Dangerous

Daya Engler · Capítulo 17 de 45

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Dangerous

Capítulo 17

 

Alguns dias depois

Meus pés avançaram pela trilha, no parque Malibu Bluffs, até que avistei uma pedra grande perto da encosta e me sentei nela. Fechei os olhos e inspirei fundo quando inclinei a cabeça para trás, absorvendo a calmaria ao meu redor. A combinação da brisa fresca vinda do Pacífico e do calor dos últimos momentos do sol se derramando sobre a minha pele era malditamente boa.

Não era uma garota da natureza, mas gostava de ir ali quando tinha um montão em minha cabeça. E hoje, eu sentia que tinha mais do que o saudável. Estava inquieta e chateada.

Abri os olhos, plantando-os sobre o mar no horizonte sem realmente vê-lo.

Pietra estava no amor com Nathan outra vez. Minha relação com Heithor continuava na mesma. E eu, bem, sem as regras escrotas e o radar dele na minha bunda, pude retomar o controle da minha vida. Liberdade cheirava a céu. E eu agarrei isso com unhas e dentes.

Estava saindo quase todas as noites. Não era como se eu estivesse desesperada pela rua, a verdade é que eu não tinha nada para fazer na mansão exceto morrer de tédio. Isso porque Pietra estava muito concentrada zelando pelas bolas de Nathan, logo, Josie estava na mesma com Eric.

Minhas amigas tinham sido infectadas pela merda do amor.

Eu não podia ver como isso era bom. Não para mim, certamente.

Então, sobrava-me Heithor. Porém, nós mal nos olhávamos e quando fazíamos, eu sempre queria estapear a cara dele. Inferno. Só a presença daquele energúmeno me irritava. Logo eu estava indo para as corridas na maioria das vezes que saía e me divertindo. Dei um ou dois amassos, que só me irritaram, porque a merda da minha cabeça não podia parar de fazer comparações estúpidas.

Meus pais também estavam na torcida para me aborrecer, enchendo-me o saco para ir vê-los devido à proximidade das festas natalinas. Isso não estava acontecendo.

Você vê, tudo estava de volta ao normal, praticamente. Era verdade, mas, de alguma forma que eu ainda não compreendia, algo não ia bem, não estava... certo.

Eu não gostava disso. Não gostava de como estava me sentindo.

Afinal, por que diabos eu me importava?

Eu deveria estar feliz por ele esquecer todas aquelas baboseiras sem sentido de “você me pertence” e “você é minha”, não devia?

Deveria soltar fogos de artifícios por ele me liberar das regras idiotas, certo?

Mas não estava, inferno! Era como se eu não existisse para ele. Isso me incomodava mais do que minha dignidade podia suportar e me incomodava por me incomodar com isso.

Que bagunça do caralho!

Meus sentimentos estavam confusos e eu não gostava da bagunça. Não podia tolerar a sensação de estar perdida. A atitude contrária dele tinha embaralhado minha mente e dado vários nós nela.

Foda. Nada disso era para estar acontecendo.

Eu esperava ser castigada como da outra vez que ele me buscou na festa como um neanderthal do caralho. Tinha me preparado física e mentalmente para isso. Meu corpo estava mais que pronto. Mas o maledetto do homem fugiu do roteiro e fodeu minha cabeça. Quanto mais eu pensava mais confusa eu ficava. Perguntas que eu não sabia responder se aglomeravam no meu cérebro.

Exalei forte, forçando meus pensamentos para uma parte funda da minha mente e por uns bons minutos pude ficar absorta em mim, no lugar onde eu estava. Isso durou até que minha bunda começou a ficar dormente. Quando fiz menção de me levantar, tive a ligeira sensação de estar sendo observada, que sentia desde que tinha pisado fora da mansão, a sensação voltou estalando sobre mim. Era uma comoção inquietante, que deixava os pelos da minha nuca eriçados e meu coração um pouco mais ritmado enquanto meus olhos procuravam por algo suspeito.

Em dado momento quando estive dirigindo da UCLA até o parque, eu pude jurar que havia um carro me seguindo, embora tudo aparentasse estar em seu devido lugar.

Você está louca Antonella, eu pensei comigo mesma ao jogar uma olhada sobre os meus ombros ao ficar em pé, e então, comecei a caminhar indo para o estacionamento do parque. Mesmo assim, eu não podia impedir a aceleração das minhas passadas e minha frequência cardíaca alterada.

É o estresse me afetando.

Eu apenas precisava de paciência e tempo para que as coisas retornassem de vez aos seus devidos lugares. Afinal de contas, o ordinário não ficaria aqui para sempre.

Uma rajada de vento embalou meu corpo, esvoaçando meu cabelo, eu parei a alguns bons metros do estacionamento. Perto, mas não o suficiente. Calafrios gélidos cortaram através da minha coluna e eu estremeci de leve. A sensação que eu tentava ignorar desde cedo emergiu dentro de mim, forte, e meus olhos estreitaram quando olhei ao redor, apenas por instinto, sabendo que minha reação era louca. Mas, então, um ponto chamou a minha audiência. Dois homens. Tipos corpulentos, altos e mal encarados, vestindo negro estavam logo atrás de mim. Um era careca e o outro tinha um corte militar. E eles olhavam diretamente para mim enquanto caminhavam obstinados em minha direção.

Uma voz no fundo da minha cabeça disse-me para correr, para me juntar ao maior número de pessoas possível e me misturar a elas. E sabe o quê? Não havia ninguém a vista, senão nós, e alguns poucos carros que eu podia enxergar no estacionamento silencioso. Ignorei a voz doentia, porque eu não tinha razão para temer qualquer coisa. Não era como se eu tivesse inimigos. Dei um risinho estrangulado pelo pensamento descabido, e então, outro se insinuou em minha mente.

Isso deveria ser coisa do figlio di puttana do Castellammare. Ele tinha feito o papel de indiferente quando, na realidade, ainda seguia me monitorando. Claro! Um tipo tão controlador e possessivo como ele não iria largar o osso com a facilidade que ele demonstrou.

Mentiroso de merda!

Enfurecida, me desloquei na direção dos homens com cara de Pit Bulls raivosos a fim de mandá-los à merda e enviar um recado bem mal criado para o chefe deles, e foi quando minha teoria recém formada veio por terra. Eles apertaram o passo. Eu parei de súbito, uma vez que o vento balançou o casaco do cara da esquerda e algo brilhou em sua cintura. Eu concentrei meus olhos lá, forçando-os, antes de o tipo fechar o casaco. Não era algo qualquer, mas... uma arma.

Eu engoli.

Meu sangue sendo drenado do corpo.

Meu coração pulsou com força e, em seguida, correu desordenado.

O cara da direita me lançou um sorriso diabólico, fazendo uma quebra de onda de medo agitar em meu interior como um torvelinho de ruins vibrações, que me colocou tremente da cabeça aos pés. Fiquei sem fôlego, por um infinito segundo colada no lugar com uma supercola, sentindo que eu estava indo para ter um ataque cardíaco. Então eu pisquei e, no outro instante, agi sem pensar.

Dando a volta, eu comecei a correr rápido, consciente de que os brutamontes estavam em meu encalço. Sentia a perseguição em meu sangue, elevando meus níveis de adrenalina. Joguei uma rápida olhada para trás apenas para que o desespero saltasse a pele e meus pés tropeçassem, eles seguiam vindo atrás de mim. Isso não podia ser bom. Não era, eu sentia.

Dio Santo! Eu ia morrer!

Isso não era nenhum pouco justo. Tantas coisas que eu ainda queria fazer...

Não tive namorado, marido, filhos... Merda! Não que eu quisesse isso, mas era esse o circulo natural da vida, não era? Eu tinha direito a isso, também. Ainda havia aquele tirano dos infernos.

