Dangerous
Capítulo 01
Beverly Hills, Califórnia
L’Ermitage Hotel
Setembro
Ainda de olhos fechados golpeei o ar quando inconsciente busquei o corpo masculino ao meu lado na cama. Não sei por que, mas senti um leve desconforto ao constatar que o desconhecido, metido a demônio da luxúria, não estava mais ali. Porém, rapidamente afastei a sensação.
Tomando meu tempo para espreguiçar-me, alonguei os braços acima da cabeça enquanto minha mente grogue despertava, enviando-me flashes da melhor noite que já tive na vida.
Invejoso, meu corpo também fez questão de se exibir, deixando-me ciente da gostosa dor pós-coito afligindo entre as minhas coxas, além de outras partes minhas, que eu nem mesmo sabia ser possível sentir, estarem deliciosamente doloridas. Mas, acima de tudo, eu estava relaxada.
Um bobo sorriso se espalhou por meus lábios enquanto eu abria os olhos de par em par, acostumando-me com a claridade adentrando a suíte do hotel. Estiquei a mão, pegando meu celular sobre a mesinha de noite e, em seguida, saltei da cama ao constatar as horas.
Puta merda. Puta merda.
Eu estava muito, muito atrasada.
Pietra vai me esfolar viva!
Entrei em minhas roupas as pressas e, logo após, rumei até a porta, ainda calçando as sandálias quando invadi o elevador. Foquei-me no espelho então esfreguei as mãos no rosto e sobre a bagunça no meu cabelo, tentando me livrar da cara pós-foda e fali. Foda-se! Quando as portas se abriram, eu tropecei para fora e engatei meus passos através do saguão, porém antes que tivesse a chance de chegar às portas duplas um dos funcionários do hotel me interceptou.
— Um momento Senhorita!
— O quê?
O homem deu um sorriso amigável.
— Se puder me acompanhar até a recepção, há um recado para a Senhorita...
Bzzzz! Bzzzz! Bzzzz!
Olhei para baixo para o meu celular em mãos e exalei forte.
— Senhorita?
Levei meu olhar de volta para o homem me fitando em espera.
— Vá buscá-lo então, — estalei dividida entre a curiosidade e a pressa.
Meu celular continuou a vibrar enquanto o tipo se afastava. Olhei no visor e gemi uma lamentação, em seguida recordando-me que não tinha tempo sequer para um espirro. Então saí.
Uma vez que estive dentro do meu Audi, eu sintonizei o rádio e All My Life de Foo Fighters se derramou nos alto-falantes. Saquei o par de óculos de sol no porta-luvas então puxei o cinto de segurança. Em seguida, estava acelerando para Malibu.
Pietra era minha melhor amiga e companheira de casa.
Ontem, antes de sair, ela tinha me feito prometer que eu estaria na mansão antes do sol raiar para
receber o Sr. Wheat¹ que, enfim, daria as caras e acabaria com o mistério envolvendo-o.
Heithor Castellammare, seu irmão, era um enigma para mim.
Então veja, eu realmente estava curiosa para finalmente conhecer o dito-cujo. Mas, ei, eu não imaginava que nessa saída toparia com um tipo que me faria querer jogar a calcinha no chão.
Aquele homem — doce inferno — era criminosamente bonito. Intenso e imoral. Ele tinha sido um demônio sexual na cama e me feito chorar vários orgasmos, coisa que nunca aconteceu antes e me deixou faminta por mais. E acredite, o cretino fez e fez mais.
Toda.
Fodida.
Noite.
Seu olhar azeviche, tão negro, como uma noite de tormenta, não saia da minha cabeça. Eu queria encontrá-lo de novo e repetir a dose, entretanto, eu sequer sabia o seu nome.
Como diabos eu iria achá-lo?
O recado.
Oh, sim! Eu iria atrás daquele recado logo mais.
O sorriso em minha face ladeado por uma sensação estranha foi rapidamente freado por minha razão quando me toquei sobre o que estava fazendo.
Cristo...
Eu realmente estava indo abrir uma exceção?
Não fode, garota! Ele só foi mais um.
Zangada com os rumos desconcertantes da minha mente, balancei a cabeça para os lados, tentando afastar a imagem daquele homem e daquele inferno de sensação.
Eu não era uma garota de laços rosa e me orgulhava disso. Relacionamentos não eram bons, exceto se fosse comigo mesma. Qual é? Eu tenho 18 anos e não há mal nenhum em querer aproveitar minha juventude que, aliás, é uma só. Toda essa merda de conto de fadas e blá, blá, blá era coisa dos meus pais innamorati. Não eu, não comigo. Mas confesso que, muito embora não fizesse o tipo "melosa", era impossível não me pegar pensando se algum dia — depois de aproveitar toda a diversão da qual tenho direito — eu iria ter um amor como o deles. Isso, no entanto, passava num piscar de olhos.
