Dangerous
Capítulo 29
— Que merda é essa de vender a moto, Antonella? — indagou Pietra, entrando na cozinha.
Kevin está me saindo melhor que a encomenda.
Continuei mastigando, engoli e limpei a boca no guardanapo, antes de sorver um pouco de suco de laranja, tomando todo tempo do mundo.
Ela rolou os olhos impaciente.
— Eu preciso de dinheiro — disse simplesmente e voltei a comer.
— Como assim? E o dinheiro que seus pais te mandão?
— Não é suficiente.
— Eu ainda não entendi. Você ama aquela moto. Se você precisa de dinheiro, porque não me disse nada? Eu poderia te arrumar algum, ou até mesmo Thor poderia...
— Eu não quero nada que venha do seu irmão, Pietra — cortei-a, rudemente.
— O que aconteceu? Brigaram outra vez?
— Eu não tenho nada com aquele boçal. Nunca tive. Fim de história.
— Quer conversar sobre isso?
Bufei, olhando-a com chateação.
— Conversar sobre o quê? Qual parte de nunca tive nada com ele, você não entendeu? Não há o que conversar. Fodemos algumas vezes e só. Não fazemos mais. Entende isso ou não?
Ela me fitou em silêncio por um longo momento, antes de assentir contrariada.
— Va bene... Então sobre o dinheiro, eu posso te arranjar isso. Dimmi. De quanto você precisa?
— Desculpe Pietra, aprecio a sua intenção, mas não posso aceitar. É simples, Best. Seu dinheiro, na realidade, é do seu irmão. Eu não quero nada que venha dele. Sobretudo, grana.
— Por hora eu não vou discutir com você, Antonella — zangou-se. Eu dei de ombros e mordi mais um pedaço do meu sanduíche. — Aliás, pra que merda você quer tanto dinheiro?
— Preciso comprar um apartamento para mim perto da UCLA de preferência e com o dinheiro que tenho não dá, pelo menos não um que seja do meu agrado.
— CHE? POR QUE VOCÊ QUER UM APARTAMENTO?
— Primeiro, pare de gritar que eu não sou surda. Segundo, por que você compraria um apartamento? Para morar, é claro! Ou espera que eu vá viver naqueles dormitórios fedorentos?
— Aspetta un po’64! — Ela colocou as mãos na cintura e começou a andar de um lado para o outro, sua boca se movia sutilmente, mas nenhum som saia, até que ela pausou e cravou o olhar diminuto em mim. — Você está me dizendo que pretende se mudar daqui e me deixar sozinha?
— Sem drama, va bene? Não é o apocalipse e você tem o Nathan. Pense sobre isso, vocês terão a casa só para vocês, além do mais, você pode me visitar sempre que quiser.
— Isto não está certo. — Arquei uma sobrancelha para seu tom e expressão. — Você é uma ingrata Antonella! Uma amiga sem coração!
— Faço o meu melhor.
— Pois fique sabendo que eu já informei tanto ao Kevin quanto ao Brian que eles estão proibidos de te ajudar nisso. E vou deixar Thor ciente disso também!
— Não coloque seu irmão no meio disso.
Ela cruzou os braços sobre o peito e sorriu em desafio, com as sobrancelhas arqueadas.
— Observe.
— Qual é a de vocês? Tiraram o dia para me aporrinhar? Agora todo mundo acha que tem o direito de interferir na minha vida como bem entender? Mas que saco!
Joguei o resto do sanduíche no prato, meu humor para comida nulo.
— Eu tenho todo o direito Antonella. Afinal, eu sou sua amiga ou não sou?
— Você não vai fazer isso Pietra, não comigo!
Ela era persistente e sabia dobrar as pessoas a fazerem o que ela queria, mas minha decisão já estava tomada. Nada que Pietra dissesse iria mudar, senão me irritar.
Eu me levantei e comecei a andar para fora.
— Esse assunto ainda não está encerrado Antonella!
— Eu digo que está.
— Va bene. Se eu não consigo te convencer, então Thor vai.
Pausei no limiar para o corredor e inclinei a cabeça, olhando-a sobre o ombro.
— Eu realmente espero que você não o coloque nisso.
Ela deu os ombros.
Respirei fundo e a deixei, senão iria discutir seriamente com ela. Isso não seria nada bom. Pietra era como minha irmã e odiaria ter de brigar com ela ainda mais por algo que já estava mais do que resolvido. Eu não arredaria o pé em relação a minha decisão. Se ela quisesse ficar sem falar comigo ou terminar nossa amizade, eu aceitaria com pesar. A única coisa que eu não podia mais era viver debaixo do mesmo teto que aquele traste, ainda mais quando o teto era dele.
Para ser honesta, eu não queria me mudar apenas pela merda que ele me tinha aprontado. Era a convivência. Eu não queria topar com ele a cada maldito minuto. Uma hora ele iria embora, eu sabia, mas isso não estava acontecendo agora. Eu não podia mais. Me incomodava. Fazia mal.
Fiquei no meu quarto o restante do dia e acabei por adormecer, e quando acordei novamente já era noite. Hoje eu não sairia. Não tinha clima, nem espírito pra isso. Só queria ficar sozinha no meu canto e colocar minha cabeça no lugar. Havia muitas coisas em que pensar como, por exemplo, achar o mais rápido possível minha casa nova, se desse sorte poderia comprar um apartamento já mobilhado e depois, com o tempo, poderia decorá-lo ao meu agrado.
Preparei a banheira e imergi dentro, deliciando-me com a temperatura da água e o aroma dos óleos perfumados. Um pouco da tensão deixou meus músculos e, de maneira gradativa, me relaxou.
Momentos mais tarde, com meus dedos enrugados e a tensão fora do meu corpo, e uma toalha enrolada ao meu redor, eu retornei ao quarto.
— Boa noite Antonella.
