Dangerous

Daya Engler · Capítulo 43 de 45

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Dangerous

Capítulo 43

 

PIETRA

Raízes nasciam em meu traseiro, fazendo do sofá da sala de estar uma extensão do meu corpo enquanto eu tentava segurar as rédeas da minha ansiedade, rezando para que tudo desse certo.

Meia hora e não me sobrava unhas mais para roer, a não ser as pontas dos dedos, porém, em compensação, eu não tinha ouvido nenhum grito ou barulho suspeito vindo do escritório.

Isso era um bom sinal, certo?

ERRADO!

Antonella passou por mim e subiu a escada tão rápido, que pensei ter imaginado. Duvidei até que ela tivesse me visto. Droga. Respirei fundo e fui ao encalço de Thor... antes não tivesse ido.

Uma vez dentro do escritório, meu coração se afundou tão fundo, que precisei de uma pausa para respirar, quando a visão de mio fratello encheu meus olhos. Ele estava sentado no sofá negro de dois lugares, com as mãos sobre o rosto e chorava copiosamente, tanto que os ombros balançavam. Não era um choro qualquer. Era um sofrido, doloroso e desesperado pranto, que alagou meus próprios olhos e oprimiu a minha garganta num aperto de morte.

— T-Thor?

Ele descobriu a face e me olhou e, numa fração de segundo, eu tinha o lábio tremendo e as primeiras grossas lágrimas deslizando por meu rosto. Seus bonitos olhos estavam vermelhos e havia tanta dor neles, que isso bateu diretamente em mim.

Quanto um homem precisa ser torturado antes de quebrar complemente?

Eu não sabia a resposta, todavia, era ciente que Thor estava no limite, tão perto, que eu poderia ver as rachaduras se formarem e se espalharem com uma rapidez incrível.

— Oh, merda...

Em uma batida de coração eu estive ajoelhada na frente dele, com meus braços em volta do seu pescoço e os seus próprios apertados ao meu redor enquanto ele desabava.

Thor estava sangrando. Quebrado. Vulnerável. Arruinado.

Senti-me extremamente impotente e angustiada ao mesmo tempo.

Embora Mamma estivesse me dando suporte desde a morte dos meus pais, Thor era nosso alicerce, sempre tivera sido ele. Mesmo no velório de nossos pais, ele tinha se mantido firme, e agora, ele estava se desmoronando em meus braços. Isso me fez doer na alma.

Mordi o lábio com força e fiz a única coisa que poderia fazer no momento, apertei-o mais forte enquanto escovava as pontas dos meus dedos em seu cabelo. Buscando reconfortá-lo de alguma maneira e tirar um pouquinho que fosse do seu sofrimento. Era inútil. Mas era a única coisa que eu tinha ao meu alcance.

Não sei quanto tempo ficamos assim, porém em algum momento ele parou e me soltou enquanto limpava a face molhada com as mãos. Thor não me olhou. Levantou-se e, em seguida, se aproximou da janela de costas para mim, com as mãos nos bolsos e o olhar perdido a frente.

O que tinha ocorrido? O que tinha dado errado? Ele tinha aceito interromper...?

Não. Thor não aceitaria. Não mesmo!

Tinha perguntas disparando em minha mente e uma sensação muito ruim, contudo, me reservei ao silêncio, dando-lhe seu tempo. Saí da minha posição e me sentei no sofá.

— Ela aceitou — ele disse numa voz quebrada.

Estreitei os olhos em confusão.

— Aceitou o quê?

— Entregar o nosso filho a mim quando ele nascer.

— CHE? Como assim aceitou te entregar o filho?

— Eu propus a ela que me entregasse o bebê quando ele nascesse e ela aceitou.

Saltei sobre meus pés.

— Por que você fez isso? Você não podia ter feito isso! Ela vai aceitá-lo, sei que vai!

— E o que eu deveria fazer Pietra? Sentar e esperar a boa vontade dela? Ou quem sabe esperar até a próxima loucura que ela aprontar e eu não tiver tanta sorte de chegar a tempo? — ele ralhou nervoso, passando as mãos pelo cabelo quase arrancando os fios no processo.

Encolhi os ombros, suavizando minha expressão, apesar do choque imperar em meus olhos.

— Mi dispiace. Eu não deveria ter dito isso...

