Dangerous

Daya Engler · Capítulo 16 de 45

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Dangerous

Capítulo 16

 

Ele e eu éramos companheiros de foda, eu dizia a mim mesma. O que significava que eu tinha o direito de sentir falta dele. Isso, no entanto, não queria dizer nada. Só porque havia um sentimento, bem, uma ligeira sensação ruim ao cogitar a perda da melhor foda da minha vida e meu coração batia um pouco mais forte no peito só de pensar em vê-lo na mesa do café da manhã, não queria dizer nada além de que meu corpo sofria de abstinência de sua droga preferida.

Quatro dias. Nem uma notícia para dizer se tinha ido para o raio que o parta ou retornaria da casa do caralho para me atormentar. Heithor havia desaparecido, como mágica. Nem mesmo Martha sabia dizer onde ele estava, aliás, ela nem parecia preocupada com o desleixo dele.

Quanta ironia, não?

Aquele infeliz vivia me aporrinhando por eu sair sem dizer as horas, e agora, ele fazia o mesmo.

Belo exemplo de merda!

Não que eu realmente precisasse de qualquer coisa dele, quem dirá um exemplo. Mas ele tinha de ter a decência de ao menos se despedir de mim, como um bom homem faria.

Maldição. Eu até mesmo tinha engolido meu orgulho, ligando para ele, e ele não reconhecia. Thor devia sentir-se privilegiado por eu estar chamando, e me atender ao primeiro toque, não estar bancando a mulherzinha fresca fazendo cu doce.

Ao fim do quinto dia eu cheguei a mansão mais cedo, caí em minha cama e desmaiei até ser acordada com um barulho infernal. Chequei o despertador. Sete da noite. Levantei xingando Dio e o mundo, porque só um desocupado infeliz de marca maior sem nada mais para fazer da vida que poderia estar fazendo um alarido daquele. Um vagabundo desocupado. Encontrei Pietra no corredor no mesmo animo que eu, e então, pisamos duro para o térreo.

Música. Splash! Vozes. Risos...

Seguimos o barulho em direção à porta dando acesso para a área externa. Estaquei na soleira quando vi um sujeito que eu conhecia bem sair da piscina, a água pingando de seu cabelo negro escorrendo por seu peito e abdômen. Esqueci-me de Pietra. Meu coração correu mais rápido.

Thor. O meu Thor estava bem ali na minha frente.

Ele não é teu, idiota.

Não era, mas mesmo a repreensão não foi palio para a alegria que iluminou meu rosto, curvando as esquinas de meus lábios, empurrando meus mamilos apertados contra o soutien. Meu corpo se avivando ao detectar a presença de sua droga. Cobiçando seu toque quente e macio. E os lábios.

Meus olhos débeis correram sobre ele, agora, de perfil enquanto ele falava distraído com um dos caras, que pensei ser Adam. As luzes difusas e as plantas ornamentais não me permitiam ver claramente. Mas de uma coisa eu tinha certeza, Thor estava todo um tesão metido numa sunga preta. Meus dedos coçavam para tocá-lo quando minha intimidade se contraiu na lembrança dele. Um aperto gostoso e úmido. Eu o queria.

Mas espere aí! Ele me devia algumas explicações, verdade?

Thor tinha sumido por dias. Nem sequer deu um alô para dizer onde estava e se estava bem. Não que eu realmente me importasse, porém ele não podia fazer isso comigo. Não mesmo.

— Antonella? Antonella?

— O quê? — Bati minhas pestanas. — Ah... eh... olá Nathan.

Ele arqueou a sobrancelha, o canto de sua boca se contraindo.

— Pode me dar licença, por gentileza?

Olhei para os lados, percebendo que estive empatando o trânsito na porta.

— Oh, claro..., claro que sim.

O deixei ir, ouvindo a voz de Pietra na parte detrás da minha cabeça falando com ele, mas não dei atenção a eles. A ansiedade levou meu olhar afoito novamente em direção à piscina e o quê eu vi substituiu minha excitação pela raiva em uma questão de segundos.

