Dangerous
Capítulo 39
Através da perplexidade eu concentrei meu ibope em apenas uma pessoa. Marcela. O pulsar grosseiro do meu coração tão forte, que minha pele parecia vibrar.
Esclareci a garganta e pisquei para fora um pouco do choque, obrigando-me a reagir.
Eu não tinha ouvido direito.
— Você... você... você está... — Minha voz tornou a fugir ao mesmo tempo em que as palavras pareciam bailar ao redor da minha mente. Respirei fundo uma e outra vez. Tudo parecia estar em câmera lenta quando arqueei as sobrancelhas, tentando de novo, de maneira pausada, enquanto gesticulava em torno da minha barriga. — Você está dizendo que há um...
Não consegui terminar a frase. A palavra simplesmente não me vinha em mente, mesmo minha língua se recusava a pronunciá-la. Então eu comecei a rezar em silêncio.
— Sim, querida. Você tem um lindo bebezinho dentro de você. Aposto minha carreira nisso.
Eu soltei um riso frouxo, minhas mãos e cabeça agitadas.
— Não, não... Isso... isso... isso... Apenas não. Não é possível. Confie em mim, não é.
— Pela hora tardia não podemos garantir um exame de sangue, porém um de farmácia que é quase tão eficaz quanto, irá nos dizer, se não quiser esperar até amanhã. Mas você está grávida, Antonella...
Ela continuou com o discurso profissional, mas eu era incapaz de emprestar atenção. Todos os meus sentidos pareciam paralisados naquele momento. Minha mente então ficou mais limpa que um dia de céu límpido, impedindo-me de processar a informação por completo.
Virtualmente, me senti recebendo abraços e felicitações. Meus descrentes olhos balançando entre os vultos dos presentes, registrando sorrisos e um rosto mal humorado.
Oddio...
Não havia expressão em minha face lívida. O sangue parecia ter sido drenado do meu corpo, que agora estava frio. Um arrepio horripilante subiu pela minha coluna, congelando-me até a medula, em contrapartida, começou a escavar algo lá dentro. Algo que ao primeiro sinal de luz injetou sangue quente nas minhas veias e o fez correr novamente, ditando meu coração a pulsar rápido.
Eu estava neutralizada sobre os meus pés, como uma perfeita idiota.
Passado alguns segundos ou minutos talvez, não sei ao certo, minha mente descongelou e voltou a trabalhar, freneticamente, assimilando toda aquela situação.
Grávida. Grávida. Grávida. Grávida.
Isso não pode estar acontecendo. É uma brincadeira, pensei, numa mistura de pavor e incredulidade enquanto tomava rasas respirações. Porém, mesmo enquanto eu me negava a acreditar, a palavra se repetia em minha cabeça acompanhada de flashes. Mas não podia ser!
Maldição, alguém ali estava me sacaneando. Era uma pegadinha de muito mau gosto. Não tinha outra explicação. Eu não podia, aliás, me recusava a acreditar no absurdo que ouvira.
Não está acontecendo. Este é somente um maldito pesadelo muito realista que irá desaparecer quando eu abrir os olhos. Abra os olhos Antonella. Abra a porra dos olhos. Agora.
Todavia, eles estavam abertos. Arregalados. Tão grandes, que doíam.
Thor e eu nunca tínhamos usado camisinha, era certo. Ele tinha sido o único ao qual me permiti tal extravagância e, segundo o próprio, ele também nunca tivera se desprotegido antes. Tínhamos feito exames. Estávamos saudáveis e limpos. E, inferno, eu tomava injeção a cada três meses antes mesmo dele aparecer, justamente, para que uma desgraça como essa nunca acontecesse e agora...
Meus joelhos fraquejaram quando o reconhecimento da seriedade naquelas palavras se instalou em minha mente acompanhada dos meus momentos de estranhezas durante as semanas anteriores.
