Dangerous

Daya Engler · Capítulo 23 de 45

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Dangerous

Capítulo 23

 

THOR

Com um olhar estupefato, eu observei Ella deixar o quarto. Movi o olhar para Pietra, querendo uma explicação sobre o que acabara de acontecer naqueles fodidos minutos.

Ela deu os ombros com indiferença.

— Eu não sei. Neanch’io lo capisco61. Sabe, ela ficou com você o tempo todo e não desgrudou de você um minuto sequer. — Choque não fazia jus ao que eu sentia. Ela acrescentou. — Mamma e eu pedimos a ela para ir se deitar, mas ela se recusou. E vou te dizer mais, se nós tivéssemos insistido, eu acho que teria ocorrido uma guerra aqui.

Fiquei em silêncio, tentando entender o que isso significava. Meu peito expandiu não importando se eu não tinha as respostas. Ella tinha cuidado de mim e isso era suficiente. Bem, quase.

Peguei a xícara de café puro, que Pietra me oferecia, e bebi um gole.

— Por que ela faria isso? Não vou negar que estou feliz por saber que ela esteve comigo o tempo todo... — minha voz morreu antes que pudesse concluir. Empurrei a xícara na bandeja.

— Quer um conselho de irmã e melhor amiga dela? Vá com calma. Não exija nada dela, deixe que ela chegue até você. — Pietra só podia estar me sacaneando. — Va bene. Talvez ela nunca venha, ooou, talvez, ela só demore um pouquinho.

— Às vezes penso que ela tem uma pedra no lugar do coração — confessei, com pesar —, mas, então, do nada, ela passa a ser carinhosa. Isso é para deixar qualquer um louco.

— Você está irremediavelmente apaixonado por ela, não?

Fixei meu olhar em seu rosto.

— Não Pietra. Eu a amo — assinalei, veemente, ignorando a sombra de apreensão nos olhos dela. — Você estava certa o tempo todo. Eu fui tolo, não quis acreditar nas suas palavras naquela tarde. Se pelo menos eu tivesse levado em consideração metade delas, eu teria me afastado.

— Você não teria, Thor, sabe disso melhor do que eu. Naquele momento você já estava envolvido até o pescoço, só não tinha consciência disso. E, se quer saber, ela também não aguentaria ficar longe de você. Vocês têm esse... Eu não sei explicar, mas parece que tem um imã puxando vocês na mesma frequência, capisce?

Sorri um pouco.

— Você acha que ela...?

— Para ser honesta, eu não sei.

A faísca de esperança que se acendeu em mim se foi na mesma rapidez com que veio. Eu me sentia frustrado. Afundei a cabeça no travesseiro, ignorando o latejar no abdômen.

— Deixe-me explicar uma coisa Thor, — Pietra começou. — Antonella nunca chegou a gostar de ninguém antes. Se apaixonar então nem pensar. Ela não repete figurinha, se é que me entende. Você foi o único com quem ela ficou mais de uma vez. Então eu acho que isso quer dizer algo, não? Você já não a prende mais com suas regrinhas idiotas, não que isso fosse impedir ela de fazer algo realmente... Bem, o fato é que ela já não sai mais, com ou sem regras. E vocês estão juntos a maior parte do tempo, mesmo quando brigam. — Ela pausou, pensativa chamando meus olhos para ela. Seu tom diminuiu quando recomeçou. — Mas, você sabe, Antonella não faz o tipo garotinha sentimental, que espera o príncipe encantado e laços rosa. Se você a pressionar, a coisa toda vai desandar. Você sabe que antes dela vir morar aqui ela não tinha vida, não sabe? E antes que você abra a boca, não me interessa o que você pensa ou deixa de pensar sobre a vida que ela e eu levávamos antes de vocês se instalarem aqui.

— Você tem sorte que não recorro à cinta para te ensinar.

Ela ignorou, com uma expressão de tédio e, em seguida, se sentou ao meu lado.

— Pensa Thor, Ella é como um passarinho que foi preso em uma gaiola por muito tempo, vendo os outros desfrutarem de uma liberdade que nunca tivera, e quando foi solto, voou para longe, e, dificilmente, se deixará ser pego novamente.

— Você está indo bem na faculdade.

— Mesmo você não acreditando, eu nasci para a psicologia.

— Eu não tenho a pretensão de prendê-la, Pietra — eu disse, após um momento. — Nem agora, nem nunca. Ela é livre para fazer o que quiser. Livre comigo.

— No entanto, essa foi à primeira coisa que você fez, não? Sem saber, mas fez. Ela, assim como eu, quer viver intensamente e experimentar tudo que a vida tem a nos oferecer. Você já teve a minha idade. Faz uns bons, bons anos, porém creio que ainda se lembra como é ser um garoto.