Da piscina saía àquela mesma empregadinha de merda, enfiada num biquíni minúsculo. A perplexidade veio a seguir quando Thor puxou a puta para o colo e a beijou. BEIJOU!

Em instantes, eu tinha sangue nos olhos, minhas mãos fechadas em punhos difíceis e meu corpo agindo por conta própria. Levando minhas passadas duras até aqueles dois filhos da puta.

— Que merda é essa aqui?

Eu tinha todos os olhares em mim, porém somente enxergava aqueles dois filhos da puta na minha frente. A troia me olhou assustada enquanto eu a fulminava com o olhar, louca mesmo para esquentar a cara horrenda dela. Movi meu olhar assassino para ele.

— O que essa vagabunda está fazendo aqui?

— Controle-se Srta. Vicenti — disse ele em tom baixo, sua voz era gélida. — Não vou permitir que desrespeite meus convidados. Está entendido?

— O quê?

— Retire-se, por favor. Esta é uma reunião privada e você não está convidada a participar.

O pedido dele explodiu na minha mente, apertando minha expressão.

— Como é que é? Você perdeu a sua mente, maledetto?

— Que maldade, querido. Vá queridinha, antes que ele te coloque de castigo.

Eu perdi a cabeça quando meu orgulho escorregou no atrevimento daquela mulherzinha.

Eu saltei sobre ela, meu punho fechado acertando em cheio o seu falso nariz sem dar tempo dela se defender. Ela caiu no chão e eu fui atrás, estapeando os dois lados de sua cara enquanto ela gritava e chorava, tentando ridiculamente se defender. Mas não lhe dei fôlego, batendo a merda fora dela enquanto seu nariz recém quebrado jorrava sangue. Eu queria fazer isso com ela. Queria machucá-la seriamente por ser tão atrevida em minha própria casa. E fiz exatamente isso, até que mãos firmes e grandes se fecharam em minha cintura, e, em seguida, fui puxada para longe da puttana.

Thor caiu ao lado dela, deixando-me mais irada.

— Me solta, cazzo! — eu gritei, esperneando e me debatendo contra as mãos de ferro que me seguravam, tentando o meu melhor para me livrar de quem quer que fosse que me segurava. Eu queria arrancar os olhos da cadela. — Inferno! Me solta, porra! Eu vou arrebentar essa puta!

A troia começou a chorar sendo amparada pelo ordinário. Eu pirei de vez. Jogando uma rápida olhada para baixo, ergui o calcanhar e pisei no pé de meu captor com toda a minha força e dei uma cotovelada no estômago dele quando ele afrouxou o aperto. Ele xingou. Eu dei um passo à frente, pronta para dar mais uns tapas na cara da vadia, porém o maldito me pegou novamente.

Heithor colocou a troia de lado, acenando para alguém atrás de mim, antes de me dar sua atenção. Ele veio na minha direção e parou há três passos de distância.

— Solte-a, Eric — ele ordenou, com uma voz assassina, seu olhar duro era raivoso sobre mim.

Humpf! Se ele estava pensando que aquela encenação barata de Al Capone iria me amedrontar era bom ele pôr o rabo entre as pernas, porque eu nem tinha começado.

— Sim, Eric, me solte. Eu ainda não terminei com a cadela.

Eles me ignoraram.

— Eu não acho uma boa ideia, cara.

— Eu disse para você soltá-la agora — ele dizia, olhando diretamente para mim.

No instante que Eric me soltou, Thor segurou o meu braço com força.

— Está me machucando, seu merda — choraminguei indignada, tentando puxar o braço, o que só o fez apertar mais os dedos em minha pele enquanto me arrastava em direção a troia.

Eu apertei os dentes, contendo um gemido de dor.

— Machucando? E o quê fez a Kate? Olhe. Olhe bem para ela. Está feliz com o estrago que fez?

