Dangerous

Daya Engler · Capítulo 41 de 45

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Dangerous

Capítulo 41

 

 

Ira, ódio e desespero.

Estes são três sentimentos que eu possuía até a alma.

Ódio. Esse era dedicado a Heithor Castellammare por ele insistir em algo que iria destruir minha vida perfeita e derrubar meus sonhos um a um. Ódio também deste parasita hospedado em meu corpo, e que de quebra, estava me tirando Heithor, mesmo que este dissesse o contrário.

Ira. Este era por toda essa situação; por eu me permitir a chegar neste ponto deplorável; por não ter me afastado de Heithor quando o meu instinto gritava em alto e bom som para fazer isto.

E, por fim, o desespero.

Por perder o controle da minha vida para Heithor e não ter como reivindicá-la de volta.

Que porra de amor era esse que ele dizia sentir por mim? Como esse borrão maldito tinha se tornado mais importante para ele do que eu em questão de minutos?

Era a mim que ele amava. Não aquilo!

Nós estávamos bem antes disso surgir e acabar com tudo. Não estávamos?

Por que Heithor tinha que destruir tudo?

Porque ele era um babaca imbecil, um perfeito idiota!

Minha vontade era de gritar, de bater em alguém, de estrangular alguma pessoa com as minhas próprias mãos. Nunca havia me sentido tão furiosa antes. Eu queria ferir todos.

Todavia, engoli a cólera colossal e me abstive em meu quarto, reservando-me ao silêncio. Isso não o agradava e por vezes Heithor chegou a gritar, recebendo em resposta meus olhares de desprezo. Era isso ou matá-lo. Você sabe. Havia toda essa fúria assassina dentro de mim, querendo machucá-lo, sentindo prazer nas imagens montadas em minha cabeça, pois ele me feria. Inferno, ele fazia pior! Heithor estava fodendo a minha vida. Eu não podia sentir dó dele. Recusei-me a isso.

Ademais, não fazia sentido eu abrir a boca quando minha opinião era oposta a dele e ele nem sequer se dava o trabalho de analisá-la. Ver os prós dela. Então pra que conversar?

Ele e eu não entraríamos em um acordo mesmo. E uma coisa eu havia aprendido nesses poucos dias, não adiantava tentar fazê-lo enxergar o meu lado, pois o maledetto não levava em consideração a minha opinião, nem sequer a ouvia. O que me deixava mais puta da vida.

Que merda eu iria fazer com um bebê cagão?

Nunca gostei muito de bonecas. Imagine agora se eu iria gostar de uma que se mexe, chora e fede? E além de tudo iria roubar o melhor da minha juventude? Ah, claro, eu não podia esquecer-me da minha família, do meu papà para ser mais precisa. Mamma mia! Ele iria acabar comigo.

Como eu iria explicar para ele sobre minha nova condição?

Claro que podia dizer: ciao babbo! Eu sei que o senhor me mandou para cá apenas para estudar e tals, no entanto, eu gostei tanto daqui que resolvi aumentar a família. Sorpresa!

Oh, sim! Isso seria ótimo se eu quisesse que o Sr. Vicenti tivesse um AVC, mas não sem antes me matar primeiro. Morrer nova não estava em meus planos e ficar pobre muito menos, pois a primeira coisa que ele faria depois de me esculachar seria cortar a grana e me deserdar logo após.

Não obstante, ainda tinha o meu corpo.

Dio Santo...

Como eu iria me cuidar agora?

Eu comia como uma vaca, dormia mal, meu estresse estava em alta e minhas roupas já não me caiam tão bem como antes. Uma gravidez com milhares de quilos a mais não era algo que eu pudesse esconder até esse intruso deixar meu corpo. E eu não podia parar de estudar.

Puta merda. Até já podia ver as pessoas me apontando no campus...

Lá vai a idiota da Vicenti com seu pestinha.

Quem é estúpido o bastante para engravidar aos 19 anos e jogar a vida?

A Vicenti.

Oddio... Eu não iria aguentar isso.

Como se meu carma já não fosse suficiente, eu mal podia me tocar sem colocar as tripas e minha alma para fora. Meu pior momento do dia era o banho.

E você sabe o quê?

Eu antes adorava tomar banho, agora? Odiava! Tanto que até havia diminuído a freqüência. Uma simples ducha se tornou um martírio. O meu próprio campo de batalha.

Não houve uma só vez depois que aquela maldita médica anunciou a minha ruína que eu não vomitasse toda a vez que era obrigada a tocar minha barriga durante o banho. O asco que me subia pela garganta era avassalador. Pelo menos para esse problema eu encontrei uma rápida solução: escova para banho. Ela tinha um cabo longo e cerdas macias para não machucar a minha pele. A ânsia não sumiu em tudo e, apesar de ainda me enojar tocar naquela região mesmo que indiretamente, eu já não colocava todos os meus órgãos para fora quando me banhava.

Como eu podia ser conivente com esse intruso, se ele me fazia ter nojo do meu próprio corpo?

Ele estava me usando, mudando, tomando para si o que eu não tinha lhe dado, sem me dar a oportunidade de negar. Ele me roubava e arruinava ao mesmo tempo!

O que eu tinha de fazer era encontrar uma solução o mais rápido possível e sozinha, já que as traidoras, que se diziam minhas melhores amigas, me deram as costas e se juntaram ao meu inimigo.

Imbecis. Que todos eles explodissem!