Franzi o cenho.

— Você está com Nathan, e não a vejo lutando contra.

Não gostei da hesitação dela. Seus olhos se abaixaram antes de se levantarem para mim, com cautela. Isso não podia ser bom. Cacete, eu já sentia meu peito doer.

— Não gosto de dizer isso, ainda mais para você. Mas eu te avisei que a Ella era radical e quase inflexível. Você começou errado. Na cabeça dela essa coisa toda de romance é uma prisão e, infelizmente, para você, isso é algo que ela nunca desejou. Pelo menos, não por agora.

— Muito obrigado por me animar — eu disse, num tom sarcástico, minha voz soando mais duro do que pretendia. — É muito bom saber que a mulher que você ama nunca vai sentir o mesmo por você, ou pior, nem ao menos vai me aceitar.

— Eu não disse isso! O futuro só Dio sabe. Como eu disse naquele dia na sala de estudos, vocês foram feitos um para outro, só se encontraram na hora errada.

— Não precisa ficar me lembrando das malditas palavras a cada minuto.

— Me desculpe? Eu não queria te desanimar, mas eu sou sua irmã e preciso ser sincera com você. Fingir que tudo será fácil, não creio que seja a melhor saída.

Exalei longo. Não podia descontar minha frustração nela, ainda mais quando ela tinha me dado alguma luz, que eu não tinha certeza se seria de grande ajuda, contudo, poderia tentar.

— Está tudo bem Pietra. Obrigado pela conversa.

— Não tem de quê. — Ela deu uma risadinha. — Quem diria que um dia eu estaria dando conselhos de amor para você, eh? Eu sempre soube que de nós dois eu era a mais coerente do clã.

Bufei, porém não respondi a isso, muito compenetrado em meus próprios pensamentos.

— Ela gosta de você. — Pietra disse após alguns minutos.

Ela gostava, só não da maneira que eu desejava.

ELLA

Quando estive banhada e trocada, mirei minha cama com abandonada paixão.

Grande, confortável e super macia.

Ela estava me convidando a repousar meu corpo sobre ela por pelo menos dez minutos, mas eu sabia que acabaria pegando no sono então, antes que cedesse ao cansaço, ameaçando me dominar, eu saí fechando a porta atrás de mim.

Passei pela cozinha e tomei duas xícaras grandes de café para ver se assim espantava um pouco do sono. Comi algumas bolachinhas e depois segui para o quarto, onde Thor estava. Do corredor dava para ouvir as risadas altas e nada discretas de Pietra. Acompanhei-a, sorrindo também. Era muito bom saber que minha amiga estava feliz novamente e tranquila.

Entrei no quarto e me deparei com uma cena linda.

Pietra estava na cama esparramada ao lado de Thor, comendo um bolinho enquanto ele dizia algo, que deveria ser muito engraçado, pois arrancou um risinho besta dela.

— Muito bonito! Quer dizer que Pietra ficou aqui só para te ajudar a comer? — sondei, cruzando os braços sobre o peito e me fingindo de brava.

— Eu juro que só peguei um bolinho — defendeu ela, erguendo os braços. Ri, lançando a cabeça para os lados. Ela me olhou de cima abaixo. Eu vestia um shortinho confortável de tecido leve e um top. Estava muito confortável, se me perguntar. — Você vai assim?

Enruguei a testa em confusão.

— O quê?

— Não é hoje que o Sr. Boris dará um trabalho mega importante?

— Eu não vou.

— Por que não? Senti, eu sei que você está cansada, mas ele vai te deixar com zero, se você não fizer o trabalho. Ficará devendo créditos e ele não vai sentir remorso por isso.

— Não estou cansada — menti, mas a verdade era que eu estava só o pó.

— Então, por quê? — Fez uma pausa intercalando seu olhar entre Thor e eu. Desviei o olhar para os lados, começando a me irritar. — Va bene. Guarda, Thor stai bene. Mamma vai ficar com ele e os caras estão aqui, só no caso de precisarmos de algo. Thor sta bene, non sta?

— Sim, piccola.

Quando Pietra queria, ela sabia deixar alguém constrangido.

— Não é por isso — garanti, voltando minha atenção a ela.

— E então, por que raio é?

Pigarreei, tentando esclarecer a garganta e encontrar uma desculpa boa o bastante, mas não me vinha nada na cabeça, ainda mais com Pietra me encarando impaciente por uma resposta.

— Vá Ella — Thor interferiu.

Olhei para ele e suspirei contrariada, assentindo.

