Dangerous

Daya Engler · Capítulo 10 de 45

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Dangerous

Capítulo 10

 

Passou quase uma semana e o clima na mansão continuava pesado, roubando o meu animo. Pietra tinha neutralizado todas as minhas tentativas de explicações, nem mesmo olhar em minha cara ela olhava. Isso era demais. Eu tinha dado um tremendo vacilo, mas quem não vacilava?

E, foda, mesmo eu pisando em falso, e eu sabia que tinha feito, ainda éramos amigas. E se não, bem, ela devia ao menos dar-me o direito de me explicar em nome dos velhos tempos.

Pensar que ela tivesse colocado um fim na nossa amizade por uma bobagem, enfurecia-me. Sua indiferença estava me colocando de cabelos brancos.

Entretanto, se de um lado havia Pietra, do outro havia Heithor.

Ele e eu não tínhamos transado mais, embora o mesmo tenha dormido em minha cama por algumas noites. Não era como se eu tivesse convidado-o. Eu nunca o via chegar, nem sair. Apenas tinha consciência de que ele estava lá quando já estava zonza de sono.

Seja como for, esses dois mereciam o título de irmãos infernais.

A situação estava insustentável e minha paciência nula. Eu não poderia suportar mais nem um minuto daquilo. Então, tomei minha decisão. Depois do banho, encabecei para a cozinha a fim de um lanche rápido e, logo após, eu colocaria minha decisão em prática.

Estava terminando o meu lanche quando Martha entrou na cozinha.

— Zia, a senhora sabe onde Pietra está?

— Ela está tomando sol na piscina.

— Sozinha?

— Com Josie.

Murchei um pouco. Mas também não era como se Pietra já não tivesse contado a Josie e, bem, ela saberia de qualquer maneira porque eu não pretendia omitir mais nada de minhas amigas.

Bebi o restante do meu suco.

— Bambina?

Levantei o olhar.

— Sim?

— Resolva suas pendências com ela, mas vá com calma, sì? Não gosto de vê-las assim. Essa casa está senza vita e ver cada uma num canto me corta o coração.

Pensei sobre isso, e então, minhas bochechas coraram quando o óbvio se concretizou no olhar de Martha. Ela sabia o porquê de Pietra e eu estarmos sem nos falar, quero dizer, em partes, porque eu não queria acreditar que Pietra fora capaz de dizer os pormenores do flagra.

— A senhora acha que ela vai me perdoar?

Ela deu-me um sorriso reconfortante e se sentou juntou a mim ao redor da ilha.

— Ela te ama, cara mia. Somente está chateada, mas tenho certeza que irá te compreender se for sincera com ela. Aliás, até arrisco em dizer que ela já te perdoou.

Ou seja, ela estava me castigando por prazer.

— Grazie zia, — eu disse, com uma exalação de alívio e, em seguida, abocanhei o último pedaço do meu lanche.

— É novo?

— O quê?

— O colar. É novo? Não tinha reparado que usava qualquer coisa no pescoço.

Segurei o pingente num gesto inconsciente.

— Eu ganhei. Achei melhor usá-lo do que deixar na caixa.

— Fez bem. È bello.

Sorri, olhando para ele.

— Sim, é.

— Va bene! Agora mova seu traseiro e vá endireitar as coisas com a sua amica.

— Ti amo.

Saltei da banqueta e dei um beijo estalado em sua bochecha.

— Ti amo também, bambina.

Encontrei as garotas deitadas nas espreguiçadeiras à beira da piscina. O sol não estava muito forte nessa manhã. Clima fresco e agradável para uma conversa do cão, meditei, sentindo um frio na barriga. Hesitei incerta sobre o que esperar.

Andiamo! Isso não são horas de se acovardar.

Sem fazer alarde, eu me aproximei, sentando na espreguiçadeira ao lado de Pietra. Josie sorriu para mim da outra e minha torturadora abriu os olhos, cerrando-os minimamente quando me fitou.

Eu sabia o que viria depois, então me apresei em dizer:

— Me escute, per favore, Pietra — supliquei, e ela virou a cara. Irritação veio à borda, eu respirei fundo, afundando-a de volta. — Não podemos permanecer assim. Sei que não tenho nem um direito de te pedir seja lá o que for, mas eu estou te implorando. Você não precisa dizer nada se não quiser. Apenas me ouça, por favor, e depois eu vou embora, se você não me quiser mais aqui.

Sua cabeça se voltou para mim, com a expressão chocada enquanto ela se sentava.