Não precisava deles, nem de ninguém. Eu mesma buscaria uma solução para o meu problema e depois bateria a merda fora deles, mesmo que me implorassem perdão de joelhos.

E foi o que eu fiz.

Quatro dias após aquele maledetto me levar à médica, eu ainda não estava falando com ninguém. Era mais prático manter-me a borda e evitar mais aborrecimentos desnecessários. Na verdade, somente o pensamento de olhar nas fuças daqueles traidores me dava preguiça.

Reprimi a raiva e toda decepção que sentia.

Não gritava. Não brigava. Não fazia merda nenhuma.

Era melhor aqueles idiotas pensarem que eu estava conformada com essa merda de situação.

Não gostava de ficar trancafiada como um animal no zoológico, porém minha estadia sem fim dentro do meu quarto não foi de todo ruim. Sozinha, eu conseguia pensar com mais clareza, analisar minhas possibilidades e traçar meus planos. Era cansativo, mas quando me sentia mentalmente exausta, eu navegava na internet, vendo coisas banais e pulando de site em site sem realmente enxergar nenhum. E foi num desses meus “passeios” que encontrei um site muito interessante.

Era uma clínica que ficava em West Hollywood, a fachada discreta não me era estranha, eu já havia passado na frente dela uma e outra vez, só não me recordava quando. Enfim, isso era o de menos, pois o mais importante eram os tipos de serviços que ela oferecia.

Anotei o telefone e o endereço em minha agenda. E no mesmo dia liguei para a clínica, informando-me sobre o procedimento e valores. Desliguei o celular quase morta de alívio.

Nem tudo estava perdido. Eu ainda poderia concertar esse inferno e ninguém poderia me culpar por fazer isso. Olhei a tela do meu Mac mais uma vez antes de desligá-lo e, pela primeira vez desde que ocorrera essa merda toda, eu sorri sentindo-me genuinamente feliz.

Nesta noite eu dormi como há dias não dormia.

Dois dias depois

Não me aguentava mais de tanta ansiedade e de me ver livre do meu probleminha. Acordei mais cedo e repassei todo o plano na minha cabeça. Nada podia dar errado e não daria. No final do dia de hoje eu teria resgatado o meu futuro. Isso era mais que uma certeza, era uma meta de vida.

Segui o mesmo ritual dos dias anteriores, e então, segui com Pietra para o carro. E ao nos aproximarmos da sua BMW preta, o carro daquele filho da puta estava entrando na garagem. Com certeza ele deveria estar chegando da noitada com as negas dele enquanto eu tinha de me manter em casa, servindo de incubadora, sendo possuída, deformada pelo bibelô dele.

Entrei no carro de Pietra bufando de raiva.

Aquele figlio di puttana queria que eu continuasse com essa merda para ficar badalando enquanto eu me definhava em casa sozinha. Mas nem morta. Se ele queria ficar na noitada, se enfiando em qualquer uma, que fizesse isso longe de mim e sem ser a custo da minha derroca.

Isso acaba hoje.

— Achei que você pretendia chegar à aula só amanhã — resmunguei quando Pietra, finalmente, entrou no carro depois de trocar figurinhas com o irmão.

— Começamos cedo hoje, eh? Scusa, Thor queria falar comigo. Ele está preocupado...

— Pretendo chegar à universidade ainda hoje.

Pietra entendeu o recado grazie a Dio e não insistiu então saímos.

Faltando 15 minutos para o término da segunda aula minha, eu deixei a sala.

Corri o máximo que pude até alcançar a Sunset Boulevard e por sorte um táxi estava passando bem na hora que pisei na calçada, assim que ele parou, eu entrei sem olhar para trás e pedi ao taxista para seguir adiante. Passado três quarteirões entreguei a ele o endereço da clínica.

Vinte minutos depois, eu estava aproximando-me da recepção da clínica, onde havia uma mulher negra aparentando estar na casa dos trinta anos. Meus olhos nervosos correram em volta enquanto meu coração batia um pouco mais forte. Frio e estéril, assim era o ambiente.

Engoli às secas e armei-me de coragem.

No balcão, passei a recepcionista os meus dados e fiz o pagamento adiantado então me sentei na sala de espera. Havia algumas garotas e até algumas mulheres mais velhas. No final, eu não era tão errada assim. Muitas mulheres faziam isso todos os dias e nem por isso eram consideradas pessoas más. Eu tinha o total direito de decidir o que queria ou não dentro do meu corpo.

Respirei fundo quando vi a enfermeira caminhar na minha direção meia hora depois.

Não vou negar, uma parte bem pequenina de mim, bem lá no fundo, suplicava para que eu não seguisse a mulher, no entanto, minha vontade de me ver livre daquilo era grande demais.

Eu sentia como se estivessem indo em direção a minha vida. A vida que sempre sonhei e nela não estava incluso nenhum bebê indesejado. Depois eu me resolveria com Thor. Ele teria de aceitar, não haveria alternativa se não se conformar que seu borrão não iria vingar.

Então por que eu tinha a sensação de isso não ser tão certo?

Teria minha vida de volta sem nenhum intruso nela. Eu não deveria hesitar. Essa era a única saída, eu sabia. Daqui alguns anos eu poderia ter quantos filhos quisesse. Agora não.

Sacudi a cabeça espantando qualquer dúvida que perdurasse em minha mente.

Eu estava certa e isto bastava.

— Senhorita Vicenti queira me acompanhar, por favor.