Meu olhar assustado buscou pela voz vinda de um canto pouco iluminado e, em seguida, fechei a cara, sentindo toda aquela apreensão em meus nervos retornar quando vi de quem se tratava.
Aquela puttana (leia-se Norah) estava sentada na minha poltrona florida — que eu iria queimar mais tarde —, olhando-me fixamente.
— É estritamente proibida à entrada de animais nesse recinto, sobretudo, de vacas.
— Sua jovialidade é refrescante, querida. Mas você deveria ser mais educada comigo, não acha?
— O que você quer?
— Vejo que seguiu o meu conselho — ela disse se levantando e veio até mim, parando a poucos passos a minha frente. Em seu rosto havia um sorriso que embrulhou meu estômago. Ela cruzou os braços sobre o peito e me fitou com um olhar... amigável? — Oh! Não faça essa carinha, minha querida. Você deveria estar feliz por eu te abrir os olhos e te tirar de uma fria. Apesar de nós não sermos tão próximas, acredite ou não, eu me simpatizei com você, por isso fiz aquela chamada. Não podia continuar te deixando fazer o papel de tola. Thor quando quer, sabe fingir muito bem, afinal de contas, somos bem pagos por nossos serviços e saber interpretar bem é um pré-requisito para um... detetive. Você sabe. Ossos do ofício. O que às vezes me faz pensar que escolhemos a carreira errada, mesmo eu, pois somos bons. Realmente bons nisso. Deveríamos ser atores...
Ela continuou tagarelando e levando meu último fio de paciência.
— O que exatamente você veio fazer aqui, Norah? Quer meu agradecimento? Não vai ter.
— Não fui eu quem te enganou, Antonella.
Trinquei os dentes e apertei as mãos em punhos.
— Acabou?
— Eu não posso imaginar o que está sentindo por ter sido usada...
— Tem certeza disso?
— Thor e eu temos uma relação aberta, Antonella. Ele é um homem sexual e eu não vejo mal em compartilhar isso. É a necessidade dele, faz parte de quem ele é. Além do mais, ele pode ter quantas aventuras quiser, mas é sempre para mim que ele volta... Ele já disse que te ama?
— Eu quero que você saia do meu quarto agora.
Ela tocou meu rosto com simulada afeição e eu quis vomitar.
Tinha o corpo tão tenso, a vontade gritante de me afastar dela, porém não podia mover um músculo, se fizesse, as lágrimas de humilhação viriam à tona.
—Thor não é para você, querida. Eu realmente não deveria interferir e, acredite, me sinto mal em ser a portadora das más notícias. Mas você seria apenas mais uma no currículo dele. Ele iria te usar, viciá-la e depois partir, você sabe, não estamos aqui permanente. Logo estaremos voltando para o nosso lugar e você ficará aqui, esperando, querendo. E quando ele voltar para uma nova visita e te quiser, você irá ceder de um jeito ou de outro, ao menos agora você tem a vantagem da verdade... Você pode até não acreditar, mas pense, por que ele iria te investigar quando já sabia que você não representava nenhum perigo ao clã dele? Por que ter aquelas fotos comprometedoras? Ninguém guarda isso a toa. Eu já o vi fazer isso com outras ingênuas, até mesmo o ajudei nisso. Confesso, rimos muito. Não deveria, no entanto.
Ela se afastou enquanto eu a olhava impotente. Com raiva de tudo e todos.
— Eu já vou, mas antes deixe-me lhe dar um conselho, Antonella... Não leve isso para o lado pessoal e não se culpe por ter sido ingênua. Você não teria qualquer chance contra ele. Eu sei que aquele jeito dele todo possessivo e autoritário enlouquece qualquer mulher, além do mais, ele não mede esforços para ter o que quer, quer seja por bem ou por mal. Ele nunca perde. Você já descobriu isso, não é mesmo? ... Bem, eu já vou indo. Tenho um encontro. Até mais Antonella.
Nunca me senti tão humilhada, tão rebaixada na minha vida. Minha vontade era de gritar até minha garganta ficar seca e meu corpo desidratar. Tudo por culpa daquele maledetto!
Eu sabia que ele não era confiável, eu sempre soube. Meu sexto sentido quando o vi aqui gritava em minha cabeça em alto e bom som para eu ignorá-lo, mas eu tinha que me meter na merda.
Burra. Mil vezes burra!
Mas comigo ele não iria tirar vantagem alguma, se ele quisesse podia pessoalmente entregar tudo o que tinha contra mim para os meus pais, pois eu não iria me submeter aos caprichos dele.
Não mais.
Semanas depois
Sentada na cama, com meu Macbook ligado, eu estava respondendo aos e-mails de mamma quando um novo chegou e fez-me ansiosa. Era o comprador. Havia posto minha moto a venda em um site, uma vez que Brian e Kevin se recusavam a me ajudar por causa de Pietra, e um comprador tinha entrado em contato comigo no mesmo dia. Porém, não fechamos negócio de cara. Ele havia pedido alguns dias para pensar e, finalmente, me enviava a resposta.
Enfim, eu iria conseguir o dinheiro que faltava para comprar meu apartamento. Na verdade, eu não precisava ir a este extremo, pois a mesada do próximo mês daria para o propósito, porém eu não aguentaria esperar até lá. Precisava sair daqui o mais rápido possível. O e-mail deveria me deixar saltitante. Bem, havia um partezinha dentro de mim que não estava. Para ser franca, não me agradava sair da mansão para viver só. Não ter ninguém para conversar além das paredes não soava agradável, embora eu buscasse motivos positivos numa convivência solitária. E havia inúmeros até. Porém, nem um fazia a felicidade explodir dentro de mim. Maldição. Se eu fosse completamente honesta diria que minha falta de animo se dava por aquele boçal de merda. Por não poder vê-lo diariamente, mesmo que hoje não trocássemos mais que olhares.
Os meus, raivosos. Os dele, magoados.