— Que merda você está falando?

— Não suporto mais esse clima entre nós e a sua indiferença está me enlouquecendo.

— Eu vou ver se a tia precisa de algo.

— Fique. Seja o que for que Antonella tenha a dizer pode ser ouvido por você, também. Ou tentará arrumar uma merda fazendo outra?

— Não Pietra, — empurrei entre dentes e olhei para Josie que permanecia de pé. — Sente-se Josie, por favor. De qualquer maneira, depois você saberá o que nós conversamos. Aliás, não é como se você já não soubesse o porquê de Pietra estar me pisando.

— Por que peguei você e meu irmão trepando na sala quando você afirmou não ter qualquer interesse nele? Quando conversamos e eu pedi para você manter distância dele? Ou talvez, por que eu sempre te contei tudo muito antes da promessa que fizemos na Itália? Nunca escondi merda nenhuma. Você me enganou. Mentiu para mim na cara dura. Tem ideia de como eu me senti traída? E pior, por uma das pessoas que eu mais confiava e que eu acreditava confiar em mim também.

— Eu confio em você — murmurei ofendida.

— Ah, sì? Que bela maneira de demonstrar, não? Quase um mês. Um puto de um mês mentindo é realmente uma maneira perfeita de demonstrar sua confiança. Grazie mille.

— Eu sinto muito, Pietra, de verdade. Sinto mais do que posso dizer.

— É claro que sente. Mas isso não vai apagar o que você fez, nem a cena infernal que ainda queima os meus olhos. Tive pesadelos horrendos com aquilo.

— Pietra pegue leve — Josie interveio.

— Traição é traição. Não tem como pegar leve com isso, ainda mais quando a amiga, aliás, melhor amiga me fez de trouxa. Você se lembra da promessa que fizemos na Itália, Antonella?

Ergui o olhar para ela. Era uma merda estar errada e ter consciência disto, até poderia tentar me defender com uma desculpa esfarrapada, mas Pietra era importante para mim.

Ela não esperou pela resposta que eu não tinha.

— Sabe o que é impressionante? Eu já desconfiava. Davvero. Chame isso do que quiser; sexto sentido, intuição feminina, mas alguma coisa me dizia que havia algo acontecendo entre vocês logo quando se conheceram. Havia algo lá, sutil, mas havia.

Isso me surpreendeu então Pietra jogou a bomba furando os meus olhos com os seus.

— Eu não estou magoada com você pela cena que flagrei, embora tenha pedido para você se manter longe dele. Porém, como disse naquele dia em que nós conversamos, eu não poderia e nem posso te obrigar a fazer isso, tampouco, viraria a cara simplesmente porque você não acatou um desejo meu.

De repente, um sentimento estranho me tomou, como um pressentimento.

— Foi à mentira, a omissão, o cazzo que quiser chamar isso, que me deixou puta com você. Foi você quebrar a nossa promessa e, admitindo ou não, ter me considerado uma idiota. Você me desrespeitou na cara dura. Sim, Antonella. Foi exatamente isso que você fez. E, cara mia, se você não gosta de ser a autora do sentimento, imagine eu sendo a vítima dele?

— Pietra...

— Acha que não percebi o seu espanto quando eu os apresentei? Que não vi a estranheza entre vocês? E os olhares? Sua súbita timidez? Thor estava louco para sair naquele dia. E quando digo louco, eu quero dizer exatamente isso. Pirado, quase pulando fora da pele. Mas, então, milagrosamente depois que eu os apresentei, ele ficou muito tranquilo sendo que ele próprio tinha dito antes que não poderia remarcar o tal compromisso inadiável. Eu não sei como isso se encaixa, mas sei que tem um jeito... Então ele estava todo puto proibindo nós duas de flertar com os caras. Sobre mim, eu até entendo. Mas você? Não tinha sentido. E quando você foi para o seu quarto com uma súbita dor de cabeça, eu estanhei, ainda assim deixei para lá. Isso até Norah ir nos procurar para saber se sabíamos de Thor quando eu pensei que eles dois estavam juntos... Eu confesso, não achei que existia algo aí, mesmo assim resolvi ir ver como você estava.

OH. Merda!

— Não estou acompanhando aqui Pietra. Você não disse que ela estava dormindo?

Eu respondi incrédula:

— Ela me achou no quarto dele.

O queixo de Josie despencou. Pietra rolou os olhos.

— Ouvir é o termo certo.

— Perché non me l’hai detto39?