A verdade era inegável, e com o coração a mil percebi que ela sempre estivera lá, porém eu me negava a vê-la. Para mim não fazia sentido, não era possível. Eu me cuidava, merda! E, agora, ela estava me acertando com um bloco de cimento. Dura. Impiedosa. Loucamente.
Soltei o ar, cambaleando para trás quando minhas pernas amoleceram desprovidas de ossos sólidos. Porém, antes que chocasse meu traseiro contra o chão duro, mãos quentes e firmes, que eu conhecia bem se fecharam em torno da minha cintura e me acomodaram num assento macio.
Em alguma parte distante da minha cabeça, eu ouvi Thor falar comigo. A princípio não reconheci seu tom. Era diferente de qualquer outro que já tenha ouvido. Minha cabeça dava voltas.
— Ella, meu amor, olhe para mim, — pediu ele, segurando meu rosto entre suas mãos. Levantei o olhar para ele. — Você está bem?
Eu continuei a olhar para ele em silêncio.
Thor estava ajoelhado na minha frente. Sentia seus dedos acariciarem as maçãs do meu rosto, com suavidade. Puxei o ar pela boca e desviei os olhos dele, percorrendo a sala sem ver ninguém antes de tornar a pousá-los nele. Havia um brilho intenso em seus olhos azeviches.
— Tudo bem?
— Io... — minha voz morreu.
Como eu posso estar bem? Ele não ouviu o que Marcela disse? Ou eu estou escutando coisas demais? Dio, devo estar enlouquecendo...
— Eu sei, querida. Isso... Deus, isso é inesperado para mim, também. Grávida... Cacete, eu ainda não posso acreditar que você está grávida... Jesus, eu vou ser pai. Vamos ter um bebê.
— Thor? — chamei num tom esganiçado.
— Entendo que você está assustada. Confie em mim, eu também estou. Atemorizado seria a palavra certa. Não esperávamos por isso... Caralho, realmente nós não esperávamos por isso, não é mesmo? Está sendo uma surpresa. Uma baita surpresa! Céus, eu...
Segui olhando-o sem compreender enquanto ele se perdia em sua própria descrença.
Na verdade, eu não estava assustada, senão indo ter uma taquicardia. Até meus ossos tremiam. E, na boa, esse não era o tipo de surpresa que eu apreciava. Definitivamente, não era.
Ele tirou as mãos de meu rosto e as pousou sobre minha barriga, soltando um suspiro pesado. Eu endureci atordoada, olhando para o sorriso amplo esticando a face dele então ele me fitou com intensidade. Seus olhos estavam marejados e sorridentes, de uma maneira perturbadora.
Thor prosseguiu:
— Deus, Antonella,eu te amo tanto, neném! Você não tem ideia do quanto está me fazendo feliz. Não há nesse mundo um homem mais feliz e completo do que eu neste momento, meu amor. De tudo que poderia dar-me, isso, nosso bebê... Eu amo você. — Suas mãos passaram acariciar minha barriga enquanto meus olhos se estreitavam, formando um vínculo apertado entre minhas sobrancelhas. A voz dele agora não era mais que um sussurro baixo e terno, cheio de emoção. Uma emoção que para mim não fazia sentido algum quando ele acrescentou. — Eu sei, sentir medo é normal. Deus sabe que eu estou pelas bordas aqui, mas confie em mim, neném, tudo ficará bem. Eu vou cuidar de você e do nosso bebê. Sempre. Não vou sair do seu lado um minuto sequer. Porra! Eu estou tão feliz Ella, que minha vontade é gritar aos quatro ventos o quanto amo você.
Ele colou seus lábios nos meus. Sem aviso. Não me dando chance de recuar e me beijou profundamente. Fiquei imóvel enquanto seus lábios firmes tomavam os meus, de maneira apaixonada, que em outra ocasião teria me colocado quente da ponta dos pés até a raiz do cabelo.
— Thor?
— Desculpe meu amor, eu estou aqui falando sem parar e sendo menos prático, mas eu estou muito emocionado... — Ele tomou fôlego, sorrindo com presunção. O sorriso tosco não deixava seu rosto. Estava lá, tatuado. — Eu vou tentar ser o mais direto possível.