Enfurecia-me olhá-lo, porque olhar para ele lembrava-me o quanto fui estúpida, porque no final das contas, todas as pistas estavam lá. Ele havia me manipulado desde o início, quer seja com suas artimanhas para impor suas regrinhas idiotas ou por sua maneira de persuadir-me.
Quanto mais eu pensava na traição dele, com mais raiva eu ficava. No entanto, não era somente dele, mas de mim mesma também. Cara, eu tinha sido estúpida demais.
Estava acabado, enfim.
Senhor Reed,
Fico feliz em anunciar, que sim, o senhor tem preferência na compra. O preço segue sendo o mesmo já tratado em nossa conversa anterior.
Quando podemos fechar o negócio?
Enviei e logo depois um novo e-mail chegou.
Amanhã?
Esbocei um sorriso minguado e respondi o e-mail, marcando o local e a hora. Comecei então a responder os outros e-mails da minha família, antes que aquela sensação de mal-estar me dominasse. Eu teria muitas coisas para resolver com meu novo lar na próxima semana.
Toc. Toc. Toc.
— Está aberta.
A porta se abriu num rompante, revelando Pietra e Josie, ambas vestidas de pijamas, pantufas nos pés, os braços abastecidos com guloseimas e amplos sorrisos em suas faces.
— Noite das meninas! — Elas anunciaram em uníssono ao entrarem.
Fechei o Mac, colocando-o de lado.
— Estou de dieta.
— Por quê? — inquiriu Josie, fechando a porta atrás dela.
— Por que você acha?
— Gata, eu não sei se você reparou, mas tá só pele e osso.
Mostrei o dedo do meio para ela.
— Deixa de ser estraga prazer, amada — resmungou Pietra. — Você já vai me abandonar e nem quer passar um tempinho decente com suas melhores amigas? Tão ingrata, Brutus!
— Oh, vem cá, sua cadela chorona! — Ela abriu um sorriso de orelha a orelha e deixou as gordices sobre o récamier, em seguida, se lançou na cama, abraçando-me. — Scusa amada. Eu sei que estou um pouquinho ranzinza esses dias, mas logo vai passar.
— Um pouquinho é bondade sua, não?
— Ainda não acredito que você vai se mudar — disse Josie, se juntando a nós.
— E eu? Essa ingrata só pensa nela!
Soltei uma exasperação.
— Na boa, se vieram aqui falar de algo que já está resolvido é melhor saírem.
— Não. Viemos passar algum tempo bom com você, ingrata.
— Mude o disco — avisei.
— Mas, antes, só para fechar o assunto — começou Josie —, você já falou com seus pais sobre isso? Afinal, o acordo para você vir estudar aqui era que você vivesse com Martha, não?
— Estou pensando em fazer depois de já ter me instalado no apartamento. No entanto, já adiantei alguma coisa para mamma, vocês sabem, estou preparando o terreno, antes do surto de galinha e seus pintinhos.
Mamma já estava de sobreaviso, embora não tivesse ideia de que minha sondagem era mais certa que uma simples especulação. Ela não tivera gostado, porém eu sabia que com jeitinho poderia dobrá-la, e logo papai. Se Selena concordasse, Rocco também faria.
— E se...
— Não existe “e se” — cortei Josie. — Será e ponto final.
— Sabe, esse seu mau humor é falta de pau.
— Sim, falta de um pau para dar com ele na cabeça de vocês.
Ela levantou as mãos em trégua.
— Ceeeerto.
Pietra se acomodou com as costas contra os travesseiros.
— A única coisa boa nisso, se é que há..., mas, bem, a única vantagem é que terei a mansão toda para mim e Nathan. — Ela pausou, sua expressão pensativa, e então, murchou. — Droga! Não é justo, porque com você longe, quem vai desviar a atenção de Thor de mim?
— Norah — ofereci de má vontade.
Ela fez uma careta.
— Eu disse desviar atenção, não trazer uma cobra para dentro de casa.
Dei os ombros.
— Ela ainda fará o serviço. Além do mais, acho que vocês podem sair da monotonia do relacionamento de vocês. Um pouco mais de adrenalina fará bem a vocês dois.
Estiquei-me, pegando a caixa de bombons. Pesquei um e comi.
Pietra me encarou, sua expressão era teimosa.
— Não acho que Thor fará isso. Ele é louco por você.
— Non m’importa.
— Não mesmo?
Rolei os olhos e desviei minha atenção para Josie, rezando para que Pietra pescasse a dica.
— E você boneca? Como andam as coisas com Eric?
— Bem.
— Certo. Vou reformular. Já saíram do zero a zero?
— Se isso significa se já transamos então não.
Pietra bufou ao meu lado.
— Isso nós já sabemos!
— Então o quê?
Eu expliquei impaciente:
— Então que queremos saber se ele já te deu umas boas pegadas?
— Ou ainda estão nos beijos castos?
Josie ficou vermelha. Pietra e eu endireitamos nossas posturas de imediato. Agora, isso era algo.
— Bem, — começou ela, hesitante, mirando as mãos. — Nós ficamos mais próximos. — E acrescentou rapidamente. — Mas ele me respeita muito.
Pietra a encarou, determinação marcando suas feições. Ela não deixaria Josie sair de lá até ter espremido tudo. Deitei e peguei mais um bombom, esperando o show começar.
— Sabe Josie, Nathan me respeita muito também. Mas, então, ele me beija, lambe e chupa... Em todos os lugares. Todos mesmo — disse ela, bem devagar.
— Você é tão nojenta.
— Sei. Agora nos diga. O quão próximo você e Eric ficaram?
— Vocês sabem.
Eu neguei com a cabeça.
— Não sei não.
— Minha bola de cristal está no concerto — atirou Pietra. — Você por acaso já tocou no pênis dele? Sabe, deu aquela conferida básica no menino? — Josie abaixou os olhos e mordeu o lábio, suas bochechas impossivelmente mais vermelhas. — EU NÃO ACREDITO!