— Eu não disse, porque eu queria que você me contasse, caralho! Eu esperei que você me dissesse a verdade, não queria acreditar que estava mentindo para mim.

— Por isso me disse aquelas coisas — eu murmurei para mim mesma, me lembrando da nossa conversa e de quão estranha ela tinha sido.

— Sim, mas eu não menti quando disse que preferia que vocês não se envolvessem. Meus motivos seguem sendo os mesmos e minha preferência também. Isso, no entanto, não me dá direito de decidir o quê você e ele podem ou não fazer. Eu jamais teria essa arrogância, Ella. Eu apenas quis ser honesta com você e esperei que me devolvesse isso. Vê? Nunca foi sobre você e Thor afofando os colchões, mas sobre você e eu. Nossa amizade.

— Eu vejo isso.

— E vocês me acusando de ser rápida — Josie zombou, rindo.

— Me perdoem. Okay? Sobretudo, você, Pietra. Foi errado o que fiz, mas não tive a intenção de te magoar e as coisas não aconteceram como vocês imaginam.

Josie se sentou ao lado de Pietra.

— Eh, agora eu fiquei curiosa.

Respirei fundo, correndo as mãos pelo cabelo.

— Eu já o conhecia quando você me apresentou, quero dizer, não o conhecia por nome. Vocês sabem.

— Sim, sim. Nada de nomes na noite. E isso eu já imaginava, como disse, só não encaixava e eu não tinha certeza — Pietra disse impaciente.

— Eu o conheci no clube na sexta... e passamos a noite juntos.

— Espere aí... Ele foi o motivo do seu atraso e você o motivo dele querer sair? — ela perguntou devagar, como se somente naquele momento se desse conta.

— Capisce agora? Eu fiquei assustada e quase tive um ataque do coração quando o vi aqui. Dio, isso nunca aconteceu comigo e eu não soube o que fazer. Eu realmente estava decidida a contar para você quando foi ao meu quarto. Mas, então, você me disse aquelas coisas e eu tive medo. Além do mais, não acreditava que iríamos ficar junto novamente.

— Ah, porra, eu te chamei de puttana — ela caiu na risada.

— Não tem graça.

— Tem sim.

— É, você está certa, principalmente, na parte que disse que não ia tomá-lo de mim.

Ela parou de rir e fez uma expressão de nojo.

— Che schifo40! Eu não sabia.

— Eu também não.

Ela suspirou.

— Io capisco... Isso é meio louco. Acho que eu também iria pirar. Ainda assim, não justifica o fato de que você continuou a mentir para mim e que tinha a intenção de continuar a fazê-lo, uma vez que acreditava que não ficaria mais com ele. Foi isso que disse.

— Maledizione, Pietra! Eu realmente não queria esconder de você, eu iria contar. É só... eu não sabia como fazer e acabei me enrolando. E eu omiti.

— Per me è uguale41. Mentir e omitir. Qual a diferença quando no fim o resultado foi me enganar?

— Você não fez o mesmo?

Ela levantou o dedo e sua expressão se apertou.

— Oh, não se atreva Antonella! Não há comparação.

— Será? Porque você já sabia que tínhamos ficado e ainda assim se fez de boba, e no processo fez a mim também. Foi por motivos diferentes dos meus, mas o resultado foi o mesmo.

— Va bene. Você tem um bom ponto. Não nego — admitiu contrariada.

— Hey! Eu também fui lesada nessa conta aí. — Josie soltou, com um ar indignado. Pietra e eu a encaramos. Ela bufou. — Caramba, vocês são tão safadas. É isso mesmo. Não adianta me olharem desta maneira não. Safadas e hipócritas até a alma.

— Você tomou sol demais? — questionou Pietra.

— Isso. Zombe, cadela — ela murmurou, com um bico infantil. — Estão aí as duas indignadas porque uma escondeu da outra, uma que estava pegando o Sr.Italiano-coisa-quente, e a outra por saber e não dizer, quando no fim a mais prejudicada fui eu.

Minha expressão era de pura confusão quando sondei cautelosa:

— E como isso aconteceu?

— Vocês duas me enganaram também, porque nem você, Ella, disse que já tinha ficado com ele. E Pietra, tampouco, me contou que já sabia.

— Eu disse que desconfiava.

— Quando você já sabia da verdade. Ou seja, além de omitir você me usou quando pediu para eu não dizer a Ella que você foi procurá-la, e que Norah tinha estado com a gente na piscina.

Eu precisei de um momento para entender o que estava acontecendo.