— Thor o quê...?
Sua expressão se voltou muito séria. Uma comoção que me deixava de pelos arrepiados reinou resoluto dentro de seus negros olhos brilhantes.
— Ella, eu não gosto de rodeios então vou direto ao ponto.
As mãos dele deixaram minha barriga e seguraram as minhas mãos, entrelaçando nossos dedos.
Enfim, ele colocou a cabeça no lugar, pensei com um fio de alívio se afundando dentro de mim, sentindo uma chama de esperança nascer em meu peito. Nem tudo estava perdido.
— Baby, você não tem que se preocupar com nada exceto em se cuidar e cuidar do nosso bebê. Em um ou dois meses no máximo eu consigo organizar tudo para que possamos nos casar, antes da sua barriga aparecer. Imagino que você não queira entrar na igreja com a barriga aparecendo, não que isso fosse me incomodar. Ao contrário, mal posso esperar por isso...
Pisquei. Uma. Duas. Três vezes.
— Como é? — sondei baixinho, sentindo a chama de esperança se apagar bem diante de meus olhos e o desespero a um triz de transbordar.
Igreja? Casar? Que porra era essa?
Eu não queria me casar de nenhuma maldita maneira!
A voz dele alardeou a minha volta, as palavras saindo frenéticas.
— Não vou te deixar sozinha. Eu prometo. Isso significa que vou deixar meu trabalho, apenas precisarei de um ou dois meses para me organizar então seremos somente nós três. Não quero você ou o nosso bebê correndo perigo por causa do meu fodido trabalho. Enquanto isso, as garotas e a Martha podem te ajudar nos preparativos para o nosso casamento. Ou pode chamar suas tias e sua mãe. Ou, foda-se, chame quem você quiser. Não importa o quanto custar, o que quiser é seu. Semana que vem nós podemos marcar a data e visitar seus pais, se eles não puderem vir antes do casamento. Cacete, nem sei se poderá viajar. De qualquer maneira, eu vou falar com eles. — Ele fez uma breve pausa então encostou a testa na minha, seu olhar dentro do meu quando me falou, calmamente, apenas para mim. — Porra, neném, poderíamos ir a Vegas hoje mesmo, se assim quiser... Ella, eu não vou te deixar sozinha nunca. Eu te quero mais ainda, se isso é possível. Tudo ficará bem. Eu prometo querida. Sei que não me ama, mas isso não importa. Meu amor por você é suficiente para dois, bem, agora nós três. Vamos fazer isso funcionar, neném. Eu prometo.
Oh, Minha Nossa! Ele falava sério. Muito malditamente sério.
Meus olhos cresceram estupefatos, jogando as sobrancelhas próximas da linha do meu cabelo quando compreendi que ele estava a sério comprando aquela insanidade. O sorriso estúpido ainda lá, em sua face, me revoltando de maneira lenta e gradativa.
Ele continuou com suas asneiras lunáticas, não me dando chances para abrir a boca. Isso me aborreceu profundamente, atirando álcool a minha irritação crescente.
— Podemos ligar para sua família hoje mesmo. Sim, faremos isso logo mais. Embora estejamos atropelando as coisas, eu gostaria de pedir sua mão ao seu pai, como deve ser. Sei que soa arcaico e um pouco piegas. Mas, quero fazer isso do jeito certo.
Que. Porra. É. Essa?
Engoli às secas, sentindo meu sangue ferver, de repente.
— Porra, eu sou muito estúpido. Perdoe-me, estou aqui falando em pedir sua mão ao seu pai quando nem mesmo fiz o pedido a quem realmente importa... Por razões óbvias, eu não tenho um anel aqui comigo, Ella, mas hoje mesmo vou cuidar disso. — Ele tomou fôlego. — Antonella Morris Vicenti, você me tiraria da minha miséria para me conceder a honra de tê-la como a minha esposa até o resto dos nossos dias? Quer se casar comigo?
