Dangerous
Capítulo 30
Minhas pálpebras tremularam quando a claridade passou pelas frestas de meus olhos, irritando-os. Porém, não desisti, abrindo-os de par em par, e então, tornei a fechá-los.
Sentia-me estranha. Um pouco desorientada e desconfortável. Não podia entender a claridade excessiva de há pouco, que meus olhos se negavam a enxergar. Nem a sensação estéril.
Tentei me mover e trinquei os dentes, com a pontada aguda que senti em minha coluna. O desconforto aumentou e uma sugestão de pânico ameaçou subir a borda. Prendi a respiração e com o maxilar travado tentei mais uma vez me mexer. Um gemido inevitável me escapou.
— Antonella?
Estaquei, congelada no reconhecimento daquela voz.
Que diabos?
— Antonella? — O tom barítono forçou meus olhos abertos mais uma vez.
Pisquei mais um par de vezes, até que meus olhos limparam e se acostumaram com a luz, em seguida, focando o rosto bonito daquele cretino, me olhando de um jeito estranho.
— Não se mexa. Está doendo em algum lugar? — Franzi o cenho, correndo os olhos pelo local e tentei me situar. Minha cabeça começou a latejar. — Você está no hospital Medical Center — ele esclareceu minha confusão e acrescentou, antes de sair apressado. — Eu vou chamar o médico.
Minutos depois Heithor entrou no quarto com o Dr. Smith.
Mas que diabos...?
— Olá senhorita Vicenti. Como se sente?
— Minhas costas doem e minha cabeça está latejando.
— Suponho que sim. A pancada foi forte, mas você teve muito sorte mocinha. Deu-nos um susto e tanto — brincou, porém se voltou sério quando me falou, novamente. — Você se lembra do que aconteceu? — Neguei com a cabeça. — Você sofreu um acidente de moto. Estava embriagada e inconsciente quando chegou aqui. Nós te examinamos e cuidamos de todos os procedimentos médicos necessários. Apesar de tudo, foi só um susto, que esperamos não se repetir mais.
Arregalei os olhos em choque, em seguida, me desliguei enquanto forçava minha mente a se lembrar do que tinha ocorrido. Havia um breu entre a conversa com as garotas e até esse momento no hospital. Me empenhei. Uma. Duas. Três vezes. Minha cabeça latejou mais pelo esforço, porém não desisti, até que flashes vagos dispararam através do meu cérebro.
Brian veio a minha cabeça, uma discussão com ele sobre algo que não podia discernir bem sobre o quê era. Vodka. Muita vodka. Brian gritando atrás de mim. Eu estava na moto. Tinha acelerado, sentido toda a potência da minha menina, e então, tudo ficou turvo e desapareceu.
— Você sofreu algumas escoriações... — Rapidamente levei minha mão ao meu rosto. — Seu rosto está perfeito e sua cabeça também, graças ao capacete. — Respirei aliviada e fitei Thor encostado num canto na parede. — No mais, peço que permaneça quieta. Você está bem, porém ficará conosco hoje e amanhã apenas por precaução para que possamos observá-la. Apesar dos exames estarem bons, isso não impede que possa surgir alguma complicação...
Thor continuava num canto do quarto observando-me enquanto o médico terminava seu parecer profissional. Meus olhos desviaram-se dele quando o médico finalizou.
— Pode me dar alguma coisa para dor?
— Eu vou pedir para enfermeira aplicar um analgésico no soro. Você vai se sentir melhor da dor nas costas e da enxaqueca. — Assenti devagar e meu coração meio que se desesperou. Não queria que o médico saísse. Não queria ficar sozinha com o cretino. — Melhoras! À noite, antes de terminar o meu plantão, eu passarei aqui para ver como a senhorita está.
O médico saiu nos deixando a sós. Meu coração aumentou o ritmo, só faltou saltar fora e ficar pulando em volta da cama. Estar em um hospital era a treva e ter o maledetto me espreitando de perto fazia pior. Um silêncio desagradável cheio de palavras não ditas se instalou no quarto, e eu tentei não demonstrar meu desagrado. Fiz de tudo para não olhar para ele, mas meus olhos me traíram quando senti ele se aproximar da cama. Seu perfume me envolveu.
Fitei seus olhos negros. Eles eram sérios, mais escuros e cautelosos. Tentei quebrar o contato, porém meus olhos pareciam atraídos por um super imã, presos ao dele.
A porta se abriu, de repente, rompendo nosso contato visual e ele se afastou. Suspirei aliviada, relaxando um pouco. Pietra e Josie entraram passando pela porta quase se atropelando.
— Oh, Madre di Dio, Amada — exclamou Pietra vindo até mim. — Come stai? Tá sentindo alguma coisa? Ai, Dio mio! Eu fiquei com tanto medo...
— Respira Pietra. Eu ainda não morri.
— Mas foi por pouco, não?
Abaixei o olhar, sentindo-me culpada e ergui de volta.
— Perdonami, io non...
— Sei. E só por isso que eu te perdôo.
— O importante é que você está bem e que não irá fazer isso de novo — interferiu Josie.
— Oi J.