Nunca tive um namorado. Conquistas, na verdade, sempre tiveram sido apenas isso, casos de uma única noite. Homens que eu usava para a minha diversão. Nunca ao contrário. Eles não precisavam ter nomes. Porém, se quisessem o privilegio da minha atenção, eles tinham a obrigação de serem bons o bastante para ter isso.
Amarrar-me a uma relação amorosa ou me apaixonar estava fora de cogitação. Estes eram atrasos de vida, que eu não estava desesperada para ter.
A vida está aí para ser vivida sem fronteiras. Este é o meu lema.
E eu adorava a minha liberdade. Porra, eu amava ser livre e dona do meu próprio nariz.
Uma vez na H-1, xinguei uma blasfêmia, estremecendo de leve quando, enfim, me rendi à insistência da minha amiga levemente enfurecida, apertando o botão no volante.
— E aí, bella mia? — falei ao atender a chamada. — Já está morrendo sem mim?
— Estou morrendo para dar nessa sua cara de pau quando você chegar aqui, Antonella. Eu disse para você, não disse? Você fodidamente prometeu que estaria aqui antes dele, antes até que amanhecesse, porra! Lembra-se disso? Ou o pau do cara fodeu seus miolos, também?
— Como você adivinhou?
Ela conjurou um punhado de palavrões. Eu controlei o impulso de rir.
— Amada não foi minha culpa — chorei na defensiva.
— Não fode, merda!
— É sério! Encontrei um cara incrível ontem, P. E ele foi, oh, Dio mio! Você não faz ideia das coisas sujas que nós fizemos... Ele era tão quente e tão gostoso!
Ela riu.
— Você, cadela... Va bene, va bene... Depois você me conta tudinho. Agora, ti prego, traga seu traseiro pra cá, imediatamente.
— Já estou no meu caminho. Mas, me diga, aconteceu algo?
— Não, mas vai, se eu não vir seu rabo aqui em menos de meia hora.
— Com esse amor todo, você quer dizer que me ama?
— Amai a todos até mesmo as cadelas — ela recitou.
— Mesmo quando elas latem ameaças a você, não é assim? — Eu podia vê-la revirando os olhos e, desta vez, não detive meu risinho. — E seu irmão chegou há muito tempo?
— Desde as nove da manhã, e eu só consegui segurá-lo aqui a base de chantagem.
Franzi o cenho para seu tom.
— Não me diga que ele já quer ir embora? A luz o espera ou algo assim?
Ouvi seu bufo do outro lado da linha.
— Não começa, maledizione²! Ou juro que sou capaz de dizer a ele do que o apelidou quando estiverem face-a-face. E não, não é ir daqui, mas está com espinhos na bunda para sair. Ele alegou ter um compromisso muito importante e que tem de ir logo. Não disse exatamente o que é, — ela suspirou —
como se eu não soubesse que se trata de alguma troia³ qualquer.
— Eu sempre disse que você tinha a quem puxar, não?
Cadela. Desligou na minha cara.
Em meu closet, joguei a toalha para o lado e puxei uma regata branca curta sobre a minha cabeça, e, em seguida, entrei num short jeans de cintura alta, cobrindo o minúsculo biquíni brasileiro de cor turquesa, porque sim, eu cuidava bem do meu corpo para mostrá-lo mesmo.
De volta ao quarto, meus olhos viajaram distraídos abaixo sobre a área da piscina quando me aproximei da janela panorâmica, assistindo a reuniãozinha de boas-vindas. Havia um punhado de gente, amigos e colegas, e duas ou três pessoas ainda desconhecidas por mim. Deixei meus olhos vagarem pelos convidados dançando, bebendo e conversando entre si, tudo muito animado.
Aqui na mansão era sempre assim, festa quase todos os dias.
Nós não precisávamos de motivo, porque nós éramos o motivo.
Nossas festas eram sempre divertidas, as melhores de nosso ilustre bairro. Regada a gatinhos e muita bebida. Um paraíso em Terra, que eu esperava que o Sr. Wheat não implicasse.
Fiz uma careta e espantei aquele pensamento agourento, porém outro entrou em linha.
Onde estaria aquele gostoso agora?
Se ao menos eu tivesse o telefone dele, ou tivesse escutado-o quando ele quis me dizer seu nome, agora eu não estaria querendo me chutar.
Inferno. Se arrependimento matasse, eu estaria á segundos de morrer!
Isso tudo porque eu tinha regras quando o assunto era curtição.
Sem nomes; sem repetições e sem romances.