— Bene, — comecei pensativa — neste caso, estamos quites Josie. Você e Pietra omitiram para mim. Ela e eu omitimos para você. Dois para cada e um para Pietra.

Pietra soltou um riso frouxo.

— Josie me desculpe, sim? Não menosprezei você, eu apenas queria me certificar que Ella não mentia para mim e, bom, não queria acreditar que ela poderia realmente me esconder algo.

— Vou pensar — Josie desdenhou, mas a diversão em seu olhar a entregava.

— E você, Antonella, não pense que por isso escapou do que fez.

— Va bene. O que você quer ouvir? Sinto muito? Eu realmente sinto. Perdonami? Já pedi. Eu errei sim. Primeiro fiquei com medo e, caralho, aquele bastardo não saia do meu pé. A culpa é dele.

Seu semblante ficou sério.

— Ele te obriga?

— Claro que não.

— Certo... Só lembre que ele é meu irmão antes de chamá-lo de bastardo.

Lentamente, respirei profundo, acalmando-me.

— Escuta P, eu sinto ter escondido a verdade. Sei que nada do que eu diga vai mudar o que aconteceu, mas entenda, ele... Merda! Eu nem sei o que dizer. Eu somente posso afirmar para você que nunca tive a intenção de te ferir ou magoar. Eu confio em você e, bem, a única coisa que posso te prometer é que não vou te esconder nada mais. — Olhei para Josie. — Nem de você... Me desculpem. Realmente não foi minha intenção.

Houve um comprido silêncio enquanto eu aguardava o veredicto final.

— Eu proponho que zeremos isto e comecemos de novo — Josie quebrou o silêncio. — A promessa aí não me incluía, pois eu não estava na Itália com vocês então façamos uma nova.

Olhei para Pietra, esperançosa.

— Tutto bene. Mas ainda estou chateada.

— Ah, qual é? Eu sou a mais lesada aqui e nem por isso estou querendo arrancar os seus olhos. — Josie mofou-se e acrescentou. — Todas nós erramos, mas não é por isso que deixaremos de sermos amigas. Não podemos exigir perfeição uma da outra, porque somos imperfeitas...

— Fale por você — brincou Pietra.

Josie pôs os olhos em branco.

— Engraçadinha. Estou falando sério, garotas. Nem sempre contaremos tudo uma para a outra e a ninguém mais, porque há coisas que são somente para nós mesmas, quero dizer, somos humanas. Um erro e outro nós vamos cometer, por mais que tentemos sempre sermos honestas uma com a outra. A diferença está na atitude que tomaremos a seguir como, por exemplo, a sua Ella de admitir e tentar se redimir. Isso deve ser levado em conta. Além do quê, essa situação veio para o bem.

— Eu não vejo como isso pode ser — resmungou Pietra.

— Como assim?

— Uh, vocês sabem, tinha essa promessa aí e eu não estava incluída.

— Mesmo não estando conosco na Itália, obviamente, eu a estendi para você quando nos tornamos amigas. — notifiquei-a.

— Eu idem.

Ela fez um gesto fugaz com as mãos.

— Okay. Okay. Mas agora, podemos fazer uma nova. Vocês não fizeram nada com sangue, cuspe ou essas nojeiras do gênero, não é? Porque isso, definitivamente, eu não vou fazer.

— Eca! — exclamei com nojo.

— Claro que não, sua louca. Que tipo de filme anda vendo?

Josie colheu os ombros.

— Apenas me certificando. Afinal, vocês não batem bem da cabeça... Certo, sou somente eu quem está achando isso emocionante ou é impressão minha?

Pietra e eu bufamos.

— Chatas! Agora é sério, dêem as mãos... Não importa o que aconteça e aonde a vida nos leve, nós sempre estenderemos a mão uma para a outra e seremos sinceras. E se acaso, algum dia tivermos de segurar a língua sobre algo que as demais deveriam saber e alguma de nós descobrirmos, nós não iremos acusar, nem sentenciar a língua presa antes de ouvirmos os seus motivos, okay?

Assentimos e Pietra completou:

— E nunca colocaremos um homem acima da nossa amizade.

— Isso foi uma indireta? — sondei com o olhar cerrado. Ela dissimulou e eu adicionei, olhando-a com uma expressão apertada. — E jamais daremos indiretas, pois isso é coisa de gentinha covarde.

— Okay. Okay. Sem indiretas e homens acima das amigas. Algo mais?

— Não, — Pietra e eu dissemos em uníssono.