Vários “oh” encheram o ar a minha volta enquanto minha respiração se detinha de súbito. Meus batimentos cardíacos vacilaram no momento em que as palavras dele chicotearam meus ouvidos, deixando-me pasma e mais assustada do que eu já estava.
Esse doido varrido não entendia a gravidade da situação? Será que ele ainda não enxergava que tudo isso era uma loucura na qual somente eu estava me fodendo?
Puta merda! Ele não podia estar falando sério.
— Ella, querida, essa é a hora em que você me responde, de preferência, positivamente — Thor pediu num sussurro, seu olhar ansioso sobre mim.
Esse ordinário está querendo mesmo foder com a minha vida!
Minha cabeça oscilou para os lados quando balbuciei.
— N-n-no. 73 Davvero no!
Tirei as mãos dele de cima de mim, empurrando-o. Apartei-me dele quase tropeçando na poltrona que caiu atrás de mim pela forma impetuosa que me levantei. Ele ficou lá, ajoelhado, com as mãos apoiadas nas coxas. Olhando-me com os loucos olhos marejados e suplicantes.
Eu comecei a rir numa combinação de histerismo, incredulidade e raiva. Sentia meus próprios olhos queimarem na angústia desesperadora que se levantou dentro de mim, de maneira profusa.
Fixei meu olhar entrecerrado nele, minhas mãos fincadas no quadril.
— Perdeu sua mente de vez, Castellammare? Casamento? Falar com meus pais? Igreja? Eu não quero entrar em igreja nenhuma, nem sequer quero me casar, cazzo! E você não se atreva a ligar para os meus pais para dizer qualquer merda dessas! Ouviu-me? Dio, que porra louca é essa?
— Ella...
— Não é não, cacete! — gritei. O humor tinha ido para o raio que o parta. Então acrescentei alterada enquanto andava de um lado para o outro, quase arrancando os cabelos. — Você é louco? Está querendo acabar com a minha vida por acaso? Por que simplesmente não mete uma bala na minha cabeça? Puta merda! Isso... isso... Droga! Isso não pode estar acontecendo comigo...
Ele se colocou de pé num salto.
— Ella, amor, se acalme.
— Me acalmar? Me acalmar! Eu descubro que tenho uma coisa dentro de mim, pronta pra foder com a minha vida enquanto você está aí enlouquecendo, e você quer que eu me acalme? Sério isso?
Exclamações escandalizadas eclodiram, todavia, desde que aquela prestes a ser aniquilada era a minha vida, eles podiam beijar a minha bunda se quisessem.
— Antonella! — Thor alertou sobre os demais, a fúria vibrando em seu tom severo. — Sei que está nervosa, assustada até. E entendo. Eu também estou. Está sendo uma surpresa para todos. Mas, baby, você precisa se acalmar, antes que diga coisas que vão nos machucar. Eu sei que não quer dizer nada disso então...
— Sabe?
Recuei um passo quando ele tentou se aproximar de mim.
— Antonella, te cale, por favor. Não faça isso. Acalme-se e vamos conversar. Não temos de falar nesse exato momento, mas precisa se acalmar agora. Ficar assim não te fará bem, nem ao bebê.
Meu peito subia e descia com brusquidão quando cerrei minha mandíbula.
— Eu estou cagando pra... pra essa... coisa asquerosa que você chama de bebê — sibilei com um nojo pungente. Meu estômago estava se contorcendo. Mais uma rodada de exclamações se fez ouvir, mas pouco me importei. Eles que fossem a merda. Thor me olhava consternado quando apontei o dedo para ele enquanto mordia cada palavra seca saindo dos meus lábios, de maneira pausada e clara, para que não houvesse dúvidas quanto a minha posição. — Preste bem atenção. Eu não vou me casar com você nem hoje, nem nunca. E, definitivamente, não vou ter isso.
— V-você está brincando comigo?