Três essenciais para que depois não tivesse a dor de cabeça de algum idiota ficar no meu pé, exigindo o que eu não daria a ninguém nem por decreto sagrado.
Mas este era diferente. Eu não sabia bem explicar o porquê, somente sabia que era.
Também não era como se ele fosse importante. Era só diferente. E, bem, tudo tinha lá sua exceção e ele, definitivamente, era a minha.
Talvez fosse pela forma que ele me tocou, beijou e tomou. Ele foi... terno e carinhoso. Porém, exigente e selvagem; generoso. E, por um momento, eu me senti especial, pior, gostei disso.
Verdade seja dita, ele me fez sentir coisas que nunca senti antes...
Puta que pariu. Era só o que me faltava, gostar de um cara que nunca mais vou ver!
Bufei aborrecida não apenas porque não gostava da forma como eu estava me sentindo. Mas também porque eu não o veria mais e não gostava de não gostar disso.
Merda!
Girei os pés e pisei para o banheiro.
De frente para a pia, eu escovei meus dentes e logo depois comecei a pentear os fios ainda meio úmidos. Uma vez terminado, deixei-os soltos para secarem. Meu cabelo fluía em ondas até quase a cintura. Era castanho claro, com mechas californianas nas pontas.
Encarei o espelho por um momento sem realmente me ver e deixei os ombros caírem quando os azeviches voltaram a espreitar minha mente. Lambi os lábios recordando-me do seu cheiro gostoso.
Apenas o pensamento do homem me colocava quente por todos os lugares.
Exalei bruscamente, irritada comigo mesma e recusei-me a pensar naquele diabo de homem gostoso dos infernos, e, em seguida, rumei para baixo para a piscina.
Uma curiosidade quente borbulhou em minhas veias combinada com a empatia pela felicidade que, eu sabia que Pietra estava sentindo por, enfim, ter o irmão em casa. Sorri, imaginando que sua alegria ia um pouco além, pelo fato dela também poder esfregá-lo na minha cara, finalmente.
Pietra e eu nos conhecemos no Ensino Fundamental II ainda na Itália e desde então não nos desgrudamos mais. Isso fazia soar estranho o fato de eu ainda não conhecer seu irmão mais velho. Quero dizer, não era de toda verdade, pois eu já tinha visto algumas fotos dele quando era criança e no começo da adolescência, mas nunca as de adulto, o que era o mesmo que nada. As pessoas mudavam com o tempo — algumas para melhor, outras para a morte. E, se eu não estava equivocada em meus cálculos, agora o Sr. Wheat deveria ter seus 30 anos.
Também não havia fotos dele nos muito porta-retratos espalhados pela mansão. A resposta dela quanto a isso era sempre a mesma: Thor não gosta de tirar fotos.
O que eu poderia dizer além de achar que ele tinha puxado todos os genes horrendos da família Castellammare? Por isso a recusa dele em dizer ‘x’ para a câmera?
Va bene! Era uma explicação esdrúxula, porém aceitável.
Tecnicamente, Heithor era o único parente de sangue de Pietra ainda vivo, uma vez que seus pais — filhos únicos de pais já falecidos — morreram num fatídico acidente de automóvel na Itália quando ela tinha cinco anos e o irmão dezessete.
Então, como raios ele podia não visitá-la com frequência?
Eu não fazia caso omisso da importância de tia Martha no pequeno clã Castellammare, afinal de contas, era ela a quem Pietra tinha como figura materna. E Martha nunca deixou faltar nada a minha amiga. Até mesmo para Heithor, ela foi uma espécie de segunda mãe.
Mas sangue era sangue.
Elas (Martha e Pietra) justificavam sua ausência, culpando um trabalho que eu nunca soube ao certo o que era. Unicamente, sabia que ele trabalhava ao redor do mundo “acertando a vida das pessoas”, palavras de Pietra e únicas sobre o assunto.
Se ele fosse um desses tipos que promoviam o bem em prol dos miseráveis nos confins do mundo, o que de antemão explicava sua ausência, ele então devia ser antiquado de doer.
Eu esperava estar errada.
Enquanto me esgueirava pela ampla sala de estar, cumprimentando alguns casaizinhos que estavam ali, eu senti uma corrente de calafrios atravessar a minha espinha, apesar de ser uma manhã agradável de Setembro. Franzi o cenho quando a sensação de expectativa puxou e torceu nas profundezas da minha barriga, todavia, a agitação da música pop pescou a minha atenção quando alcancei o limiar da porta francesa corrediça. Sobre as plantas ornamentais decorando a área externa eu avistei Pietra, metida numa saída de banho, em uma das mesas próxima a piscina. Havia mais três pessoas com ela — dois homens e uma mulher —, não me atentei a última.
