiota. Idiota, infeliz e suado. Nessa ordem.

— Desculpe — falou. — Não tive intenção de ofender o senhor.

O velho motorista olhava ao longe, fingindo não ter ouvido.

— Precisamos ir agora. — Harry ficou de pé. — Ouvi dizer que o senhor gosta de Grieg, por isso eu trouxe isso aqui. — Segurou no ar uma fita cassete. — É a “Sinfonia em Dó Menor”. Foi apresentada pela primeira vez em 1981, então pensei que talvez o senhor não a tenha. E é obrigatória pra qualquer amante de Grieg. Fique com ela, por favor.

Sanphet levantou, aceitou o presente com surpresa e ali ficou, de pé, olhando para a fita.

— Tchau — disse Harry, com uma desajeitada mas sincera saudação wai e sinalizando para Nho que estavam de saída.

— Espere — chamou o motorista. Continuava com os olhos fixos na fita cassete. — O embaixador era um homem bom, mas não era feliz. Tinha uma fraqueza. Não quero denegrir a memória de um morto, mas ele perdia mais do que ganhava nas corridas de cavalo.

— Acontece com a maioria das pessoas — comentou Harry.

— Mas a maioria não perde cinco milhões de baht.

Harry tentou fazer a conta de cabeça. Nho veio em seu socorro.

— Cem mil dólares.

Harry soltou um assobio.

— Ora, se o embaixador tinha todo esse dinheiro...

— Não tinha — atalhou Sanphet. — Pediu emprestado a uns agiotas em Bangkok. Ligaram várias vezes pra ele nas últimas semanas. — O motorista encarava Harry. Era difícil interpretar sua expressão. — Pessoalmente, sou da opinião de que um homem deve arcar com suas dívidas de jogo, mas, se alguém o matou por causa desse dinheiro, acho que merece ser punido.

— Então o embaixador não era um homem feliz?

— Ele não levava uma vida fácil.

Harry se lembrou de uma coisa.

— Man U significa alguma coisa pro senhor?

A expressão do motorista se anuviou.

— Na agenda do embaixador havia essa anotação no dia do assassinato — prosseguiu Harry. — Chequei a programação na tevê e nenhum jogo do Manchester United seria transmitido naquele dia.

— Ah, Manchester United. — Sanphet sorriu. — É Klipra. O embaixador o chamava de sr. Man U., porque ele costuma ir pra Inglaterra nos dias de jogo e é detentor de um bocado de ações do clube. Um sujeito bastante peculiar.

— É o que veremos. Vou ter uma conversa com ele mais tarde.

— Isso se o senhor conseguir encontrá-lo.

— Como assim?

— A gente não encontra Klipra. Ele é que encontra a gente.

Era só o que faltava, pensou Harry. Um excêntrico.

— A coisa muda radicalmente de figura com essas dívidas de jogo — falou Nho quando já estavam de volta ao carro.

— Talvez — ponderou Harry. — Cem mil dólares é muito dinheiro, mas será o suficiente?

— Em Bangkok, pessoas são assassinadas por menos que isso — observou Nho. — Por muito menos. Acredite em mim.

— Não estou pensando nos agiotas, mas em Atle Molnes. O cara vinha de uma família muito rica. Era de supor que tivesse condições de pagar o que devia, pelo menos se fosse questão de vida ou morte. Tem algo que não bate. O que você achou do sr. Sanphet?

— Mentiu ao falar da srta. Ao.

— Ah, é? Por que diz isso?

Nho não respondeu; simplesmente sorriu, misterioso, dando batidinhas na têmpora.

— O que você está tentando me dizer, Nho? Que você sabe quando uma pessoa está mentindo?

— Aprendi com minha mãe. Durante a Guerra do Vietnã, ela sobreviveu jogando pôquer na Soi Cowboy.

— Besteira. Conheço policiais que passaram a vida inteira fazendo interrogatórios, e todos dizem a mesma coisa: não há como aprender a discernir as mentiras de um bom mentiroso.

— É só uma questão de saber olhar. Dá pra ver nas pequenas coisas. Como naquela hora em que você não abriu direito a boca pra dizer que qualquer um que amasse Grieg precisava ter uma cópia daquela fita.

Harry pôde sentir o calor subindo pelo rosto.

— Por acaso eu estava ouvindo aquela fita. Foi um policial australiano quem me falou da sinfonia de Grieg. Comprei a fita em honra à memória dele.

— Funcionou, de qualquer forma.

Nho desviou de um caminhão que vinha para cima deles.

— Cacete! — Nem deu tempo de Harry sentir medo. — O cara estava na contramão!

Nho deu de ombros.

— Ele era maior do que eu.

Harry conferiu o relógio.

— Precisamos dar uma passada na delegacia, e tenho que ir a um funeral. — Ficou apreensivo só de pensar no paletó quente pendurado no armário do lado de fora do “escritório”. — Só espero que a igreja tenha ar-condicionado. Por falar nisso, por que tivemos que ficar sentados na rua, debaixo de sol escaldante? Por que o velhote não convidou a gente pra entrar?

— Por orgulho — respondeu Nho.

— Orgulho?

— Ele vive em um quarto pequeno, um contraste gritante com o carro que dirige e o lugar onde trabalha. Não queria nos convidar pra entrar porque criaria uma situação desagradável, não só pra ele, como também pra nós.

— Sujeito esquisito.

— É assim que funciona na Tailândia — explicou Nho. — Eu também não convidaria você pra entrar na minha casa. Serviria o chá na escada.

Nho fez uma curva repentina à direita e, sobressaltados, uns tuk-tuks abriram caminho. Harry instintivamente pôs as mãos à frente do corpo.

— Dessa vez...

— ... a gente é que é maior. Obrigado, Nho. Acho que peguei o espírito da coisa.