— Está me vendo rir, babaca? Certo che non sono! — Sacudi a cabeça. — Você realmente acha que eu não gosto da minha vida, não é? Bem, eu não estou muito feliz com ela desde que você chegou, porém eu podia suportá-lo. Agora isso? Nem fodendo! Não aceito essa merda! Eu me recuso aceitar qualquer coisa que vá foder com a minha vida. Inferno, já basta você me arruinando! Eu e você fomos mais do que eu me permiti alguma vez... Não. Isso não. Não mesmo!
Thor cambaleou para trás, fechando os olhos com força e as mãos em punhos duros. Nathan esteve ao seu lado num piscar de olhos. Quando seus olhos se abriram eram duros e ferozes, me olhando como quem olha um desconhecido contagioso, repugnante. Entretanto, isso não me afetou. Na verdade, era assim que eu me sentia, o que me dizia para ser prática e resolver aquilo já.
Voltei-me para Marcela.
— Você pode tirar isso de mim?
— Eu... eu... Não.
— Pode me indicar algum colega seu que faça? — inquiri, segurando-me pelas beiradas para não deixar o volume de desespero me cobrir e sufocar minha vida.
Marcela piscou, jogando o olhar para todos como se buscasse por ajuda.
— Amiga, sei que está nervosa, mas tente ser razoável — pediu Josie. Eu olhei para ela, não amenizando minha expressão de descrença quando ela acrescentou. — Um bebê é uma dádiva de Deus e o melhor para essa criança é que os pais fiquem juntos. Thor está certo.
— Amada, não faz assim — disse Pietra. — Eu sei, isso é assustador. Acredite, eu também teria o inferno fora de mim, porém eu sei também que você pode fazer isso. Todos nós vamos ajudar. Foi inesperado, como Thor disse, mas todos nós estaremos aqui. Juntos.
Intercalei meu olhar cheio de desprezo entre aquelas duas traidoras.
— Me façam um favor, cadelas. Se fodam! Perderam a mente também? Querem um maldito bebê? Façam vocês mesmas! E não se intrometam no que não lhes diz respeito. Ninguém nesta sala, seja quem for, tem o direito de dizer o que eu devo ou não fazer. A porra da vida é minha, caralho!
— O bebê não é só seu — retrucou Josie. Eu a odiei.
— E essa conversa não diz respeito a você. Que parte disso você não entendeu, filha? Guarde seus sermões morais de merda para você mesma ou vá embora. Não preciso da sua santidade aqui, mas da amiga que eu acreditei ter. Pelo visto eu estava enganada, não é assim?
Ela se encolheu, com o olhar ferido.
— Eu sou sua amiga, Antonella, no entanto, isso não significa que eu tenha de fechar os olhos quando você está fazendo merda. Eu tenho o dever de te dizer quando está errada. E agora você está. É de um ser humano que estamos falando...
— E nem todos valem a pena. Eu não vou ficar discutindo a minha vida real com uma boboca sonhadora, que acha que se casar virgem é sinônimo de perfeição. E me deixe dizer isso. Você é uma tola, Josie. O mundo não é cor de rosa como pensa. Seu sonhozinho estúpido de vida feliz não existe. Cai na real, porra!
Assisti seus olhos machucados desviarem para o chão e apreciei isso.
Estavam tentando me ferrar sem piedade.
Eu podia fazer o mesmo. Eric a puxou para detrás dele, e me encarou com raiva.
— Não ouse falar com ela neste tom novamente...
— Ou quê? Vai me bater? Me matar? Apenas tente, babaca!
— Não vale à pena — respondeu ele, com repudio. Impertinente. — Você é de dar pena. Não merece as amigas que tem. Não merece Thor, nem ninguém. É fria. Mesquinha. Egoísta. Uma cadela. — Meus olhos salpicaram, e eu trinquei os dentes enquanto respirava fundo, tentando manter a porra das lágrimas dentro dos meus olhos. — Eu só sinto por meu amigo e por esse bebê que não merece ter uma mãe como você. Infelizmente, essa criança já virá ao mundo castigada.