Josie e eu nos assustamos com o grito de Pietra. Xinguei esta última enquanto Josie parecia cogitar a hipótese de sair correndo de lá.
— Por favor, Pietra, não faça escândalo — gemeu Josie.
— Ragazza, mas isso é avanço e tanto! Sua danadinha! Andiamo. Conte tudinho! É grande? Grosso? Torto ou reto? Você gostou? Só tocou? Ou pegou com vontade? Ou foi além? Quem sabe uma lambida? Talvez, uma chupada leve? Eu lembro quando peguei num pênis pela primeira vez. Senti-me uma bandida. Errado, mas tão gostoso...
Josie olhou para mim, suplicando com os olhos, todavia, eu me limitei a sorrir e sacudi a cabeça me negando. Não estava sendo ruim, só estava morta de curiosidade para saber até aonde nossa santa particular tinha ido. Ela relutou por alguns instantes e, finalmente, começou a falar.
— Bom, nós estávamos no flat dele e o clima ficou mais quente, sabe, eu já tinha vislumbrado certo volume no quadril dele, mas eu desviei os olhos e ignorei de início. — Típico dela, pensei me contendo para não rolar os olhos. — Então nos beijamos mais uma vez... Eu fiquei curiosa então no meio do beijo eu... uh... deixei minha mão escorregar pelo peito dele e toquei lá. Um bom e grande volume, se querem saber. E, bem, por mais que eu quisesse não conseguia tirar minha mão de lá. Eu meio que gostei. Foi bom e me deixou acesa — confessou roxa de vergonha. Continuamos a fitá-la para que ela continuasse. — É só isso... Eu apenas alisei — ela finalizou tão baixo, que se não estivéssemos perto dela não teríamos ouvido.
Pietra esboçou tédio.
— Tá de sacanagem?
— Você tá com vergonha porque alisou o pau dele por cima da calça? — perguntei descrente do que tinha ouvido. — Imagina quando pegar na carne nua, crua e quente?
— É bom um médico estar presente porque é taquicardia na certa!
Pietra e eu caímos na gargalhada.
— Eu não conto mais nada para vocês — resmungou, pegando um punhado de alcaçuz.
— Desculpa Josie, mas é que isso é meio anormal — eu murmurei ainda rindo.
— Bota anormal nisso! Se você ainda tivesse dado uma mamada nele, mas, não. Só alisou. Fala sério, Josie! Como pode ser nossa amiga? Não aprendeu nada com a gente?
— É o que eu me pergunto todo dia — ela devolveu, zangada.
— Sério agora — disse Pietra quando se controlou. — Eu não consigo me imaginar numa situação dessas. Só tocar e por cima da roupa? Não mesmo! Nathan é tão quente e gostoso, que é impossível resistir. E não digo isso porque não sou lacrada mais, a propósito, se eu fosse quando eu o conheci, hoje eu não seria mais. Honestamente, eu não sei como você aguenta.
— É simples. Eu tenho uma convicção.
— Sei — me expressei. — Porém isso não a impede de brincar um pouquinho. Você sabe, não precisa chegar à via de fato. Já conversamos sobre isso.
— Por falar nisso, ele não demonstra interesse em querer mais? Você sabe. Tocou o menino dele, mas e ele? Ele não tentou chegar à sua menina? Na boa amiga, se ele não fez qualquer investida ao menos para dizer um olá a ela, isso é algo que deve se preocupar.
— Verdade — concordei com Pietra. — Ele pode e deve te respeitar, contudo, não fazer nenhuma aposta é preocupante. Além do que, você conhece o ditado “um homem que não gosta de lamber uma buceta não pode ser um homem confiável”.
— Tenho certeza que você mudou isso.
Dei de ombros.
— É a verdade pura e simples.
— Ele não gosta Josie? — Pietra inquiriu num show de horror.
Coloquei a mão na testa, encenando.
— Dio mio, ele é gay?
— Oh, não! Não posso crer que aquela pose toda é fachada — Pietra dramatizou.
— Por que vocês sempre têm de fazer isso? É nojento! E não, ele não é gay.
— Quando ele fizer em você e se fizer, você me diz se é nojento.
— Provavelmente, ela vai escravizar a boca dele — Pietra se divertiu e nós rimos.
— Va bene, va bene — balbuciei quando Josie continuou nos olhando emburrada. — Ele não gosta de bucetas e você não gosta da boca dele, e ele não é gay. Só me responde uma coisa, qual o propósito desse namoro se vocês não gostam de brincar? Vocês rezam?
Josie ergueu o queixo, petulante.
— E quem disse que não brincamos?
— Mas você disse...?
— Ah, cadela! — Exasperou Pietra. — Cuspa a merda fora.
— Pra quê? Vocês estavam me sacaneando até agora pouco. Não mesmo!
Pietra e eu nos entreolhamos, e então, miramos Josie.
— Ah, vai! — decretamos juntas, antes de saltarmos sobre ela.
Éramos toda cheia de dedos em cima de Josie enquanto ela se esperneava, gritando e rindo, tentando fugir de nosso assalto e fazendo uma bagunça sobre a cama. Rindo como loucas, não cessamos o ataque de cócegas até que ela pediu arrego, com lágrimas nos olhos.
— P-p-parem suas cadelas — resmungou ela entre os risos.
— Vai falar? — sondei.
Ela vacilou e nós atacamos de novo.
— Tá bom, tá bom! Deus! Eu me rendo, caramba!
Deixamo-la ir. Eu me endireitei, sentando em minhas pernas. Pietra se jogou ao meu lado. Ri baixinho ao olhar para a figura de Josie toda descabelada e com os olhos lacrimosos.
— Vocês são más — choramingou dissimulada enquanto se ajeitava.
— Cuspa!
— Ou atacaremos novamente até você desmaiar — concluiu Pietra.
