Dangerous

Daya Engler · Capítulo 40 de 45

Páginas do PDF

Dangerous

Capítulo 40

 

 

THOR

Enquanto eu, atordoado, assistia Antonella deixar a sala, uma dor aguda rasgou-me de um extremo ao outro. Meu coração quebrado em pedaços sangrava por suas palavras cruéis ditas com tanta frieza e repulsa. A dor entorpeceu meus sentidos, deixando-me no relento.

Ella não somente tinha me rejeitado, mas também humilhado da pior maneira que podia fazer.

Um filho. Estávamos indo ter um filho e ela não podia se comover com isso.

Fechei os olhos, tragando baforadas de ar, como se ato de alguma maneira fosse apaziguar um pouco da aflição que se instalou em minha alma. Sem sucesso.

— Me solte Adam — pedi num fiapo de voz.

Ele recuou.

— Cara, depois vocês conversam — Nathan disse.

Balancei a cabeça não olhando para ninguém.

Martha apareceu do meu lado, pousando uma mão em meu braço e a outra em meu pescoço enquanto me falava. Todavia, eu não a olhei, também. Não por embaraço, absolutamente. Minha perplexidade e indignação eram tamanhas que não havia espaço para a vergonha dentro de mim.

— Filho, deixe-a esfriar a cabeça e você também precisa se acalmar. A menina só está assustada... A notícia foi inesperada. Deixe-a digerir isso e depois vocês conversam. Tudo ficará bem, caro mio.

— Mamma tem razão Thor, dê tempo a vocês. Ela vai pensar melhor e aceitar o bebê.

Bati meu olhar tenaz sobre Pietra, ignorando a pena em seus olhos.

— Com toda a certeza que ela vai. Não há outra opção, se não essa. — Afastei-me de Martha e mirei meus amigos, fixando em Gabe e Marcela. — Me desculpem por terem de presenciar isso, eu...

— Está tudo bem, Heithor. Não se preocupe conosco — disse Marcela. — É comum que mães jovens surtem, até mesmo as mais velhas fazem quando descobrem uma gravidez planejada. Não se aflija. Eu estarei à disposição para qualquer coisa.

— Eu apreciaria se a atendesse amanhã.

— Claro.

Sacudi a cabeça outra vez e, em seguida, deixei a sala rijo da cabeça aos pés.

Estava no meu limite. Palavras de conforto por mais generosas e sinceras que fossem não surtiriam efeito benéfico em mim nesse momento. Unicamente, precisava estar sozinho com a minha dor. Tentar clarear meus pensamentos e encontrar uma maneira de resolver essa situação.

Tranquei a porta com a chave, deixando minhas costas se apoiarem na madeira por um instante. Exalei forte e puxei uma respiração funda então esfreguei o rosto com as mãos.

Um filho.

Não podia nem mesmo me deliciar com a notícia.

Letárgico no assombro pela facilidade que Antonella tinha em me dar o gosto do céu num minuto inteiro e me fazer caminhar pelo inferno meio segundo depois; pela minha incapacidade de defender-me dela, mas, sobretudo, estupefato e enojado que ela pudesse ser tão fria, dizendo afrontosas palavras sem demonstrar nenhuma compaixão, nenhum remanescente de remorso.

Eu sabia que ela era mimada,e em muitos momentos, uma pequena narcisista. Coisa da imaturidade de sua juventude, que eu podia relevar. Eu tinha feito isso muitas vezes, não?

Todavia, eu jamais imaginaria que ela sequer pudesse agir de maneira tão atroz. Profusamente desinteressada, mesquinha e... vagabunda. Uma cadela fria sem coração.

Endireitei-me e pisei até o aparador, servindo-me de uma dose de uísque que bebi num gole único, o líquido desceu queimando a minha garganta, porém não desfez o nó apertado nela.

Eu só queria esquecer aquele episodio na sala... Talvez, uma dose só não fosse suficiente para neutralizar a dor e as palavras dela. Talvez, nem todas as garrafas de Jack fossem suficientes.

Antonella era o meu veneno, mas também o meu antídoto.

Somente ela podia arrancar a dor do meu peito. Ou fazê-la maior. Dependia dela. E, como sempre, ela preferia ser o veneno. Não qualquer um. Mas aquele que mata aos poucos, bem devagar e lentamente. Ela costumava dizer quando brava que eu era seu carrasco, no entanto, a mestre aqui era ela.

Agarrei meu mais novo amigo, Jack, levando-o comigo quando pisei até a poltrona detrás da mesa, e então, deixei meu corpo arriar no assento. Bebi mais um longo trago direito do gargalo. Meu olhar fixo sobre o retrato que tinha dela em cima da mesa, sorrindo como anjo diabólico.

Como ela podia ser tão cruel?

Antonella tinha me rejeitado da maneira mais frívola e desumana que alguém pode fazer. Recusando ao nosso filho, ela recusava a mim. E ela tinha feito isso com um desprezo esmagador.

Eu não podia entender sua atitude, pois não era somente medo. Susto pelo inesperado. Era mais. Mais profundo e sólido... algo, talvez, permanente. Eu vi. Estava lá em cada palavra sua, em cada olhar, em cada expressão. Fora isso que me mortificou e fez-me quase perder a razão.

