Dangerous

Daya Engler · Capítulo 6 de 45

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Dangerous

Capítulo 06

 

Se minhas sobrancelhas não estavam na linha do meu cabelo, estavam bem perto.

— O que quer dizer com isso, exatamente?

— Que merda isso significa, Heithor?

— Eu vou lavar sua boca com sabão, mocinha — ele advertiu, num tom de aço. — Eu ainda sou seu irmão mais velho, não esses moleques idiotas com quem costuma lidar. Não se esqueça disso, Pietra. — Ele fez uma pausa e se acomodou, cruzando as pernas. Sua expressão inabalável. — É bem simples. Essas reuniões regadas a bebidas que fazem aqui e as saidinhas sem hora para voltar estão suspensas. Um motorista foi designado para levar e buscá-las na universidade todos os dias, e para qualquer outro lugar que tenham de ir. Se vocês se comportarem bem, mais a frente eu libero os carros e vocês ficam livres do motorista. Ou não. Tudo dependerá de vocês mesmas. — Ele fez uma nova pausa, e então, acrescentou tranquilo. — Vocês serão acompanhadas por dois seguranças em todos os lugares que forem, e já adianto que eles são da minha total confiança. O que quer dizer que qualquer tentativa de suborno será relatada a mim de imediato e vocês perdem qualquer privilégio que tenham ganhado.

A cada palavra sua absorvida pelo meu cérebro, a minha certeza desse homem ser completamente pirado ganhou mais força. Não, ele não era somente pirado, ele também era arrogante como o inferno, se acreditava que eu iria acatar aquele monte de baboseira.

Toque de recolher? Que merda...?

— Você não pode fazer isso, Heithor, –– Pietra murmurou, num misto de perplexidade e de risinho histérico, tragando-me do meu próprio choque.

— Está feito.

— Pois fique sabendo que eu não aceito!

Plantei as mãos na cintura.

— Nem eu. Questo... è un’assurdità27!

Sua sobrancelha curvou lentamente. Seu olhar foi tão cínico que minha vontade de estapear sua face foi quase insuportável. Respirei profundamente, retraindo o impulso.

— Vocês me ouviram perguntar se aceitavam ou não? Porque eu não me lembro de ter perguntado qualquer coisa. Minha casa, minhas regras.

Minha bunda!

— Ma non è giusto, Heithor!

— Justo? Você quer mesmo falar sobre o que é justo ou não aqui, Pietra?

— Eu não faço nada demais.

— Sair todo fodido dia sem horas para voltar e sem se importar se a mãe está morrendo de preocupação, por não saber onde e como você está; se embebedar a torto e a direita como ontem à noite; trocar de homem como se troca de calcinha e se envolver em confusão, não uma ou duas vezes, mas sempre que tem oportunidade, é normal? Claro que, não podemos nos esquecer das festinhas que dão aqui, gastando um absurdo com bebidas e subornos aos policias que aparecem quando algum vizinho liga por causa de toda merda, que rola até quase amanhecer. Isso sem contar que vocês também estão envolvidas em rachas, algo que é totalmente ilegal. Diga, Pietra, nada disso é demais?

Oddio!

Eu somente podia pensar em como ele sabia de todas aquelas coisas. Zia Martha me veio à mente, mas seria muita sacanagem ela dizer tudo aquilo a ele, além do mais, ela não tinha como saber da metade do que ele citou. Então como ele sabia?

Pietra estava branca.

— E-e-eu...

— Por que o espanto piccola? Realmente pensou que eu não me importava em saber o tipo de vida que tem levado desde que chegou aqui? — Agora, não havia nada da calmaria em seu rosto, senão uma fúria ascendente. — Eu sei de cada mínimo passo seu e só não vim antes devido ao meu trabalho, porque alguém tem de trabalhar aqui para manter seus luxos, não? Mas agora eu estou aqui e as coisas vão entrar nos eixos... Eu te mandei pra cá para você estudar e ter um futuro digno. Não pago a porra de seus luxos e seus caprichos estúpidos para você ficar de vadiagem e agindo como uma inconsequente, que tem merda na cabeça.

— Se o problema é o dinheiro, fique com ele. Eu não preciso de um centavo seu! Ao que me consta, eu ainda tenho a minha parte na herança que nossos pais deixaram.

