Baratas

Jo Nesbo · Capítulo 47 de 54

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Baratas

Capítulo 45

 

 

SEXTA-FEIRA, 24 de JANEIRO

 

E le não sentiu grande coisa. Comparecer ao funeral foi como assistir à reprise de um programa de TV. O mesmo lugar, o mesmo padre, o mesmo caixão, o mesmo impacto da luz do sol nos olhos quando ele saiu para o dia claro, depois da cerimônia, e as mesmas pessoas paradas no topo da escada, olhando umas para as outras, desconfiadas. Quase as mesmas pessoas. Harry disse olá para Roald Bork.

— Foi você que descobriu os corpos, certo? — limitou-se a dizer.

Havia um véu cinzento encobrindo seus olhos; Bork parecia diferente, como se os últimos acontecimentos o tivessem envelhecido muito.

— Sim, fomos nós.

— Ela era tão jovem.

A frase soou como uma pergunta. Era como se ele pedisse a alguém que lhe explicasse como aquele tipo de coisa podia acontecer.

— Está quente — falou Harry, para mudar de assunto.

— Não tanto quanto no lugar pra onde Klipra foi — disse ele em tom casual, mas ao mesmo tempo duro, amargurado. Secou a testa com um lenço. — A propósito, percebi que precisava dar um tempo nesse calor. Já comprei a passagem.

— Vai pra Noruega?

— Sim, pra Noruega. O quanto antes. Liguei pro meu filho e disse que queria que a gente se encontrasse. Demorei um tempo pra perceber que não era ele ao telefone, mas o filho dele. Rá-rá. Estou ficando senil. Um avô senil, isso promete.

À sombra da igreja, juntos e mantendo distância dos demais, estavam Sanphet e a srta. Ao. Harry foi até eles e retribuiu os wai que os dois lhe dirigiram.

— Posso fazer uma pergunta rápida, srta. Ao?

Ela olhou de soslaio para Sanphet antes de assentir.

— É você quem organiza a correspondência na embaixada. Será que conseguiria lembrar se recebeu alguma coisa de uma empresa chamada Phuridell?

Ela refletiu um pouco antes de responder, com um sorriso pesaroso:

— Não lembro. São tantas cartas. Posso verificar na sala do embaixador amanhã, se você quiser. Talvez demore um pouquinho. Ele não era exatamente uma pessoa organizada.

— Não é no embaixador que estou pensando.

Ela agora o encarava com expressão de quem não estava entendendo.

Harry soltou um suspiro.

— Nem sei dizer se isso é mesmo importante, mas será que você podia entrar em contato, caso encontre algo? — perguntou.

Ela desviou o olhar para Sanphet.

— Pode deixar, detetive — garantiu o motorista.

Quando Liz entrou apressada e completamente sem fôlego em sua sala, Harry estava à sua espera. Ela tinha gotas de suor na testa.

— Minha nossa! — exclamou. — Dá pra sentir o calor do asfalto atravessando a sola do sapato lá fora.

— Como foi a reunião?

— Boa, acho. Os chefes nos parabenizaram pela solução do caso e não fizeram nenhuma pergunta detalhada sobre o relatório. Até engoliram a história de que chegamos a Klipra por denúncias anônimas. Se o chefe chegou a desconfiar de algum procedimento duvidoso, preferiu não fazer alarde.

— Não achei mesmo que fosse fazer. Não teria nada a ganhar com isso, afinal.

— Acabo de ouvir cinismo em sua voz, sr. Hole?

— De jeito nenhum, srta. Crumley. Sou apenas um jovem e ingênuo detetive que está começando a entender as regras do jogo.

— Pode ser, mas bem lá no fundo o mais provável é que todo mundo tenha ficado aliviado com a morte de Klipra. Algumas revelações bem desagradáveis viriam à tona se o caso fosse a julgamento, não só pra certos chefes de polícia como também pras autoridades de ambos os países.

Liz jogou longe os sapatos e, satisfeita, recostou-se na cadeira. As molas rangeram, e o aroma inconfundível de pés suados se espalhou pela sala.