Meus olhos queimaram e, em seguida, senti a primeira lágrima cair.

Eu somente tinha chorado duas vezes em toda minha vida e nas duas foi por causa dela. Nem mesmo quando meus pais foram assassinados, eu derramei uma lágrima sequer. Talvez, porque naquele momento mesmo ainda estando longe de saber quem eram seus executores, meu foco fosse honrá-los vingando suas mortes. E, agora, as lágrimas vinham fáceis. Pois, embora eu quisesse ter esperança, eu sabia que não poderia fazer justiça. Não poderia exigir e esperar ser acatado.

Não havia uma solução sem uma perda, que eu não estava preparado para ter.

Como a felicidade que nunca imaginei que pudesse existir fugiu por entre meus dedos num piscar de olhos dando lugar ao lúgubre?

Perguntas e mais perguntas enchiam a minha mente, fazendo minha cabeça doer pela a ausência de respostas. Minha vontade era de gritar, de socar algo. Ou melhor, ir até o quarto dela e exigir que ela me dissesse que nada daquilo que ouvi era verdade. Que eu estava pirando e ela estava feliz por termos um bebê a caminho. Nunca antes havia me sentido tão deslocado e sem rumo.

Antonella tinha o poder de quebrar as minhas pernas num piscar de olhos. Isso não era saudável. Mas, então, eu não era inocente em relação a isso. Sabia que ela era a minha maior fraqueza. Todavia, estava além do meu controle, da minha vontade e da minha razão.

Tomei mais um bom gole de uísque.

Não queria ficar acordado, queria dormir e somente abrir os olhos novamente na manhã seguinte.

Quem sabe tudo isso não fosse um pesadelo?E quando acordasse percebesse que aquilo tudo que vi e ouvi não passou de um sonho ruim?

Mas a porra do sono que desejei não veio. Em uma atitude teimosa, a dor se recusava a me abandonar por mais embriagado que eu estivesse. Não consegui pregar o olho a noite toda. Tampouco, pude chegar a um consenso que fosse benéfico para nós dois.

Tudo estava muito claro, e eu odiava as duas alternativas conclusivas.

Eram dois desejos. Duas vontades completamente diferentes...

Respirei fundo, passando a mão em meu rosto e endireitei minha postura. Meu corpo reclamou pela noite passada em branco, os músculos estavam tesos pela posição que tinha ficado e minha cabeça latejava pelo meio litro de uísque que havia bebido no decorrer da madrugada.

Antonella não era de todo ruim, apesar dos pesares. Em meio à luta diária que ela me induzia, ela tinha me ensinado algo bom. Esperança. Mesmo com todos os contras, era a fagulha desse sentimento além do meu amor que me motivava a seguir lutando, e que agora, me impulsionava a ter um fio de fé que tudo ficaria bem.

Toc. Toc. Toc.

— Thor? Sou eu, Pietra... Marcela está no telefone. Você vai atender ou quer que eu diga a ela que você retorna a ligação mais tarde?

Exalei forte e, em seguida, puxei uma profunda respiração enquanto esfregava meu rosto com as mãos. O tempo de lamber as feridas tinha chegado e passado, e agora, estava na hora de agir.

— Eu atendo, Pietra — respondi quando abri a porta.

Peguei o telefone e dei as costas a Pietra. Eu não a olhei, porém podia sentir seu olhar preocupado em minhas costas enquanto falava com Marcela. Marcamos o exame ainda naquela manhã e a consulta para o mesmo dia assim que o resultado saísse.

Marcela não tinha dúvidas, e eu, tampouco.

A confirmação poderia ser feita pelo exame de ultrassom interno. No entanto, Marcela não poderia fazê-lo sem o consentimento de Antonella. Não que eu acreditasse que ela estaria mais disposta ao de sangue, mas este daria algum tempo para ela assimilar a ideia e para eu tentar algo. Mesmo que Ella ainda se recusasse, com o exame positivo, eu poderia ser mais eficaz antes de recorrer a extremos.

Deixei o telefone na mesa e caminhei até a porta, segurando-a aberta, antes de sair.

— Ela...?

— Passei no quarto dela agorinha mesmo. Ela..., bem, ela disse que não vai descer e que não quer ver ninguém. — Passei a mão pelo cabelo, irritado, e sacudi a cabeça. — Thor...

— Não diga nada Pietra. Eu vou resolver isso.

— Você vai deixar ela...?

— Só por cima do meu cadáver — grunhi ferozmente. E fiz um acréscimo. — Ela irá ter o nosso filho, quer ela queira quer não. Nada que Antonella disser me fará permitir tal atrocidade. Se tiver o filho significa perdê-la, eu aceito, mesmo que isso acabe comigo... eu aceito.

— Eu tenho fé que ela vá aceitar o bebê e você também deveria ter. Antonella só está confusa e assustada. Não deve ser fácil descobrir que vai ser mãe no auge da juventude, ainda mais quando não se tinha planos disso. Dio sabe, eu estaria me cagando se fosse comigo.

Dei a volta, fixando-me nela.

— Você tiraria? Renunciaria seu filho, se descobrisse estar grávida de Nathan?

— Certo che non, Thor! Não digo que eu não iria entrar em parafuso, como eu disse, eu estaria cagando. Mas nunca iria renegar um filho meu.