Eu me senti desconfortável por estar lá, no meio do que parecia ser uma discussão íntima de família. Queria dar apoio moral a minha amiga, contudo, dada as circunstâncias achei de bom tom sair à francesa. Depois Pietra me contaria o que ela queria me deixar saber.

— Onde pensa que vai Srta. Vicenti?

Eu parei já próxima a escada e dei a volta, encarando-o.

— Vocês têm muito sobre o quê falar. E eu não faço parte disto então vou lhes dar privacidade, Sr. Castellammare. — Olhei para Pietra. — Estarei em meu quarto.

— É aí que você se engana, Antonella. Você tem tudo a ver com esta conversa. Sente-se que logo chegarei ao ponto, e então, você decidirá se faz ou não parte disto.

— Pietra pode me dizer depois. Agora, com licença.

— Traga seu traseiro aqui, agora mesmo.

Sua voz soou calma e perigosa ao mesmo tempo, que eu não tive alternativa se não parar.

Lancei um olhar especulativo para Pietra, no entanto, ela parecia tão perdida quanto eu. Engoli saliva e minha raiva por ele estar me tratando como criança, porém não fiz objeção e voltei, sentando no sofá novamente.

— Por que a Mamma não está aqui?

— Para você não chantageá-la com choramingos.

Pietra abriu a boca, pasmada, e cerrou o olhar.

— Mamma tem de estar aqui, também. Você não pode simplesmente decidir isso e aquilo sem ela quando você nem mesmo vive conosco. Ela também tem voz nisso, se é que algum de vocês tem direito de reger a minha vida. Você sabe. Eu não sou mais uma menina.

— No entanto, age como uma e, raramente, como uma adulta e isso apenas quando lhe convém, não é assim? E eu creio que tenho todo o direito de colocá-la na linha desde que as merdas que você faz, faz usando o meu dinheiro. E somente para que saiba, eu estou permanecendo aqui tempo suficiente para deixar as coisas nos trilhos e me certificarei que assim fique quando eu não estiver.

Que merda aquilo significava?

Ele prosseguiu, soando desgostoso enquanto gesticulava ao redor:

— O problema aqui não é o dinheiro, minha irmã, senão suas atitudes de merda. Essa vida de luxo e conforto que você conhece é paga com o meu trabalho, piccola. O pouco que nossos pais nos deixaram mal deu para saldar as dívidas pendentes e a hipoteca da casa, onde vivíamos. — Ele pareceu tomar uma longa respiração e amenizou o tom quando acrescentou. — Entenda piccola, eu não estou jogando meu dinheiro na sua cara, porque no fim o que é meu é seu, também. Entretanto, temos de deixar as coisas claras.

— O que te faz pensar que eu vou te obedecer?

— Além de ser o meu dinheiro que te banca e que sem ele você terá de arrumar um emprego para pagar seus luxos que não são nada baratos? Sabe quanto ganha uma balconista, Pietra? Seu sapato paga dois meses do salário dela. Isso julgando que ela trabalhe em período integral.

— V-você não...

— Sua escolha. Quer se mandar e continuar agindo como uma inconsequente que só tem merda na cabeça? Okay. Vá em frente. Mas tenha a certeza que pode manter suas merdas por si própria. Do contrário, vai permanecer sentada e me obedecer.

— Contanto que você não paga as minhas contas, eu não tenho nada a fazer aqui. Tampouco, pode me obrigar a aceitar sua merda — anunciei vitoriosa.

Se fodeu, stronzo!

Seu olhar caiu em mim, imperturbável.

— Realmente, não posso. No entanto, devo consultar o Sr. Vicenti e ouvir a opinião dele sobre o assunto — ele disse tranquilo, e o iluminado sorriso em minha face se desfez.

— Eu já sou maior de idade!

— Porém, é ele quem paga suas contas, não é mesmo, Antonella? — Ele era meu pai! Era seu dever me bancar. Afinal de contas, eu não pedi pra nascer. — Tenho certeza que Rocco Vicenti me agradecerá muitíssimo por colocá-lo a par da real situação aqui. O que me diz?

O sangue gelou em minhas veias. Branca como o papel, eu agradeci por estar sentada. Um sentimento de opressão, uma angústia desesperadora apertou meu peito infinitamente quando absorvi suas palavras.