Eu ia morrer brigada com ele sem direito a um adeus?

Um último beijo?

Uma última transa?

Não, não e não!

Isso não estava certo. Eu não podia morrer e deixá-lo de bandeja para aquela troia.

Meus olhos arderam loucamente. Não podia correr rápido o bastante por mais que me esforçasse. O estacionamento parecia estar cada vez mais longe. Meus pulmões ardiam. O coração batendo com tanta força que poderia me fazer sangrar pelos poros. As minhas pernas doíam pelo esforço, ameaçando a vacilar a qualquer momento, mas nada me parou até que, de repente, quando estava chegando ao estacionamento, um carro surgiu do nada freando bruscamente em minha frente.

Não sabia o quê ou como, mas tudo em mim parou de funcionar. Era como se alguém tivesse me desligado, porém eu ainda estava lá. Podia ver e ouvir, no entanto, não podia me mexer.

Em seguida, as coisas aconteceram muito rápidas para que eu esboçasse uma reação quando as portas do veículo se abriram e um dos dois estranhos que saltaram fora veio para mim, e, logo após, jogou-me para dentro do carro e fechou a porta ao mesmo tempo em que tiros começavam a soar, e eu me curvei em mim mesma tampando minhas orelhas com as mãos.

— Vai. Vai. Vai! — Berrou o homem do meu lado para o motorista.

O motor arrancou e, em seguida, os pneus queimaram o asfalto.

O caos se instalou dentro e fora de mim. Eu não me movi, no entanto. Estava neutralizada, estarrecida na impotência. Um soluço irrompeu contornando o nó em minha garganta.

O estranho não me olhou, levando o celular a orelha e falou muito rápido.

Quando o veículo parou, ele desceu. Pensei em abrir a outra porta e saltar fora correndo pela minha vida, mas antes que o pensamento se concretizasse, ele abriu a porta do meu lado.

— Vem. Vamos — o tipo disse, oferecendo a mão para mim.

Obriguei-me a engolir o choro e desci, ignorando sua mão. Eu não estava indo ser gentil com o idiota quando ele planejava bater a merda fora de mim. Ele não fez conta da minha recusa e segurou meu braço sem me olhar. Eu tentei sair de seu aperto, começando a ser engolida pelo desespero.

— Por favor, por favor, deixe-me ir! Eu imploro. Me deixe ir!

O estranho bonito me fitou.

— Não vou te fazer mal. Tem minha palavra sobre isso.

Minha bunda!

— Então deixe-me ir — supliquei, com os olhos alagados no pavor. — Juro que não procurarei a polícia. Apenas deixe-me ir. Se... se quiser dinheiro, eu posso te dar isso. Não tenho muito aqui, mas eu posso conseguir mais. Juro! Apenas me deixe ir. Eu te imploro. Ti prego...

De maneira deliberada, ele me ignorou, arrastando-me com ele. Bati as pestanas para cima, me dando conta pela primeira vez de onde estávamos. Era um prédio residencial luxuoso de pelo menos 18 andares, em uma área de alta classe. Procurei por salvadores a volta, mas não havia uma alma penada para me ajudar. O lobby do prédio também estava vazio.

Definitivamente, esse não era meu dia.

Tropecei sobre meus pés enquanto ele nos encaminhava ao elevador privado, e quando dentro ele usou o cartão de acesso a cobertura. O tempo que se sucedeu até o elevador se abrir novamente foram eternos e mortificou a minha alma. Estar no escuro somente tornava a situação mais sinistra.

Possibilidades terríveis do que poderia me acontecer disparavam por minha mente.

Uma torneira foi aberta em meus olhos e litros de lágrimas frescas escorreram por minhas bochechas, surpreendendo-me. Sabia que não devia perder tempo chorando. As lágrimas não me ajudariam a resolver esta situação, elas fariam de mim uma chorona boba, ao invés.

Tinha os nervos atrofiados, as terminações nervosas eletrificadas quando o elevador parou, mas, uma vez que as portas duplas se abriram e a visão do homem odioso encheu os meus olhos, eu não pensei sobre o que fazer correndo para ele e saltei em seu pescoço, agarrada a ele com força.

Os braços de Thor me acolheram de imediato, se apertando a minha volta.

A sensação era quase como se eu tivesse sido arrebatada no último instante.

— Shhh... Calma, neném, já acabou... Está tudo bem. Você está segura agora — ele murmurava contra os meus cabelos, sua voz era suave e paternal enquanto uma mão afagava minhas costas.

Outra comoção de lágrimas saltou de meus olhos com mais intensidade, molhando a camisa dele enquanto ele andava comigo para o sofá. Eu relaxei quase que de súbito, deixando-o me embalar em seu colo enquanto ele seguia me tranquilizando com palavras e toques suaves.

Senti-me segura... protegida.

Traguei o nó de medo obstruindo minha garganta e o olhei através do nevoeiro em meus olhos.

— E-e-eu... elesqueriammematar.

Ele correu as mãos por meus braços.

— Está tudo bem querida. Acabou. Está a salvo agora.

Fitei-o com um olhar selvagem, minhas mãos estavam em seus ombros, sacudindo-o para a seriedade da situação, que ele parecia não enxergar. Ou não dava a mínima.

— No, non è mica bene48, Thor. A-aqueles homens queriam me machucar! E, deixe-me dizer, caso você não tenha entendido, eles eram maus. Realmente ruins. E estavam como Pit Bulls atrás de mim!

Sua expressão apertou, os olhos tão letais quanto seus traços severos, talvez porque somente agora ele se dava conta de que aquilo não era nenhum ensaio para um filme de terror.

— Eu entendi, querida. Acalme-se, você está segura agora. Juro-lhe isso.

— Eu devia ter ficado na mansão quando senti meu instinto gritando. Eu sabia. Meu sexto sentido me avisou, mas eu fui estúpida demais e não prestei atenção... Dio, eu podia ter morrido...

Thor segurou meu rosto entre suas mãos, chamando meus olhos para os dele.

— Eu nunca iria permitir que eles te machucassem de qualquer forma.

Eu não estava dando ouvidos a ele em tudo quando minha mente estarreceu na minha própria declaração, como se somente nesse instante eu realmente desse conta do que poderia ter acontecido.

— Oh. Dio. Mio... Eles queriam me matar — sussurrei para mim mesma, levando a mão à boca. Meus olhos tão grandes que doía. E, em seguida, comecei a divagar na angustia. — Non capisco. Por que eles queriam me matar? Eu não tenho inimigos. Quem iria querer me fazer mal? Perché? Eu não fiz nada a ninguém para que quisessem me fazer mal, tenho certeza disso. Eles eram ruins e tinham uma arma, eu vi..., mas se eles quisessem me matar, eles poderiam ter feito... Oh, Dio... Talvez eles não quisessem me matar realmente, talvez... talvez eles quisessem me sequestrar para depois pedir resgate ao papà. Eles deviam saber de quem eu era filha e acharam que podiam descolar uma grana alta. — Perplexidade congelou minhas feições quando me dei conta que poderia ser realmente isso. Fazia todo o sentido. Agarrei a camisa de Thor em meus punhos, meu olhar alucinado sobre o seu rosto. — Você não pode dizer isso a ele, capisce? Se ele souber, se... minha mamma... Oh, Dio! Minha mamma vai pirar e eu vou ser obrigada a voltar. Prometa-me, Heithor. Prometa que você não vai ligar para eles. Afinal de contas, não aconte...

Minhas palavras foram cortadas pela língua de Thor cavando minha boca, substituindo minha histeria por outro tipo de choque. Então eu estava derretendo contra ele e respondendo ao beijo.

Eu suspirei em sua boca.

Ele recuou, deixando meus lábios formigando quentes na sensação. Querendo mais.