A mirei por cima, como se olhasse para um verme, apreciando o vermelho na cara dela pelos tapas e pelo sangue de seu nariz. Realmente, eu tinha feito uma arte no focinho dela.

— Oh, sim. Estou muito feliz — murmurei com escárnio. — E ficarei mais ainda se tirar suas patas imundas de mim, antes que eu dê na sua cara também.

— Além de ser uma inútil patricinha de merda, você também é uma selvagem?

Encarei-o, desdenhosa.

— Diga-me você. Eu sou?

Suas feições repuxaram em uma fúria silenciosa.

— Peça desculpa a ela por tê-la atacado.

— Nem morta! Se alguém aqui tem que pedir desculpas, este alguém não sou eu.

Sua mão torceu meu braço. Eu ofeguei com a pressão e a dor disparando para o meu cérebro, meus dentes tão apertados, que não me admiraria que eles se quebrassem.

— Peça — ele grunhiu.

Neguei com a cabeça. Recusava-me a dizer as malditas palavras.

Thor grunhiu outra vez, seu aperto mais firme, a dor quase insuportável acumulando água no fundo dos meus olhos. A voz dele ficou mais dura, mais áspera.

— Peça, Antonella. Não me faça te machucar de verdade. Peça a porra das desculpas. Agora.

Eu o odiava com toda a minha alma.

— D-Desculpe — empurrei a palavra entre os dentes.

Ele soltou meu braço, meus dedos agarrando aonde os seus tinham contundido.

— Agora, se retire e não ouse bancar a garota mimada na minha presença outra fodida vez.

Engoli o choro e a humilhação que me lavava com óleo quente quando tropiquei para o meu quarto, querendo devastar o mundo. Sem o pescoço dele ao alcance das minhas mãos para que eu pudesse estrangulá-lo, extravasei minha cólera nos adornos de decoração do meu quarto, ao invés.

A fúria latente vibrava em meus ossos, construindo lágrimas bestas no fundo dos meus olhos. Elas caíram com a intensidade da minha ira, da sede de vingança obstruindo minha garganta quando me deixei cair na cama, abafando o grito tempestuoso no meu travesseiro. Nada era suficiente.

O ódio que sentia por aquele sujeito de merda era colossal. Odiava-o duplamente.

Nunca na minha vida tinha sido tão humilhada.

Três dias depois

— Pietra, você precisa fazer alguma coisa. Me ajudar. Qualquer coisa! — Eu implorava pela milésima vez, andando atrás dela em seu quarto.

Ela parou, encarando-me, com uma expressão chateada.

— Amada, este é um assunto de vocês dois. Não posso fazer nada por você, além do que, eu já tenho trabalho dobrado com o Nathan. Isto está tirando o meu sono, você sabe.

— Você está sendo uma cadela egoísta — acusei, batendo as mãos nas coxas quando ela se sentou na frente da penteadeira. — Caramba! Pra que diabo serve a nossa amizade?

— Ah, cale a boca! — Ela me fitou através do espelho. — O que pensa que eu posso fazer? Descer lá e exorcizar a vadia? Se você não se lembra, deixa eu te dizer. Também estou na lista negra do meu irmão. Ele não é bobo, sabe que nós duas armamos aquilo junto.

— Você é irmã. Além do mais, fui eu quem o deixou preso, não você.

— Está aí o ponto! Peça desculpa a ele e vê no quê dá. E não se engane, o fato de eu ser irmã dele não ameniza em nada, pois, embora não tenha sido eu quem o algemou, se não houvesse minha ajuda indireta, ele não teria ficado naquela situação. Ele sabe disso. Nós sabemos disso.

— Eu não tenho que pedir nada. Foi ele quem errou sumindo sem mais, depois trazendo aquela empregada vagabunda, e agora, a oxigenada, que está lá na sala, empoleirada no colo dele. Nós fizemos uma promessa quando pegamos Nathan e ele na mesma situação, lembra?

— Isso foi antes da gente aprontar feio — apontou demente. — Eu não vou ferrar mais as coisas com o Nathan. Não mesmo. Já está difícil o suficiente para me complicar mais.