— Estou cansado, Pietra. Farto dessa situação... dela. A cada minuto que passa eu sinto que estou perdendo a mente mais e mais. Eu queria... Deus, como eu queria que ela entrasse aqui e dissesse que tudo não passou de um equivoco, que ela está feliz com a gravidez ou no mínimo que tentaria vê-la com bons olhos. Mas isso não vai acontecer Pietra. Nem hoje, nem amanhã, nem depois, nem em qualquer fodido dia. Não adianta tentarmos tapar o sol com a peneira. — Ele fez uma pausa, parecendo respirar fundo e acrescentou, com a voz vazia e nula de emoções. — O desprezo que ela sente por essa criança... por mim, é real. Sua atitude infeliz de hoje apenas reforça isso... Ela não quer ajuda, ela não quer sequer tentar. Fodidamente nada. — Seu olhar me buscou sobre o ombro, apagado. — Eu fiquei com tanto ódio quando Benjamin ligou... Eu a odiei quando a vi deitada naquela fodida mesa pronta para matar nosso filho, como se ele não fosse nada além de uma coisa inconveniente, — seus olhos brilharam com lágrimas, vergonha e mais um punhado de dor sombreou sua expressão, — eu desejei matá-la. Fazer coisas realmente ruins contra ela, até que ela me implorasse para que eu acabasse com a sua vida. Ainda sinto tanto nojo...

— Você não tem que se martirizar por pensar ou se sentir desta forma, Thor. Qualquer um no seu lugar teria pensado o mesmo. Não se culpe por algo do qual você não tem controle.

Ele deu um sorriso duro e voltou a olhar para frente.

— Eu apenas lhe fiz a proposta porque não tive alternativa, ainda não tenho nada. Esta foi à única maneira que eu encontrei para que ela sossegasse e não tentasse mais nada estúpido, que venha a colocar a vida dela e do nosso filho em risco — ele concedeu após um momento de silêncio. — Será que é crime querer manter a vida do nosso filho segura? É crime querer proteger um pedaço seu? Ela aceitou e ainda impôs condições, como se nós falássemos de uma mercadoria qualquer e não de um ser inocente. Eu sei... é doido. Afinal, eu ofereci o acordo a ela.

Ele soltou um breve riso amargo. Eu congelei.

— Que tipo de condições?

— Ela não quer nenhum contato com a criança quanto ela nascer, nem mesmo uma foto.

— Como?

Ele deu a volta, com o olhar fixo em mim, sua expressão imperturbável.

— Exatamente isso. Nenhum contato. Nada. Não quer ver a mim, nem a ele após o nascimento.

Eu choquei estupefata que tivesse escutado aquelas palavras, e então, senti a fúria tempestuosa me abalar por dentro tão rápido, que minha vontade de estapear Antonella foi palpável. Não podia acreditar que minha melhor amiga pudesse ser tão inescrupulosa. Essa não era a minha Antonella...

— Eu viajarei depois de amanhã. — E acrescentou. — Vou sair agora, tenho algumas coisas para resolver antes que viaje, mas, no mais tardar amanhã eu quero falar com você.

— Tem certeza que quer ir agora? Não é melhor você ficar e...

— Não. Não posso... Não aguento ficar aqui mais um minuto sequer, se pudesse iria hoje mesmo, no entanto, tenho arranjos para fazer para que possa ter um pouco de paz quando estiver longe. Não suporto sequer olhar na cara dela sem que eu me enoje... A única coisa que preciso agora é ficar longe dela, só assim eu vou conseguir me restabelecer. Ou ter uma chance.

— E como fica Antonella? A gravidez? Como você vai ter certeza que ela vai cumprir a parte dela no acordo? Você tem que...

— Depois Pietra. Eu tenho de sair agora.

Ele veio até mim e deu-me um beijo no topo da cabeça.

— Nós vamos cuidar dele ou dela — murmurei.

— Sim, nós iremos — ele disse com um suspiro fundo e, em seguida, forçou um sorriso, que nem de longe lembrava aquele sorriso largo, iluminado e lindo, que ele tinha.

Thor pegou alguns papeis, colocou-os dentro de uma pasta, e então, saiu.

Meu corpo desmoronou no sofá atrás de mim. Era tanta merda junta que meu cérebro entrou em parafuso. Eu estava cética... Não, estava estarrecida. Mortificada... Nauseada.