Não precisaria de muito, somente um terço da missa bastaria para papà pegar o jatinho e vir pessoalmente me buscar, e então, eu estaria na mais completa merda. Não era somente o luxo que eu iria perder, mas a liberdade. Eu não poderia perder a liberdade que demorei tanto a conquistar e viver na pobreza não era uma opção. Não tinha nascido para ser pobre, caralho.

Eu olhei para aquele miserável chantagista de merda.

— Você... você n-não pode fa-fazer isso.

— Não somente posso como esta é minha obrigação cívica. Afinal de contas, pelo o que fui informado o Sr. Vicenti somente a permitiu vir sob os cuidados de Martha, verdade?

Era verdade. Papà não era conhecido por ser um homem descolado. Ele era das antigas, rígido até a morte. Tinha sido um sacrifício convencê-lo a me deixar vir com tia Martha e Pietra para me graduar aqui. Por ele, eu teria ido para Oxford, onde mamãe e ele se formaram. Eu até tinha feito os exames de admissão por exigência dele, e sido aceita, o que somente o fez mais irredutível.

Eu tinha me inscrito em algumas das melhores universidades dos Estados Unidos, estudei dia e noite para passar nos exames, coisa que não foi tão difícil, uma vez que eu não tinha uma vida social para administrar, além de todo empenho que dediquei ao meu último ano na escola. Tudo isso para mostrar a Rocco que eu tinha potencial e levava minha formação a sério.

Então tia Martha entrou a meu favor convencendo minha mãe, Selena, que também não estava feliz com a ideia da mudança por motivos diferentes aos do meu babbo, logo fora a vez deste último. Relutante, Rocco aceitou muito mais pela admiração que ele tinha pela educação que ela dera a Pietra, e então, ele impôs uma tonelada de exigências, que eu não tive escolha se não aceitar, uma vez que ainda era menor de idade quando nos mudamos, além do que, era ele o dono da grana.

Tinha consciência que muitas vezes deixara a tia de cabelos em pé, mas ela não tinha culpa por Pietra e eu sermos um pouco levadinhas. Também não era como se nossas peraltices interferissem em nosso empenho nos estudos. Este nós duas levávamos a sério, mesmo que tivéssemos de virar a noite acordadas estudando. Além do mais, se não o fizesse, no outro minuto, Rocco estaria na porta da mansão. Ele estava longe, porém ainda mantinha o controle sobre a minha vida. Não era como antes, ainda assim eu não poderia bobear. E agora, aquele asno na minha frente estava pronto para ferrar comigo por um mero capricho seu.

Pietra me pediu desculpas com o olhar. Eu sacudi a cabeça, atemorizada e cética ao mesmo tempo. Ela não tinha culpa de ter um traste desses como fratello. Ele sim era o culpado. Ordinário.

— Nós temos alguma alternativa? — Pietra indagou raivosa.

— Obviamente. Vocês podem aceitar e se comportarem de acordo com o que estipulei, ou darem adeus à liberdade de vocês — ele decretou sem nem um pingo de remorso ou vergonha por estar nos chantageando na cara dura.

Vai dizer ao meu pai que me comeu também, figlio di puttana?

Foi duro, muito duro me lembrar que ele, infelizmente, era meu segredinho sujo.

— Ti odio! Ti odio da morire28.

Tive impressão de vê-lo endurecer, mas fora somente isso, uma impressão.

— Vamos lá! Não façam essas caras. Não é o fim do mundo, apenas estou colocando limites em vocês. Melhor agora do que mais tarde quando não puderem concertar as merdas que vem fazendo. E eu não sou nenhum tirano, vocês ainda terão liberdade. Porém é como disse, com limites.

— Que tipo de limites?

— Vocês terão as sextas e os sábados livres para saírem e darem suas festinhas. — Olhei desconfiada para ele. — Os domingos são negociáveis, só não à noite. Afinal, pelo o quê me informei, vocês duas tem aula na segunda e a diversão não deve interferir em seus estudos. As sextas e aos sábados, vocês precisam saber de algumas coisas para que não haja consequências depois. Festinhas e saídas no mesmo dia como faziam antes, não serão permitidas. Ou seja, terão de decidir o que querem mais. Moderação será o novo lema de vocês.

Eu queria que ele morresse agora mesmo. Será que isso era negociável?