Josie tomou seu tempo, respirando fundo como se o ato a enchesse de coragem. Impacientes, Pietra e eu esperamos. Nossa santa, afinal, tinha alguns desvios de candura. Bem, na verdade, Josie não era tão casta, mas também não era adoradora de perversões inocentes. Ela era uma garota moderna, com atitudes do século XV. Esta era uma boa definição.
Tomando um longo fôlego, ela disse:
— Eu estive pensando no que me falaram daquela vez na cozinha logo quando eles chegaram. E cheguei à conclusão de que vocês tinham razão.
Pietra interrompeu.
— E isso faz quanto tempo? Digo, a conclusão?
Ela mordeu o lábio.
— Algum.
— Você entendeu o que quisemos dizer na época, certo? Quero dizer, não afirmamos que você tinha de fazer algo somente por ele ser lindo de doer e ser todo sexual. Você sabe. Não tem de se sentir pressionada e achar que tem a obrigação de fazer algo somente porque dissemos que você poderia ter alguma diversão. Ou por receio do Eric ser um homem com necessidades.
— Isso é verdade — disse Pietra. — Como falamos, mesmo ele tendo lá suas necessidades, se ele gostar realmente de você, e eu sei que ele faz, ele vai respeitar sua opinião em relação a isso.
— Posso ver isso, — ela pausou, e então, bufou zangada, de repente. — Sério? Deus, pela maneira que falam até parece que o celibato afeta o meu cérebro. Então vocês não me conhecem? É óbvio que sei de tudo isso e nada mudou. Digo, mudou um pouquinho. Redesenhei algumas linhas, fiz alguns intercâmbios. Porém, minha convicção continua sendo a mesma.
Meu cenho franziu.
— De que tipos de intercâmbios estamos falando aqui?
— Eric e eu passamos para a terceira base. Sem o sexo, é claro.
Experimentamos um momento de silêncio mórbido enquanto Pietra e eu digeríamos a nova informação. E devo dizer, era muita coisa vindo de uma garota toda certinha como Josie. Não era como se não soubéssemos que ela já tinha dado seus amassos, mas isso era... demais.
— Isso é um grande avanço — comentei devagar.
— Para mim? Com certeza. Em nossa relação? Acredito que estamos indo no ritmo certo.
— E para ele deve ser um alívio — disse Pietra.
— Escutem, eu não sou boba...
— Sabemos.
— Parem de me interromper e me deixem falar.
Ergui as mãos em sinal de desculpas.
— Eu sei que ele não é como os garotos com os quais já me relacionei, que não foram tantos assim. Eric é um homem feito, e como você bem disse, Ella, ele tem suas necessidades sim. Obviamente, isso não teve um peso decisivo em minha decisão de avançar na relação. Contou também, confesso. No entanto, é a maneira dele me tratar, o caminho que nossa relação está seguindo que me fez repensar em algumas coisas e colocar em pauta outras. Eu o quero da mesma maneira que ele me quer. Eu... nunca me senti desta forma por ninguém. Não é somente a beleza dele, e a maneira adorável dele ser.
— A gostosura dele — ofereceu Pietra.
Josie corou e sorriu timidamente.
— Também. Mas é mais que isso. Ele me faz sentir...
Arqueei a sobrancelha.
— Quente?
Ela deu uma risadinha.
— Como o inferno.
— Eu te entendo — murmurou Pietra, resignada. — Se eu tivesse um namorado como ele, seria difícil manter minhas mãos longe e as calcinhas secas. Quero dizer, olhe para ele e os outros caras. Todos eles são uma delícia. São atentados ambulantes contra a índole de uma boa moça.
— Não é somente no contexto sexual — atirou Josie. E acrescentou. — Embora eu deva admitir que, sim, eles são bombas sexuais pecaminosas. Sobretudo, Eric.
Ri baixinho enquanto Pietra exasperava.
— Bombas sexuais pecaminosas. Essa é uma boa e clara definição do que eles são. Eu gostei.
— Talvez seja cedo, e eu esteja me precipitando, afinal, fazem o quê? Cinco, seis meses que saímos? Três e meio de namoro. Mas, com ele tudo é diferente.
— Não há um calendário, acontece — ofereci pensativa.
— Exato. Aconteceu. Foi natural. Eric sabe que não posso e não vou oferecer mais do que aqueles momentos. E, ele respeita isso. Está dando certo para nós. Mas sabem de uma coisa? — incitou conspirando. — Eu sei que será com ele.
— Você quer dizer, transar, de fato?
Ela assentiu. Eu suspirei.
— Bem, se esse não é outro avanço...
Sua cabeça sacudiu para os lados enquanto ela sorria.
— Não, Ella. Não é isso que eu quis dizer.
Estreitei o olhar, tentando acompanhá-la então meus olhos cresceram em espanto.
Ela não...
— Absolutamente.
— Não quero cortar o seu barato, mas você não pode saber disso... Escuta, estou feliz por você, sério. Sonhar é bom. Contudo, acho que como sua amiga, eu tenho o dever de te alertar. Está indo muito rápido, não? Acredito que pisar um pouquinho no freio do romantismo faz bem. Quero dizer, pés no chão, vez e outra não fazem mal a ninguém.
— Quem disse que os meus não estão?
— Você? — ofereci o óbvio, que ela parecia não enxergar. — Mamma mia, Josie, está falando de casamento. Não acha que isso é um tanto extravagante? Não estou dizendo que não pode acontecer, mas... Infernos, isso é demais, não?
— Eu acho que você está muito azeda, se quer saber. Que graça tem estar em um relacionamento com alguém que se ama e não se jogar de cabeça? É o mesmo que pedir um banquete e me servir apenas de pão. Sim, é isso mesmo. Não faça essa cara. Eu amo Eric, e ele me ama também.
Não pude deter o risinho meio cínico meio cético.
— Sério?
— Ella só porque você é toda casca grossa quando se trata de relações amorosas, não quer dizer que eu tenha de ser também. Nem que você esteja certa, e eu errada.
— Apesar da sua ofensa...