Juro, eu realmente podia compreender o lado de Antonella não querer ser mãe. Ela deveria estar assustada até a morte. Mas daí a decidir dar o seu próprio filho, como se ele não passasse de uma mercadoria, como Thor bem colocou, era demais. Tanto que minha imparcialidade acabou ali.

Ah, Antonella, você não podia ter feito isso!

Rejeitar o filho era entendível, embora eu discordasse seriamente, ainda mais quando meu irmão e todos nós estávamos dispostos a dar todo apoio que ela precisava. Tentar interromper a vida do filho era muita crueldade, aliás, somente o fato de pensar em tirar um filho era o pior crime que um ser humano podia cometer. E Antonella infligiu todos os limites. Minha paciência findou.

Levantei-me cega de raiva e pisei para a porta.

Dessa vez Antonella ia ouvir umas boas verdades. Ah, se ia!

Entrei em seu quarto sem bater, pegando-a saindo do banheiro. Ela me olhou com as sobrancelhas juntas enquanto eu só faltava soltar fogo pelas ventas, meu olhar queimou sobre ela.

— Qual o problema Pietra?

— Você é meu problema, Antonella! Como você pode ter coragem de fazer isso?

— Do que está falando?

Alardeei as mãos no ar.

— Estou falando da proposta de merda que você aceitou! Eu até entendo o Thor e, apesar de achar isso tudo um absurdo sem igual, eu não tiro a razão dele. Você não está lhe dando alternativa. O coitado está desesperado. Ma tu? — Pausei, tomando umas baforadas profundas de ar, sem conseguir me acalmar e quando falei novamente, minha voz era baixa e ácida. — Eu tentei ser imparcial no começo quando rejeitou a criança, tentei falar contigo e fui mais que paciente em suas recusas, e juro que tentei relevar a sua tentativa de se livrar do meu sobrinho, porque pensei; Não, ela não é ruim, apenas está desesperada. Afinal, é uma criança. Uma tremenda responsabilidade. Mas daí aceitar entregar seu filho, mesmo que seja para o pai, e ainda exigir que ele suma com a criança porque você não quer sequer conhecer seu próprio filho, é demais até para você!

— Eu não vejo o seu ponto. Não quero isso para mim. Acho que deixei isso mais claro que o sol, não? Heithor, finalmente, ganhou e terá o filhinho dele e todo mundo ficará feliz.

— Filhinho dele? É seu filho também, cazzo! E, por favor, não se incomode em dizer o contrário. Você até pode tentar se enganar e fingir que nada disso é com você, Antonella, porém no fundo, bem lá no fundo, você sabe da verdade. Sua consciência sempre vai te acusar. É seu filho, também. Uma parte de você. Não tem como fugir disso!

— Por favor, Pietra! Sem dramas, va bene? Você não é nenhuma santa puritana então não venha com lição de moral pra cima de mim. E esse assunto já deu então saía.

Rangi os dentes, meus punhos cerrados. A arrogância e sarcasmo embalando sua voz fizeram meu sangue entrar em erupção. Nunca antes tinha sentido tanta raiva de alguém.

Eu dei um passo involuntário na direção dela, que empertigou os ombros.

— Realmente não sou, Antonella. Nós duas aprontamos muito juntas, mas nós nunca prejudicamos ninguém de verdade. E, certamente, eu nunca, jamais, teria coragem e sangue frio para atentar contra estranhos quanto mais para com as pessoas próximas a mim. Ou a um filho meu.

— Tá, tá, tá — ela balançou a mão no ar num gesto fugaz. — Agora me deixe em paz, sì?

Horror pintou minhas feições.

— Quem é você? E o que fez com minha melhor amiga? Eu não te reconheço mais Antonella.

Ela me fixou, a postura ereta, o cenho duro, seu dedo apontado para mim.

— Exatamente Pietra! Você é minha melhor amiga e como tal deveria estar do meu lado, não contra mim! Então creio que essas perguntas sou eu quem deve estar fazendo.

