Baratas

Jo Nesbo · Capítulo 40 de 54

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Baratas

Capítulo 38

 

SEGUNDA-FEIRA, 20 de JANEIRO

 

L øken passou o binóculo com visão noturna para Harry. — Tudo limpo — disse ele. — Conheço a rotina. O vigia vai se sentar na cabine que fica no fim da entrada de carros, perto do portão. Só vai começar uma nova ronda em vinte minutos.

Estavam ambos sentados no sótão de uma casa a cerca de cem metros da propriedade de Klipra. A janela estava fechada, mas entre duas tábuas existia espaço suficiente para o binóculo. Ou para uma câmera. Entre o sótão e a casa de Klipra, feita de madeira de teca e ornada com cabeças de dragões, havia uma série de pequenos contêineres, uma rua e um muro alto e branco com arame farpado.

— O único problema dessa cidade é que tem gente em todos os lugares. O tempo todo. Então vamos ter que dar a volta e pular o muro que fica atrás daquele contêiner.

Løken indicou a direção, e Harry apanhou o binóculo.

O ex-militar o havia instruído a usar roupas discretas, justas e escuras. Ele escolheu uma calça jeans preta e a velha camiseta preta do Joy Division. Pensou em Kristin ao vesti-la; o Joy Division foi a única banda que ele conseguiu fazer com que ela gostasse. Pensou que talvez isso compensasse o fato de ela não gostar do Camel.

— Vamos lá — disse Løken.

O ar do lado de fora estava estagnado, e a poeira pairava sobre o caminho de cascalho. Um grupo de meninos estava jogando takraw em um círculo, tentando impedir com os pés que uma pequena bola de borracha tocasse o chão, e não percebeu a presença dos dois farangs vestidos de preto. Harry e Løken atravessaram a rua, esgueiraram-se por trás dos contêineres e chegaram ao muro sem serem notados. A névoa noturna refletia uma luz amarela formada por milhões de lâmpadas de diferentes tamanhos, o que nunca permitia que Bangkok ficasse completamente no escuro em noites como aquela. Løken jogou uma pequena mochila por cima do muro e colocou um tapete de borracha fino e estreito sobre o arame farpado.

— Vai primeiro — disse, entrelaçando os dedos para que Harry apoiasse o pé.

— E você?

— Não se preocupe comigo, vá de uma vez.

Løken impulsionou Harry para que ele alcançasse o topo do muro. O detetive colocou um pé sobre o tapete e, ao passar o outro pé por cima do muro, ouviu o som do arame rasgando a borracha. Tentou não pensar na história do menino que tinha deslizado pelo mastro da Feira de Romsdal sem se lembrar do cunho que ficava na parte inferior com uma corda amarrada em volta. Seu avô havia contado que os berros do menino ao ser castrado tinham atravessado todo o fiorde.

Um segundo depois, Løken estava de pé ao lado dele.

— Nossa, você foi rápido — sussurrou Harry.

— Exercício do dia para o velho militar aqui.

Com Løken na frente, percorreram o gramado ao longo da parede lateral da casa, com a cabeça abaixada, até pararem em uma quina. Løken pegou o binóculo e aguardou até ter certeza de que o vigia estava olhando em outra direção.

— Agora!

Harry partiu, tentando imaginar que era invisível. A distância até a garagem não era grande, mas ela estava iluminada, e não havia onde se esconder entre o local onde estavam e a cabine do vigia. Løken o seguia de perto.

Harry pensava que não havia muitas maneiras de invadir uma casa, mas Løken insistira em planejar tudo até o último detalhe. Quando ressaltou que ambos deveriam correr juntos na última etapa crítica, Harry perguntou se não seria mais sensato que um deles corresse na frente, enquanto o outro ficava de sentinela.

— Pra quê? Vamos saber se formos descobertos. E, se a gente correr separado, as chances de sermos vistos é dobrada. Não ensinam nada disso na polícia hoje em dia?