— Vaffanculo, suo...
— CHEGA, PORRA! — ordenou Thor, sua voz soando como um trovão enquanto dividia seu olhar entre seu amigo e eu. Ele parecia eficaz. Duro e austero. Seu rosto sem expressão exceto pelas linhas empedernidas. — Você, — ele apontou para mim, — Sente-se e se acalme.
— Não.
Num piscar de olhos ele esteve na minha frente, sua fúria dobrando-me.
— Senta na porra daquele sofá. Agora.
Heithor não gritou, como antes, mas sua voz em tom baixo era tão afiada e letal, que me estremeceu da cabeça aos pés e eriçou os pelos da minha nuca. Um alerta de perigo disparou em minha cabeça. Meu instinto de autopreservação ativo em potência máxima. Eu não ousei retrucá-lo, mesmo corroendo-me de ódio, e então, tomei passos duros para o sofá sob o olhar sombrio dele.
Martha apareceu do meu lado.
— Tome cara mia. É água com açúcar. Vai ajudá-la a se acalmar.
— Não estou com sede.
— Beba — rugiu Heithor.
Engolindo uma maldição, estiquei a mão tremula e peguei o copo. Bebi dois goles e me inclinei para colocá-lo em cima da mesinha central.
— Beba tudo — ele tornou a ordenar.
Mirei-o com os olhos queimando em fúria, pensando seriamente em jogar o restante de água na cara dele e depois o copo. Mas me contive e bebi toda água. Martha tomou o copo vazio das minhas mãos, em seguida. Eu não olhava para ninguém exceto para aquele bastardo de merda, porém podia sentir os olhares acusatórios dos demais sobre mim. Isso somente me deixou mais revoltada.
Fixando-se em mim, Heithor disse:
— Por favor, saiam todos. Eu preciso ter uma conversar a sós com Antonella.
— Thor, eu não acho uma boa ideia — Pietra murmurou baixo. — Vocês estão com os nervos exaltados... É melhor conversarem amanhã quando estiverem mais calmos.
Nesta hora eu me perguntei onde diabos minha melhor amiga havia se enfiado, pois ela em momento algum tomou minhas dores e me defendeu daquele doido. Não podia acreditar que ela compactuasse de tamanha insanidade. Mas, então, Josie fazia. Logo Pietra foi atrás.
Traidoras de merda.
— Figlio mio, sua irmã tem razão...
— Não. Ela e eu precisamos ter essa conversa agora.
— Não precisamos não, — ralhei. — Eu não tenho mais nada para falar com você ou qualquer outra pessoa aqui. A decisão é minha e já está tomada. Perdeu sua mente se acredita que qualquer coisa que diga me fará mudar de ideia. Eu não quero nada disso. Nada.
— A fodida decisão não é só tua, porra! É do nosso filho que você está falando, portanto, a decisão de tê-lo ou não cabe a mim, também... Eu aceito sua rejeição ao meu pedido de casamento.
Seus olhos eram de uma mágoa e tristeza profunda, que quase me fizeram correr para os seus braços e abraçá-lo, mas eu não podia me esquecer de que ele estava batendo a merda fora de mim.
Era da minha vida que estávamos falando.
E ele parecia ter sérias intenções de acabar com ela.
— Ouça Ella. Eu sei que você está assustada. Não planejamos uma gravidez. Nem sequer falamos sobre isso alguma vez. Eu entendo o teu medo. Mas eu não vou te deixar sozinha. Nós vamos aprender juntos a lidar com essa nova situação e cuidar do nosso filho. Se você não quer se casar agora tudo bem, nós continuaremos como estamos. Eu prometo que vou ser paciente e esperar até que você se sinta preparada para aceitar o meu pedido.
Francamente, eu não sabia se ria ou chorava. Meu desespero só fazia aumentar com suas palavras idiotas. Ele se sentou na mesinha central de frente para mim e, em seguida, suas mãos procuraram as minhas, porém as afastei antes que ele pudesse tocá-las.