Joguei as mãos para cima quando grunhi, me derrubando na cama dela.

— Foi uma brincadeira inocente sem maiores danos.

— Diga isso a ele então.

Pietra se levantou, seus olhos sobre os meus. Eu exalei forte. Conhecia aquele olhar.

— Longe deles podemos ser completamente sinceras uma com a outra, Ella. Eles aprontaram sim, mas também nos recompensaram do papelão que nos fizeram pagar. Nós erramos feio, amica. Temos de ser honestas com nós mesmas. Pegamos pesado, e agora, estamos pagando por isso.

A mirei, incrédula, enquanto ela se perfumava e, em seguida, se dirigiu para a porta.

Eu pulei da cama.

— Aonde vai? Estamos conversando aqui, porra!

— Correr atrás do prejuízo — respondeu entediada, abrindo a porta. — E, Amada, eu sugiro que você faça o mesmo. Você sabe como dobrar ele, que eu sei. E, se for sincera, confie em mim, Thor vai te desculpar e tudo voltará ao normal. Pense nisso.

— Ma Pietra...

— Esqueça o orgulho, boba! E faça o que eu te disse.

Ela saiu saltitando pelo corredor, como uma gazela drogada, deixando-me plantada e com a boca aberta. Nathan não estava fazendo bem para ela, conclui.

— Peça desculpa — resmunguei com escárnio para eu mesma ao seguir para o meu quarto.

Eu não iria me rebaixar a ele quando o errado era ele próprio. Se Thor não tivesse tentado me manipular tão vilmente tudo estaria em seu devido lugar. Mas estava, não estava? Ele estava lá com sua puttana favorita, e eu em meu canto, longe daqueles imundos, como devia ser.

Foda-se todos eles!

Tomei uma ducha e vesti algo agradável para dormir. Os trovões e relâmpagos lá fora me diziam para deitar, e, ter uma boa noite de sono e foi o que fiz. Deitei, encobrindo-me com o lençol egípcio, que mais parecia arame farpado sobre a minha pele macia. Uma porrada de trovões depois e meus olhos ainda estavam arregalados, o sono muito distante para que eu permanecesse na cama.

Levantei, bufando impaciente e comecei a ziguezaguear pelo quarto.

A culpa da minha insônia era de Pietra que tinha colocado caraminholas na minha cabeça, e agora, eu não podia dormir. Estava irritada e ansiosa. Eu ponderei sobre o que fazer. Se dissesse que não queria ir até o cretino, eu estaria mentindo. Contudo, a outra metade, dizia para não ceder.

Caramba!

Eu só queria dormir e esquecer que aquele filho da mãe existia. Não podia ser fraca ao ponto de me colocar vulnerável a uma nova humilhação, pois se isso ocorresse, eu não iria me perdoar.

Maltratei meus lábios, indecisa.

Que se dane!

Se Thor se atrevesse a me humilhar de novo quando eu estava indo humildemente pedir-lhe desculpas, bem, eu poderia usar isso contra ele, além de tatuar minha mão na sua fuça.

Curiosamente, toda minha coragem retrocedeu quando fechei minha porta atrás de mim, encostando-me a ela, meus olhos cravados sobre a porta dele na minha frente.

Puta merda! Como diabo eu iria fazer isso?

Eu sabia que não estava errada, o que sugeria a inutilidade de um pedido de desculpa.

E quem disse que eu precisava pedir desculpas quando eu poderia dar uma?

Estava chovendo, trovejando e muitas pessoas se cagavam de medo de trovões. Eu até poderia dar vida a um rato. Era uma desculpa esfarrapada, mas funcionaria, e, bem, uma coisa leva a outra. Heithor podia estar bravo, mas ainda me desejava. Eu sabia. Joguei uma olhada sobre meu corpo e sorri maliciosa. Eu estava ao ponto.

Dei um passo à frente, ergui a mão em punho e...

— Oh, sim! Sim! Por favor, Thor!