— Io sono sua amica. Sempre fui e ainda estou aqui. No entanto, isso não significa que eu tenha de passar a mão na sua cabeça toda a vez que você erra. E desta vez você errou... errou feio. Amigos de verdade não só compartilham as alegrias, trocam confidencias e guardam os segredos teus; amigos de verdade também te puxam a orelha quando você comete um erro e te dizem a verdade na cara por mais dolorosa que ela seja. E, acredite, está doendo em mim te dizer essas coisas, porém me recuso a fechar os olhos e fingir que tudo está bem quando não está. Não posso ficar sentada assistindo você se transformar num monstro...

— Você não tem o direito de falar assim comigo, Pietra!

— Ser sua melhor amiga me dá o direito de falar assim com você. Se você estivesse agindo como gente não precisaria estar ouvindo qualquer coisa do tipo. Então não reclame. Foi você quem pediu por isso quando se comportou como uma cadela fria. — Quando dei por mim já estávamos face a face, ambas agressivas, mas eu não recuei e continuei. — Veja a merda que está fazendo, Antonella. Você está jogando fora o amor de um homem, que te ama com loucura e que seria capaz de fazer tudo por você, como se isso não fosse nada. Sabe quantas mulheres nesse mundo desejaria ter alguém como ele? E não digo isso porque ele é mio fratello, sabe bem disso. E pior, está jogando no lixo a chance de ser feliz, de ter uma família. Você vivia criticando suo papà pela forma que ele agia com você e isso sempre te machucou, — ela abriu a boca para retrucar, porém eu não lhe dei chance, — Não diga que estou errada, porque eu te conheço Antonella e não é de hoje. Por mais que você tente se fazer de forte, esse lance com Rocco sempre te afetou mais do que quis demonstrar, eu sei. Não enxerga que está fazendo o mesmo com o seu filho? Aliás, está fazendo pior, pois se dependesse de você, seu filho não teria a chance de vir ao mundo e opinar quanto ao destino dele. Isso é uma atitude de quem não tem escrúpulos. É repugnante...

— Io... io...

— Zitta75! — sibilei apontando o dedo em seu rosto e adverti, severamente. — Eu não terminei, a propósito, eu nem comecei então me faça o favor de ter um pouco de respeito e me escutar, se é que algum dia você me considerou sua amiga. O mundo não gira em torno de você não, Antonella. Nunca girou e nunca vai girar. Que porra está se passando na sua cabeça? Por que está fazendo disso um tormento para todos? Io non capisco. Se é medo que tem, você bem sabe que não precisa ter, pois todos nós estamos disposto e prontos para lhe dar todo suporte que necessitar. Você não está sozinha nisso... Mas você nem sequer cogitou a hipótese de ver o lado positivo da gravidez, não é assim? Nem mesmo tentou por um mísero esforço aceitá-la. Dimmi. Você já parou para pensar em quanta coisa boa essa gravidez pode lhe trazer? Pelo menos tentou não vê-la como um empecilho para a sua vida?

Ela me encarava furiosa, os olhos alagados e as narinas chamejando.

Eu amenizei:

— Você não irá perder nada se pelo menos tentar enxergá-la com bons olhos. Você não está doente, Antonella, você está grávida. Isso não é empecilho nenhum para que você abdique dos seus planos e sonhos, você ainda poderá fazer tudo que quer com a diferença de que agora incluirá mais uma pessoa na sua vida, e em troca ganhará uma família... A sua própria família. E ainda terá ao seu lado um homem que te ama e te apoia. — Ela, novamente, fez menção em revidar e de novo eu não permiti. — Não diga que não se importa com o Thor. Você até pode dar seu melhor show para mim e para os demais de que não sente nada por ele, mas aí dentro você sabe da verdade, seu coração te acusa... Eu vou te dar um conselho Antonella e espero do fundo do coração que você o escute e faça bom uso dele, porque irei falar uma única vez. Tente ver sua gravidez com bons olhos. Só tente. E, pelo amor de Cristo, caía em si antes que seja tarde demais. O seu filho pode ser o começo de uma nova vida para você... Thor vai viajar em dois dias. Você entende isso? Ele está indo por sua causa. Então faça um favor para si mesma, pense com carinho em tudo isso e não o deixe ir. Ele te ama, mas não é burro, Antonella. Portanto, não deixe para dar valor no que tem em mãos agora depois de ele ir. Não espere que ele decida seguir adiante sem você, mas, principalmente, não o deixe perceber que pode viver sem você para só então cair na real e se dar conta de tudo que perdeu devido ao seu egoísmo estúpido. O amanhã pode ser tarde demais, amada. Engula a porra do seu orgulho e tente arrumar a merda que tem feito. Diga o que sente para ele, seja sincera, e faça isso numa boa. Sem brigas e discussões. Se realmente não pode tentar aceitar seu bebê sozinha então peça ajuda a Thor. Se você ao menos demonstrar a ele que quer tentar, apesar de todos os seus medos e convicções, eu tenho certeza que Thor irá te entender e te ajudar.