— Este é o ponto. Ela não tem por que rejeitar nosso bebê, se ela realmente estiver grávida. Antonella não estará sozinha nisso. Eu vou dar todo apoio que ela precisar, financeiro e emocional. A vida dela não acabou porque, supostamente, ela espera um bebê. Ella poderá concluir os estudos e fazer todas as coisas que planejou, com uma única diferença. Nosso filho será incluído nos planos meus e dela. No entanto, ela o rejeitou na primeira oportunidade, sem ao menos hesitar.

— Thor, você sabe que nem todos reagem da mesma maneira. O choque pode fazer uma pessoa agir das mais diferentes maneiras, indo de um extremo ao outro, não?

— Ela não titubeou em nenhum momento, Pietra.

— Dê um tempo para ela se acostumar com a ideia. Talvez, tudo que ela precise agora seja de tempo para assimilar a notícia. Sei que ela não é aquela sem noção de ontem. Foi o choque.

— Eu darei, mas não passarei mais a mão na cabeça dela — finalizei, deixando a sala de estudos.

Deus sabe o quanto eu desejava que a reação dela fosse somente por medo do desconhecido. Tinha de ser isso. Era doloroso demais pensar no contrário. Eu apenas esperava que a noite tivesse servido para ela pensar nas coisas que disse e na atitude repugnante que teve diante de todos. Que a manhã tivesse não só trazido um novo dia, mas também o arrependimento, a razão.

Não queria pensar nela rejeitando-o novamente como fez ontem. Doía demais.

Hesitei na frente da porta dela. A vontade de entrar no quarto quase grande demais para que eu negasse. Respirei fundo. Ainda não estava pronto para isso. Entrei em meu quarto e fui em direção ao banheiro. Tomei um banho frio e, em seguida, busquei uma aspirina no armário.

Enquanto me vestia reuni forças para enfrentá-la.

Era cômico que um homem como eu precisasse me armar de forças para falar com uma garota, supostamente, inocente e frágil. Entretanto, não poderia deixá-la ver o quanto sua atitude tinha me afetado. Infelizmente, Antonella era o tipo de pessoa que crescia ante o sofrimento de quem ela considerava seu inimigo. E no momento, eu era seu maior inimigo.

Parei na frente de sua porta, adotando minha melhor expressão de impessoalidade e, em seguida, entrei sem bater. Ela estava de pé na frente da janela, de costas para mim.

— Se arrume, pegue seus documentos e desça. Nós vamos sair em meia hora — eu informei em um tom que não deixava margens para protesto ou qualquer recusa, e então, saí sem olhar para trás.

Logo Antonella apareceu na sala, olhando para qualquer lugar, exceto para mim. Meu coração sangrou um pouco mais enquanto a mirava.

Ela vestia jeans, blusa branca e um cardigã vermelho. Os cabelos estavam presos.

Estava linda, embora carregasse marcas escuras ao redor dos olhos esquivos e seu rosto estivesse inchado, denunciando a noite mal dormida.

Ao menos isso nós compartilhamos. Uma noite de merda.

E, mesmo irritado por sua postura de princesa do gelo e ciente que ela, naquele instante, não merecia mais que a minha frieza, eu quis abraçar e colocá-la no meu colo. De alguma maneira, apartar dela qualquer medo que ela sentisse e dizer que tudo ficaria bem, e talvez, no processo amenizar o meu próprio temor. Porém, isso seria tolice da minha parte. Então me limitei a olhá-la.

— Podemos ir? — perguntei, rompendo o silêncio desagradável entre nós.

Ella levantou seu olhar e me fitou dentro dos olhos com tamanha frieza, que custou cada grama da minha força para não vacilar. Nunca antes ela tinha direcionado a mim um olhar tão frio como aquele. Tão cheio de ódio, rancor. Nem mesmo no dia anterior. Doeu e sangrou o inferno fora de mim. Ela então me deu as costas e pisou em direção a garagem, sem qualquer palavra.

No caminho para clínica, em LA, o silêncio se perdurou entre nós. Antonella colocou os fones de ouvido e os óculos de sol, fechando-se em si mesma. Colocando uma distância fodida entre nós.

Eu me perguntei, se aquele comportamento infantil era inconsciente ou para me enfurecer mais, porque se fosse o último, ela estava fazendo um excelente trabalho. Antes mesmo de chegar à clínica, eu estava fervendo em uma fúria contida descontada no volante do carro.

Plantei o olhar sobre ela, esperando por qualquer pergunta que fosse ao estacionar o carro próximo ao meio-fio de frente para a clínica. Ella não tinha especulado para aonde iríamos e, mesmo se houvesse algum interesse, ela manteve isso para ela mesma.

Saltei fora do carro, contornando-o e, em seguida, abri a porta para ela.

Antonella desceu e elevou a cabeça para trás quando mirou a discreta placa da clínica. Uma demonstração de que não estava tão alheia quanto eu pensava.

Envolvi sua mão, firmando meu agarre quando a senti ficar rígida pelo contato. Ela tentou puxar a mão, porém eu mantive meu aperto, e então, seguimos para dentro da clínica.

— Bom dia — eu disse quando nos dirigimos à recepção. — Temos uma hora marcada para fazer o exame de gravidez.

— Qual o nome, por favor?