Levantei os cílios, olhando no rosto dele.

— Por que fez isso?

— Você estava surtando, e eu precisava fazer você me ouvir.

— Eu ainda estou surtando.

Eu poderia jurar que havia culpa em seu olhar.

— Sinto muito Ella. Juro por Deus, que nunca mais terá de passar por qualquer merda parecida, novamente. Está segura agora, prometo-lhe isso.

— Aqui senhor.

Eu olhei para cima para o desconhecido se afastando para um canto assim que Thor pegou o copo de água das suas mãos e, em seguida, ele me ofereceu isso.

— Beba.

Que merda estava acontecendo aqui? Aqueles homens não tinham ido atrás de mim por causa do meu pai? Inferno. Eu não estava entendendo nada.

— Ella, querida, pegue e beba — Thor insistiu, num tom plano, chamando minha atenção.

Aspirei com temor e apertei os punhos para impedir que me tremessem às mãos.

— Eu não quero merda nenhuma de água. Quero uma explicação e quero agora!

— Querida, você está em choque. Precisa desacelerar...

— É claro que estou em choque, super gênio! Queria que eu estivesse como? Dando pulinhos de alegria? Tente isso amanhã. Talvez eu faça uma festa por ter dois Pit Bulls indo atrás de um pedaço da minha bunda para fazer sabe-se lá o quê! Não hoje. — Meu olhar foi para o estranho sério em pé do outro lado da sala, pedra era uma boa definição para sua expressão. — E quem é ele? Como ele apareceu do meu lado tão rápido? Não entendo porque aqueles homens estavam atrás de mim. E onde diabos estamos? Por que ele me trouxe aqui e não para a mansão?

— Beba a água, Antonella... Escute-me, você está muito alterada agora mesmo e não tiro sua razão, mas precisa se acalmar se quiser que lhe explique qualquer coisa. — E acrescentou pungido. — Por favor, beba a água e depois você vai tomar um banho quente. Mais calma e confortável, nós iremos conversar e eu lhe darei as respostas que quer.

— Não sei se posso confiar em você.

Um brilho de tristeza lampejou em seu olhar antes de ele desviá-lo.

— Eu sei, mas juro que ninguém aqui te fará mal.

— Você não vai fugir de me dar uma explicação.

— Prometo que não vou. Beba.

Aceitei o copo, minhas mãos ainda tremendo, bebi alguns goles. Ele pegou o copo e o colocou em cima da mesa de canto. Pôs-me sobre meus pés e se levantou, também.

— Eu vou te mostrar onde fica o banheiro — disse, segurando a minha mão e, em seguida, guiou-me pelo apartamento.

Eu parei, olhando para trás para o tipo ainda parado no mesmo lugar.

— Er... Obrigada.

Ele maneou a cabeça.

Thor me levou até o banheiro da suíte. Ele não estava cômodo com essa situação. Seu olhar, seus gestos tudo era muito desprendido e distante, como se ele não estivesse aqui.

— Tome seu tempo, eu vou estar na sala.

Olhei para baixo para as minhas roupas suarentas e sujas.

— Não tenho nada para usar.

— Eu tenho roupas aqui. Há camisetas nas gavetas e camisas no closet. No armário há toalhas, escovas ainda na embalagem e outras coisas mais que precisar. Use o que quiser... Estarei na sala.

Ele saiu fechando a porta atrás dele.

Ele não tinha tentado me beijar de novo, nem me olhou. Apenas saiu.

Eu exalei languida, deixando os ombros caírem. Realmente precisava de um banho. Talvez, a água morna soltasse meus músculos tensos e clareasse minha mente. Desfiz-me das roupas dobrando-as sobre o balcão da pia. Entrei no box espaçoso e liguei a ducha. Por algum tempo eu apenas fiquei lá, parada, enquanto o jato forte de água morna batia sobre a minha pele. Lavei os cabelos com um xampu que tinha lá. Ensaboei e enxaguei meu corpo, com movimentos automáticos.

Nada fazia sentido.

Os homens, a perseguição, meu salvador, Thor.

O que eles tinham a ver?

Aliás, o que eu tinha a ver com qualquer coisa?

Não era sequestro. Agora, mais calma, eu podia ver isso. Qualquer idiota saberia que não ganharia nada sequestrando um italiano, os bens eram congelados no outro momento.

Bem, eu era ítalo-americana, pensei.

Eu não sabia bem como a lei se aplicaria nesse caso.

Matar? Dio, eu não tinha feito mal a ninguém...

Bufei um sopro de água.

Enrolei-me em uma toalha quando acabei e entrei no quarto. Estava meio que começando a pirar outra vez. Precisava de respostas e, per Dio, que Thor me daria todas elas. Parei por um momento, correndo os olhos em volta do quarto. Era grande e muito espaçoso. Tinha uma enorme cama king no centro, coberta com Fili D’oro negros. Um cômodo em tons pastéis e móveis escuros sem muitos adornos. Era funcional e luxuoso. Um pouco frio, eu diria. Masculino. Tinha a cara de Thor.

Fui até o closet, muito arrumado, fucei dentro. Muitas roupas casuais, poucos ternos. Thor era prático, simples e muito sofisticado. Etiquetas de grifes caras. Ele tinha bom gosto.

Peguei uma de suas camisas azuis e vesti. Não rolava vestir minha calcinha então procurei nas gavetas e achei alguns pacotes fechados de Armani. Em seguida, regressei ao banheiro e procurei uma escova, mas achei apenas um pente. Mirei meu reflexo no espelho. Estava pronta.

Fiz o caminho de volta para a sala. Tinha curiosidade para explorar o apartamento, porém isso eu faria em outra hora, agora eu queria as respostas e fui atrás delas.

Estava chegando ao limiar da sala quando comecei a escutar as vozes de Thor e do outro.

— Precisa de mim lá?

— Não Ben. Os caras já estão nisso, e eu já chamei Miller. Você ficará a cargo dela. Desconfio que essa não será a primeira, nem a última vez que tentarão fazer algo assim. Eles seguirão vindo até que eu tenha essa merda resolvida.Preciso me apressar, enquanto isso, você continua sendo a sombra dela. Sei que vou ter um inferno, mas não dou à mínima. Preciso de você com Antonella a todo o momento.

— Sim senhor.

— Fez um excelente trabalho. Está dispensado por hoje. Tome..., eu deixei avisado que você estava indo. Divirta-se. Eu entrarei em contato, se precisar de você amanhã.

Espremi os olhos, um balaio de perguntas rondando a minha cabeça.

Que papo bravo era esse?

— Obrigado senhor. Boa noite.

— Boa noite.

Entrei na sala. Heithor pregou os olhos em mim. Por um momento tudo que fizemos foi nos encarar um ao outro. Ele correu o olhar sobre mim e, em seguida, limpou a garganta.

— Quer beber algo? — ele perguntou e adicionou, com a mão estendida para mim. — Eu me adiantei enquanto estava no banho e pedi o jantar em um restaurante que gosto. Espero que esteja com fome, pois eu estou. Não comi nada desde cedo. O jantar deve chegar em meia hora.

Cruzei os braços sobre o peito e o fitei com uma expressão fechada em determinação.

— Eu quero respostas. Agora.

Heithor deixou a mão cair e suspirou derrotado. Ele se acomodou no grande de sofá negro, suas pernas abertas, as costas inclinadas para frente e os cotovelos apoiados nas coxas quando esfregou o rosto com as mãos. Tinha um ar de cansaço e algo mais, que não entendi de primeira, porém com uma olhada mais atenta percebi ser arrependimento misturado a uma sugestão de tristeza.

Essa merda toda está muito estranha.

— Então? Quem é esse cara de verdade?