Gemidos e mais barulhos sexuais atingiram meus ouvidos com um tapa, rodopiando a minha mente. Eu fiquei sem ação por um instante, minha mente em branco. E então, corri de volta para a segurança do meu quarto, sentindo pontadas de raiva furar o meu peito.

Cafajeste cabeça de merda!

Era Norah, a oxigenada. Sua puta oficial.

E eu ainda tinha ido lá igual a uma idiota pedir desculpas a ele. Não iria fazer de fato, porém era a intenção que contava. Eu odiava esse homem mais que tudo na vida.

A manhã não foi melhor que a noite dos horrores que tive.

Sentei junto à ilhota num mau humor infernal. Peguei um pãozinho, cortando ao meio e espalhei uma pouco de geleia de amora em um pedaço pequeno. Comi, mastigando com raiva. De soslaio, eu vi uma empregada terminando o preparo de uma bandeja de café para duas pessoas.

— Para quem é esta bandeja, Mariah? — sondei enquanto comia outro pedaço de pão.

— É para o senhor Castellammare, Senhorita.

Stronzo!

Engoli forçosamente então tomei um gole de suco, ajudando o pedaço de pão entalado na minha garganta. Minha fome passou, e eu me senti enjoada.

— A senhorita precisa de algo?

Olhei para ela depois para a bandeja, e para ela de novo.

— Não, obrigada.

Quando ela ia pegar a bandeja pronta, um pensamento cruzou a minha mente.

— Na verdade, eu preciso que você veja se aquele meu vestido florido de alcinhas da Dior está passado. Vou usá-lo hoje na universidade.

— Se a senhorita puder aguardar um momento...

— Tente agora — cortei-a em um tom áspero. Em geral, era muito cortês com os empregados, porém a mulher não parecia disposta a tornar a minha vida fácil.

— Claro, senhorita. Com licença.

Saltei em pé assim que ela deixou a cozinha. Arrebatei do armário um temperinho a mais para o café dos filhos da puta e, em seguida, pinguei algumas gotas generosas de laxante no suco de laranja, cuspi no iogurte e mexi bem. Então guardei o remédio no mesmo lugar e me sentei, rindo comigo mesma.

Oh, não é que minha fome tinha voltado?

A empregada retornou pouco depois.

— Lucy disse que o vestido ainda não foi lavado.

— Não tem problema. — Coloquei-me de pé, deixando guardanapo sobre o mármore. — Decidi que ficarei com este aqui mesmo. Não acha que estou bonita? — cantarolei, dando uma rodopiada.

— Sim, senhorita.

Sentei-me na sala enquanto assistia a empregada subir com o café dos otários, e eu não sairia de lá por nada nesse mundo. Queria estar de camarote para quando a mágica do ingrediente secreto fizesse seu efeito, e pela quantidade que coloquei no suco, isso não demoraria muito para acontecer.

Enquanto aguardava folheei uma revista. Não tive de esperar por muito, logo os dois deram as caras. Norah tinha uma expressão tensa na cara de puttana. Thor estava ao seu lado.

Camuflando a raiva, eu abaixei a revista em minhas mãos e lancei um olhar amistoso sobre eles.

— Você aqui Norah? Che sorpresa! — Ela me fitou com uma careta, andando apressada em direção à porta, ladeada pelo grande filho da puta. — Não me diga que já está indo? Não quer esperar o café? — Thor me olhou de relance. Eu dei os ombros e sorri sem dentes. — Va bene. Volte sempre — acrescentei, assistindo ele se despedir dela com um beijo rápido nos lábios.

Ordinário. Devia ter posto no café dele também, pensei raivosa, encobrindo minha expressão irritada quando ele fechou a porta e fez menção de ir à cozinha.

Eu não aguentei, tive de cutucá-lo.

— Você deveria melhorar suas companhias. Mulher mal educada, nem me deu bom dia.

