Baratas

Jo Nesbo · Capítulo 26 de 54

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Baratas

Capítulo 24

 

QUARTA-FEIRA, 15 de JANEIRO

 

No meio do solo de guitarra de Jimi em “All Along the Watchtower”, a música parou de repente e Jim Love teve um sobressalto, dando-se conta em seguida de que alguém havia tirado seus fones de ouvido.

Girou a cadeira para se deparar com um cara alto e loiro, definitivamente um pouco negligente com o uso do protetor solar, que se agigantava sobre ele na apertada cabine de vigia do estacionamento. Metade de seu rosto estava escondido atrás de óculos escuros estilo aviador de qualidade duvidosa. Jim tinha o olho treinado para esse tipo de coisa; seu próprio par havia lhe custado uma semana de salário.

— Olá — disse o sujeito alto. — Perguntei se você fala inglês.

Não era possível definir de onde vinha o sotaque, e Jim respondeu com um do Brooklyn.

— Melhor do que falo tailandês. Em que posso ajudar? Que empresa você está procurando?

— Não estou procurando empresa nenhuma. Quero bater um papo com você.

— Comigo? Você não é o fiscal da firma de segurança, é? Posso explicar os fones de ouvido e...

— Não, não sou. Sou da polícia. Eu me chamo Hole. E este aqui é meu colega, Nho...

Harry deu um passo para o lado e, atrás dele, junto à entrada, Jim viu um tailandês com o típico corte de cabelo estilo militar e camisa branca recém-passada. Assim, não duvidou nem por um minuto de que o distintivo que o outro exibia fosse genuíno. Franziu o cenho.

— Da polícia, é? Vocês vão todos no mesmo cabeleireiro? Nunca pensaram em dar uma mudada no corte? Tipo esse? — Jim apontou para o tufo no alto da própria cabeça.

O sujeito alto e loiro riu.

— Não acho que o estilo retrô anos 1980 tenha chegado às delegacias ainda.

— Estilo o quê?

— Alguém pode assumir seu posto aqui enquanto a gente conversa?

Jim explicou que tinha vindo de férias à Tailândia com uns amigos quatro anos antes. Haviam alugado motos e partiram para uma viagem rumo ao norte do país. Em uma aldeiazinha às margens do rio Mekong, na fronteira com o Laos, um dos rapazes cometeu a imprudência de comprar um pouco de ópio e guardá-lo na mochila. No caminho de volta, o grupo foi parado pela polícia e revistado. Em uma estrada de terra poeirenta do interior mais longínquo da Tailândia, de repente se deram conta de que o amigo acabaria atrás das grades por um longo tempo.

— Segundo as leis daqui, os filhos da puta podem executar quem contrabandeia merda como aquela. Sabia? E nós, os outros três, que não tínhamos feito nada, pensamos: ah, fodeu, estamos encrencados também, como cúmplices ou coisa do tipo. Que merda, porque um negro americano que nem eu nem parece traficante, né? Aí a gente implorou e implorou, sem conseguir nada, até que um dos policiais falou em cobrar uma multa em vez de nos prender. Catamos até a última moeda que tínhamos, eles confiscaram o ópio e nos deixaram ir. Que felicidade a nossa. O problema foi que a gente deu pros caras o dinheiro da passagem de volta pros Estados Unidos. Aí...

Jim descreveu, com uma abundância de palavras e gestos, como uma coisa foi levando a outra. Ele acabou se tornando guia de turistas americanos, mas teve problemas com o visto permanente e precisou se esconder, ficando sob a proteção de uma garota tailandesa. Por fim, decidiu ficar por ali quando os amigos estavam prontos para ir embora. Depois de muitos percalços, conseguiu o visto devido ao emprego no estacionamento, onde precisavam de gente que falasse inglês para atender os clientes que vinham ao complexo de edifícios para reuniões.

Jim falava tanto que Harry precisou interrompê-lo.

— Merda, espero que seu colega tailandês aí não entenda inglês — falou Jim, olhando nervoso para Nho. — Os caras pra quem a gente deu aquela grana lá no Norte...

— Relaxa, Jim. A gente veio falar sobre outra coisa. Um Mercedes azul-escuro com placa do serviço diplomático supostamente parou aqui no dia 7 de Janeiro, por volta das quatro. Talvez você se lembre de ter visto o carro.

Jim desatou a rir.

— Se você me perguntasse que música do Jimi Hendrix eu estava ouvindo, quem sabe eu conseguisse responder, cara, mas quais carros entram e saem daqui...

Harry comprimiu os lábios.

— Na outra vez em que estivemos aqui, pegamos um tíquete na entrada. Você não teria como verificar por aí? Por algum número de registro ou algo assim?

Jim balançou a cabeça.

— A gente não liga pra isso. A maioria dos estacionamentos tem circuito interno de TV. Caso aconteça alguma coisa, a gente pode dar uma olhada nos registros depois.

— Depois? Quer dizer que filmam o lugar?

— Claro.

— Não vi monitor nenhum aí.

— É porque não temos monitor. O estacionamento tem seis andares, então não dá pra gente sentar e ficar assistindo a tudo que acontece. Pô, a maioria dos bandidos, quando vê uma câmera, simplesmente pica a mula, certo? Então a gente só meio que vigia. E, se um deles fizer a burrice de arrombar um dos carros, temos tudo gravado pra vocês da polícia.

— Por quanto tempo as gravações são preservadas?

— Dez dias. É tempo suficiente pra maioria das pessoas perceber que alguma coisa sumiu do carro. Depois disso, gravamos por cima das fitas antigas.