— O nome dele é Benjamin Queiroz. Ele é seu segurança pessoal.

— Meu o quê?

Claro! Como sou idiota!

Um riso baixo e nervoso fluiu por meus lábios quando andei de um lado para o outro, com as mãos pregadas no quadril. Como eu era estúpida...

— Sei o quê está pensando, mas está errada.

— Estou? Quero dizer, você me fez acreditar que tinha tirado aqueles babacas do meu pé quando, na realidade, apenas mudou a posição deles, certo? Isso não faz de você um grande filho da puta mentiroso, Castellammare?

— Isso faz de mim sensato — grunhiu. — Devia estar grata por feito isso, caso contrário...

— Grata! Grata? Eu não pedi nada disso, Castellammare!

— Sei, porra! Essa merda é minha culpa. Eu sinto muito. Se algo tivesse...

Ele não terminou como se as palavras fossem difíceis demais para serem ditas em voz alta, sua expressão ganhando sombras escuras de uma fúria mortal. Havia tanta ira em seus olhos que, de repente, eles pareciam profundos demais, um abismo de aço. Muito perigosos.

— Fiz o que eu tinha de fazer para te manter segura, Ella, e não me arrependo. Não adianta se queixar. Ele continuará aonde eu o coloquei, pelo menos até que eu tenha tudo resolvido.

— E aonde eu me encaixo nisso, exatamente?

Seu olhar prolongou em mim, antes que ele falasse.

— Se quer conversar comigo e ter as respostas para suas perguntas, você terá de se aproximar, neném.

Bem, lá estava o apelido besta. Não nego que me amoleceu um pouquinho ouvi-lo novamente, mas não faria isso fácil para Heithor. Eu queria respostas e não deixaria ele me distrair.

— Nem em sonho.

— Então não terá nada — carimbou arrogante. — Não vou conversar com você quando está pronta para correr para longe de mim na primeira resposta que eu der.

— Neste caso, eu vou embora — joguei, tentando ter alguma vantagem aqui, porque a verdade era que eu ainda estava cagando de medo de sair e encontrar aqueles sujeitos, novamente.

Thor arqueou uma sobrancelha negra com impaciência, conseguindo parecer severo, aborrecido e um pouco ameaçador ao mesmo tempo.

— Não, não vai. Sabe disso.

— Eu não confio em você.

— Não vou te machucar Antonella. Nunca seria capaz de fazer isso. — Ele bufou quando eu apenas o olhei com desconfiança. — Pelo amor de Deus, acha que se quisesse te fazer algum mal teria colocado alguém para cuidar da sua bunda? Fere-me que pense isso.

— Pode até não querer, mas já fez isso, não?

— Venha — estendeu-me a mão —, por favor, neném.

Pedindo dessa forma... Eu fui.

Não queria, mas confiava nele. Não sabia como, mas tinha certeza de que ele não era capaz de me machucar, havia toda aquela aura de proteção e segurança que ele me enviava aos baldes. E não era como se eu pudesse evitar mesmo quando meus pés já andavam por vontade própria indo até ele.

Thor arrebatou-me, sua palma engolindo minha mão, o contato quente energizando meu braço e rapidamente o restante de meus membros quando ele me puxou para o seu colo de frente para ele.

Puta merda.

Como eu iria conversar assim e ainda ficar brava com ele?

— Uh, Thor, eu não acho uma boa ideia...

— É uma fodida de boa ideia, neném, — assinalou, soando um pouco atormentado. — Se temos de conversar que seja assim, com você ao meu alcance, onde não pode fugir gritando.

— Se está tentando me assustar terá de fazer melhor que isso.

Seus braços me rodearam com ternura, trazendo-me para o seu peito. Forte e cuidadoso ao mesmo tempo. Seu calor e seu perfume gostoso me rodeando, permeando em minha pele.

— Deus, tem ideia de como fiquei louco com a possibilidade de você ser ferida? Não quero nem mesmo cogitar a ideia disso acontecer por minha culpa. De nenhuma maneira. Nunca.

Aspirei seu cheiro bom enquanto sentia-o fazer o mesmo comigo, sua respiração beijando a minha pele. Era agradável estar em seus braços novamente.

Não se distraia.

Elevei a cabeça para fitá-lo.

— Por que sua culpa? Oh, merda... Eu sabia! Você é um gangster, não é? Claro! Um representante comercial nunca poderia manter o padrão de vida desses.

— O quê?

— Tem todos esses luxos. Eu posso não estar em dia com a economia, mas sei que nada disso que ostenta é barato. Um representante comercial como você alegou ser jamais poderia manter tal padrão de vida, a não ser que tire algum por fora. O que também é ilegal. Eu bem que vi que você tinha essa pose de menino mau e indecente. Só não esperava que fosse ser um traficante.

Thor riu. Não. Ele gargalhou, jogando a cabeça para trás, o som grave reverberando a nossa volta, em minha pele. Seu corpo todo sacolejando enquanto ele se acabava de rir.

Onde estava à graça nisso?

Ele não sabia que eu poderia denunciá-lo num surto de raiva? Algo que, vamos combinar, não era tão difícil. Você sabe. O calhorda era mestre em apertar os meus botões.

— Qual a piada?

— Jesus, neném! Só você para me fazer rir numa hora dessas — disse ainda rindo. — Sua imaginação é estupenda, não é assim?

— Não sei por quê. Vê a ironia da situação? Você é um fora da lei e estava bancando o puritano para cima de mim e da sua irmã quando colocou aquelas regras idiotas.

Ele me parecia muito relaxado para quem tinha seu segredo obscuro descoberto. Estava lá jogado no sofá, o tronco frouxo sobre o respaldo, as mãos pousadas displicentes sobre minhas coxas nuas.

Seu peito se moveu quando ele respirou fundo, recompondo-se.

— Fora da lei? Talvez. Alguns diriam que sim, outros que não, — disse com cautela, seus olhos atentos a minha reação. Quando só fiz bufar impaciente, ele acrescentou. — Não está com medo?

— Está me vendo gritar? A propósito, se não começar a falar, garanto que será você quem gritará de pavor. Posso não ser uma fora da lei, porém sei ser muito má quando me zango.

A diversão se foi dando lugar à seriedade em sua expressão profunda.

— Sei. — Ele suspirou. — Não sou traficante.

— Mas também não é representante comercial.

— Não, não sou. Eu sou o que você pode chamar de detetive particular.

— Detetive...

Oh-uh. Isso explicava como ele tinha descoberto as coisas sobre Pietra e eu.

— Então, você investiga dondocas para os maridos ciumentos?

— Maldição. Não Ella. Por Deus, não tenho saco para bancar o babá de velhotes ricos, que mordem mais do que podem mastigar. Não mesmo. Meu trabalho é um pouco mais sério que isso.

— Não foi o que fez com Pietra e eu?

— Exceções.

— Claro.

Ele respirou fundo, seus olhos eram muito sérios.

— Não sou bandido.

— E não é o mocinho também.

— Se ser um mocinho implica sempre seguir as regras e as leis do sistema. Então não. Não sou um mocinho, também.

— O que isso quer dizer exatamente?

— Quer dizer que eu faço o que preciso fazer para concluir meu trabalho. Os meios legais nem sempre são eficazes. Não me entenda mal, o sistema ajuda e faz sua parte, mas há limites que mesmo ele não pode cruzar. É onde eu entro, eu cruzo esses limites, mas nunca para fazer mal a inocentes de nenhuma fodida maneira. Sou só um homem que leva o lixo para fora. Uma pequena contribuição no equilíbrio da sociedade. — Ele tragou duro, sua expressão ficando mais séria. — Escute, eu não posso te dar todas as respostas Ella, isso vai contra minhas próprias regras e é para a sua segurança, também. Então não exija isso de mim, porque não poderei te dar mais ainda que queira. Eu apenas te contarei até aonde acredito ser seguro para você.