— Antonella Vicenti — respondi por Ella, que mantinha sua pose de vítima.

— Ah, sim. É... — a recepcionista hesitou, intercalando seu olhar entre nós dois.

— Eu preencho. — Peguei a ficha da mão dela e olhei para Ella. — Me dê seus documentos.

Preenchi a folha e a entreguei de volta para a mulher.

— Podem me acompanhar, por favor.

Espalmei a mão em suas costas quando acompanhamos a recepcionista até uma salinha. Após a coleta de sangue, deixamos a clínica. Marcela tinha me dito antes que pediria urgência e o resultado sairia em duas horas. Não compensava retornar a Malibu para logo ter de fazer a viagem de volta a LA. Desta forma, passei em uma loja da Starbucks e comprei café para Ella então segui para o meu apartamento. Antonella não questionou, novamente. Eu decidi deixá-la em sua encenação de gelo.

Guiei-a até a cozinha e coloquei a sacola sobre a mesa. Ela se sentou quando puxei a cadeira, e então, a servi, abastecendo seu copo com leite e seu prato com a comida que tinha comprado.

— Coma.

— Não estou com fome.

Travei o maxilar.

— Eu não perguntei se estava. Coma.

Sua coluna ficou ereta, mas ela não disse qualquer coisa e começou a comer.

Engoli minha raiva e fui até a geladeira. Minha garganta estava áspera. Não sei se pela irritação crescente dentro de mim ou pelo nó de apreensão apertando-a. Servi-me de suco de laranja e encostei-me ao balcão enquanto observava Antonella. Tinha de me certificar que ela iria comer.

Quando ela afastou o prato ainda pela metade, eu perguntei:

— Quer mais leite?

— Não, — disse ela, áspera e secamente, após um momento de silêncio. Levantou-se e ainda sem dirigir os olhos para mim, ela acrescentou. — Eu preciso usar o banheiro.

— Não tem que me pedir. O apartamento continua sendo seu, Ella. Tudo... Você conhece o caminho. Ou precisa que eu te leve?

Ela saiu. Eu caminhei para a sala e me sentei, sentindo todo o peso da dor que sua indiferença me causava. Num piscar de olhos tínhamos nos tornado dois completos estranhos. A distância entre nós que a viagem tinha encurtado, a notícia da gravidez esticou além.

Sustentei os cotovelos em minhas coxas e entrelacei as mãos detrás da nuca, inclinando a cabeça para baixo. Respirei fundo, fechando os olhos, brevemente.

Francamente, eu nem mesmo sabia o que sentir. Eram tantas emoções e sentimentos revolvendo dentro de mim. Uma aflição agonizante, que eu não tinha ideia de como tirar de mim.

Eu admitia, não era o melhor cara do mundo, estava longe de ser perfeito. Também não era o mais adequado para se tornar pai por inúmeros motivos, o primeiro deles, minha profissão. Mas dentre todos os meus fodidos defeitos, e eram muitos, eu estava aqui para ela.

O que mais ela queria? O que mais ela precisava além do meu apoio? Do meu amor?

Eu não podia compreender por mais que buscasse uma razão, e eu tinha de buscar uma. Era uma busca vital. Do contrário, eu teria de reconhecer que Antonella era realmente uma cadela.

— Vamos ficar aqui até quando?

Levantei a cabeça, fixando meu olhar nela, que tinha os braços cruzados sobre o peito e a cara amarrada. Ela estava de pé, detrás da poltrona. Seus olhos demonstrando impaciência, frios.

Essa, definitivamente, não era o tipo de situação que imaginava estar. Nesse clima pesado que Ella fazia questão de enfatizar. Este deveria ser um momento de felicidade e expectativa para ambos. Era um momento em que mulheres normais ficavam ansiosas e nervosas, torcendo por um resultado positivo enquanto seus companheiros, mesmo se cagando, se faziam de firmes, acalmando-as e lhes dizendo que tudo iria dar certo, eu pensava. Todavia, Antonella fazia questão que o momento se parecesse um funeral. Isso me deixava puto.

— Por que está fazendo isso? Por que me machuca dessa forma?

— Não estou fazendo nada, Heithor. Você é quem está. Não eu.

Coloquei-me de pé e me aproximei dela, querendo abraçá-la.

— Não precisa ser assim, Ella.

— Exatamente. No entanto, você insiste em uma loucura e quer que eu aceite de bom grado, como se me fizesse um favor? Não sou obrigada a compartilhar da sua sandice Thor.

— Não é sandice querer proteger um pedaço nosso, neném. Nosso filho está aí. Aceite isso, pelo amor de Deus. Pare de ser tão sem coração. Não sente nada? Não sente nem isso aqui de felicidade?

Ela fechou a cara, os olhos em gelo.

— Você sabe o que eu sinto. E não afirme o que não sabe.

— Eu sei e você sabe. O exame é uma mera formalidade.

Ella apertou os lábios desviando o olhar.

Numa atitude desesperada puxei-a para mim, segurando sua nuca e espalmando suas costas quando apoiei nossas testas juntas. Fixei meu olhar dentro do seu, suplicando aos céus em silêncio que ela entendesse e sentisse por mim. Que caísse em si e enxergasse a besteira que estava fazendo. Qualquer porra. Só não essa frieza. A distância que me colocava doente por dentro.