— Isso quer dizer que as imagens do dia 7 de Janeiro, entre quatro e cinco horas, ainda devem existir?

Jim deu uma olhada em um calendário na parede.

— Pode crer.

Desceram a escada e entraram em um porão quente e úmido, onde Jim acendeu uma lâmpada solitária e destrancou um dos armários de aço instalados ao longo de uma parede. As fitas estavam armazenadas em pilhas bem-arrumadas.

— Pra checar o que rolou no estacionamento todo você vai precisar assistir a um montão delas.

— Só precisamos ver as vagas de visitantes — disse Harry.

Jim percorreu as prateleiras. Ficou claro que cada câmera tinha uma prateleira própria, com as datas dos registros escritas nos rótulos a lápis. Jim apanhou uma fita.

— Bingo.

O rapaz abriu outro armário, no qual havia um videocassete e um monitor, inseriu a fita e, passados alguns segundos, a imagem em preto e branco apareceu na tela. Harry reconheceu imediatamente as vagas de visitantes; as imagens eram claramente da mesma câmera que tinha visto na outra vez em que haviam estado ali. Na parte inferior da tela, o dia, o mês e a hora da gravação. Correram a fita até três e cinquenta da tarde. Nada do carro do embaixador. Esperaram. Era como olhar para uma imagem congelada; nada acontecia.

— Vamos avançar mais um pouco — disse Jim.

Fora os números do relógio correndo no canto, não houve nenhuma diferença na tela. Às cinco e quinze, dois carros passaram, deixando marcas de rodas molhadas no cimento. Às cinco e quarenta, viram as marcas secando e desaparecendo, mas ainda nenhum sinal do Mercedes do embaixador. Quando o relógio chegou às cinco e cinquenta, Harry pediu que Jim desligasse o videocassete.

— Era pra ter um carro da embaixada em uma das vagas de visitantes — disse Harry.

— Sinto muito — falou Jim. — Parece que alguém passou uma informação furada a você.

— Seria possível ele estar estacionado em outro lugar?

— Claro. Mas qualquer um que não tenha vaga própria precisa passar por essa câmera, então teríamos visto o carro na gravação.

— A gente gostaria de ver um vídeo diferente — pediu Harry.

— Ah, claro. Qual?

Nho remexeu nos bolsos.

— Você sabe dizer qual vaga é ocupada por um carro com este número de registro? — perguntou, entregando ao rapaz um pedaço de papel.

Jim o encarou, desconfiado.

— Porra, cara, você fala inglês.

— É um Porsche vermelho — completou Nho.

Jim devolveu o papel ao policial.

— Nem preciso checar. Ninguém com vaga própria aqui tem um Porsche vermelho.

— Faen! — exclamou Harry.

— O que você disse? — quis saber Jim, com um sorrisinho.

— Uma palavra em norueguês que você não quer saber o que significa.

Fizeram o caminho de volta e reencontraram a luz do sol.

— Posso arrumar pra você um bem decente e baratinho — ofereceu Jim, apontando para os óculos de Harry.

— Não, obrigado.

— Precisam de mim pra mais alguma coisa? — perguntou Jim. Deu uma piscadela e riu. Já tinha recomeçado a estalar os dedos. Provavelmente estava louco para voltar aos seus fones de ouvido. — Ei, detetive! — gritou para os policiais, que já se afastavam. Harry se virou. — Fa-an!

Continuaram a ouvir a risada do rapaz no trajeto até o carro.

— Então, o que a gente sabe? — perguntou Liz, colocando os pés em cima da mesa.

— Que Brekke está mentindo — respondeu Harry. — Ele disse que, terminada a reunião, acompanhou o embaixador até o carro, no estacionamento do subsolo.

— Por que o cara mentiria sobre isso?

— No telefonema, o embaixador diz que quer confirmar a reunião das quatro. Não há dúvida de que compareceu ao local. Falamos com a recepcionista, e ela confirmou. Assim como confirmou que os dois saíram juntos do escritório, pois Brekke deu uma passada na mesa dela pra deixar um recado. Disse que se lembra disso porque foi por volta das cinco, quando se preparava pra ir embora.

— Que bom que alguém se lembra de alguma coisa nessa história.

— Mas o que Brekke e o embaixador fizeram depois, isso não sabemos.

— E onde ficou o carro? Duvido que ele fosse correr o risco de estacionar na rua naquela área de Bangkok.

— Talvez tivessem combinado de ir a outro lugar, e o embaixador então deixou alguém encarregado do carro enquanto saía com Brekke — sugeriu Nho.

Rangsan pigarreou e virou a página do jornal.

— Em um lugar cheio de ladrõezinhos esperando uma chance como essa?

— É, também acho — concordou Liz. — Continua sendo estranho que ele não tenha usado o estacionamento do subsolo, uma vez que era a coisa mais fácil e segura a se fazer. Ali ele podia estacionar ao lado do elevador.

Liz cutucava o ouvido com o dedo mindinho; a expressão em seu rosto se iluminou.

— Aonde queremos chegar com isso? — perguntou.

Harry lançou os braços no ar, resignado.

— Minha esperança era poder provar que Brekke foi embora do escritório com o embaixador naquele dia, no carro da embaixada, às cinco horas. As imagens mostrariam que o Porsche passou a noite no estacionamento. Mas não considerei a possibilidade de Brekke não ter usado o próprio carro pra ir ao trabalho.

— Vamos esquecer os carros por enquanto — falou Liz. — O que sabemos é que Brekke está mentindo. Então qual é o próximo passo?

Ela se voltou para Rangsan e seu jornal.

— Checar álibis — foi a resposta que veio dali.