Suas sobrancelhas moveram com tédio e ela se afastou, sentando-se na cama. Pegou o creme ao lado e começou a passar nas pernas de forma distraída enquanto me falava naturalmente.

— Eu não sei do que você está falando. Heithor e eu já conversamos, e ele irá me ajudar.

— Você é uma idiota. Uma perfeita idiota! Eu espero que você não se arrependa da merda que está fazendo quando já for tarde.

— Acabou? Se sim, caia fora.

A olhei com maldade quando ela somente fez continuar a passar a merda do creme.

— Nunca pensei que algum dia eu diria isso, mas entre você e a cadela da Norah, ela com toda a certeza é melhor opção para Thor do que você. Ao menos nisso, ela é muito melhor que você.

Ela endureceu, as mãos paralisadas na perna.

Eu continuei:

— A distância pode ser uma boa coisa, não é mesmo? Talvez seja realmente isso que Thor esteja precisando, ficar bem longe de você. Quem sabe assim ele não caía na real e perceba que você não é tudo para ele e que ele pode sim ser feliz sem você. Talvez ele até encontre alguém que realmente o mereça e o faça feliz. Mesmo Norah. Coisa que você é incapaz de fazer. Mas como poderia, eh? Uma pessoa infeliz, egoísta e amarga como o fel jamais poderá fazer outra pessoa feliz... Se considera nossa amizade, não ouse a sequer pensar em fazer mal para o meu sobrinho, novamente.

Seu olhar frio e hostil se lançou para mim quando ela ergueu a cabeça.

— Talvez, só talvez, ela não seja mais tão importante assim. — Empertiguei enquanto ela acrescentava. — Mas não se preocupe. Dei minha palavra a Heithor e vou cumpri-la.

— Faço das suas as minhas palavras, Antonella.

Deixei seu quarto, batendo a porta atrás de mim e desmoronei ao chegar ao meu.

Chorei de raiva pela frieza de Antonella; pela sua forma airada e repugnante de tratar tudo como uma cadela; por ela me obrigar a escolher e, mesmo merecendo, me fazer dizer aquelas coisas horríveis para ela. Mas, acima de tudo, por ela se portar como um monstro frio sem coração.

* * *

Thor caminhou até minha poltrona ao lado da cama e se sentou. A visão de seu rosto era chocante quando se estava acostumado a vê-lo sempre com a expressão serena e muitas vezes neutra. Todavia, agora era possível ler suas feições sem engano. Todo cansaço físico, emocional e psicológico que ele sentia estava tatuado em sua face. Ele estava destruído. Isso me doeu na alma e apertou minha garganta com arame farpado.

Sentei-me na beirada da cama de frente para ele e lhe dei seu tempo para falar.

Isso era tudo que eu não queria que acontecesse quando meses atrás conversei com ele, depois que o flagrei na sala com Antonella. E agora, meu temor se concretizava bem diante dos meus olhos. Machucando-me, também. Só que vivenciar era bem pior do que imaginei que seria. Não que eu tenha agourado eles, de maneira nenhuma faria isso, contudo, a tempestade era previsível.

— Partirei pela manhã — ele disse, quebrando o silêncio segundos depois.

— E Antonella? O bebê?

Thor passou a mão no rosto então se curvou para frente, apoiando os braços nas coxas.

— Tenho tudo arrumado, Pietra. E já falei com Martha também e lhe dei instruções específicas. No entanto, quero falar contigo e te deixar a par de alguns acertos, também. Eu ainda não sei quanto tempo vou estar fora, mas retorno antes do meu filho nascer. Agora, eu quero te pedir um favor...

— O que você quiser, Thor.