— Não o rejeite e não me rejeite. Por favor.
— Eu não o quero. Você realmente enlouqueceu, Heithor, se acha que eu vou prosseguir com essa maldita loucura. — Levantei, encarando-o enquanto vasculhava seu rosto, torcendo que ele me compreendesse. — Eu não quero ser mãe. Nunca sequer cogitei a hipótese de ser. E, confie em mim sobre isso, ninguém, nem uma fodida pessoa pode me obrigar a ser o que eu não desejo.
Heithor me fitou com frieza quando se ergueu na minha frente.
— Pois aprenda a gostar da ideia de ser mãe — ele decretou, dando um passo em minha direção, sua voz ameaçadora me fez sentir calafrios. — Nem que eu tenha de mover céus e terra você o terá. Não me interessa se você gosta ou não. Vai tê-lo, Antonella.
— Merda, Thor! Você não pode me obrigar a fazer isso. — As lágrimas vieram em torrentes, molhando o meu rosto quando meu desespero atingiu o grau máximo, deixando-me num misto de ira e angústia desenfreada. — Non capisce? Eu não posso ter essa coisa!
— Não chame nosso bebê assim. Ele é parte de nós dois, quer queira quer não. — Neguei com a cabeça, tentando em vão não escutá-lo. — Mesmo que você não me ame como eu te amo, sei que sente algo por mim. Nosso bebê foi feito com carinho e amor, com a porra de algum afeto, mas foi feito com um bom sentimento. Ele é uma benção, Ella.
Comecei a rir histericamente em meio às lágrimas.
— Benção? Não Heithor. Para mim isso é uma desgraça, a pior coisa que poderia me acontecer depois de você... — À medida que as palavras saiam da minha boca, amargas, como fel, os olhos dele se tornavam mais frios. Podia ver sua ira flamejar em suas íris negras, mas isso só me incentivou a continuar, pois eu também estava possessa por ele se achar no direito de decidir algo tão importante na minha vida. —... Esse... bebê não passa de uma erva daninha que está crescendo dentro de mim sem a minha permissão — terminei, colocando todo o desprezo e nojo que sentia por aquele ser invasor, que havia se apossado do meu corpo sem o meu consentimento.
Heithor me fitou com horror.
— Cale-se! Fecha sua fodida boca, Antonella. Não diga mais nada.
— Que foi? É demais para você ouvir o que eu realmente sinto em relação a essa merda? Não quer a verdade? — indaguei, num tom ácido, com o sarcasmo brincando em minha língua enquanto observava a expressão de Heithor mudar de incrédulo chocado para assassino cru. Ele tinha as mãos fechadas com tanta força que os nódulos estavam brancos. Eu me deliciei com a ira branda faiscando em seus olhos, deixando-os mais negros e selvagens. Ele me feria, ma, per Dio que, ele ia ter isso de volta. Então prossegui, deixando as palavras fluírem com aspereza, queimando minha língua. — Eu já odeio esse troço. Ele não é bem-vindo em meu corpo. E sabe o quê? Eu mal posso esperar à hora de tê-lo fora, descartado como o lixo que ele é.
No instante que as palavras saltaram fora, assisti em câmera lenta o braço de Thor se levantar, sua palma com um destino certo. Meu primeiro instinto foi me encolher, contudo, mantive minha postura firme, encarando-o em desafio. Mais furiosa, se possível.
— Não Thor! — exasperou Adam, segurando seu braço.
O tapa interceptado doeu mais do que se ele tivesse me acertado, de fato. Então, nesse instante, eu o odiei com todas as minhas forças e odiei mais ainda aquela coisa asquerosa dentro de mim.
O invasor mal tinha aparecido e Heithor já o preferia a mim.
— Andiamo, valentão! Bata-me! Mostre o quão macho você é. Eu juro que nem vou tentar me defender, aliás, vou ficar bem quieta enquanto você mesmo tira essa erva daninha de dentro de mim. Covarde bastardo de merda! Ti odio maledetto!