Um dos homens, com jeitão militar, tinha a cadeira virada na linha dos meus olhos enquanto papeava com minha amiga risonha, dando-me uma noção de seu torço nu sarado e seu rosto bonito. O cabelo tinha um corte baixo. Um tipo duro, definitivamente. Forte e musculoso.
Pelo jeito a festinha de boas-vindas vai bombar, pensei alegre.
O outro era mais construído, ainda assim magro. Contudo, ao contrário do primeiro que vestia calção de banho, este outro estava todo coberto por jeans e camiseta. Mas o que me chamou a atenção nele além do chiado estranho quando pousei os olhos em suas costas, foi à pele exposta de seus braços quando ele moveu um esfregando a parte detrás da cabeça. Todos seus íceps se exibiram sob a pele de um bronzeado hipnotizante, lindo mesmo e muito atraente, do tipo que você quer lamber, assim como daquele cretino. Não pude ver seu rosto, pois ele estava de costas.
Chacoalhei a cabeça ligeiramente, porém não podia ignorar o fato de seu cabelo possuir o mesmo corte indie e cor daquele diabo maledetto. Era de um preto acetinado, que chegava a brilhar.
Vozes altas misturadas com o barulho d'água chamaram minha atenção. Eu observei Pietra se afastar quando outro tipo forte, com tinta cobrindo um dos braços e boa parte de seu peito, e um escuro moicano comportado, chamou-a com gestos do outro lado da piscina.
Movi o olhar e achei Josie, minha segunda BFF4, sentada em uma das espreguiçadeiras próxima a mesa em que Pietra estivera antes. Meus olhos afunilaram.
O que era aquilo que ela estava usando Dio mio? Um macacão?
Aquilo não podia ser considerado um maiô. Sério. Minha avó teria vergonha de usar aquilo.
Josie era uma loura natural linda, cheia de sardinhas adoráveis no nariz que escorriam para as bochechas nos dias mais ensolarados, olhos verdes enormes. Estatura baixa e um corpo padrão americano. Mas se comportava como a mãe da minha bisnonna que nem viva era mais.
Ela conversava muito animada com um louro musculoso de ares hollywoodiano. Podia jurar que seus olhos verdes brilhavam quando o tipo lhe sorria.
Revirei os olhos. Tão piegas!
Josie era uma sonhadora daquelas que acreditavam em contos de fada e todas essas baboseiras de felizes para sempre. Sua virgindade aos 18 anos não me deixava mentir.
Com os dedos, escovei os fios para trás quando a brisa fresca envolveu algumas mechas de cabelo ao redor do meu rosto e marchei na direção deles, cumprimentando alguns amigos no percurso.
— Ei! Que bom que veio — ela disse toda sorridente, uma vez que parei na sua frente.
— Da última vez que chequei, eu ainda morava aqui.
— Grossa — ela ralhou, com uma careta.
— Eric Thompson — o tipo me empurrou sua mão.
— Antonella Vicenti.
Aceitei sua mão, estudando-o secretamente.
Olhos azuis gelo, lábios cheios e bem contornados, um nariz reto. Maxilar forte e maçãs altas. O cabelo louro com uma infinidade de diferentes tons dourados estava cortado ao estilo rockabilly e desalinhado numa bagunça gerenciada. Ele era um poste e possuía um porte físico atlético.
Outro tipo, o mesmo que vi antes na mesa, chegou ao lado de Eric. Seus olhos eram curiosos sobre mim, analisando-me de uma maneira, que me fez sorrir alegrinha.
— Olá, doce — ele disse.
— Olá...
— Adam Walker — ofereceu.
— Muito prazer — eu disse, beijando suas bochechas morenas. — Antonella Vicenti.
Antes que eu tivesse a chance de dizer algo mais, a voz de Pietra soou atrás de mim.
— Até que enfim! Já estava para mandar o FBI atrás de você.
Ninguém poderia culpá-la de ser uma péssima atriz melodramática.
Girei sobre meus tornozelos, mal tinha me voltado para ela e envolvi os braços ao seu redor, pedindo desculpas ao pé de sua orelha. Pisquei uma vez e, em seguida, meu olhar viajou distraído a frente até a mesa com os dois últimos desconhecidos, e foi aí que percebi estar na merda.
Um par de olhos negros, como carvão, acompanhado de um sorriso torto safado teve todo o meu ibope e me fez gelada da cabeça aos pés. Meu coração vacilou então trovejou, batendo nas costelas. O reconhecimento se registrando em minha mente numa fração de segundos. E antes mesmo que eu pudesse segurar meu espanto, as duas palavras moldaram meus lábios:
— Puta merda!