— Eu não quero ter de pôr um segurança feminino em torno dela 24 horas por dia, mas se tiver de fazer, eu farei. Porém, enquanto não chegarmos a este extremo, eu quero que faça a gentileza de ficar de olho nela. Acompanhe-a nas consultas, principalmente, atente-se para que ela se alimente direito e tome as vitaminas pré-natais. Martha a ajudará neste ponto e também se propôs a acompanhar Antonella nas consultas, mas quando ela não puder ir, faça isso, sim? Benjamin está responsável pela segurança dela fora de casa e a acompanhará aonde quer que ela queira ir...

— E se ela sair comigo?

Não me agradava nem um pouco ter um guarda-costas no meu pé. Se bem que depois de nossa última conversa, eu duvidava muito que Antonella fosse querer ir a algum lugar comigo.

— Ele irá acompanhá-la em outro carro. — Ante minha careta, seu olhar se desculpou. — É isso ou trancafiá-la em uma jaula. Eu preciso me cercar de todas as formas e garantias Pietra. De que tudo ficará bem enquanto eu não estiver aqui. Do contrário, não terei um minuto de paz.

— Não me agrada ter Benjamin ou qualquer outro em meu pé. Mas compreendo, Thor.

— Deixei uma quantia razoável no cofre no caso de alguma eventualidade, e também irei depositar todo mês outra quantia a mais na conta de Martha para os exames, consultas médicas e tudo mais que Antonella precisar. Não hesite em recorrer ao dinheiro se perceber que ela precisa de algo. Antonella é orgulhosa demais para pedir ajuda, ainda mais a minha.

Assenti.

— Sabe que ela vai querer dirigir, certo?

Ele se recostou na poltrona.

— Eu já cuidei disso, também. Enviei o carro dela para um depósito, não a quero dirigindo, pelo menos não enquanto carrega meu filho. Não posso confiar nela sobre isso, mesmo que... Enfim. Ela já fez loucuras demais. Não vou correr quaisquer riscos, novamente. Uma vez que meu filho nasça, eu lhe darei um novo carro. Mas agora, ela não vai dirigir. Esse é um limite rígido.

— E a universidade? Eu não tenho todas as aulas com ela. Posso tentar trocar...

— Não. Continue como está. Tive uma conversa com o Sr. Willians e ele permitiu que Benjamin tenha acesso aos lugares restritos aos alunos para acompanhar Antonella e que fique na sala com ela enquanto ela assiste as aulas. — Meus olhos inflaram. — Dinheiro, Pietra.

— Imagino que deva ter sido uma quantia exorbitante.

— Isso não vem ao caso Pietra. Desde que ela e meu filho estejam bem e seguros, que é o que me importa realmente, o dinheiro é o de menos — ele assegurou, com um olhar vago então se pôs de pé pisando até a porta de vidro dando acesso a sacada. Sua audiência manteve-se para a noite afora quando ele fez um adendo. — Também conversei com a Srta. Fernandes. Ela me aconselhou levar Antonella a um terapeuta para que ela se acalme e por um milagre possa ser capaz de enxergar a gravidez de uma maneira positiva. Ela me indicou um amigo seu, e eu já fui até ele...

— Thor, eu não sei não. Ela já está muito agressiva e, bem, tem tudo isso. Acho que esse não é o caminho... Concordo com Marcela. Esta é uma opção, uma ottima opção. Só não sei se é a mais apropriada para o momento. Já há muitas obrigações aqui, capisce?

— De qualquer forma, eu já marquei a consulta para semana que vem. — Ele tirou o papel do bolso da calça e me estendeu. — Collin Gamble. Este é o nome do terapeuta. Aí há o endereço da clínica e o horário de consulta... Ela irá. Prometeu-me se cuidar. Isso está incluso no pacote de segurança que ela assinou, ela gostando ou não. Marcela também marcou uma consulta para a próxima sexta. Antonella precisa fazer alguns exames que foram adiados. Os horários estão com Martha.

— Você não quer esperar um pouco? Talvez ela vá estar mais calma daqui uns dias, sei lá, ainda é muito recente... talvez, ela pense melhor e se arrependa. — Eu ainda tinha esperança de que minha conversa pudesse surtir o efeito desejado nela antes que Thor partisse. — O que me diz?

Seu sorriso era genuinamente orgulhoso.