Ele parou, com as mãos enfiadas nos bolsos da calça social preta. Seu peito coberto por uma camisa também social de cor azul claro. O cabelo ainda úmido e apostaria que com pouco produto, jogado para trás, como de costume. Tão lindo, mas tão frio.

— Confie em mim, Srta. Vicenti, eu estou fazendo exatamente isso.

Mentalmente, eu o assassinei de cinco maneiras diferentes.

Desde então, ele e eu não trocamos mais que algumas poucas palavras, todas elas carregadas de frieza e sarcasmo. Heithor estava mais impessoal. Por mais que eu tentasse provocá-lo, ele não dava à mínima. Então eu meio que apelei, fazendo todo o cardápio proibido.

E o quê Heithor fez? N. A. D. A!

Eu já estava a ponto de arrancar fio a fio do meu cabelo.

Estava vivendo num martírio!

A indiferença dele apenas me deixava mais puta da vida. Ele não podia me tratar assim.

Obstinada a dar fim a essa palhaçada, eu fiz meu caminho para a sala de estudos. Era lá, onde Heithor passava a maior parte do dia. Não bati. Entrei de supetão, imperiosamente, sem me preocupar em esconder a minha irritação por essa situação. Ele estava concentrado mexendo no Macbook, mas parou quando fez caso da minha presença. Seu olhar contraiu.

— Já chega dessa palhaçada, cacete!

Ele se inclinou para trás em sua cadeira.

— No quê posso ajudá-la, senhorita Vicenti? E por que entrou aqui sem bater? — Eu apertei os olhos para ele. Ele continuou, com aquele tom calmo e indiferente, que me deixava de cabelo em pé. — A senhorita está bem? Pietra? Aconteceu algo com ela?

— Deixe de bancar o maricas lesado! Não combina com você, cazzo. Cadê a porra dos gritos? Ameaças? E aquele seu jeito mandão dos infernos? Ficou frouxo, foi?

— Acabou?

— Não. Scusami pela..., bem, pela brincadeira. Talvez, eu tenha pegado um pouquinho pesado, mas você merecia uma lição. Você sabe. Não pode sair mandando a torto e a direita e esperar sorrisos de volta. Você meio que totalmente buscou isso.

— Concordo.

Opa!

— D’accordo?

— Em partes, sim. — Fez uma pausa meditativa enquanto juntava as pontas dos dedos na frente do peito, seu olhar nunca saindo do meu. — Não acho correto o que você fez. Foi desonesto e sujo de sua parte, além de muito perigoso. Eu poderia ter passado mal e não tinha como pedir ajuda. Mas dado às circunstâncias, eu entendo o porquê de ter tido tal atitude.

Come?

Estreitei o olhar. Definitivamente, eu preferia o arrogante aquele homem tranquilo na minha frente. Ele me deixava mais nervosa e inquieta. Não entrevia coisas boas.

Heithor prosseguiu:

— Eu devia ter somente conversado com você e exposto os riscos da vida que levava, e que trazia sobre Martha, que para todos os efeitos é sua tutora frente a sua família. Eu não tinha o direito de te exigir qualquer coisa, nem de chantageá-la para que você aceitasse minhas regras. Peço-lhe desculpas por isso, afinal, fomos somente uma boa foda. Eu não devia ter me deixado reger..., enfim, foi uma péssima conduta minha. Uma que eu não costumo ter e sinto-me extremamente envergonhado. Mas, confie em mim, isso não irá se repetir. Tem minha palavra sobre isso.

Ele terminou tão calmo que pensei que tínhamos morrido, porque minha voz estava em qualquer lugar, exceto em meu corpo. As palavras dele tinham embrulhado meu estômago e dado um nó tão apertado em minha mente, que eu não consegui reagir até que sua voz se fez ouvir novamente. Mais alta. Mais forte, ainda assim cuidadosamente macia.

— Sinta-se livre das regras. Viva a sua vida da maneira que lhe convir, entretanto, eu devo pedir a você que pense em Martha antes de fazer qualquer coisa. Ela não tem de pagar por seus erros.

— Ti odio, Castellammare!