— Eu vou trocar de roupa.

— E eu vou pegar minhas coisas e dar um beijo no meu gatinho antes de ir, — disse Pietra já desaparecendo pela porta.

Girei os calcanhares para imitá-la.

— Não está esquecendo nada? — Hesitei, franzi o cenho ao olhar em volta, porém não havia nada meu em parte alguma então voltei meus olhos confusos para ele. — Meu beijo neném.

Oh-uh... Isso.

Meu coração galopeou mais ritmado, e eu associei isso ao embaraço da situação. Bem, minhas bochechas acaloradas não me deixavam mentir. Aproximei-me da cama arrastando os pés. Engolindo a seco quando me inclinei sobre ele. Dei um selinho em seus lábios e me afastei.

Thor fez uma careta bonita.

— Como posso me curar com um beijinho mixuruca desses?

— Você está ferido.

— E, se depender desse beijinho, eu não vou me curar nunca — ele lamentou.

Eu tentei não rir, mas foi impossível.

Abaixei e uma de suas mãos se embrenhou em meus cabelos, impaciente quando me puxou, selando nossas bocas. O beijo foi suave mais com um quê de erotismo, que me fez suspirar quando um arrepio percorreu minha espinha. Muito cedo ele me deixou. Desequilibrada e ofegante.

— Agora você pode ir — sussurrou ele contra os meus lábios e os tomou uma derradeira vez, antes de me soltar mais tonta que se eu tivesse girado em torno de mim mesma.

— Vaffanculo! — grunhi e lhe dei as costas.

Ele riu grosseiramente.

— Gostosa! — ainda o escutei dizer quando fechei a porta na cara dele.

Eu me esforcei para prestar atenção na aula, contudo, minha mente me traia levando-me a mansão, a Thor. Eu tinha essa estranha necessidade de estar perto, de ficar com ele. Smith iria vê-lo e eu queria estar lá. Infelizmente, o meu professor maledetto, Sr. Boris, tinha outros planos. Permaneci na biblioteca queimando meus neurônios até muito tarde.

Quando cheguei à mansão o sol já estava se pondo.

Corri para o meu quarto e tomei banho. Queria ver Thor, porém achei melhor estar limpa da poluição da rua antes de entrar no quarto, afinal de contas, ele estava ferido e eu não queria prejudicá-lo de nenhuma maneira, levando bactérias a ele.

Eu sabia que estava sendo cuidadosa demais, no entanto, liguei isso ao fato de eu nunca ter visto ninguém ferido como ele tinha chegado à mansão. Aquilo foi... eh... impressionante!

Na cozinha engoli um pedaço de lasanha e bebi um pouco de suco, e então, segui para o quarto de hospedes, sentindo meu coração bater um pouco mais rápido. Era a adrenalina por fazer tudo rápido. Ao me aproximar da porta entreaberta ouvi as vozes dele e de Martha.

— Per favore, bambino. Coma. Eu fiz essa canja especialmente para você.

— Deixe aí, que depois eu me viro.

— Você precisa comer, Heithor Castellammare! Será possível que não ouviu uma palavra do que o médico disse?

— Mamma, eu prometo que vou comer, só não agora.

— Isso foi golpe baixo Heithor — ela repreendeu e, em seguida, adoçou emocionada. — Mi piace molto quando me chama assim, pois para mim você e sua irmã são como figli per me... Os filhos que nunca tive.

— Por favor, não chore... Isso sim é golpe baixo. Eu sou o doente aqui, dona Martha.

— Scusa figlio.

— Sempre serei eternamente agradecido por tudo que fez por Pietra e por mim. Sei que fui um pouco relapso para dizer o mínimo e...

— Oh, no, no! Non ti colpi, bambino.. Você tinha motivos para partir. Tenho certeza que se pudesse teria ficado conosco. Você fez o que achava certo e todos ficamos bem.

— Obrigado... Escute, eu não tenho fome agora assim comerei depois, está bem? — Houve uma pausa breve então ele acrescentou. — Sabe se Ella já chegou?

Foi minha deixa para entrar.

— Oi... Desculpe, eu não..., não queria ouvir...

— Que bom que você já chegou bambina! — Martha me salvou do embaraço. — Coloque um pouco de juízo na cabeça dele e o faça comer.

Thor soltou um risinho jocoso. Eu me aproximei, com um sorriso nos lábios. Ele estava parcialmente deitado, com as costas apoiadas contra o monte de travesseiros.

— Por que você não quer comer?

— Eu vou deixá-los a sós — Martha disse indo em direção a porta.

Voltei minha atenção para Heithor quando ela saiu.