— Come sei generoso, eh?

— Aproveite minha generosidade Antonella, pois não é sempre que a uso.

— Mais alguma coisa? — Pietra questionou.

Per amore di Dio! Cale-se!

— Vocês sabem, coisas normais que vocês já deveriam saber, mas insistem em fazer vista grossa. Horário para chegarem. Avisar a Martha onde e com quem estão saindo. Celulares em mãos e ligados para que ela, ou, eu possamos saber como estão. Então nada de fingirem que não ouviram o celular tocar, entendido? Bem como, as reuniões aqui também terão hora para acabar.

Minha raiva cozinhou a fogo brando quando ele seguiu.

— Quanto à bebida, bem, esse é um ponto questionável. Pelas leis italianas vocês são maiores de idade, todavia, não estamos na Itália mais. O que diz que temos de nos adequar as leis daqui. Eu vou ser honesto, não me agrada vocês ingerirem bebida alcoólica. Mas lhes darei isso. Posso fazer vistas grossas, levando em conta a maior idade legal italiana, porém não abusem. Se beberem fora daqui, quero que liguem para o motorista ou para eu ir buscá-las, se eu ainda estiver aqui. Isso nos leva a outra questão importante. Clubes. Não quero saber de vocês duas subornando leões de chácara ou se arriscando com falsas identidades para entrarem em danceterias, como tem feito até hoje. Isso acaba aqui assim como as corridas clandestinas.

Afunilei meus olhos mais ainda, transpirando fúria.

— O tempo de escravidão foi abolido há anos, sabia?

— Não estou obrigando-as a aceitar. Vocês têm uma escolha.

— Você não está nos dando qualquer escolha, está nos chantageando.

— É um modo negativo de ver as coisas.

Coloquei-me de pé, fuzilando-o com o olhar.

— Você é um filho da puta por excelência, não é assim?

— Nós aceitamos. — Pietra se apressou em dizer, antes que ele respondesse.

Ele tinha o olhar cravado em mim, o canto direito da boca sutilmente contraído. Maledetto. Ele estava claramente se divertindo a nossas custas.

— Muito bem. Porém, estejam cientes que se tentarem bancar as espertinhas, ficarão de castigo.

— Castigo é ter de olhar para essa sua cara de cretino todos os dias, seu filho da puta! — desprezei, tacando uma almofada nele, desejando mesmo que fosse uma pedra para rachar a cabeça dura daquele babaca. Ele pegou a almofada no ar e soltou um risinho.

— Não fiquem chateadas. Isto é pelo bem-estar e segurança de vocês mesmas. Agora podem não acreditar, mas irão me agradecer mais tarde.

Definitivamente, era para o bem-estar e segurança, porém dele próprio.

Rígida da cabeça aos pés, eu não me dignei a respondê-lo e me apartei dele, indo para o meu quarto a passos duros, antes que a vontade de matá-lo culminasse.

Bati a porta do meu quarto com toda minha força e fechei os dedos em meus cabelos.

Ódio. Este era o sentimento que eu tinha por aquele ser desprezível.

Me chantagear? Isso foi baixo demais.

Enfiei-me na banheira cheia de sais aromatizados para ver se ao menos assim eu poderia acalmar meus nervos a flor da pele. Minha vontade era de gritar e bater naquele demente.

Tomei algumas respirações profundas e eu procurei não pensar mais nele. Decidida a não dar a ele o poder de me irritar mais do que ele já havia feito. Foi duro, mas consegui. Quando estive relaxada e com os dedos enrugados, saí da banheira. Sequei-me e enrolei a toalha em meu corpo.

A fúria tinha diminuído, mas a raiva ainda estava lá, permeada em minha pele. Era inacreditável que aquele homenzinho ordinário tivera chegado há apenas 24 horas, no máximo um dia e meio, e já tivesse transformado a minha vida num inferno. Isso era inconcebível, na verdade.

Porém, mais inacreditável foi sair do banheiro e dar de cara com próprio gostoso sentado na minha cama. Meus punhos se fecharam quando fixei os olhos no traste. E, oh, cara, ele estava lindo. Agora levando uma camisa pólo branca e jeans escuros. O cabelo preto acetinado, macio para meus dedos, penteado para trás como aparentemente gostava de manter. Não usava muito produto, apenas o suficiente para não ter nem um fio negro fora do lugar.