— Não faz assim... Você está acabando comigo, neném. Por favor, não aja dessa maneira e não diga essas coisas. Machuca-me cada palavra. Está fazendo o meu coração sangrar por uma infantilidade cruel. Se estiver com medo, eu posso entender, porque eu também estou. Mas tudo ficará bem. Eu prometo. Não estou te deixando sozinha, Ella.

Impulsivamente, tomei sua boca não lhe dando qualquer chance para escapar. Por um instante, ela não se moveu, mas eu não desisti, beijando-a com desespero. Ela tinha de sentir. Tinha de saber que eu não brincava. Meu amor era real. Eu estava lá com ela e não iria desistir de nós. Sua boca se moveu, a princípio tímida, e então, ela me correspondeu quase me colocando de joelhos. Beijando-me da maneira que fazia meu coração bater mais forte. Com paixão, com necessidade e aquecimento. Seus dedos agarraram meu cabelo, e eu quase pude sentir a leveza do alívio.

Abrandei o beijo, mantendo nossos lábios próximos quando murmurei:

— Vamos enfrentar essa situação querida. Nós podemos fazer isso. Juntos. Não tem de se casar comigo, se não quiser. Só vamos ficar juntos como antes, numa boa. Sem cobranças. Eu sempre estarei aqui para você... para vocês dois. Por favor, use seu coração ao menos uma vez. Eu não vou te machucar, eu prometo. Mas, por favor, pare com isso. Temos de pensar no nosso bebê...

Ela abriu os olhos, sua feição apertando em teimosia quando retirou as mãos do meu cabelo e se afastou, como se eu a queimasse. Estiquei a mão, querendo pará-la e ela recuou mais.

— Ella...

Suas mãos balançaram no ar.

— Non mi stai dando altra scelta, merda74!

— Estou te dando à opção de ter o nosso filho, amor.

— Isso não é opção. É castigo!

— Do quê tem medo? É pela surpresa? A sua idade? Sua família? O quê? Nós? Fale comigo, eu estou aqui. Seja lá o que for, nós podemos resolver juntos. Mas fale comigo, porra!

— Não preciso sentir medo e, certamente, não preciso de justificativas por não gostar de algo. Não gosto e pronto. É minha opinião. Respeite-a.

Minha expressão se afundou em desgosto.

— Então é um capricho seu? É isso, Antonella? Um fodido capricho?

— Inferno, Heithor! Que parte você não entendeu? Pare de querer achar razões para tudo. Eu não quero bebê nenhum. Não sei por que você insiste nisso.

— Porque eu te amo, cacete! Porque esse bebê é nosso. Uma parte de nós dois, Antonella. Uma fodida parte minha! Não foi planejado, mas ele está aqui e merece o nosso cuidado. É um inocente. Não vê isso? Não vê que ele precisa de nós? Sei que não temos a relação mais normal e estável do planeta, mas podemos tentar fazer dar certo, se quisermos, se você quiser.

— Aí está o ponto, Thor. Eu não planejei isso, nem você. Entende? Não precisamos continuar com essa loucura. — Ela pausou, lambendo os lábios com estranho nervosismo repentino. — Se quer tanto um bebê você pode ter um.

— Não estou te acompanhando. O que você está dizendo?

Ela tomou fôlego antes de começar, e eu pensei que era melhor ela não ter aberto a boca.

— Se quer tanto um bebê, você pode ter um. Não tem de ser comigo. — Eu fiquei sem ação por um breve momento, descrente do que ouvia e que ela pudesse realmente estar soltando as palavras. Seu olhar brilhava esperançoso. Ela realmente falava sério. — Eu não me importo se você tiver um filho com outra, mesmo com Norah. Ambos sabemos que ela estará mais do que disposta. Ou qualquer outra que queira. Ou adote um. Eu juro que não vou ficar com raiva de você...

— Perdeu sua mente, Antonella? Que porra você está dizendo?

Ela deu de ombros com desdém.

— É uma saída. Justa. Ambos vamos ter o que queremos. Você tem o seu... bebê tão desejado e nós continuamos como estamos. Todo mundo fica feliz. Sem brigas.

Pela primeira vez eu não soube discernir se fiquei puto pelas palavras em si ou pela forma que elas foram ditas, como se fosse à coisa mais natural do mundo de se dizer. Simples assim.

— Fique quieta Antonella. Não diga mais nenhuma fodida coisa — rosnei enojado. — Você desmerece o meu amor e me humilha sem ao menos pensar no que me causa... Acredita mesmo que eu me deitaria com outra mulher que não seja você somente para ter um filho? Só porque você não consegue aceitar a ideia de que está na hora de crescer? De deixar as futilidades e as criancices de lado para começar a agir como uma mulher adulta e sensata que vai ser mãe? Que espécie de homem você pensa que eu sou para me fazer uma proposta fodida dessas? Você não tem ideia da dimensão do meu amor por você. Mas não posso te culpar, não é assim? Você sequer sabe o que é amor de verdade! Você não se permite ir além, a gostar de alguém e investir na relação porque no fundo, debaixo dessa crosta de orgulho e dureza, você não passa de uma tremenda covarde, Antonella. É uma fodida medrosa.

— Não tenho que viver de romantismo para provar minha valentia.