— Mulheres são muito exageradas — ele se mofou, e eu arquei uma sobrancelha. — Eu não disse que não quero, apenas que não vou fazer agora. Agora venha aqui e dê meu beijo.

— Não.

— Se você não vir, eu vou levantar e vou até você — ameaçou, e eu dei um sorriso sacana.

Ele parecia melhor. Porém, apenas tinha se passado um dia, a debilidade estava lá detrás da couraça de macho das cavernas, que ele possuía.

— Eu não sei se você reparou, mas você não está em condições de fazer isso. Se quiser meu beijo vai ter de comer primeiro. Ou então, nada feito.

— Isso não é uma negociação, Ella. E eu quero comer.

Ignorei sua graçinha.

— Coma a comida ou não terá beijo. Simples assim. — Ele espremeu os olhos, fixando-os aos meus, porém sem me ver de fato como se confabulasse algo. — Ah, e se você se atrever a levantar, eu saio. Você está ferido e isso me dá uma vantagem. Capisce?

Sua mandíbula se apertou.

— Okay. Pegue a bandeja pra mim, por favor. — Doce como o mel, foi seu tom de voz. Tão dissimulado que me custou não rir. Apontei para o seu lado na cama, onde estava a bandeja. Ele poderia pegá-la sem maiores danos. — Sabe que eu vou me vingar, não?

— Promete? — disse, usando um tom baixo e sensual. — Coma e se recupere rápido.

Ele não contra atacou. Carrancudo, pegou a bandeja de pés e colocou sobre seu colo então começou a comer. Eu me instalei em uma das poltronas que ainda estavam próximas a cama.

— O que o médico disse? — especulei após algum tempo.

— O que eu já sabia, — limpou a boca no guardanapo, ainda sem me olhar e tomou um gole raso de água. — Smith disse que eu estou bem. Em duas semanas e meia no máximo, estou novo em folha. Fez recomendações e blá, blá, blá. Nada que eu já não esteja acostumado.

— Você está acostumado a levar tiro?

Ele colocou a colher na tigela e limpou a boca no guardanapo, novamente.

— Essa não foi à primeira vez. Minha vida não é fácil Ella e às vezes algumas merdas ruins acontecem. Não posso controlar tudo, embora tente. E, bem, uma vez e outra só isso não basta.

— Você não tem medo de morrer? Quero dizer, Pietra e Martha como ficam nisso? Você já pensou na possibilidade de um dia você não ter tanta sorte? Acha que é justo para elas? Para Pietra? Ou será que perder os pais não foi o suficiente? Ela tem de perder o irmão também? É isso?

— Um dia todos nós vamos morrer Ella, mas eu tenho certeza que eu não vou tão cedo, ainda tem muito filho da puta que vai antes de mim. Com relação à Pietra, ela está em boas mãos. Martha é uma mãe para ela. Se acaso algo acontecer comigo, Pietra estará segura em todos os sentidos, bem como, Martha. E antes que me diga que eu sou um fodido desgraçado sem coração, eu me importo com elas, por isso me cerquei de todos os lados para que elas fiquem bem protegidas assim como eu. Isso, — apontou para o curativo em seu abdômen, — não é nada perto do que eu já fiz a alguns filhos da puta. Meu trabalho é perigoso, mas eu sei me cuidar. Não estaria aqui se fosse um merda.

— Se vê... Por que continua nessa vida? Quero dizer, sei que gosta do que faz. Deixou isso claro no apartamento, porém pelo que vejo já tem dinheiro suficiente para viver bem o resto da vida. Por que não deixar esse trabalho e arrumar outro que não traga tantos riscos? Onde pode se fixar junto com sua família?

Ele me analisou por um efêmero momento.

— Você gostaria que eu largasse meu trabalho?

Eu adoraria! Isso me ajudaria a não ter uma morte prematura, porque você chegou aqui baleado.

— Eu digo pela Pietra e pela tia também. Tenho certeza de que elas gostariam disso.

Ele adotou uma postura fria igual a seu semblante.

— Eu gosto do meu trabalho, Ella — disse, com um ar sombrio e a voz áspera. — Gosto de ferrar com a vida dos filhos da puta que merecem. Essa é a minha contribuição para o mundo.

Finalizou a conversa e voltou a comer.

Eu não disse mais nada, embora quisesse. Porém, ele parecia zangado então achei melhor deixá-lo quieto. Eu não tinha dito nenhuma mentira. Certo, talvez, uma ou duas, mas isso era irrelevante.

Colheradas depois, o assisti colocar a bandeja para o lado e, em seguida, meus olhos quase saltaram da cara quando ele jogou as pernas para fora da cama, com uma careta de dor.