— Evidentemente, do jeito como acabou, a solução parece ter sido cômoda pra várias pessoas, você não acha? — disse Harry.

— Como assim?

— Sei lá. Acho que tem algo que não se encaixa.

Liz fitou os dedos dos pés e em seguida voltou a olhar para o detetive.

— Alguém já disse que você é paranoico, Harry?

— Já, claro, mas isso não quer dizer que os aliens não estejam atrás de você, certo?

Ela pareceu perplexa.

— Relaxa, Harry.

— Vou tentar.

— E aí, quando você vai embora?

— Logo que tiver conversado com o patologista e o pessoal da perícia.

— Pra que você precisa falar com eles?

— Só pra me livrar da paranoia. Sabe como é... umas ideias malucas que passaram pela minha cabeça.

— Certo — falou Liz. — Você já almoçou?

— Já — mentiu Harry.

— Ah, odeio comer sozinha. Não dava pra vir só pra me fazer companhia?

— Fica pra próxima.

Harry levantou e saiu da sala.

O jovem patologista limpava os óculos enquanto falava. Às vezes, as pausas eram tão longas que Harry se perguntava se o lento fluxo de palavras não tinha cessado por completo. Mas aí vinha mais uma, depois outra, e ele se libertava do bloqueio e seguia em frente. A impressão de Harry era de que o rapaz temia ser criticado por seu inglês.

— Fazia no máximo dois dias que o homem estava morto — explicou. — Neste calor, se passasse mais tempo que isso, o corpo... — o médico inflou as bochechas e, com os braços, completou a mímica — ... viraria um enorme balão de gás. E vocês teriam sentido o cheiro. Quanto à garota... — olhou para Harry e, de novo, inflou as bochechas. — Mesma coisa.

— Quanto tempo Klipra levou pra morrer depois do tiro?

O doutor umedeceu os lábios. Harry teve a impressão de que era capaz de sentir o tempo passando.

— Pouco.

— E ela?

O médico da polícia enfiou o lenço no bolso.

— Morte instantânea.

— Digo, seria possível que qualquer um dos dois tenha se movido depois do tiro, tido espasmos ou algo assim?

O doutor colocou os óculos, verificou se estavam limpos e voltou a tirá-los.

— Não.

— Li que, durante a Revolução Francesa, antes das guilhotinas, na época em que as decapitações ainda eram feitas manualmente, os condenados eram informados de que, às vezes, o carrasco errava, e aqueles que conseguissem ficar de pé e descer do patíbulo podiam se considerar livres. Parece que alguns tentavam se levantar sem a cabeça e caminhar alguns passos, mas logo caíam, pra grande júbilo da multidão, claro. Pelo que me lembro, um cientista explicou que, se grandes quantidades de adrenalina chegarem ao coração instantes antes da execução, o cérebro pode ser até certo ponto pré-programado, e os músculos meio que fazem uma hora extra. É o que acontece quando se corta a cabeça de uma galinha.

O médico sorriu.

— Muito divertido, detetive. Mas acho que isso é história pra boi dormir.

— Então como explicar isso?

Passou às mãos do médico uma foto mostrando Klipra e Runa deitados no chão. O médico olhou para a foto, então recolocou os óculos e a examinou detalhadamente.

— Como explicar o quê?

Harry apontou para a foto.

— Veja aqui. A mão dele está encoberta pelo cabelo dela.

O médico piscou, como se um cisco no olho o estivesse impedindo de enxergar o que Harry mostrava.

O detetive espantou uma mosca.

— Olha, você sabe que nosso subconsciente pode instintivamente tirar conclusões, não sabe?

O médico deu de ombros.

— Na hora em que vi isso, concluí instintivamente que Klipra devia estar deitado quando atirou em si mesmo, porque só assim sua mão estaria embaixo do cabelo dela. Mas o ângulo do tiro mostra que ele estava de pé. Como poderia ter atirado nela, se matado e caído de forma que sua mão ficasse embaixo do cabelo de Runa?

O médico tirou os óculos e retomou a limpeza das lentes.