Ele era um cara duro, mas, obviamente, muito vaidoso.

Meu galã do mal...

No, cazzo, lui non è tuo29!

Mas ele tinha sido meu por uma noite e uma tarde inteira.

Inferno. Eu não deveria estar admirando-o, sequer reparando em suas preferências. Recriminei-me em mente. Ele poderia estar pintado de ouro e isto não faria dele menos filho da mãe.

— O senhor tem mais alguma exigência? Ou será que trouxe o contrato de escravidão que me esqueci de assinar?

O desgraçado sorriu abertamente, mostrando todos os dentes. Eu fiquei um pouco dispersa. Ele era um tremendo babaca, mas seu sorriso era de derreter...

Foco stronza, ele é o inimigo!

— Eu não tinha pensado no contrato, neném, — divertiu-se, caminhando na minha direção e meu pulso acelerou. Meus dedos se fecharam na toalha, num aperto de morte. — Mas, quanto à exigência, eu tenho uma, porém você já sabe qual é. Espero não ter de repetir.

Heithor esticou a mão e tocou em minha face, alisando a bochecha com o polegar. Seu toque muito suave e delicado. Resisti ao impulso de fechar os olhos e inclinar o rosto contra sua mão.

Sua boca tão próxima quando ele inclinou a cabeça para baixo fazia a minha formigar.

Neguei o desejo bobo, mas ele estava lá, nas sombras da minha resistência, esperando um deslize meu, que eu prometi não cometer novamente. A cota de humilhações para um único dia já tinha sido extrapolada. Isso me fez lembrar que eu não deveria estar aqui derretendo.

— Tire suas patas imundas de cima de mim, idiota!

Minha mão tentou expulsar seu toque, todavia, antes que eu obtivesse sucesso, ele segurou minha cintura e puxou-me contra seu corpo, num só golpe. Sua boca cercou a minha. A princípio, eu tentei resistir, batendo em seu peito com os punhos ao mesmo tempo em que tentava empurrá-lo, mas ele não moveu um centímetro sequer. Sua língua perseverou, pincelando a comissura de meus lábios de maneira sensual então seus dentes beliscaram meu lábio inferior, puxando, antes de tragá-lo em sua boca. Eu gemi amortecida na sensação, perdendo o restolho de dignidade e orgulho que ainda possuía. Entre abri os lábios, deixando sua língua morna explorar cada canto da minha boca. Ele não perdeu tempo. Nossas línguas se encontraram, atiçando, entrelaçando-se, numa dança sensual e envolvente.

Enlacei seu pescoço, embrenhando os dedos em seu cabelo, puxando-o com raiva. Heithor gemeu e aprofundou o beijo, tornando-o mais selvagem. Suas mãos queimavam a minha pele.

O contato quente, seu cheiro e seu corpo tão próximo ao meu, fez minha barriga tremer.

Chupei sua língua me deliciando com o seu sabor açucarado.

O desejo despertou e cresceu faminto. Eu estava sem fôlego, porém não queria parar de provar aquela boca que tanto me perturbava. Heithor fez, no entanto.

Eu arfava um pouco zonza, ainda de olhos fechados e quando os abri, encontrei duas burcas escuras, fitando-me intensamente. Fome. Desejo. Calor. Eram tudo que eu poderia enxergar em seus olhos. Minhas pernas bambearam fracas, e eu me agarrei a ele com maior força para não cair.

Heithor soltou um risinho baixo, e eu me odiei por minha debilidade a ele.

Lentamente, eu respirei fundo, armando-me de forças. Ele, como se percebesse que eu não cairia sobre a minha bunda, deu um passo largo atrás. Heithor me olhou com um desejo descarado, correndo por meu corpo, lentamente. Incendiando a minha pele. Não havia ocultações, nenhuma tentativa de esconder a luxúria ardendo em seus olhos intensos, escurecendo suas feições.

Baixei o olhar para o seu quadril e exalei com força ao perceber a barraca lá. De repente, tinha meu corpo ficando tenso, se preparando para ele. Desejando. Querendo o seu toque.