— Que merda pensa que está fazendo?

Eu fiz menção de me aproximar, mas o aço em seus olhos me freou.

— Será que eu posso ter uns minutos no banheiro? Tomar banho?

— E o curativo?

— Eu faço outro — resmungou, se levantando com o maxilar travado.

Quando ele se fechou no banheiro, eu me deixei cair na poltrona e puxei as pernas para cima, pensando em tudo que havíamos conversado. Logo escutei a descarga, e então, o chuveiro ser ligado. Eu relaxei e meus olhos pescaram. O cansaço que senti o dia inteiro por não ter tido uma decente noite de sono me conquistou. Cada fibra minha pedia por uma cama macia.

— Ella... Ella... — Lá no fundo da minha mente registrei o chamado e a sensação morna em meu rosto. Tão bom, que eu não quis abrir os olhos. — Antonella? Acorde, querida.

— Me deixa! — resmunguei sem abrir os olhos.

— Antonella, neném, acorda! — A voz soou tão perto dos meus ouvidos que abri os olhos de súbito. Vi Thor, seus olhos fixos em mim, sua expressão era de censura. — Você está cansada. Aposto que não dormiu nada de ontem para hoje. Não pode fazer isso, querida.

Eu não discordei. Não tinha forças para isso. Ele deu um passo atrás, dando-me espaço, e eu me levantei. Bocejei morta de sono, levantando os braços.

Quando fiz menção de passar por ele em direção a porta, sua mão se fechou em meu braço.

— Aonde vai?

— Para minha cama.

— Não. Você vai dormir aqui comigo.

— É melhor não. Você está machucado...

— Ei! Nós não vamos fazer nada, a não ser que você queira — piscou.

— Como você pode pensar em sexo quando está assim?

— Eu levei um tiro no abdômen não no meu pau — atirou ele, malandro. Mas, então, ficou sério, seu semblante pedinte. — Dorme aqui comigo, Ella. Eu prometo ficar quietinho. Cacete, mesmo se quisesse não poderia te foder agora. Eu apenas quero sentir o calor do seu corpo junto ao meu. Por favor, neném... Você vai me fazer implorar? É isso?

A tentação era grande, mas se eu me mexesse e batesse no ferimento dele?

— É só que... eu posso te machucar, sabe, virar bruscamente e acabar acertando bem no ferimento. É melhor que durma sozinho.

— Ella, você dorme como uma pedra. E você não se mexe enquanto dorme. Seu sono é tranquilo, portanto, vá já para aquela cama antes que eu te pegue no colo. E tire a roupa.

Franzi o cenho para ele.

— Não vou tirar nada.

— Você não vai conseguir dormir com esse tanto de roupa.

Grazie a Dio eu estava vestindo um short curto de malha e uma regata fininha.

— Ou será você que não vai conseguir abusar de mim?

Seus olhos arregalaram, dissimulando ofensa.

— Você é muito injusta comigo, garota.

— Vai dizer que essa não era sua intenção?

— Talvez — ele murmurou, coçando o queixo, com o sorriso safado embutido no rosto. Então, de repente, sua expressão ficou muito suave quando acrescentou. — Vamos lá, querida. Eu estou ferido e já estou tonto de ficar em pé. Só quero sua companhia. Por favor.

Ele se deitou primeiro. Ainda hesitei, mas o segui. Eu tentei não me aproximar tanto. Thor estava deitado de costas e reto. Eu me deitei de lado virada para ele. Estar próxima a ele me tranquilizou.

— Eu sinto muito — sussurrou ele quando meus olhos ameaçaram se fechar. Fixei o olhar nele sem entender. — Sinto tê-las feito passar por isso. Eu não pensei no sofrimento que causaria nas meninas por me verem naquela situação em que cheguei. — Eu também sofri o diabo. — Mas eu só queria estar em casa, — sua mão se entrelaçou na minha, — com você.

Meu coração deu um solavanco que eu pensei que ele fosse sair pela boca. Mordi os lábios e fitei nossas mãos entrelaçadas enquanto tratava de acalmar meus nervos, inutilmente.

— Você não tem que pedir desculpas por ter sido ferido. Não foi culpa sua... Como você mesmo disse, isso faz parte do seu trabalho. — Fiz uma pausa ponderada e completei. — Só tome cuidado.

Isso era o máximo que eu podia dizer sem me constranger.

— Olhe para mim, Ella — pediu num rogo. Mirei seus olhos que, na luz sombreada do quarto, brilhavam para mim, com uma comoção aflita. — E-eu... eu a... Ah, porra, me beija!

Eu beijei.