— Não te ofendi. Só disse a verdade. Quando foi que se relacionou pela última vez? Digo, tirando Thor, é claro. Mas eu digo se relacionar de verdade. Namorar. Ter uma relação real, um compromisso? E não, não responda, porque nós sabemos bem qual é a resposta, a não ser que você tenha tido um namorado na Itália e não me contou.
— Essa não é a questão... Diga-me, Josie. Quantas vezes Pietra e eu vimos você com estes mesmos olhos brilhando, deste mesmo jeito que está agora? Não estou dizendo que é crime você sonhar, mas manter seus pés no chão não faz mal... Tudo bem, eu admito. Eric é bonitão e tal. Você está diferente, a relação de vocês parece ser uma boa coisa. No entanto, quem te garante que vai chegar a isso? É loucura. Desculpe, se estou sendo insensível. Porém, eu sou sua amiga. Não estou aqui para aliviar. Merda! Só estou dizendo para ir com calma. Casamento é...
— Eu sei. Entretanto, não afirmei que vamos nos casar. Não estou comprando um vestido e contratando um Buffet, tampouco.
— Mas se tiver, avise antes para que eu possa escolher o vestido de madrinha. Não quero parecer enfeite de bolo no altar — brincou Pietra.
Com um olhar divertido, Josie disse:
— Ella, uma garota pode sonhar. Tudo está tão bem entre nós. E, bom, não é como se eu pudesse deter meus sentimentos. Sonhar faz parte. É bom.
— Eu só não quero que você se machuque.
— Não vou — garantiu firme. — Eric é diferente.
— Se você diz — murmurei, mordendo um pedaço de alcaçuz.
Eu não estava sendo uma assassina de sonhos, porém não podia acreditar em tudo aquilo. O fato era que Josie sempre fora sonhadora demais. Uma romântica. E, pelo andar da carruagem, incurável. Tanto Pietra quanto eu já tínhamos visto ela com aquele mesmo olhar sonhador, cheia de planos. Acreditando que tudo era rosa e que o maldito era um príncipe encantado.
Está certo que com Eric as coisas pareciam ser um tanto diferente. E, bem, eles pareciam caminhar juntos, mesmo assim era difícil botar tanta fé.
Não me entenda mal, eu realmente estava feliz por ela.
Mas e se nada daquilo que ela pintava fosse verdade? Se fosse apenas fogo de palha?
Não obstante, ainda havia o fato de que ele estava aqui de passagem, logo que o bastardo Castellammare fosse para o raio que o parta, Eric o seguiria, não? Então Josie ficaria aqui desolada.
— Diga, Ella. Você já se apaixonou?
Eu sorri saindo dos meus devaneios.
— Todos os dias quando me olho no espelho.
— Tirando sua tendência narcisista, você já se apaixonou por outro alguém?
— Não preciso dessas fraquezas — desdenhei.
— Não é uma questão de precisar, senão de sentir. E, baby, sentimentos não pedem permissão para fazerem moradia, até eu sei disso. E, você também deveria saber Srta. Experiente. — Eu me mantive em silêncio porque não compensava gastar minha saliva argumentando contra sua tolice enquanto ela acrescentava sabichona. — Eu sei o que está pensando. Que eu sou boba e tal, mas Antonella, o dia que você se apaixonar verá que não minto. Vai ficar tão boba e sonhadora perto da pessoa que gosta como eu fico quando estou com Eric. E isso minha cara, não tem nada a ver com minha natureza meiga. Terá a sensação de que tudo está bem e o dia perfeito somente por estar com ela, e que se reverterá em um inferno quando não estiver, e em outro quando tiverem um mal-estar. Seu coração vai bater mais rápido só por ouvir a voz dele e sua barriga vai gelar ao mesmo tempo. Vai sofrer um estado de angustia constante para vê-lo, porque talvez sejamos bobas demais. Ou porque o simples gesto de olhá-la dá um lanchinho a sua paixão, que tem a necessidade de se alimentar com a presença daquela pessoa. Sorrisos bobos farão parte do seu cotidiano por coisas que você normalmente acharia tosco, e você sabe que é. Mas sabe o quê? Não importa, porque é a pessoa que você está apaixonada quem está te dizendo coisas sem sentidos, e nos lábios dela tudo parece mais bonito, mais especial. Mesmo um singelo “olá”. Súbitos estados de raiva e esmorecimentos serão corriqueiros, porque aquela pessoa tem um talento especial de fazer seu sangue ferver em questão de segundos, bem como, te amolecer e fazê-la achar graça de algo que você malditamente sabe que não tem nenhuma. Somente ela tem esse poder.
De repente, eu me senti sufocando, minhas próprias palavras se embaralhando e esvaindo do meu cérebro chocado pela declaração sonhadora de Josie, acompanhada de um detestável olhar brilhante. Mirei Pietra, buscando um sorriso debochado, uma negação para aquela loucura romantizada, porém ela me ignorou, sorrindo de volta para Josie em cumplicidade.
Com um suspiro, ela murmurou, conspirando:
— Eu não poderia ter colocado de melhor maneira Josie. Meus parabéns, amadinha. Faço das suas as minhas palavras. Eu totalmente me sinto assim em relação à Nathan.
— Eu não sei? Eric às vezes é tão idiota e em outras é totalmente absurdo. Esses dias atrás, ele ficou todo revoltado por causa de um amigo meu. Sabe o Mark? Então, marcamos de fazer um trabalho de biologia em casa e contei a Eric, porque no dia ele queria ir ao cinema. Bem, ele ficou todo ciumento e deu as caras lá em casa de surpresa e não saiu até que Mark se foi. E depois ficou de cara amarrada comigo. Isso sem contar o fato de que ele foi totalmente grosseiro com o garoto sem nenhuma necessidade, porque segundo ele, Mark tem uma quedinha por mim.
— Isso eu também acho.
— Não interessa. Mark é meu amigo e sabe que estou com Eric. Já pensou se eu ficasse toda ciumenta com cada mulher que o come com os olhos e, até mesmo chegam a flertar ele na minha frente?