Besteira!

E não era que isso foi como balançar uma bandeira vermelha frente ao touro?

Minha curiosidade subiu tão rápido que uma leve vertigem me atingiu.

— Então me deixará as cegas, mesmo que eu tenha o direito de saber no que fui metida?

Sua mandíbula apertou, o semblante um pouco atormentado.

— Perdoe-me por isso. Nunca quis te envolver ou a minha família nas minhas merdas. — Fez uma pausa e acrescentou. — Sei que a profissão que escolhi atribui perigo aos que me rodeiam, mas em minha defesa alego que sempre fiz o que estava ao meu alcance para mantê-las a salvo.

— Por isso mantém distância.

Era para ser uma pergunta, mas soou como uma afirmação.

— Não pode me culpar por isso.

— Não estou. É só que..., bem, você não precisa ficar longe, ao menos não tomar essa distância que impõe. Martha e Pietra sentem sua falta. Algumas visitas frequentes não fariam mal. É a única família delas.

— Não vou me defender. Sabia do que teria de abrir mão quando sai da CIA e optei por trabalhar sozinho na mesma linha do meu antigo emprego.

Opa, opa, opa!

— Você é um ex-agente? — Ele assentiu. — Mas você não é americano.

— Dupla cidadania, neném. Consegui logo após a morte dos meus pais. Papai teve a dele ainda menino por causa de seus avôs e de um tio distante que ainda vivia aqui...

— Sim. Martha disse que seus bisavôs eram americanos.

— Peter tinha entrado com o pedido para mim meses antes do acidente. Tanto ele quanto mamãe compartilhavam da ideia de eu ter melhores oportunidades, se me graduasse em uma boa universidade aqui. Meus pais não eram ricos, ambos trabalharam muito duro para não deixar nada faltar para Pietra e eu. E enquanto eu me esforçava para conseguir a bolsa para estudar direito em Stanford, ele quis ter certeza de que eu seria amparado como qualquer outro cidadão nascido aqui, se algo acontecesse comigo.

Olhe, quem diria? Tínhamos algo em comum além do encaixe sexual...

Oh, merda. Não vá por aí garota.

— Capisco. Também tenho dupla cidadania. Mamma é americana... — Me calei, outra pergunta rondando a minha cabeça. — Por que veio mesmo depois de...?

— Quer saber por que optei deixar minha irmã sozinha depois de enterrarmos nossos pais?

— Bem, sim.

— Deve pensar que sou um desalmado, não?

— Eu estava chegando lá — murmurei sincera. — Scusa, mas é no mínimo muito estranho que tenha vindo após uma tragédia dessa magnitude. Não posso dizer com autoridade, pois nunca passei por isso, mas penso que, sei lá, isso... O que aconteceu deveria ter te aproximado mais, não?

— Era o que eu tinha de fazer, Antonella. Vai me achar frio e insensível pelo que vou dizer, mas não adiantava eu ficar chorando quando o mundo desmoronava a minha volta. Eu não podia fazer nada para amenizar a dor da minha irmã e de Martha. O que estava feito, estava feito. Tinha de engolir minha própria dor e seguir em frente. Pietra tinha Martha. Eu tinha uma oportunidade nas mãos, que meus pais batalharam comigo para que eu conseguisse e... — ele parou, suas feições contraindo severas, respirou fundo e continuou. — Na época todos acreditaram em um acidente. A perícia final da polícia dizia que o carro estava em alta velocidade e no dia chovia muito, a estrada era estreita e a pista estava escorregadia. O que facilitou Peter perder o controle do veículo na curva. Para a polícia que investigou o caso as circunstâncias eram óbvias – um motorista imprudente que ignorou as advertências da estrada perigosa e do tempo ruim. Mas eu sabia que aquilo não era verdade. Papai nunca andou acima da velocidade, Laura, minha mãe até brigava com ele por andar muito lento. Ele era um homem extremamente cuidadoso. Não tinha como papai ter se aventurado mais rápido, ainda mais numa estrada perigosa e com um dia chuvoso. A polícia não deu ouvidos a um garoto que tinha acabado de perder os pais, o caso tinha sido esclarecido e fechado. Não havia nada que eu pudesse fazer lá.

— Acha que alguém provocou o acidente? Mi dispiace49, eu não deveria estar trazendo essas lembranças para você. Não posso imaginar o que foi para você perder os pais ainda tão novo e... Eu sinto muito.

— Está tudo bem Ella. Não me incomoda falar sobre isso. Não mais. Além do que, se quer respostas eu tenho que lhe contar isso, pois foi aonde tudo começou para que hoje estejamos aqui. E, apesar das circunstâncias não serem agradáveis, eu gosto que queira saber mais sobre mim.

Bem, já que era assim, não custava alimentar a curiosidade me corroendo.

— Quando eles foram mortos, tínhamos algum dinheiro que papai guardou ao longo dos anos, mas também tínhamos dividas e a hipoteca da casa na qual vivíamos. Uma vez que as contas foram pagas, não sobrou muita coisa, porém daria para vivermos por algum tempo e havia Martha. Ela foi de uma generosidade ímpar. Martha tomou para si toda a responsabilidade da casa e de nós, principalmente, de Pietra que ainda era uma criança. Ela gastou conosco suas economias e arrumou um emprego fora. No entanto, eu sabia que esta era uma responsabilidade minha. Eu não podia abrir mão da bolsa de estudos. Não parecia certo e hoje eu não tenho dúvidas quanto a isso. Não era apenas meu sonho, mas dos meus pais, também. Em todo caso, aqui eu poderia estudar e por ter a dupla cidadania, poderia trabalhar também e me sustentar sem a necessidade de recorrer ao pouco que sobrara. Pietra precisava mais do que eu. E eu ainda poderia enviar alguns trocados quando sobrava alguma coisa.

— Isso foi muito altruísmo seu.

— Não, Ella. Era minha obrigação. Martha possuía a guarda legal de Pietra e a minha, todavia, em poucos meses eu faria 18 anos e a responsabilidade de cuidar da minha irmã era minha, com ou sem a guarda legal para Martha. Eu tinha o dever moral de fazer por nós dois o quê meus pais teriam feito por nós, se eles não tivessem sido assassinados.

— Sei, porém qualquer outro em seu lugar teria aproveitado para deixar toda a responsabilidade sobre Martha, afinal de contas, legalmente e para todos os efeitos a responsabilidade pertencia a ela. Mas você não, mesmo longe as ajudou, cuidou a sua maneira e ainda faz.

Ele deu os ombros.

— É minha responsabilidade. Não faça essa cara. Um dia irá entender que há coisas que você deve fazer simplesmente porque tem de fazer, mesmo aquelas que no momento não pareçam ser as mais corretas, como vir para cá logo que enterrei meus pais. Seria desonesto contar vantagens sobre isso.

— Não estou dizendo que tem de contar vantagens sobre isso, mas tem de reconhecer que foi sim altruísmo seu. Você tinha muito sobre si, ainda assim cuidou do seu e do delas quando outra pessoa teria virado as costas e seguido adiante sem culpa. Então se isso não é ser altruísta, é o quê?

Seu sorriso foi modesto.

— Entenda Antonella, você estudar e tirar notas boas não é mais que uma obrigação que você tem consigo mesma e também para com aqueles que fizeram por onde você ter oportunidade de frequentar uma boa universidade. Ninguém tem de lhe dar os parabéns por isso.

— Então?

Thor correu a mão pelo cabelo e recostou a cabeça no respaldo do sofá.

— Eu tinha a convicção de que aqui, de alguma maneira, eu poderia, enfim, descobrir o que realmente se passou no dia que meus pais foram mortos. Faltando um ano para me graduar, eu fui convidado para trabalhar para agencia.