Atordoada com o rumo das coisas, eu desviei meus olhos para baixo para o meu próprio corpo e compreendi o porquê de seus orbes quase romperem a minha pele. Eu estava nua e não fazia ideia de como aquilo tinha acontecido. Abaixei rapidamente, sentindo minhas bochechas queimarem quando peguei a toalha amontoada em meus pés, não querendo estar assim na frente dele. Está aí uma coisa que nunca tinha sentido antes, vergonha de ficar nua.

— Não, — ele disse, num tom rouco, a voz engrossando. — Depois do que tivemos não há porque ter vergonha. Eu te conheço até do avesso, neném. Nunca oculte seu corpo de mim, Antonella. Você é linda, perfeita da cabeça aos pés.

— Eu não estou, — menti. — Apenas acho que não preciso ficar pelada na sua frente somente porque transamos uma vez — terminei, irritada comigo mesmo por ser tão vulnerável a ele.

Ele sorriu de lado, lento e sensual.

— Uma?

— Você entendeu — grunhi, segurando a toalha na frente do meu corpo. — Agora dê o fora do meu quarto — acrescentei, fechando a cara para ele.

Ele riu. O som gostoso de sua risada baixa provocou tremores em minha barriga.

— Você mente tão bem que quase me convence. Não se engane, baby. Você me quer da mesma forma que eu te quero. Esse desejo louco, essa fome funda que sinto e sei que também sente, e nos atrai um ao outro não irá acabar só porque você mente para si mesma. Eu não vou negar e sugiro que você nem tente.

Isso me eletrocutou, enviando a raiva para a borda.

— Oh, per favore, deixe dessa ladainha tosca e de ser tão pretensioso. Será que não percebe o papelão que está fazendo? Não cansa de correr atrás de mim, não? Eu não quero. Coloque isso na merda da sua cabeça. Se é um desses tipos que não sabem levar um não, eu sugiro que vá procurar sua amiga. Ela parece muito disposta a ser sua cadela e alimentar seu ego.

— Ciúmes, my little bitch?

— O dia que eu sentir ciúmes de um tipinho como o senhor, eu corto os meus pulsos.

— Primeiro, não me chame de senhor. Eu não sou tão velho assim. Tenho nome e gosto de ser chamado por ele, principalmente, quando é no som de sua voz. Segundo, você pode gritar que não me quer, mas o seu corpo sempre vai te desmentir. E sabe por quê?

Engoli a seco. Isso era porque meu corpo não tinha o amor próprio que eu julguei ter, pensei com desgosto quando Heithor continuou numa fala mansa, carregada de erotismo.

— Porque você é minha. Seus beijos, seu prazer e suas vontades são meus. — Suas mãos passeavam por meus flancos nus, numa carícia possessiva, deixando um rastro de fogo em minha pele. Então seu olhar chamou o meu, fixo, corrompendo-me. — É a mim a quem seu corpo clama. Era por mim que ele pedia ontem quando deixou aquele merda te foder. Era em mim em quem você pensava quando gozou... era para mim. Pode negar isso?

— Isso não é...

— Não? — Ele deu um riso curto. Suas mãos seguraram meu pescoço com gentileza, o polegar escovando suavemente sobre minha jugular ritmada. — Nos poucos minutos que levo aqui, suas bochechas ganharam esse rubor lindo, que me faz desejar te lamber toda, tem o pulso acelerado e os mamilos duros. Conheço os sintomas, conheço o cheiro... Está excitada neném.

Eu não me atrevi respondê-lo. Sua voz era raivosa, afinal. Sua mão livre segurou meu seio, os dedos apertando e puxando meu mamilo com força, e eu gemi de dor/prazer, arqueando-me.

— Seu corpo reage ao meu com ímpeto — disse ele com prazer, olhando para os meus mamilos, pedindo pela atenção de sua boca. Traidores. — Sua doce bucetinha também pede por mim. Está quente e tão molhada neste momento que banharia meu pênis. Eu posso sentir isso. Você cheira a necessidade, baby. Cheira como minha doce e pequena vadia. Eu adoro.

— Você não sabe de nada — resmunguei numa voz mole, lutando por um fio de força.

Ele se moveu antes que eu pudesse pensar em detê-lo, atraindo meu mamilo para o calor morno de sua boca, com um gesto possessivo e primitivo. Lambeu e sugou, beliscando a ponta.