Ela se aproximou e se inclinou, beijando minha bochecha.
— Olá maluquinha — respondeu ela, sorrindo e, em seguida, intercalou seu olhar entre Heithor e eu. — Desculpem nós entrarmos assim, mas estávamos muito preocupadas.
Heithor se limitou a um aceno vago. Eu olhei para Pietra.
— Viu a minha moto?
— Você acha que eu saí daqui depois que Brian me ligou? Nem no banheiro eu fui ainda, quanto mais naquele quinto dos infernos, e outra, você não tem que se preocupar com a maldita moto! — E acrescentou. — E visto que não está morrendo, a senhorita pode muito bem levar uma bronca. Por que no inferno você se meteu a correr embriagada? Tem ideia do susto que nos deu? Eu perdi um ano da minha vida ontem, sabe? Dê graças a Deus por estar bem, porque eu juro, se você tivesse morrido, eu te ressuscitava só para te matar novamente.
— Pietra!
— O quê? Vai dizer que eu não tenho razão, Josie? Eu quase precisei de atendimento médico naquela sala de espera, ainda bem que estamos no hospital... E garota, eu vi médicos ali fora que mamma mia!
— Só quero ver o que o Nathan vai achar disso — Josie cutucou.
— Desde que não fiz nada demais se não olhar. Ele não achará nada.
Busquei a mão de Pietra.
— Desculpe, eu...
— Com licença — disse uma enfermeira, entrando e veio para o meu lado. — Bom dia senhorita Vicenti. Sou Lucy, sua enfermeira enquanto estiver aqui. — E prosseguiu enquanto aplicava a medicação na EV. — É um relaxante. Vai se sentir sonolenta e pode sentir um pouco de enjôo de início. Mas não se preocupe. Passará rapidinho.
— Você informou os meus pais? — inquiri a Pietra quando a enfermeira saiu.
Ela encolheu os ombros.
— Não. Fiquei tão envolvida aqui que esqueci.
— Tutto bene. Não faça... Mamma vai enlouquecer e deixar a todos loucos a sua volta. Também não foi nada que exija a presença dela aqui. — Ela assentiu, entendendo a mensagem. — Me faça um favor? Descubra como minha moto está e veja se é possível concertá-la.
— Eu já a mandei para o concerto — disse Thor, surpreendendo-me tanto que o olhei.
— Err... Pietra vamos a cantina tomar um café — murmurou Josie já arrastando Pietra.
— Mais tarde a gente volta.
Elas se foram, e eu senti formigas me mordendo.
Dizer que o clima era incomodo seria um eufemismo da minha parte. Eu não disfarcei isso, virando meu rosto para o lado quando ele veio para mim e parou ao lado da cama.
Mantive o olhar em qualquer parte daquele quarto exceto em Heithor.
Não queria encará-lo. Não queria demonstrar fraqueza.
Ouvi seu suspiro pesado. Minha própria respiração ameaçando desestabilizar, mas a agarrei com unhas e dentes, porém não pude ajudar meu teimoso coração batendo nas costelas.
Francamente, eu não fazia ideia do porquê ele ainda estar aqui. Ele faria o quê? Um sermão por minha travessura? Humpf! Como se eu fosse escutá-lo.
— Por favor, Antonella, olhe para mim — pediu com a voz arrastada, todavia, me neguei a obedecê-lo por mais que meu corpo brigasse comigo para fazê-lo. Eu tomei o controle e permaneci quieta mirando a parede. — Tudo bem, não precisa me olhar apenas me escute. Para ser honesto, eu não sei se te dou uma bronca... Como se você fosse me ouvir quando nunca faz. — Ele deu um risinho desagradável. — Não sei por que faz essas coisas. Deixou a todos loucos ontem. Me deixou a beira da loucura por pensar que você... Mas entendi... Eu só preciso que você tenha a certeza de uma coisa. Nunca tive a intenção de manipular ou chantageá-la. Sei, fui um puto estúpido quando nos conhecemos e, cacete, eu tenho o fodido defeito de agir como um idiota quando se trata de você. Me arrependo mais do que posso dizer em palavras. Sobre as regras, tente me entender. A casa estava uma zona e vocês estavam desenfreadas sendo apenas adolescentes e você está sob a tutela de Martha. Nem eu, nem você gostaríamos que Martha fosse recriminada por seus pais porque não cuidou direito de você, o que não é verdade, porque ela cuidou, mas você é impossível. Eu errei sim por ter continuado a investigação após tê-la conhecido. Porém entenda você foi à única garota a mexer comigo de um modo que nenhuma antes fez. Isso me deixou curioso ao seu respeito. Mulher nenhuma havia conseguido minha atenção desta forma. Eu precisava saber quem era você de verdade, saber o que você tinha de tão especial para mexer tanto comigo e eu não falo somente pelo tesão, mas por tudo. Você mexeu com o meu emocional, com a minha cabeça. Me tirou dos trilhos, Antonella.
Minha boca encheu d’água e meus olhos arderam ao mesmo tempo.