— Saía da minha frente — ele grunhiu. — Vai Antonella! Desapareça da minha frente, antes que eu te dê a surra que seus pais não tiveram coragem te dar.
— Vai Antonella — ouvi Adam rosnar.
Engoli às secas. Meu corpo todo tremendo de raiva e medo. Dele, de Thor, porém mais do que me aguardaria se ele persistisse com esse absurdo. Estava a ponto de entrar em colapso.
Girei sobre meus calcanhares logo alcançando a escada e, posteriormente, o quarto. As lágrimas me cegavam a cada passo. Uma angustia gigantesca dava as mãos ao desespero em meu peito. Eu só tinha me sentido aflita assim uma vez. E, inferno, não passaria por aquilo de novo.
Meu estômago se rebelou quando cheguei ao quarto e eu corri para o banheiro. Ajoelhei-me ao chão, abraçando o vaso sanitário enquanto a ânsia violenta me fazia vomitar a alma e as lágrimas.
Sentia um nojo descomunal dele, de mim mesma, de tudo aquilo.
Minha mente tinha dado vários nós. Nada do que eu pensava, nem mesmo uma maldição parecia ser suficiente. Eu estava perdida, decepcionada, irada. Vivendo em um filme de terror do Freddy Krueger, só que ele atormentava-me acordada, ao invés.
A premonição nunca tivera sido meu forte, mas nesse momento, eu podia enxergar de maneira clara e impotente o meu mundo perfeito ruir a nada...
Após uma série de rodadas de regurgitadas, a ânsia diminuiu. Abaixei a tampa do vaso e dei a descarga. Permaneci imóvel por alguns minutos, congelada na minha idiotice.
Não tinha qualquer controle. Não tinha nada.
Entrei no automático quando comecei a tirar minhas roupas, demorando mais do que o necessário devido o tremor de meus dedos. Sob o jato forte de água quente, eu fechei os olhos. Minha garganta apertada em demasia, seca e dolorida. A aflição me contorceu as vísceras quando busquei o sabonete e esponja, com desespero e incapacidade, na tentativa de limpar-me.
Sentia-me tão, mas tão suja, que o asco subiu em profusas ondas através da minha garganta uma vez que toquei a barriga. Apartei as mãos rapidamente dessa parte. A ânsia aumentou e, em seguida, obrigou-me a curvar novamente com a violência do impulso do vômito.
Maledizione! Eu mal podia me tocar sem que sentisse nojo de mim mesma.
Encostei-me aos ladrilhos quando terminei e deixei meu corpo escorregar até que eu estive sentada no chão, com as pernas rentes ao meu tórax. Chorei copiosa, sentindo-me agoniada.
Era castigo demais. Um castigo que eu não merecia por mais pecado que eu já tivesse cometido.
Mal eu havia completado 19 anos e já me encontrava grávida de um infeliz que se achava o dono da verdade. Isso... Isso era culpa dele! E o que não era? Quando tudo de ruim que havia me acontecido nos últimos meses tinha um dedo dele no meio?
Aquele maldito...
Desde que o conheci a minha vida tinha virado de pernas para o ar, e agora... Isso!
Ele não entendia que aceitar essa coisa seria o mesmo que me arruinar?
Onde foi parar a merda de amor que ele jurava sentir por mim pela manhã?
Céus! Este era o menor dos meus problemas. Meus pais iriam me trucidar quando soubessem. Eles não tinham permitido a mudança para que eu lhes desse um neto. Rocco iria...
Heithor não podia fazer isso comigo. Se ele realmente se importasse e me amasse como me jurou mais cedo, ele iria me deixar resolver esse problema antes que fosse tarde demais.
Não podia permitir que ele me manipulasse conforme as suas vontades. Teria de achar uma forma de fazê-lo compreender que isso não era certo. Mas, mesmo querendo acreditar, eu sabia da verdade. Heithor não iria me deixar tirar isso. E meu desespero só fez aumentar.