— Sempre seremos mais que simples melhores amigas, somos irmãs de coração — Josie declarou, apertando nossas mãos. — Eu amo vocês. Sempre vou amá-las.

— Sempre — eu disse.

— Sempre — Pietra confirmou.

Olhei para ela sentindo meu coração mais leve, contudo, ainda havia uma pequena, mas notável incerteza me espinhando.

— Você me perdoa?

— Eu já te perdoei há alguns dias, Amada, mas queria que você sofresse um pouquinho. Era justo depois da cena de terror que me deu — confessou sádica. — Então, vocês ainda estão saindo?

— Não, — lambi os lábios, –– quero dizer, ele esteve dormindo em meu quarto por algumas noites, mas nós não transamos mais depois, bem, depois do que viu.

— Puta merda! Não me lembre disso que meu estômago revira.

Josie soltou um risinho e, em seguida, se levantou indo até a mesa ao lado.

— Não obstrua a informação, — ela pediu quando retornou, entregando um copo de suco de laranja para cada e se sentou. — Queremos os detalhes, Ella.

— Exceto os sórdidos. Já tenho muito de vocês dois para queimar meus olhos à noite.

Tomei um gole do meu suco.

— Não há nada para contar. Nós apenas ficamos algumas vezes.

Deslizei minhas costas no respaldo da espreguiçadeira. Embora estivesse novamente confortável pelo clima estar mais ameno entre Pietra e eu, não pude deixar de sentir uma pontinha de incomodo. Não havia nada para falar, e eu não queria valorizar algo que não era importante para mim.

Entretanto, suspirei rendida quando as mirei outra vez. Suas expressões estavam determinadas a me tirarem os ossos do corpo caso eu não abrisse a boca.

— Va bene, mas em minha defesa digo que não há nada de relevante.

— Isso somos nós quem decidirá — Josie decretou.

Dei a elas o que queriam. Claro que, editando uma e outra parte.

— Por que você aceitou? — Pietra especulou quando terminei de relatar o acordo que fizemos.

— Porque eu dei a minha palavra e, bem, eu não vou negar que ele é um cara sexy.

— Ele é quente, não?

— Como o inferno, Josie. Mas é um cretino mandão também.

— Você gosta dele, não é? — Pietra que até então apenas ouvia, soltou, de repente.

— Não.

— Então por que você ficou com ele de novo? Você nunca foi disso.

— Pietra tem razão, — opinou Josie. — Você sempre disse que figurinhas repetidas não completam o álbum, mas repetiu ele muitas vezes.

— Não façam essas caras, porque não há chance alguma de eu sentir isso por ele, além do tesão e da raiva. Ele é bom. Porém é só isso. — Mirei Pietra. — E você, meu bem, também nunca foi de repetir. No entanto, sempre que possível está trancada com Nathan em alguma parte da mansão.

— Certo. Você me pegou, contudo, você é mais radical do que eu. Sempre foi assim, e eu nunca me incomodei de repetir uma figurinha, se ela valia o meu tempo.

— Você está gostando do Nathan?

— Você quer dizer, me apaixonar? Talvez. Não sei, ainda é muito cedo. Porém, não descarto essa possibilidade. Ele é maravilhoso e eu adoro nossos momentos juntos. Ele me faz sentir bem... Especial. Sei lá, parece que estamos meio que em sintonia. Isso é bom.

— Quero ver quando o seu irmão souber disso — comentei sem conseguir me conter.

— Eu idem. Ele não parece o tipo que simplesmente aceita que a irmãzinha viva um romance com o amigo bonitão, porque é um defensor do amor. Ele provavelmente irá te matar.

— E castrar Nathan.

Pietra fez uma careta enquanto nós riamos.

— Pra que amigas, eh? — Ela bufou. — Pior é que mamma nos flagrou.

— Não brinca!

— E o que ela disse? — eu quis saber.

— Ela não foi contra. Gosta dele, mas, enfim... Ela disse que sério ou não, será eu quem terá de contar a Thor e me aconselhou a fazê-lo antes que ele descubra por si mesmo.

— Eu concordo. Não que ache que seu irmão levará isso numa boa, ainda assim é melhor ele saber por você mesma a saber por boca de terceiro. Pior, flagrar vocês. Visto que vocês, Castellammare, parecem ter um timing perfeito. Eu não bobearia.

Balancei a cabeça em concordância com Josie.

— Eu sei. Penso assim também. Mas, — ela fez uma pausa, — ele e eu não estamos namorando, quero dizer, não é nada sério. Estamos curtindo o momento.