— Realmente, não tem. Valentia se prova com atitudes maduras e sensatas, no dia a dia, nas pequenas coisas. E você, Antonella, até agora somente teve atitudes de merda, de uma criança assustada que está tentando bancar a adulta. Por detrás de toda essa petulância e autoconfiança, você é uma garotinha insegura, que se esconde atrás de uma segurança irreal. Por isso tem de se reafirmar para si mesma a todo tempo, porque no fundo você sabe quem é. Conhece a sua fraqueza e luta contra, contudo, faz sempre da maneira errada, cometendo um erro atrás do outro, porque não pode admitir seus erros, nem sequer buscar ajuda. Sempre tem um culpado para suas merdas e ele nunca é você, verdade?

Sua expressão era de deboche, mas eu a conhecia bem para saber que tinha acionado seus botões.

— Isso é o detive falando? Porque se for, aconselho a repensar na sua carreira, Castellammare.

— É o homem, Antonella. É a experiência que a vida me deu e que dará a você cada vez que insistir em um erro que não precisa ser. E é isso que eu estou tentando evitar que aconteça, sua estúpida. A vida ensina a gente na porrada, Ella, ela bate sem piedade. Não há mãozinha na cabeça. Não há dinheiro. Status social. Nem pai, nem mãe. É só você e ela. E, confie em mim, no final você terá de se curvar perante ela. Vai aprender na marra e da pior forma. Eu só queria que você fosse menos teimosa e estúpida para que o tombo não fosse tão duro. Todos têm suas lutas, neném, mas é você quem escolhe o grau de dificuldade delas. Infelizmente, você tem a tendência a escolher sempre o caminho mais difícil.

— Bravo, bravo! Psicologia reversa? Isso deve dar certo seja lá com que tipo de idiota que você está acostumado a lidar, não comigo. Minha posição continua sendo a mesma. Não vou me curvar e aceitar o que considero um tremendo erro somente porque você quer que seja assim.

— Não é um erro, mulher! Por que não pode ver isso? Por que não pode agir como uma mulher normal e ficar feliz por ser mãe? Foi um susto para mim também, mas eu estou feliz com a ideia de ser pai. Aqui não se trata de curvar ou ceder ao outro. Há uma criança, entenda isso.

— Entenda você que eu não quero.

— Esta decisão não é somente sua. Ele é meu também e eu o quero.

— Você vai jogar fora tudo o que a gente tem por isso?

— E o que a gente tem Ella? Tire-me esta dúvida, por favor — calmamente, eu pedi. Ela mordeu o lábio e apertou os dedos das mãos uns contra os outros, num gesto de típico nervosismo. E permaneceu quieta. Eu pressionei, realmente, curioso por sua resposta. Ela estava jogando comigo, e eu queria saber a que ponto ela iria. — Vamos. Diga-me. O quê nós temos?

— N-nós... temos um... um lance.

Nunca tinha batido em mulher por achar tal ato uma covardia sem igual, mas Antonella estava me fazendo repensar em minha opinião. Se ela não estivesse grávida, naquele momento eu a teria colocado sobre os meus joelhos e estapeado a sua bunda até que ela crescesse.

— Lance? Certo. Minha resposta é sim. Jogo fora o nosso lance pelo o nosso filho.

— Você não pode estar falando sério! Você disse que me amava!

— Eu amo, Antonella. Amo até demais. Tanto que chega a me fazer mal.

— Se isso é verdade então me prove. Deixei-me fazer o que eu quero.

— NÃO! — exaltei-me a um fio de perder o controle. — Não adianta fazer chantagem. Não vai funcionar. Não comigo. Infelizmente, eu te amo mais que tudo, mais que a mim mesmo, mas nem por isso permitirei que você atente contra a vida do nosso filho. Não me tente Antonella. Ou você pode conhecer um lado meu que não irá gostar. Escute isso, porque eu falo muito sério.

Seus olhos cresceram.

— Você está me ameaçando?

— Tome isto como um conselho. Não ouse fazer nada que vá prejudicar você e ao nosso filho. Se fizer qualquer mínima coisa que seja, que Deus tenha piedade de você, porque eu não terei nenhuma. Eu não quero te machucar de nenhuma forma, mas se machucar o nosso bebê...

Eu me calei, porque doía dizer e doeu mais perceber que as palavras não ditas eram sérias.

Eu realmente a machucaria, se ela machucasse nosso bebê.

Doeu ver o caminho sem volta que sua atitude estava se esforçando para nos empurrar, e pior, que ela estava tão presa em si mesma que não se importava com isso desde que tivesse o que queria.

Ela era uma cadela e eu amava-a.

— De todas as coisas que você poderia fazer contra mim, esta é a pior delas — pausadamente, ela mordeu fora, com os olhos lacrimosos e, em seguida, assisti as gotas grossas caírem. E por mais puto que eu estivesse, cada uma delas me apunhalou por dentro, porque eu queria dar tudo a ela, queria fazer a vontade dela, mas não podia. — Ti odio... Dio, ti odio così tanto, tanto...

A abracei, aspirando o cheiro bom de seu cabelo, sentindo meus próprios olhos turvarem.

— Tudo bem, tudo bem. Eu amo você.

— Nunca vou te perdoar... Juro, maledetto... i-io mai... — ela soluçou.