— Teríamos de pôr eles numa gaiola e nos enfiar lá, jogando a chave fora depois.
— Foi o que eu disse a ele. Não temos como controlar e exigir a ala feminina que não flertem nossos namorados, embora isso me soe muito bem. Tampouco, eles ou nós mesmas podemos fazer o mesmo com os caras que venham a flertar a gente.
— Sei como é. Nathan tem seus chiliques vez e outra... Mas, bem, nada é perfeito. No fim, eles tinham de ter algum defeito por detrás daquelas gostosuras.
— Posso apontar alguns mais também.
— Eu também. Possessivos. Donos da verdade. Arrogantes.
— Mandões.
Deixei de prestar atenção nelas, que pareciam muito entretidas com os tricôs amorosos enquanto minha mente entrava em curto circuito, revolvendo as palavras de Josie.
Um desespero súbito, uma angústia opressora apertou meu peito e me fez suar frio.
Aquilo... aquilo não estava acontecendo. Não nesta vida!
Forcei minha atenção de volta ao papo delas quando Josie me cutucou. Não podia dar crédito ao significado daquela conversa. Eu não deveria ter escutado direito. Era isso.
—... Vê? Não tem como fugir amiga. A paixão um dia pega a todos, até mesmo os cascas grossas. E diz a lenda, que estes caem mais duros... Hoje você debocha, mas acredite, não vai escapar simplesmente porque isto está fora do seu controle. E eu vou ter o prazer de te dizer “eu te avisei”.
Cerrei os dentes, lutando para minha respiração lenta levar oxigênio suficiente para os meus pulmões e meu cérebro, mas era impossível. O quarto estava menor a cada minuto. Aprisionando-me.
Merda, merda e merda!
Eu não... Droga! Era impossível.
— O que foi Amada?
Saltei da cama, de súbito, e me apressei para o closet. Não podendo pensar em mais nada exceto no discurso imprestável de Josie e na minha necessidade de sair daquele quarto. Precisava de ar fresco com urgência, antes que entrasse em colapso ali mesmo. Meu coração batia tão rápido naquele momento, que não me admiraria se tivesse uma taquicardia.
Infernos! Eu não podia ter me apaixonado por aquele ordinário maldito. Um curto riso desesperado saltou além dos meus lábios. Eu sequer deveria estar apaixonada!
Troquei de roupa em tempo recorde. Retornei ao quarto, pegando minha chave sobre a cômoda, em seguida, indo para a porta. Minha respiração era densa e ofegante.
— Antonella! — O grito de Pietra me estacou quando tive a porta aberta, lembrando-me que ela ainda estava ali. Não a olhei. Tinha os músculos do meu corpo rígidos e a garganta apertada.
Virtualmente, escutei Josie perguntar algo. Sacudi a cabeça para qualquer coisa que fosse, negando abrir meus lábios. Se o fizesse gritaria e amaldiçoaria aquele cretino infeliz.
— Tranquila Josie. Acredito que você somente fez nossa amiga aqui enxergar o que ela se negava a ver — disse Pietra, sua voz estalando em minhas costas. Virei o rosto, fulminando-a com o olhar. Eu queria rosnar na cara dela, negar em alto e bom som essa babaquice. Mas, maldição! Não podia. Ela ergueu o queixo, seu olhar estreitando desafiador. — Aonde você vai?
— Sair — grunhi a palavra.
— De jeito nenhum! — Eu continuei encarando-a com cara de poucos amigos. — Você já se olhou? Está parecendo um bicho selvagem. Vem. Vamos voltar para a cama e conversar sobre isso.
Meu maxilar travou, duramente.
— Não enche! Eu não tenho nada para falar — bradei, e então, desviei meu olhar dela e fiz menção de fugir de lá, porém ela se interpôs no meu caminho. — Saia da porra da minha frente!
Ela cruzou os braços na frente do peito, a voz mansa quando me falou, enfurecendo-me mais.
— O que está feito está feito, amada. Não tem como mudar, compreende?
— Eu vou dizer pela última maldita vez — pausadamente, eu mordi. — Saia da minha frente. Não há nada que eu queira conversar com você agora mesmo.
— Ella, eu não posso... Olhe para você. — Eu respirei fundo, buscando uma calma que não existia dentro de mim. Ela acrescentou. — Nada do que fizer agora irá mudar o que já está feito. Não pode fugir do que está, — sua mão pousou em meu peito, — aqui. Não sei o que aconteceu entre você e meu irmão, porque nenhum dos dois me disse qualquer coisa até agora. Mas, seja lá o que for, vocês podem resolver. Ti prego, se acalme. Vamos conversar.
Eu resolveria dando um tiro na cabeça dele, grunhi em mente.
— Vamos todas nos acalmar, sim?
Pietra desviou seu olhar para detrás de mim, em Josie.
Eu aproveitei o vacilo dela e sem paciência para ouvir qualquer que fosse a ladainha, empurrei-a para o lado e me lancei à frente. Correndo para o térreo e, posteriormente, para a garagem. Ainda ouvi os gritos das garotas quando abandonei a garagem em minha moto.
Isso não estava acontecendo comigo. Não comigo! Eu repetia para mim mesma, mas, embora a força e a determinação com que eu pronunciava aquelas palavras em silêncio, meu subconsciente se rendia, com um suspiro pesaroso e um furtivo olhar de eu-te-avisei-agora-é-tarde. Mas não podia ser. Eu não entendia como aquilo pudesse ter acontecido sem que eu tivesse percebido, porque se tivesse, eu teria evitado. Teria feito qualquer coisa para evitar... Droga, eu só teria evitado.
Tinha de haver alguma maneira para reverter isso. Qualquer maldita coisa.
Quem sabe um pai de santo não me ajudava?
Porque só podia ser isso. Ele tinha feito magia negra para mim. Vodu pesado mesmo.
Cazzo!