— Sua fé me admira, piccola. Infelizmente, a minha se dissipou no momento em que ela assinou o acordo hoje. Eu não posso mais ficar aqui, não aguento... Tudo dói. Não tenho condições físicas e emocionais para permanecer... Não tenho mais forças, nem ânimo. Eu sei que posso parecer um covarde te dizendo isso, no entanto, não posso mentir, dizendo que sou imune a tudo isso e que não estou sangrando por dentro quando tudo que sinto é dor... Eu mal consigo dormir a noite, porra — ele grunhiu, passando as mãos pelos cabelos. — Cada noite é pior do que a outra, Pietra. Saber que Ella está apenas a alguns passos de mim me mata por não poder estar com ela. Eu já perdi as contas de quantas vezes me deparei no meio da noite em frente à porta do quarto dela, com a mão na maçaneta prestes a abri-la, só para poder olhá-la de perto sem que briguemos.

Seus olhos fecharam por um efêmero instante, expulsando as lágrimas correndo livremente por seu rosto torcido por uma dor pungente, antes de ele limpá-las com as mãos.

Minha garganta fechou mais e, quando dei por mim, estava chorando também.

— Eu sinto muito.

— Você me pede para esperar, mas como eu vou fazer isso? Diga-me. Como irei suportar toda essa situação por um ou mais dias, como me pede, sem que eu desmorone de vez? Eu não tenho super poderes, Pietra. Sou apenas um homem e agora mesmo não estou no meu melhor momento... Se fosse em outra ocasião, piccola, eu juro por tudo que é mais sagrado que esperaria o tempo que fosse necessário. Eu teria fé como sempre tive antes do bebê surgir. Veja bem, não estou dizendo que nosso filho é o culpado por as coisas estarem como estão. Sinto-me feliz e honrado por saber da sua existência e, principalmente, sinto-me o homem mais sortudo do planeta por ser capaz de conceber um milagre como esse, embora eu seja um fodido. — Thor pausou, o pomo de Adão se movendo antes que ele se voltasse de frente para a porta da sacada, novamente. — Mas, ás vezes eu me pego pensando que se ele não existisse, eu poderia facilmente acreditar que um dia teria Antonella só para mim, e que ela, enfim, me aceitaria... Nos aceitaria e me amaria como eu a amo, que poderíamos um dia formar uma família. Haveria possibilidades. Nós estávamos bem antes, ela estava menos arredia e, da sua maneira, ela demonstrava afeto por mim.

Ele se calou e o silêncio caiu entre nós. Eu não sabia o que dizer então esperei.

— Tem idéia do quanto é difícil e doloroso escolher? Pois é isso que ela está me obrigando a fazer. Escolher entre ela e o nosso filho. Eu estou ficando louco, Pietra, porque se eu escolher um, terei de abrir mão do outro. E eu quero os dois. No entanto, isso parece ser pedir demais. Um homem como eu não tem o direito de ser feliz...

— Não diga isso, Thor. Você mais do que ninguém merece toda a felicidade do mundo. Não importa o que já fez na vida, você só fez o que seu trabalho exigiu de você. Ninguém pode te culpar por ser competente. Você nunca fez mal a um inocente, sempre foi um homem justo e mesmo de longe cuidou de mim, como um bom pai cuida do seu filho, quando os nossos já não estavam mais aqui. Então não ouse dizer que você não é merecedor da felicidade. Antonella é uma idiota. E, se alguém aqui não merece ser feliz, esse alguém é ela, somente ela por ser uma completa imbecil!

Era inaceitável que ele se culpasse por toda essa merda de situação, sendo que a única culpada era Antonella com seu egoísmo infinito e sua egocentricidade eterna.

O pranto mudo de Thor aumentou, bem como, o desespero em sua face. Desmoronando. As mãos ao lado do corpo se fechando com tanta força, que os nódulos dos dedos ficaram brancos.

— Não me peça para ficar Pietra. Eu não posso. Estou me afastando para tentar juntar os meus pedaços e me recompor para estar inteiro ou perto disso quando meu filho vier ao mundo. Ele vai precisar de um pai inteiro, disposto a dar e ser o que ele precisa. Não de um pai amargo e aos pedaços como estou hoje, pois ele terá só a mim... Deus! Como eu vou explicar para ele que a própria mãe não o quis quando chegar o momento? Como eu vou fazer isso sem que ele se sinta culpado por algo do qual ele não é?

Que Dio me perdoasse, mas neste momento eu odiava Antonella com todas as minhas forças.