— Eu aceito as consequências... eu aceito — sussurrei contra os seus cabelos.

Meu celular tocou naquele exato momento. Eu me afastei.

— Castellammare.

— Bom dia, Heithor. Sou eu, doutora Marcela Fernandes. Estou ligando para informar que o exame está pronto. Quer que diga agora ou quando chegarem aqui para a consulta?

Olhei para Antonella, que me encarava de volta ainda com os olhos vazando, porém não havia vulnerabilidade neles, senão um vazio inquietante. Desci o olhar para sua barriga plana e engoli. De repente, me sentia gelado. A resposta era clara, entretanto, eu precisava ouvir a palavra.

— Agora.

— Positivo, como suspeitei. Parabéns...

Respirei fundo, me segurando em pé. Eu já conhecia o resultado, mas ouvir a confirmação com todas as letras foi um baque. Um sentimento inexplicável. Não era nem alegria, nem tristeza. Na verdade, eu não me permitia sentir nada enquanto olhava para Antonella. Sabendo que, de fato, minhas suposições se solidificavam numa certeza tão clara quanto a sua imagem.

— Heithor ainda está aí?

— Desculpe-me. Estou ouvindo.

— Eu quero saber de você, ainda virá para a consulta ou ela irá ao médico dela? Como disse, Antonella precisa fazer uma bateria de exames e começar a tomar as vitaminas pré-natais.

Eu me afastei para um canto da sala, mantendo meu olhar sobre Ella.

— Ela fará com você — falei em tom baixo. — Não posso dar nenhuma brecha a ela, e eu não confio em mais ninguém. Sei que cuidará bem dela e do bebê.

— A situação ainda está complicada — ela deduziu, num tom solidário.

— E ficará ainda mais — entrevi com um exalar pesado.

— Entendo. Mas Heithor, como médica, eu não posso acompanhá-la ou fazer exames se ela não permitir. Vai contra minha ética profissional. Sei que você e Gabe são grandes amigos, e eu farei tudo que estiver ao meu alcance para ajudá-lo. Porém, se ela se negar, eu estarei de mãos atadas.

— Aprecio sua consideração. E não se preocupe, eu vou cuidar disso. Apenas releve-a.

— Certo. Eu estarei aguardando vocês.

Desliguei a chamada, enfiando o celular no bolso da calça. Antonella tinha se sentado no sofá e olhava as unhas. Eu aspirei duramente e me movi para perto dela.

— Era Marcela. — Esperei que ela me olhasse, mas não aconteceu. — Positivo.

Observei seu corpo endurecer, antes de ela levantar os olhos para mim. Sua expressão por um instante congelada. Não de espanto, mas de quem acaba de receber a pior notícia possível.

— Finalmente, você conseguiu — ela murmurou quando se colocou de pé, os olhos vermelhos brilhando, fulminando-me com uma ira crua.

— O quê? Que me desprezasse por que fizemos um filho?

Suas feições tinham tantos sentimentos como uma pedra pode ter.

— Você sempre esteve tentando encontrar uma maneira de me prender a você. Primeiro, com as chantagens e todas aquelas regras idiotas, depois o sexo e agora...

Meu controle escorregou então eu estava face a face com ela.

— Não nego as chantagens. Fiz para o seu bem, sabe disso. Agora, sexo? Eu nunca te obriguei a ir pra cama comigo. Ou fiz? Diga, porra! Fiz? Obriguei-te alguma vez? Nosso filho aconteceu. Foi um acidente. Ou acha que tive culpa por você ter ficado doente e ter sido obrigada a tomar antibióticos? Por favor, está tão fissurada na sua convicção asquerosa, que não pode usar a cabeça. Mas okay. Se me culpar por isso torna as coisas mais fáceis para você, fique a vontade. Me culpe, Antonella... — Pausei, respirando fundo e quando mais controlado, eu acrescentei. — Eu nunca quis te prender. Posso e sei que fiz, ter passado a mensagem errada quando agi mal com você e me desculpei por isso na primeira oportunidade que tive. No entanto, tudo que fiz até hoje foi tentar ser bom o suficiente para você. Foi tentar te mostrar que eu era o melhor para você, que podíamos ter um futuro, se você me aceitasse. Eu quis e quero te fazer feliz, entretanto, nunca parece ser o bastante por mais que eu tente. Ou, talvez, eu realmente não seja.

— Não posso ficar, nem respeitar alguém que me troca na primeira oportunidade que tem.

— Vou me arrepender... Por quem eu te troquei?

Suas mãos alardearam em torno de si mesma.

— Por isso!

— Maldita seja, isso é nosso filho! — Corri a mão por meu cabelo. — Não se trata de preferir entre um e outro, Antonella. Escolher dar uma chance para ele vir ao mundo não diminui o que eu sinto por você e o que você significa para mim. Eu posso amar ambos sem neutralizar um ao outro. Não percebe que é você quem está escolhendo?

— Porque você está me obrigando!

— Você está se ouvindo, Antonella? Nós estamos falando de uma criança, do nosso filho!

— Nós, nosso... Você e essa sua mania de plural. Não há nós, Thor. Existe apenas você e eu. E, com certeza, não existe essa merda de nosso. Há somente o meu corpo, minha decisão.