Meu corpo floresceu para a vida, como se esse fosse o momento mais aguardado do dia. Estava excitada; tão raivosa. Enquanto meus dedos soltavam a toalha para agarrar-se nele e minhas costas curvavam, eu fiz a única coisa da qual me restava algum controle ainda. Segurei meus gemidos.

Olhei fixa para sua boca em meu mamilo. Choque e prazer correndo por meu sistema enquanto eu lutava em silêncio para entender como a situação tinha mudado tão de repente.

Ele tinha me deixado bêbada, gulosa por seu beijo, por seu toque.

Não, porra! Não. Não. Não.

A negação gritava na minha mente, mas não podia sair de lá.

Cadê a porra da raiva quando você precisa dela?

Não havia, pelo menos não o suficiente para que eu tivesse forças para empurrá-lo, ao contrário, eu o puxava para mim. Oferecendo-me. Desejando mais. Querendo mais.

Como eu poderia ser tão fraca com ele?

Mas o maledetto era tão bom e meu corpo não tinha decência. Aquela era uma causa perdida. Depois, depois eu daria um murro nele. Agora, eu somente queria senti-lo.

Ele trocou de seio, se amamentando com a mesma fome, a mesma posse. Eu tremi e joguei a cabeça para trás, mordendo o lábio com força quando um gemido nasceu no fundo da minha garganta. Sua mão desceu sondando a minha virilha. Ofeguei e gemi. Minhas pernas trabalharam para ele, abrindo-se ao mesmo tempo em que Heithor metia sua mão entre as minhas coxas, e então, um dedo atrevido deslizou entre as minhas dobras, espalhando minha lubrificação. Ele soltou meu mamilo e xingou. Seu dedo varreu abaixo, persuadindo minha entrada, e eu movi o quadril em busca da penetração. Não podia me deter. Os movimentos eram autônomos.

— Porra. Tão molhada e tão minha — ele sibilou e, no instante seguinte, seu dedo me invadiu, estocando-me sem receio. Uma e outra vez. — Você está muito quente, neném, que está derretendo no meu dedo. Caralho! Eu quero te curvar para baixo e te comer duro.

Oh, sim, eu quero isso também.

Meus dedos se apertaram em sua pele enquanto eu desfazia ao redor de seu dedo. Ele penetrou outro e estabeleceu um ritmo regular. Eu estava mole e odiosamente entregue.

— Filho da puta — gemi.

Seu intenso olhar me acertou, cheio de fogo.

— Você faz ideia de como me deixa excitado com essa sua boquinha suja?

De repente, minhas pernas ficaram pesadas para me manter em pé. Seu braço livre circundou a minha cintura, prensando-me contra seu corpo e me levantou, logo senti a dureza da parede em minhas costas. Heithor me soltou e, em seguida, pegou minha mão, colocando-a sobre sua ereção.

— Sinta baby — grunhiu ele, num tom que eu não poderia desobedecer, nem se quisesse. Meus dedos se fecharam sobre o volume duro sob seu jeans, apertando. — Gostosa da porra. Nunca fiquei tão duro por outra mulher como fico por você, my little bitch. É só te olhar que não posso pensar em outra coisa que não seja te colocar para baixo e me enfiar em ti até as bolas.

Uma onda de tesão me tomou. Meu quadril se mexeu e remexeu, montando seus dedos. Heithor gemeu áspero e sua boca desceu sobre a minha, num beijo forte enquanto nos provocávamos.

Ele se afastou, e então, se ajoelhou na minha frente e levantou uma de minhas pernas, colocando-a sobre seu ombro. Joguei meu olhar para baixo a tempo de ver sua respiração pesada beijar meu púbis, antes de seus lábios me tocarem intimamente. Ele deu uma lambida, depois outra e mais outra. Minhas pernas, instintivamente, tentaram se abrir mais ao mesmo tempo em que lançava o quadril contra seus lábios, lhe dando mais da minha buceta. Sua língua alcançou meu clitóris, circulando e estimulando-o quando ele lançou seus dedos mais profundos dentro de mim.

Minhas mãos agarraram seu cabelo, mantendo-o para o meu deleite.

Eu odiava aquele sujeito, mas amava sua boca em mim.