Harry não teve qualquer outra objeção ao resto do plano.

Um Lincoln Continental branco dominava a garagem, de onde, de fato, uma porta lateral dava acesso à casa. Løken achava que a fechadura daquela porta era mais fácil do que a da principal, e, além disso, não era possível avistá-los do portão.

Løken apanhou as pinças e começou a trabalhar.

— Você está de olho no tempo? — sussurrou, e Harry assentiu. De acordo com o cronograma, restavam dezesseis minutos até a próxima ronda do vigia.

Doze minutos depois, Harry começou a sentir o corpo inteiro formigar. Aos treze minutos, desejava que Sunthorn aparecesse feito uma nuvem de fumaça.

Aos quatorze, sabia que teriam que abortar a operação.

— Vamos dar o fora daqui — sussurrou.

— Espere só um pouco — disse Løken, inclinado sobre a fechadura. — Um segundinho.

— Agora! — sibilou Harry entre os dentes.

Løken não respondeu. Harry tomou fôlego e passou o braço pelo ombro do colega. Løken se virou para ele, e seus olhares se encontraram. O dente de ouro reluziu em um sorriso.

— Consegui — murmurou ele.

A porta se abriu sem fazer barulho. Os dois esgueiraram-se para dentro e trancaram a porta com cuidado. Naquele exato momento, ouviram passos na garagem, viram o feixe de luz de uma lanterna passar pela janela e pela fresta embaixo da porta, e, em seguida, a maçaneta foi sacudida com força. Permaneceram imóveis, as costas contra a parede. Harry prendeu a respiração; seu coração batia forte, bombeando sangue rapidamente para o corpo inteiro. Então, os passos se afastaram.

Harry mal conseguiu manter a voz baixa.

— Você disse vinte minutos!

Løken deu de ombros.

— Mais ou menos.

Harry concordou, respirando pela boca. Acenderam as lanternas e estavam prestes a avançar pela casa quando ouviram um ruído sob os pés de Harry.

— O que é isso? — Ele dirigiu o feixe de luz da lanterna para baixo. Havia pequenas lascas brancas no chão de parquet de madeira escura.

Løken iluminou com a lanterna a parede caiada.

— Klipra é um enrolador. Era para a casa ser construída apenas com teca. Agora realmente perdi o respeito pelo cara — disse ele. — Vamos, Harry. Cada segundo é valioso!

Revistaram a casa de forma rápida e sistemática, seguindo as instruções de Løken. Harry se concentrava em fazer o que lhe fora pedido: lembrar onde as coisas tinham estado antes de mexer nelas, não deixar impressões digitais e verificar se havia pedaços de fita lacrando gavetas e armários antes de abri-los. Depois de algumas horas, sentaram-se à mesa da cozinha. Løken tinha achado umas revistas de pornografia infantil e um revólver que parecia não ser usado havia muito tempo. Tirou fotos de ambos.

— O cara se mandou com muita pressa — comentou. — Tem duas malas vazias no quarto, a nécessaire ainda está no banheiro e os armários estão cheios de roupa.

— Ele pode ter levado uma terceira mala — sugeriu Harry.

Løken olhou para o colega com uma mistura de desgosto e indulgência. Da maneira como teria olhado para um recruta esforçado, mas não muito inteligente, pensou Harry.

— Nenhum homem tem duas nécessaires para artigos de higiene, Hole.

Recruta, pensou Harry.

— Faltou só um cômodo — disse Løken. — O escritório no primeiro andar está trancado, e a fechadura é uma monstruosidade alemã que eu não consigo abrir.

Pegou um pé de cabra da mochila.

— Esperava que a gente não precisasse disso — prosseguiu. — Aquela porta vai ficar uma porcaria depois que tivermos terminado.

— Não importa — disse Harry. — Acho que coloquei os chinelos dele na prateleira errada, de qualquer forma.