A encarei cheio de decepção, e então, balancei a cabeça frustrado.

— Ele tem meu DNA. É meu. Uma parte pequena de mim, e eu não estou abrindo mão dela.

— Isso não quer dizer merda nenhuma! Ainda é o meu corpo e eu não quero isso nele, droga! Por que não pode entender isso? Eu não amo você. Por que vamos insistir nisso?

— Quer saber? Fique quieta. Você só está dizendo merda. Não tenho mais paciência para sua rebeldia infundada. Chega de birra. Agora, pegue sua bolsa. Temos uma consulta com Marcela. E escute bem, Antonella, não vou mais aturar nenhum desrespeito seu. Nenhuma fodida gracinha. Vamos à clínica e você irá se comportar, como a mulher adulta que você ignora ser. Estou falando sério, faça uma só gracinha, e eu vou te colocar sobre os meus joelhos e te surrar até que cresça.

— Você não...

— Tente-me.

Momentos mais tarde, estávamos entrando no consultório.

— Bom dia — Marcela disse.

— Bom dia — eu articulei.

Antonella se manteve quieta.

— Sentem-se, por favor.

Uma vez que nos sentamos, Marcela continuou:

— O resultado do exame está aqui em minhas mãos. — Ela me estendeu a folha. — Bem, agora o que precisamos fazer é começar a cuidar do pré-natal. Antonella, você precisa fazer alguns exames de rotina e tomar as vitaminas. Eu estou disponível para ser sua obstetra ou você pode fazer o acompanhamento com outro médico de sua preferência.

Eu assenti de maneira sutil, agradecendo-a por dar a Antonella a alusão de escolha.

— Ela fará com você, Marcela — garanti categórico.

Antonella prolongou seu silêncio. Emburrada, como uma criança de dois anos.

— Bem, desta forma, eu vou prescrever as vitaminas que Antonella tem de começar a tomar e também vou marcar um horário nesta semana para ela fazer alguns exames. Além de um hemograma e de glicemia para avaliar seu tipo sanguíneo, fator Rh e como anda a sua saúde. Quais tipos de doenças ela já teve que podem comprometer o desenvolvimento do feto, okay?

Assenti. Ela olhou para Antonella.

— Eu gostaria de lhe fazer algumas perguntas, Antonella, se você não se importar.

Antonella respondeu às perguntas, deixando claro em sua voz a aversão à gravidez. Eu tinha pensado que não poderia haver momento mais constrangedor que aquele até Marcela anunciar o ultrassom interno para sabermos de quantas semanas ela estava. Antonella, simplesmente, se apossou dos fones de ouvido, ignorando qualquer conhecimento sobre nosso filho.

Embora eu ficasse ansioso para ver nosso bebê, mesmo que ele ainda fosse um grãozinho, a magia do momento se desfez. Estava lá, eu sentia, mas toda a indiferença e desprezo de Antonella pelo momento neutralizou qualquer fio alegria que eu pudesse sentir naquele instante.

Ouvi os batimentos cardíacos e vi nossa criança. Era apenas uma semente. Uma que eu já amava, que me fez sentir possesso por sua segurança e bem-estar. Era meu. Nosso.

Antonella tinha de aceitá-lo, não havia alternativa, se não essa.

Pelos cálculos de Marcela, Antonella estava na sexta semana e meia de gestação. Ele era saudável e estava se desenvolvendo bem. Esta foi à única notícia boa.

Deixamos a clínica, absortos em nós mesmos.

Dentro do carro, eu fiquei ali, parado, tentando compreender toda falta de emoção que Antonella demonstrou. Estava indignado demais. Não conseguia entender como uma pessoa podia ser tão fria e ignorar o que estava acontecendo à sua volta, dentro de si, como se não fosse nada além de uma pedra que ela só se daria o trabalho de se mover para colocá-la do lado.

E, vou dizer, em meu trabalho para garantir o êxito da missão em que estava, as emoções tinham de se manter fora. Sentimentos podem tirar meu foco, provocar uma ação impensada, e então, eu estava fodido e prejudicando quem estivesse ao meu lado. Então eu tinha de ser de pedra quando em ação, mas isso era o meu trabalho, era para garantir a segurança da minha equipe, de quem eu tivesse de proteger e de mim mesmo. Antonella não tinha nenhuma dessas responsabilidades, não tinha recebido nenhum treinamento, mas agia como uma perita.

Eu sei. O ser humano tem muitas faces e algumas são realmente ruins. Eu apenas não podia acreditar que Antonella escolhia usar a pior, a mais podre, e não sentir remorso por isso.

Inabalável.

Uma garota empedernida, treinada por conceitos estóicos.

Princesa de gelo do caralho.

Soltei uma exalação, recostando a cabeça no respaldo do banco, e então, inclinei-a para o lado para olhar pra Antonella, que mantinha os olhos na outra direção. As mãos guardadas em seu colo.

— Não precisa nos levar ao inferno, Ella. Não enxerga isso? Sua atitude está afetando a todos, até mesmo você. Sobretudo, você, querida. Não tem de ser assim. Vai afastar todos que se importam com você, que te amam, por um erro que não precisa ser. Vai me afastar.

Seu olhar cruzou o meu e se demorou em mim.

— Eu aceito as consequências.

Eu também.