Tinha de haver um modo de reverter isso, nem que para isso eu tivesse que usar todas as minhas reservas para viver por conta. Eu até trabalharia como garçonete para pagar o trabalho reverso.
Droga. Droga. Droga.
Eu não podia estar apaixonada por ele. Não por ele.
Por que aquele bastardo tinha de aparecer na minha vida e estragar tudo?
Em que grande merda eu tinha me enfiado. Apaixonada por um chantagista mequetrefe de merda!
Uma vez que cheguei ao ponto de encontro daquela noite, meus pulmões ainda ardiam por oxigênio e meu coração pulsava na pele. Lágrimas toscas se acumulavam no fundo dos meus olhos. Minha cabeça rodava com o turbilhão zumbindo em meu cérebro, fazendo minha cabeça doer.
Não obstante, havia Pietra. Mas se ela inventasse de contar alguma merda para aquele desgraçado de seu irmão, ela iria chamar um inferno sobre si mesma, porque eu não iria perdoá-la.
Deixei minha moto e fui em direção ao cara das bebidas. Cerveja era suco para engolir a merda, onde eu tinha me enfiado. Paguei uma garrafa de Goose e andei de volta entre as pessoas.
Depois — pensei —. Depois eu acharia uma solução para o meu problema. Eu sempre achava.
Sentada na calçada, eu abri a garrafa e bebi no gargalo mesmo. Talvez, devesse brindar ao maldito, afinal de contas, ele tinha conseguido me fazer de boba.
Ri histérica, sentindo a primeira lágrima descer por minha bochecha, então outra e mais outra, enquanto eu bebia. Meus olhos estavam perdidos a frente, apenas tinha noção de pessoas passando a minha volta. A garganta queimando, cada vez mais entalada pelo choro, pela raiva e pelo desespero, que sentia me espremer. Tudo ao mesmo tempo.
Queria gritar, bater em algo ou alguém para ver se assim aliviava o peso da minha burrice.
Metade da garrafa se foi e não surtiu o efeito desejado. Não tirou aquela angustia que fazia meu corpo tremer. O sentimento de culpa, de auto-traição. Eu precisava de mais.
Minha cabeça doía, as têmporas latejavam.
Os pensamentos não pareciam se encaixar na minha mente. E enquanto brindava com a última metade da garrafa, eu chorei copiosa. Chorei de raiva por ser tão idiota e me permitir envolver com aquele covarde. Chorei, principalmente, por sentir ódio de mim mesma por ter sido fraca e vulnerável. E, pior, chorei por constatar que eu estava irrevogavelmente apaixonada por Heithor Castellammare e que eu sentia a falta daquele figlio di puttana mais do que me permitia imaginar.
Eu era tão estúpida, que eu queria me chutar!
Limpei o rosto com as costas das mãos, obrigando-me a tomar o controle do meu corpo e das minhas emoções, apesar da tarefa parecer impossível. Ma, per Dio, que eu não derramaria mais uma só lágrima pelo bastardo. Mesmo apaixonada pelo maledetto, eu não tinha o dever de ser conivente a isso. Ninguém poderia me obrigar a aceitar tal afronta ou me declarar.
Infernos! A quem eu estava enganando?
Eu o queria. Por mais que me obrigasse a ficar longe e rejeitá-lo, porque ele merecia isso depois do que me fez. Eu, a idiota, o queria como jamais quis alguém antes. Era loucura, uma tremenda estupidez, pois ele tinha sido um grande filho da puta e me feito de otária da forma mais escrota possível. Todavia, meu corpo vagabundo não podia ajudar a si mesmo.
Eu o queria próximo a mim. Muito próximo...
Ahhh, ti odio Castellammare!
— Antonella?
Levantei o olhar turvo sem a menor vontade de conversar com Brian.
— Tá me evitando?
— Não sei por que você pensa isso.
— Você deixou meu apartamento dias atrás e não deixou nenhum dinheiro na cômoda. — Rolei os olhos para sua tentativa de ser engraçado. — Não me ligou, nem apareceu mais.
— E daí?
— Você sabe. Não há motivos para você me evitar. Eu já disse que aceito ser só seu amigo. E, bem, se estiver fazendo isso por causa daquela noite, fique despreocupada, pois não passamos dos beijos. Quero dizer, do beijo.
Levantei-me num salto, sentindo-me um pouco tonta.
— O que disse?
— Não aconteceu nada Morris além do beijo que você me pediu — casualmente, ele disse.
— E por quê?
— Eu não faço o tipo de cara que se aproveita de uma mulher alcoolizada, ainda mais uma que me beija chamando por outro sem parar. É broxante. E eu ainda tenho algum orgulho.
— Não brinca?
Sua expressão ficou ofendida.
— Não tenho motivos para fazer isso. Eu adoraria ter feito amor com você, mas não iria rolar, não daquele jeito. Ser chamado pelo nome de outro cara é realmente broxante.
— O que aconteceu? — exigi saber.
— Depois que você me pediu para beijá-la, eu fiz isso. Mas, então, você começou a chamar por um tal de Thor e a dizer umas coisas, que prefiro não comentar em nome do meu orgulho e, em seguida, desmaiou. Então achei melhor colocá-la na cama... — Eu o ouvia sem conseguir acreditar no que ele dizia, mas seus olhos e as palavras eram poços de sinceridade. —... Foi mal não ter colocado uma roupa em você. Eu até queria, porém também não estava lá essas coisas.
Fitei Brian sentindo um ódio mortal se apoderar do meu corpo.
— Mas você é um frouxo mesmo, hein, Brian? Grazie a Dio, que eu não trepei com você, seu inútil de merda! — esbravejei furiosa.
Ele arregalou os olhos.
— Você está brava por que eu não me aproveitei de você?
Indignada estava eu por ele ser um incompetente!
— Faça-me um favor Brian? Some da minha frente! — rosnei, tomando distância dele.
Eu precisava de outra Goose.