— É isso que ele disse a você? Que estão curtindo?

— Na verdade, Amada, eu não perguntei, nem vejo motivos para fazer isso. Não é como se ele tivesse me proposto algo mais. Então por que eu deveria levar isso para o conhecimento de Thor quando podemos parar de sair hoje mesmo?

— Mas vocês não vão.

— Não, Ella.

— Com conhecimento de causa, eu digo para você abrir o bico logo.

— E dizer o quê? “Então, maninho querido, sabe aquele seu amigo? É, aquele gostosão com o moicano e a tinta sexy. Isso mesmo! Nathan. Então, ele e eu estamos testando o colchão há algum tempo, que não vem ao caso, enfim, só curtindo o momento mesmo.”

— Não precisa dizer com essas palavras, P.

— Acha que vai adiantar a forma que eu digo, Josie? Cortês ou não, Thor ligará os pontos numa fração de um segundo. Ele bem sabe que eu não estaria apenas sorrindo e conversando com Nathan. E, este não é problema, mas sim o que dizer a ele. Thor não vai tomar isto bem. É capaz de escorraçar Nathan daqui, se não fizer coisa pior, e me colocar numa masmorra.

— O Moicano te pegou de jeito, uh? — Josie divertiu-se.

— De jeito, de lado, de costa, embaixo e em cima, até do avesso se brincar.

Caímos na risada. Eu mirei Josie.

— E você, Santa? Como anda o seu caso com o astro?

Os olhos dela brilharam e ela corou.

— Ele é incrível!

— Se começar a babar eu vou te dar uma bofetada — Pietra avisou com dissimulada seriedade.

Eu ri baixinho. Josie sempre rezava uma missa de elogios para Eric antes de chegarmos ao ponto que queríamos. Era engraçado demais e às vezes (muitas vezes) tedioso.

— Oras, Pietra, eu não tenho culpa se você é uma clandestina. Aliás, percebe que de nós três e, sendo você quem estava toda brava com Ella, é a única que mantêm segredo do seu affair?

Pietra fechou a cara, e eu ri com gosto.

— Por segurança.

— Claro. E só para você saber, eu não tenho um caso. Estamos nos conhecendo como pessoas normais fazem. Você deveria experimentar algum dia.

— Que emocionante! — ironizou Pietra. — Então, a quantas anda esse “nos conhecendo”?

Josie mordeu o lábio. Sua expressão era de puro mistério enquanto ela fazia suspense.

— Ele quer falar com os meus pais — pausadamente, ela revelou.

Foi o que bastou para um pandemônio se instalar.

Eu estava feliz e tranquila novamente por ter me resolvido com Pietra. E apesar de achar frufrus uma bobagem e perda de tempo, estava contente por Josie também, que parecia ter finalmente encontrado seu cavalheiro de armadura brilhante. Confesso que, me sentia um pouco receosa. Odiaria ver que o quadro que ela estava pintando fosse somente uma ilusão, mas preferi acreditar que Eric realmente estava com ela nessa. Afinal de contas, ele iria pedi-la em namoro aos seus pais. Algo antiquado e um tanto quanto piegas, contudo, se isso a fazia feliz, eu também ficava por ela.

Horas mais tarde acompanhei Josie até seu carro, porque Pietra recebeu uma mensagem suspeita e sumiu. Provavelmente, ela estava atracada com Nathan em algum cômodo da mansão.

Despedimo-nos, mas antes dela entrar no carro, eu disse:

— Grazie, — ela me olhou com um ponto de interrogação enquanto segurava a porta do carro aberta. — Você sabe. Pelo o que fez mais cedo me ajudando com Pietra.

— Vocês me esconderam a verdade, também.

— Eu sei e me desculpe por isso. Foi idiota da minha parte. Mas sei que interveio, fazendo valer o seu direito para me ajudar. Obrigada, de verdade.

Ela sorriu.

— Sim, foi idiota. Porém somos amigas e sei que não fez por mal. Além do mais, eu não poderia deixá-la tripudiar em cima de você quando ela também errou. E nós duas sabemos que, embora amemos aquela maluca, ela adora o papel de carrasco e precisa de freio de vez em quando.

— Ah, eu sei.

Ela entrou no Toyota Camry vermelho e deu partida no motor.

Eu já estava me virando para voltar para a mansão quando ela se divertiu:

— Então, será que em breve veremos esse coraçãozinho de ferro derreter? Ou já está derretido?

Mostrei-lhe o dedo do meio.

— Va’ a cagare!