Gemidos baixos prazer escaparam da minha boca. Eu já não me lembrava de nada mais, somente sentia, envolvida na luxúria que ele fazia zumbir através da minha pele. Sua boca e seus dedos me afundaram naquele desejo primitivo. Eu o tinha lá, me saboreando. Era delicioso, magnífico.

— Ah, Dio, Heithor, me chupe assim, seu puto.

Sua língua esfregava e lambia minha buceta de uma maneira tão sensual, pervertida, que em algum lugar deveria ser considerado um crime. Adorava ter a boca de um homem entre as minhas pernas, mas Heithor superava todas as minhas expectativas. Eu não tinha que dizer nada, exceto suportar todo aquele prazer afiado. Não sabia como, porém ele conhecia os caminhos de prazer do meu corpo, como se ele tivesse estudado os meus gostos e minhas áreas mais sensíveis por anos.

Eu balancei, montando seu rosto e seus dedos sem nenhum pudor.

Meu corpo se apertou, meu útero estava pegando fogo quando o orgasmo cresceu rápido e ameaçou estalar sobre mim. Um frisson gostoso surgiu de súbito e numa doce agonia eu esperei pela minha libertação iminente. E então, eu não tinha nada além de um mar de agonia palpitante.

Ele retirou os dedos de mim e se afastou tão rápido, que eu engasguei em meu próprio fôlego.

Agarrada a parede, eu tremia necessitada pelo prazer interrompido quando busquei seu olhar. Estava confusa e um pouco zonza. Meu peito subia e descia com brusquidão.

Heithor me deu o seu sorriso mais safado e sugou os dedos melados, com a minha excitação, antes de lamber seus próprios lábios, como se provasse os resquícios de um doce saboroso. Ele fez o ato parecer tão erótico, que eu quase gozei somente com isso.

— Você é gostosa demais para o seu próprio bem — ele murmurou num tom excitado, a voz mais grossa e profunda. — Como eu quero te foder agora. É tanta vontade que sou capaz de vir na primeira metida... Apenas te dobrar naquela poltrona e eu nem preciso tirar a calça para enfiar meu pau nessa buceta doce que tem. Eu sei que você gosta assim, duro e sujo...

Lambi meus lábios secos, ainda sem entender o que estava acontecendo. Meu corpo tinha entrado num estado de dormência prazerosa, apertando e puxando, causando-me desconforto.

Eu precisava gozar. Precisava dele nisso.

— O-o q-que?

Ele inclinou a cabeça e, em seguida, o calor de sua boca e aspereza de sua língua chicoteou o meu mamilo, chupando rudemente, mas tão logo ele me soltou e se apartou. Eu arquejei perdida.

—... Mas não vou, até que você esteja apertada o suficiente para me receber. Você transou com um merdinha ontem, e eu te disse que não serei mais um.

As palavras se afundaram em minha mente nublada e aos poucos a compreensão delas começou a pintar com clareza, fazendo meus olhos agigantarem incrédulos, apertados e irados.

A raiva ressurgiu das cinzas, duplicada.

Minhas mãos se fecharam em punhos apertados quando imaginei o seu pescoço entre elas.

Eu iria matá-lo!

— Os meus exames estão em sua cama. Leia. Logo marcarei a consulta para que nós dois possamos fazermos novos exames. — Pisquei, levando meu olhar aturdido para cama, onde estava um envelope branco. — Aproveite o restante de seu dia em casa e não faça nada que vá te colocar numa fria comigo. Minha paciência é quase nula — ele acrescentou se distanciando para a porta.

— Va al diavolo, suo figlio di puttana!

Cega de raiva, eu peguei um vaso que estava ao meu alcance e lancei contra ele, mas o maledetto já havia destrancado a porta e fechado-a atrás dele quando o objeto alcançou a madeira maciça, quebrando-se em mil pedacinhos, em seguida, chovendo estilhaços por toda parte.

Você é uma idiota. Ele te humilhou mais uma vez! Como pôde permitir isso, sua imbecil?

Sentia-me tão ultrajada. Estava possessa pela minha fraqueza. Sexualmente frustrada. Indignada por aquele cretino mexer tanto comigo, e eu permitir isso. Mas a culpa não era minha. Era desse meu corpo vagabundo, que não tinha um pingo de orgulho nem de amor próprio!

Peguei a maldita toalha no chão então segui para o banheiro para outro banho. Desta vez, gelado!