— Você devia ser bom — comentei pensativa.

— Eu sou. — Sua voz foi implacável.

— A modéstia mandou um alô.

— Não há nada de soberbo em saber reconhecer suas habilidades, Ella. Seria se eu tivesse contando vantagens sobre isso. Confie em mim, eles não teriam me oferecido um emprego se eu não fosse bom. Eu tinha uma condição perfeita para o trabalho que me foi oferecido. Boa habilidade analítica e intelectual, aprendizagem rápida, estava por minha conta e me adaptava fácil. Força, foco e determinação.

— Você pode advogar?

— Não. Estava bastante ocupado na minha nova carreira e na minha busca por respostas para arrumar tempo para cumprir todos os requisitos burocráticos para exercer a profissão. Fiz umas conexões aqui e ali. Demorou um pouco, mas achei o que estava buscando. Meus pais foram queima de arquivo, quero dizer, papai foi. Mamãe foi uma vítima não contabilizada. Hora e lugar errado. Por infelicidade, papai tinha descoberto que seu chefe, um homem muito influente na época, estava envolvido no tráfico de mulheres e crianças. E, embora fosse um homem muito correto, Peter preferiu se calar e deixar a empresa. Ele tinha família e sabia que mexer com aquelas pessoas nos colocaria em risco. No entanto, pessoas como o seu chefe não pesam qualquer moral. Era mais seguro tê-lo enterrado com a informação do que a solta com a possibilidade de papai dar com a língua nos dentes.

— Como sabe disso?

Seu olhar se espreitou sobre o meu. Um sorriso diabólico curvando o canto de sua boca.

— Foi o que o verme disse antes de eu matá-lo oito meses após eu deixar a agencia.

Ocorreu-me que a declaração não devia fazê-lo quente aos meus olhos, nem aquecer meu ventre e empurrar meus mamilos duros contra a camisa, porém fez e isso não passou despercebido ante os olhos perspicazes de Heithor. Ele não esboçou nenhuma reação, no entanto.

— Embora tenha feito o meu melhor por ambas, sei que fui negligente, pois deveria ter me acalmado logo que deixei a agência e vinguei meus pais. Entretanto, eu tomei gosto pela adrenalina que o trabalho me dá. Todavia, não queria a burocracia do sistema. A autonomia foi uma boa escolha. Eu pude ganhar mais, escolher meus trabalhos, fazer o meu tempo. Ajudar realmente.

— Isso faz de você uma espécie de Ethan Hunt? Oh, isso é sexy.

— Ethan Hunt?

— Você sabe. Aquele mocinho de Missão Impossível interpretado por Tom Cruise. — Ele continuou me fitando sem entender. — Em que mundo você vive? Não vê filmes?

— Não gasto meu escasso tempo livre com bobagens, prefiro fazer algo de útil, que realmente me dê prazer. Descansar, ver minha família...

—... Comer vadias — acrescentei despretensiosa, brincando com o botão da sua camisa.

— Nada que um homem livre não possa fazer.

Eu também sou livre. O que acha disso, cretino?

— Pietra e Martha sabem? Digo, sobre o que faz?

— Parecia injusto deixá-las no escuro quando eu tenho de permanecer longe enquanto trabalho, além do mais, tê-las cientes do que eu faço é mais seguro para elas mesmas e me evitou um montão de problemas. No entanto, não lhes dei mais do que fiz a você... Além de Martha, apenas você sabe sobre meus pais. Pietra ainda crê que foi apenas um acidente e quero que se mantenha assim.

Sacudi a cabeça em concordância, gostando da confiança que ele havia depositado em mim, ainda que isso parecesse soar como se estivéssemos trocando confidências.

— Por que mandou Pietra e Martha virem para cá?

— Porque era necessário — disse simplesmente.

— Uh-hum.

— Estou em um caso agora mesmo. Olhe, eu nem sempre trabalho para pessoas honestas, às vezes ajudo alguns colegas do meu antigo emprego. Não é algo que gosto, porque sempre me trás problemas parecidos com os de hoje. Todavia, é necessário. Em essência, trabalho para civis com grande poder aquisitivo, alguns bons e outros nem tanto. Na verdade, não me importa quem é o cliente, desde que ele possa pagar por meus serviços e eu não tenha de matar ninguém, como um assassino de aluguel, ou prejudicar um inocente, eu fico com o trabalho. E, neném, eu não sou barato.

— Então você é um mercenário — meditei em voz alta.

Seus olhos e sua voz estavam banhados em cautela sondável.

— É uma forma de ver. Só porque alguém não segue as regras do sistema, não quer dizer que essa pessoa seja alguém ruim. Há muitas pessoas dentro do próprio sistema que são piores do que as que estão fora. Gente ruim mesmo. Gente que usa a lei para cometer atrocidades.

— Va bene. Mas o que eu tenho a ver com tudo isso?

Fúria cruzou seus traços faciais.

— Aqueles pedaços de merda tentaram te pegar para me atingir.

— Desculpe?

— Quem eu investigo não está contente por me ter fuçando em seus negócios, por isso mandou seus homens atrás de você. A pessoa também tem seus meios para descobrir coisas, como quem a investiga e as pessoas ao redor que me importam. Alguém de dentro da agencia deve ter aberto o bico...

Eu importava para ele?

Meu coração deu uma cambalhota, contudo, eu disse a mim mesma que foi pelo derrame de informações sobre a minha cabeça naquele dia e, bem, não era mentira.

—... Se eles te pegassem, o pedaço de merda poderia usá-la para me dissuadir do caso — ele continuava dizendo, com uma expressão mortal em sua face.

— Eu não diria que eles queriam me pegar. Eles pareciam realmente maus — estremeci de leve com a lembrança. — Tirou o inferno fora de mim.

— Sinto muito — disse ele, tocando meu rosto. — Queria ter estado lá, eu... Tem minha palavra que isso não irá se repetir; para isso preciso que me ajude.

— Fazendo o quê? Vai me dar uma arma? — Eu estava sendo sarcástica, entretanto, a ideia realmente me animou. Eu quase me sentia poderosa.

— Porra, não! De nenhuma fodida maneira, darei uma arma para você.

— Eu deveria me sentir ofendida?

Thor me tirou de seu colo, colocando-me no sofá. Eu contive um suspiro afetado pela perda de contato. Ele se pôs de pé e foi até minha bolsa sobre uma das poltronas. Abriu-a sem cerimônia, pegando meu celular e digitou algumas vezes e, em seguida, veio para mim.

— Coloquei meu número na chamada rápida. Também adicionei o de Benjamin, é o segundo número na discagem rápida. Logo os apresentarei formalmente para que se sinta mais cômoda, se sentir necessidade de chamá-lo caso não me encontre. Qualquer mínima coisa que achar estranha, não hesite em chamar um de nós dois. Se eu não puder ir até você, Ben estará lá e quero que siga tudo que ele disser. Sem reclamação ou questionamentos.

— Não gosto disso — avisei emburrada.

— Acha que eu faço? Porra. Estou puto por aqueles merdas terem tentado te pegar. Mas até que os caras e eu finalizemos o caso, você terá guarda-costas te seguindo por toda parte e isso não é negociável. Eles ficarão aonde os coloquei, a uma distância segura, aonde não vai te incomodar e eles possam agir rapidamente. Pretendo resolver tudo o mais rápido possível, até lá, coopere.

— Eu deveria te chutar o rabo por isso.

— Provavelmente eu mereço.

— Certo. Eu vou... vou cooperar.

Seu sorriso foi de muitos watts.