Løken riu.

Usaram o pé de cabra nas dobradiças em vez de na fechadura. Harry não conseguiu segurar a porta pesada a tempo, e ela caiu para dentro do cômodo com um estrondo considerável. Ficaram parados por alguns instantes, à espera dos gritos do vigia.

— Acha que ele ouviu? — perguntou Harry.

— Não. Há tantos ruídos por habitante aqui que um estrondo a mais ou a menos não faz diferença.

Os feixes de luz das lanternas percorriam as paredes como baratas amarelas.

Na parede acima da mesa pendia uma bandeirinha vermelha e branca do Manchester United e uma foto emoldurada do time. Logo abaixo, esculpido em madeira, o brasão de armas da cidade em vermelho e branco, com um navio.

O feixe da lanterna se deteve em uma fotografia. Ela mostrava um homem com boca grande, sorridente, queixo duplo e olhos ligeiramente esbugalhados, reluzindo de alegria. Ove Klipra parecia um homem que gostava de sorrir. Tinha cabelos loiros e cacheados que balançavam ao vento. A foto devia ter sido tirada a bordo de um barco.

— Ele não se encaixa exatamente na imagem de um pedófilo — disse Harry.

— Geralmente é assim — respondeu Løken. Harry olhou para o colega, mas foi cegado pelo feixe da lanterna. — O que é isso?

Harry se virou. Løken havia direcionado a luz a uma caixa de metal cinza no canto. O detetive reconheceu o objeto de imediato.

— Sei o que é isso — disse, contente por, finalmente, ser capaz de dar uma contribuição. — É um gravador que vale meio milhão de coroas. Vi um idêntico no escritório de Brekke. Ele grava conversas telefônicas, e a gravação e o registro do horário não podem ser alterados, de forma que tudo pode ser usado em tribunais. Bom para quem faz negócios na casa dos milhões ao telefone.

Harry folheou os documentos sobre a mesa. Viu papel timbrado de empresas japonesas e americanas, acordos, contratos, minutas de contratos e alterações nas minutas. O projeto do novo elevado era mencionado em muitos deles. Observou um livreto que trazia o selo do Barclays Tailândia na capa. Era um relatório sobre uma empresa chamada Phuridell. Em seguida, ergueu a luz da lanterna. E parou quando a luz fixou um objeto na parede.

— Na mosca! Olha aqui, Løken. Essa deve ser a outra faca que você mencionou.

Løken não respondeu; estava de costas para Harry.

— Você ouviu o que eu...?

— Temos que sair daqui, Harry. Agora.

Harry se virou e observou a lanterna de Løken apontando para uma pequena caixa na parede com uma luz vermelha piscando. No segundo seguinte, foi como se uma agulha de tricô estivesse sendo enfiada em seu ouvido. O apito era tão alto que ele ficou quase surdo de imediato.

— Alarme com delay! — gritou Løken, já no meio do caminho. — Desligue a lanterna!

Harry cambaleou escada abaixo na escuridão, atrás de Løken. Conseguiram chegar até a porta lateral que dava para a garagem.

— Espere. — Harry ajoelhou-se e pegou os pedaços de gesso no chão.

Do lado de fora, já podiam ouvir vozes e o tilintar de chaves. A luz da lua ganhava um tom azulado ao atravessar o mosaico de vidro que ficava acima da porta e refletia no chão de madeira diante deles.

— O que você está fazendo?

Harry não teve tempo de responder, porque eles ouviram a maçaneta girar. Chegaram até a porta lateral e, no segundo seguinte, já estavam correndo de cabeça abaixada pela grama, enquanto o gemido histérico do alarme ficava cada vez mais fraco atrás deles.

— Essa foi por um triz — disse Løken, quando já estavam do outro lado do muro. Harry olhou para ele. Viu o reflexo do luar no dente de ouro. Løken não estava sequer ofegante.