— Talvez ela é que tenha dado os tiros — ponderou ele, mas Harry já não estava ali para ouvir.

Harry tirou os óculos escuros e semicerrou os olhos, que se acostumavam à penumbra do restaurante. Uma mão acenou, e ele se dirigiu a uma mesa debaixo de uma palmeira. A luz do sol fez reluzir a armação de aço dos óculos do sujeito que agora se levantava.

— Vejo que você recebeu minha mensagem — falou Dagfinn Torhus.

Sua camisa tinha dois grandes círculos escuros nas axilas. O paletó estava pendurado no encosto da cadeira.

— A inspetora Crumley disse que você tinha ligado. O que o traz aqui? — perguntou Harry, oferecendo um aperto de mão.

— Compromissos administrativos na embaixada. Cheguei hoje de manhã pra resolver algumas questões burocráticas. E precisamos nomear um novo embaixador.

— Tonje Wiig?

Torhus deu um sorriso débil.

— Veremos. Muitas coisas devem ser levadas em consideração. O que a gente come neste lugar?

Um garçom já aguardava o pedido ao lado da mesa, e Harry o encarou como quem esperasse uma resposta.

— Enguia — disse o rapaz. — Especialidade vietnamita. Com vinho rosé do Vietnã e...

— Não, obrigado — interrompeu Harry, espiando o cardápio e apontando para a sopa de leite de coco.

— E uma água mineral, por favor.

Torhus deu de ombros e assentiu, indicando querer o mesmo.

— Parabéns. — Torhus começou a palitar os dentes. — Quando você vai embora?

— Obrigado, mas acho que ainda é cedo pra me dar os parabéns, Torhus. Falta amarrar uns fios soltos.

O outro parou de palitar os dentes.

— Fios soltos? Isso não faz parte da sua missão. Faça as malas e vá pra casa.

— Não é tão simples.

Os olhos azuis e implacáveis do burocrata faiscaram.

— Acabou, entendeu? O caso está resolvido. Todas as primeiras páginas dos jornais de Oslo estamparam ontem que foi Klipra quem matou o embaixador e a filha. Mas a gente vai sobreviver, Hole. Imagino que você se refira ao que disse o chefe de polícia aqui de Bangkok, que não consegue ver um motivo para os crimes, que Klipra talvez fosse simplesmente um lunático. Tão simples e tão incompreensível. Mas o importante é que as pessoas engulam a história. E elas estão engolindo.

— Então o escândalo já foi evitado?

— Sim e não. Conseguimos abafar a questão do hotel. O principal é que o primeiro-ministro não foi envolvido. Agora são outros assuntos que nos preocupam. A imprensa andou ligando pra cá pra perguntar por que o assassinato do embaixador não foi divulgado antes.

— E o que você respondeu?

— O que eu poderia responder? Dificuldades com a língua, mal- -entendidos, informações incompletas da polícia tailandesa no início do caso, esse tipo de coisa.

— E eles engoliram isso?

— Não, não engoliram, mas tampouco podem nos acusar de estar divulgando informações falsas. No comunicado à imprensa, dissemos que o embaixador foi encontrado morto em um hotel, o que é correto. O que você disse a eles quando descobriu os corpos da filha e de Klipra, Hole?

— Nada. — Harry respirou fundo. — Olha, Torhus, encontrei revistas pornográficas na casa de Klipra que sugerem que ele era pedófilo. Isso não foi mencionado em nenhum dos relatórios da polícia.

— Sério? Ora, ora. — Nem por um instante o tom de voz indicou que Torhus pudesse estar escondendo alguma coisa. — Enfim, sua missão aqui na Tailândia terminou, e Møller quer você de volta o quanto antes.

As cumbucas de sopa de leite de coco fervente foram servidas, e Torhus olhou para a dele com desconfiança. Os óculos embaçaram com o calor.

— O Verdens Gang deve aparecer pra tirar um belo retrato seu na chegada ao Fornebu — comentou o diplomata, sarcástico.

— Experimente uma das vermelhas — falou Harry, apontando para as pimentas na sopa.