— Obrigado — murmurou, puxando-me para o seu colo, novamente. — Não se preocupe. Aqueles homens não podem te ferir. Ninguém fará. Eu não vou permitir. Agora mais do que nunca, eu tenho urgência em fechar esse caso. Assim, fique tranquila. Não quero que não se preocupe com nada. Tudo permanece igual... Foi muito corajosa hoje, querida. Estou orgulhoso de você.

Eu estava tranquila, mas isso era porque eu confiava nele. O que me pareceu um tanto quanto anormal dada à situação. Estava na dúvida sobre isso ser certo ou errado. Bem ali, como estávamos, eu sabia que nada poderia me atingir. Estava segura e protegida com ele, contudo, o pensamento de sair daquelas paredes colocava calafrios gélidos na minha espinha e meus pelos da nuca em pé.

— Um dólar por seus pensamentos.

— Todos os outros também são como você? — Ele assentiu devagar. — Norah? — Outro movimento lento de cabeça, e eu exalei com força.

Droga! Isso fazia da puttana o quê? Uma espécie de Lara Croft saída dos infernos?

— Na verdade, Norah trabalha para mim. É meu manipulador.

— Como uma secretária?

— Algo assim.

Grande merda!

— Alguma pergunta mais?

— Os caras e você são um time?

— Quando precisamos. Entretanto, prefiro trabalhar só.

— E eles são ex-agentes, também?

Mais um movimento de cabeça para a coleção.

— Todos são meninos maus, verdade? — De repente, minha diversão foi cortada por um pensamento aterrador. Eu me senti angustiada. — Dio, Thor. Se eles tentaram me pegar, eles podem ir atrás de Pietra e de Martha. E, de Josie, também. Nós precisamos...

— Nathan está com Pietra. Ele é um tremendo de um bastardo sem alma quando tentam mexer no que lhe pertence. Estou feliz que ele ame Pietra. Ninguém chegará até ela. Eric não vai permitir que Josie fique desprotegida, tampouco. Martha também está segura. Ninguém toca no que é nosso, neném, e quem for tolo o bastante para tentar, confie em mim, será a última coisa que o idiota fará na vida.

— Vocês fazem um concurso entre si de quem mija mais longe?

— Só quando estamos entediados.

Eu me esforcei para não rir, sem sucesso.

— Eu gosto desse som e dessas covinhas sexies. — Cavei meu lábio nos dentes num gesto de timidez envaidecida. Ele suspirou, seus dedos faziam pequenos círculos em minha coxa. — Não sabe como me sinto aliviado que não esteja correndo com raiva de mim.

— Não tenho medo de você e não estou com raiva. Deveria. Porém, no momento ainda me sinto um pouco estarrecida pelo o que aconteceu para sentir qualquer outra coisa. Provavelmente, ela virá a qualquer momento, se me der alguns minutos. Ou horas. Não sei. Mas, então, você me protegeu também. E ainda tem esse montão de informação para processar... Está tudo bem, eu acho. Ou estou ficando louca.

— Provavelmente o último. No entanto, aprecio sua loucura.

— Os loucos se identificam, não sabe?

— Para ser honesto, eu não sei de mais nada.

— Isso é bom — pisquei, tentando fazer graça.

— Não, Ella. Isso é péssimo.

Ele segurou meu rosto e seu olhar me fixou. Intenso e escuro. Meu coração deu umas tropeçadas na minha respiração. Senti meu rosto se aquecer e minha boca secou.

Sua voz era um sussurro macio, melodiosa e baixa quando ele concluiu:

— Eu costumava ser totalmente racional, porém desde que você apareceu na minha vida tudo mudou. Eu mudei. Me deixa louco, neném. E, porra, não dou a mínima.

Suas palavras foram um golpe dentro de mim. Eu não podia decidir sobre como me sentir ante a força delas. Eram simples e bobas até, mas capazes de emergir dentro de mim uma mistura de sentimentos e emoções, que colocaram mariposas na boca do meu estômago.

Tê-lo perto, sua mão ainda envolvendo meu rosto, seu calor, a espera imprensada em sua cara, seu cheiro enchendo meus pulmões quando puxei profundas respirações. Tudo tinha mudado. Uma tensão inquietante, colocando uma ansiedade crescente sob minha pele.

Lambi os lábios e, em seguida, meu olhar caiu para a sua boca. Lembranças dos beijos ardentes que trocamos ao que parecia ser uma década atrás infestaram minha mente.

Ele não estava se mexendo. Eu fiz.

Inclinei a cabeça devagar, empurrando minha língua fora, e então, deslizei-a sobre o contorno de seus lábios e pela comissura. Senti sua exalação forte e me aventurei além, puxando seu lábio inferior entre os meus lentamente. Uma prova. Um gosto. Thor gemeu, sua mão apertando minha coxa enquanto a outra escorregava para a minha nuca. A posse estava lá, sutil no aperto delicado.

Bati os cílios para cima, encontrando seu olhar negro. Desejo crepitava sobre ele incendiando o meu próprio. Sustentei seu olhar quando mordi seu lábio e o estirei antes de beijá-lo.

Não foi um simples beijo.

Ele me devorou. Marcou. Possuiu. Arruinou.

Um beijo era tudo que ele precisava para pôr meu corpo a caminho do inferno.

A língua empurrou dentro da minha boca, balançando por todos os cantos, saudando e demarcando território, antes de se enrolar na minha. Eu estremeci e gemi, me afundando nessa possessão. Seu gosto turvou meus sentidos e enviou uma labareda de fogo por entre minhas pernas.

Apertei-me a ele querendo mais, precisando de mais.

E ele me deu até que estivesse com os pulmões gritando por ar.

A boca pecaminosa recuou para meu pescoço. Firme e rude. Dava-me chupões e beijos molhados. Eu me deliciei com o pensamento de ter novamente suas marcas...

Que merda você está fazendo, estúpida? Já se esqueceu das humilhações que ele te fez passar na frente das suas vagabundas?Ele comeu Norah bem debaixo do seu nariz! Na sua PRÓPRIA CASA!

Meu corpo enrijeceu e uma raiva negra me corrompeu numa velocidade sem igual. Cheia, encorpada, tão forte, que me torceu. Empurrei o peito dele duas vezes, antes que ele me permitisse ir e quando consegui, saltei de seu colo, afastando-me dele aos tropeços.

Como eu podia ser tão fraca? Inferno. Eu não sabia se isso me fazia sentir mais raiva dele ou de mim mesma por te me jogado sobre ele e ainda desejá-lo depois de tudo que ele me fez.

Fraca. Fraca. Fraca.

Fechei os olhos. Trinquei os dentes e respirei, buscando uma calma inalcançável. Os gemidos daquela troia loura soaram em meus ouvidos, como se tivesse retornado aquele momento. A imagem da humilhação na piscina reproduziu na minha mente.

Estúpida! Eu era uma tremenda idiota!

— O que foi Ella?

Abri os olhos e dei a volta, encontrando-o em pé. Não ocultei a cólera em meus traços, ainda mais quando ele me fitava com uma inocência que não possuía.

Era um figlio di puttana por excelência.

— Neném? O que foi? Fiz algo errado? Você não está surtando novamente, não é?

Ele também tinha chamado àquelas putas de neném? Provavelmente.

— Neném fa...

— Neném, o caralho, suo figlio di puttana di merda!

— Que porra é essa Ella?

Meus olhos se estreitaram para seu tom irritado, como se ele tivesse razão para isso e não eu. A raiva rastejando sobre minha pele. Não pensei em mais nada, pegando a primeira coisa que vi na minha frente, que para o azar dele era um vaso bem grosso. Taquei. Ele desviou a tempo.

— Mas que merda deu em você? Ficou louca mulher?