— N-Não vamos pensar nisso agora Thor. Vamos ter fé que tudo vai mudar...

— Não me peça para ter fé Pietra — agressivamente, ele resmungou. — Estou cansado demais para isto. Não vou me iludir mais. Recuso-me a fazer o papel de trouxa, novamente. Minha decisão está tomada, não há como voltar atrás. Eu fiz tudo que estava ao meu alcance e o que não estava para tê-la junto a mim, para conquistá-la e fazê-la feliz, mas eu já entendi que ela é inalcançável e não vou insistir mais na minha estupidez de achar que algum dia eu poderei tê-la de verdade. Quando à hora chegar nós iremos daqui e ela terá suas exigências atendidas.

— E se ela se arrepender?

— Acredita mesmo nisso? Depois de tudo o que aconteceu você acredita mesmo que ela possa vir a mudar algum dia? Que ela possa deixar de ser tão mesquinha e vadia? — Ele riu amargamente e balançou a cabeça em negação. — Não vamos tentar nos enganar aqui Pietra, o melhor a se fazer é aceitar a nossa realidade e deixar de sonhar tão alto.

— Pra onde você vai?

— Holanda. Adam tem uma casa em Amsterdã e me ofereceu, talvez eu fique somente por lá ou talvez volte para Tennessee. De qualquer forma, eu avisarei.

— Que horas você parte?

— Antes das dez da manhã. Eu ligarei toda semana. — O nó em minha garganta se apertou de tal forma que meu choro se intensificou fazendo-me soluçar. — Vem cá piccola — ele me chamou num tom terno e acolhedor enquanto abria os braços. Num piscar eu estava agarrada a ele, abraçando-o forte. — Não fique assim e não se preocupe comigo. Eu ficarei bem, prometo-o. E quero que fique bem, também — ele acrescentou sobre os meus cabelos, com a voz torpe.

— Ti amo, Thor — chorei, com a cabeça apoiada em seu peito.

— Te amo também, piccola.

— Prometo que vou cuidar de tudo como se fosse você — eu disse quando me soltei dele, limpando minhas bochechas com as costas das mãos sem muito sucesso. Ele então segurou meu rosto limpando o vazamento em meus olhos, com os polegares enquanto eu fazia um acréscimo decidido. — Eu não vou deixá-la cometer nenhuma loucura.

— Tenho certeza disso, piccola. — Seu sorriso foi modesto. — Perdoe-me por colocá-la nesta situação, sei que vocês são grandes amigas e que isto pode prejudicar a amizade de vocês. No entanto, eu não confiaria essa tarefa a mais ninguém que não fosse você.

— Somos amigas, porém não sou cega e muito menos injusta. Não posso fechar os olhos diante da monstruosidade que ela está fazendo. Você pode não ter fé agora e eu não o culpo por isso, todavia, eu ainda tenho fé nela. Sei que posso me decepcionar, mas não me importo de correr o risco. E, se ela realmente continuar mantendo essa postura deplorável, eu lamentarei e muito, porém não poderei manter amizade com alguém tão sem escrúpulos. — E acrescentei quando vi um vislumbre do que pensei ser culpa em seus olhos. — E não ouse se culpar por isso. Entendeu-me? Se minha amizade com Antonella acabar, será única e exclusivamente por culpa dela.

— Essa é uma decisão sua, Pietra. Não irei me intrometer. Só tome cuidado para não se machucar mais. Eu tenho muito orgulho de ter uma irmã como você, piccola. Tenha certeza que nossos pais ficariam honrados e orgulhosos por ver a mulher na qual está se transformando. Apesar de que para mim, você sempre será minha eterna menininha.

— E você sempre será mais do que um irmão para mim, Thor. È mio padre. Um jovem velho babbo — zombei, tentando amenizar o clima pesado que se abateu naquele cômodo.

Ele sorriu um pouco enquanto sacudia a cabeça.

— Velho, mas bonito — gracejou, mas sua voz era nula de humor.

— O mais bonito de todos!

Ele beijou o topo da minha cabeça.

— Boa noite piccola. E mais uma vez obrigado.

— Não tem que agradecer nada, Thor. Somos uma família e é isso o que fazemos, apoiamos um ao outro quando é preciso. — O abracei, novamente, e ele retribuiu. — Boa noite.