— Folle? Você ainda não me viu louca, Castellammare! — rosnei, jogando nele os objetos que encontrei pela frente. Ele desviava com habilidade, aumentando minha irritação. — Nunca mais, suo canaglia di merda, ouse encostar um dedo em mim. Principalmente, depois de ter tocado naquelas vacas, seu maldito! Eu te odeio! Ouviu-me? Odeio pra caralho!

Ele me encarou com os olhos mais arregalados. Havia surpresa neles e raiva também. Soltei uma risada amarga, cética de que ele pudesse sentir raiva quando ele era o errado.

— Que foi Castellammare? Acha mesmo que com um beijinho eu iria esquecer que você levou aquela porca troia para dentro da minha casa, me humilhou e machucou, depois levou a oxigenada e a comeu bem debaixo do meu nariz? — indaguei enquanto gesticulava para ele com outro vaso na mão, que logo voou para ele. — Responda-me, seu cretino! Você pensa que eu vou me esquecer da humilhação que fez passar porque “aparentemente” foi meu herói hoje? Acredita que vou me entregar para você como se nada tivesse acontecido? Como se não tivesse me forçado a pedir desculpas para aquela puta? Diga, chamou-as de neném também? Eu quero que você vá para o raio que o parta! Ouviu? Maldito desgraçado!

— Eu não fiz nada que um homem livre não faria, Antonella — disse, com a voz dura como aço, os punhos cerrados ao lado do corpo tenso. — Foi você mesma quem disse que nós não tínhamos nada, portanto, não devia respeito a mim. Recorda-se?

Fechei os olhos com força por não ter como argumentar contra aquilo, e quando os abri de novo abafei um grito surpreso por vê-lo tão perto.

— Você me esculachou Antonella. Deixou-me nu na cama, algemado e amordaçado, com um tesão da porra. E para que Antonella? Para ir a uma maldita festa se esfregar em outro macho sendo que em casa você tinha um fodidamente louco por você, filha da puta!

Seu tom hostil e os olhos raivosos me fizeram estremecer até os ossos. Suas palavras me deixando atordoada por um momento. Heithor se afastou, ficando de costas para mim.

Eu fiquei sobressaltada com a intensidade dele.

Ele estava vibrando, seu corpo muito tenso, mas eu não tive medo em tudo.

— Você me humilhou de todas as maneiras que pôde — ele mordeu quando se voltou para mim outra vez. — Agora eu te pergunto Antonella. Que porra você queria que eu fizesse?

— Você é um idiota mesmo, Castellammare! Eu queria que você me castigasse como fez quando fui à festa do Baby assim que eu botasse os pés dentro da mansão, seu ordinário. Não esperava que você fosse dar um piti afeminado, escondendo-se como qualquer covarde faria para depois levar aquelas putas para dentro da mansão. Foi um imbecil, se quer saber.

Sua reação me deixou zonza pela rapidez com que ele se colocou sobre mim. Ofeguei, sentindo minhas costas baterem na parede quando ele me prendeu entre ela e seu corpo duro. Em segundos, ele tinha meus pulsos presos acima da minha cabeça quando eu briguei com ele. A outra mão segurou meu queixo, obrigando-me a olhá-lo nos olhos. Eles faiscavam perversos, esfolando-me.

— Eu me afastei por medo do que poderia fazer contra você, sua idiota. Você não somente me feriu com sua atitude de merda e suas fodidas palavras, mas também surrou o meu orgulho. Isso ninguém ousou a fazer. Nem homem, nem mulher. E sabe por quê? — Eu tinha a ligeira sensação de que não queria saber, mas ele não me permitiu negar. — Porque eu nunca dei uma segunda oportunidade a quem se atreveu. Compreende o que eu digo? Você me acha um covarde por ter ficado fora aqueles dias, eu admito, fui covarde porque mesmo não merecendo que eu sequer olhasse em sua cara depois da cachorrada que você me fez, eu jamais poderia me perdoar se te fizesse qualquer dano. Porque eu queria Antonella. Eu quis te fazer dano. Mas não podia.

Agora, olhando em seu rosto eu podia ver o quanto tinha magoado. Isso de alguma forma me machucou por dentro. Eu não gostava disso, no entanto. A mão dele afrouxou o aperto em meus pulsos. Os olhos ainda cravados nos meus. Mordi os lábios juntando forças para o que eu estava preste a fazer quando arranquei a declaração sincera da minha alma.

— Scusami. Sinto muito, de verdade, Thor. — Ele franziu o cenho e soltou meus pulsos. — Eu admito, peguei um pouquinho pesado. Eu... eu sinto muito mesmo.

Thor se afastou, parecia desconcertado.

— Se... se esse for mais um de seus joguinhos é melhor parar — advertiu seco, gesticulando a mão para mim. — Minha paciência para isso já se esvaiu há muito tempo Ella.

— Juro que não estou fazendo joguinho nenhum — falei, mirando minhas mãos. Um rubor detestável coloria minhas bochechas. Engoli duro e, em seguida, bati os olhos para cima para ele, que me fitava desconfiado. — Eu sinto por ter feito aquilo, mas eu estava com raiva... Desculpe.

Seus olhos me analisaram por alguns instantes, e então, seus lábios finalmente expressaram um sorriso lindo, me fazendo sorrir também enquanto ele encurtava nossa distância. Sua expressão suavizando quando ele esticou a mão e alisou minha bochecha com o polegar.

— Acredito em você, neném — sussurrou, carinhosamente. — Eu também não deveria ter levado mulher alguma para a mansão. Estava furioso com você e comigo. Desculpe-me.

Seus olhos se desculpavam, também.

Mordi os lábios, nervosa. Nunca tinha passado por uma situação dessas na minha vida, portanto, não sabia como agir ou o que falar. Afinal, o que significava isso? Voltaríamos a nos pegar novamente como antes? Ou era somente uma bandeira de paz içada sem direitos a fodas?

— Só você — ele sussurrou.

— O quê?

— Você me perguntou se eu havia chamado outra de neném e a resposta é não. Nunca tive animo para dar a outra mulher qualquer expressão de afeto. Só você. — Eu meio que gostei disso, e gostei mais quando ele fez um adendo sensual. — É meu neném, Ella. Minha para cuidar, mimar e foder.

Meus joelhos fraquejaram e eu agarrei seus ombros com força, sabendo que aquela era só uma desculpa para tocá-lo. Os braços dele vieram ao redor da minha cintura.

Thor inclinou a cabeça, sua testa pousando contra a minha. Ele suspirou pesadamente.

— Nunca mais faça aquilo de novo ou algo parecido. Eu sou muito paciente, mas você me tira do eixo e aperta todos meus botões. Isso não é bom. Não será bom para nenhum de nós dois. Entende isso?

— Sim. Mas você vai ter que dedetizar aquele quarto.

Ele lançou a cabeça para trás e riu às gargalhadas.

Dei um tapa em seu braço, fechando a cara.

— Desculpe, mas você tem cada ideia. — Eu ainda não estava rindo. — Você tem que estar brincando comigo? Certo. Considere feito.

Torci os lábios, retendo o sorriso satisfeito. E assim, de repente, toda a diversão se foi de uma maneira sutil, porém rápida, dando lugar a outro tipo de comoção, que eu não compreendia enquanto nos olhávamos em silêncio por um comprido momento. Eu me sentia hipnotizada por seu olhar que parecia transcender minha alma. Ele então baixou sua boca contra a minha roçando os lábios nos meus tão delicadamente, que eu suspirei afetada. Thor sugou meu lábio inferior, deu-me pequenos beijos, antes de tomar minha boca num beijo calmo.

Esse foi diferente de todos que já tínhamos trocado.

Não havia demanda, nem pressa.

Mas não era só isso, havia algo mais, algo que eu não compreendia.

Thor recuou tão ofegante quanto eu com o barulho do interfone.

— O jantar chegou.