— Quando investiguei a sua família e, porventura, você ainda na Itália, eu fiz pelas meninas. Tinha de me certificar que você e sua família não ofereciam risco nenhum a elas, mas aqui eu fiz por mim, admito, porém não para usar contra você. Foi única e exclusivamente para te conhecer melhor, uma vez que todas as vezes que eu cheguei perto, você se fechou no seu casulo e não me permitia conhecer a Antonella de verdade. Eu juro, Ella, pela minha vida, que jamais te prejudicaria e nunca a obrigaria a retribuir o meu amor. Você sabe disso. Sei que sabe. Quando me declarei eu apenas te pedi que me deixasse ficar perto de você e que me permitisse amá-la. Por deus Antonella! Você acredita mesmo que se eu tivesse alguma pretensão de usar aquele documento contra você, eu teria deixado-o em qualquer canto aonde você pudesse ter acesso? Pensa! Não tem lógica nisso. Se este fosse o caso, ele estaria bem guardado em algum lugar que somente eu saberia. Eu não o destruí antes porque eu não sei, apenas estava esquecido lá. De qualquer forma, ele já não existe mais. Eu te amo de verdade, além da medida, ainda assim não vou obrigá-la a nada. Pode não acreditar, mas eu tenho caráter Antonella. Não sou um merda de um filho da puta que precisa usar esses meios baixos para ter uma mulher. Nunca fiz isso e, por Deus, que nunca vou fazer. Todas as mulheres que eu tive em minha vida vieram até mim por livre e espontânea vontade... Meu amor por você não é fogo de palha, não é apenas desejo, é amor de verdade, e o mais puro. Perdoe-me se eu lhe fiz algo que te machucou. Não era minha intenção.
Senti seu corpo se afastar da cama e meu peito apertou.
— Com relação a sua moto, ela estará nova em folha em duas semanas, como se nunca tivesse sido batida. Eu estou indo embora hoje à noite, portanto, não precisa vendê-la. Não vou mais me intrometer na sua vida, nem incomodá-la, assim não saia da mansão. Pietra está enlouquecendo com isso. — Sua voz nada mais era que um sussurro embargado, que insuflou minhas próprias lágrimas. Ele tocou meu rosto num afago terno e, em seguida, senti seus lábios na minha têmpora. — Estou feliz, muito aliviado que esteja bem... Eu desejo que você seja feliz. Obrigado pelo seu tempo, eu apreciei cada fodido segundo que passei com você, mesmo quando me enlouqueceu... Cuide-se, neném. Talvez um dia a gente volte a se encontrar novamente. Ou não. Adeus Antonella.
Ele estava indo embora? Para sempre?
Meu coração passou a bater muito forte em meu peito, como um louco desvairado, o desespero nasceu lá das profundezas e em instantes conflagrou meu corpo.
Eu não queria que ele fosse.
Mordi meus lábios com força a ponto doer, sem saber o que fazer.
A indecisão me virando do avesso.
Virei o rosto e tive uma instantânea disritmia quando vi Heithor abrir a porta. Uma agonia funda me fez doer o peito. Minha respiração se alterou e algo dentro de mim se rompeu. As palavras se colidiram no meu cérebro. Isso só me deixou mais aflita enquanto o assistia passar pela porta sem olhar para trás. Ele realmente estava indo.
— N-não... não vai não — sussurrei, forçando as palavras contornarem o nó na garganta, antes que a porta fosse fechada totalmente, mas para o meu desespero ela se fechou.
Meu coração foi bombardeado por agulhas e as lágrimas vieram fáceis por minha face. Queria gritar, contudo, minha voz não saia, pois a maldita tinha sumido.
A aflição impulsionou-me e eu agi sem pensar.
Tirei o soro do braço, com as mãos trêmulas e saltei da cama cerrando os dentes ao sentir uma pontada de dor aguda nas minhas costas. Fui atingida por uma leve vertigem e segurei-me na cama para não ir ao chão. Puxei jorros irregulares de ar e cambaleando pisei para porta.
Estava indo tocar a maçaneta quando a porta se abriu de uma vez, se chocando forte com a minha testa. Meu cérebro chorou de dor. Eu vacilei atrás, indo plantar o meu traseiro no chão, mas os braços hábeis e fortes de Heithor me arrebataram antes do choque final.
— Sua louca! O que você está fazendo em pé? — Ele me pegou no colo. — Cacete. Me desculpa, neném. Eu não quis, porra! Você não podia ter se levantado.
— Você não vai embora. Vai? — inquiri enquanto ele me carregava de volta para a cama.
Thor parou e fitou minha face em choque, então recompôs-se e retornou a andar, colocando-me na cama, em seguida, enquanto resmungava consigo mesmo.
— Merda. Eu sou um estúpido. Perdoe-me. Não foi minha intenção bater com a porta na sua cabeça, mas também você não tinha nada que estar em pé. Eu vou chamar uma enfermeira... Eu sou mesmo um fodido — bradou, correndo a mão pelo cabelo.
Ele estava visivelmente nervoso e não parava de resmungar se recriminando pela portada na minha cara. Levantei a mão e toquei seu braço. Ele se calou e me fitou com os olhos aflitos.
— Não foi nada. É só mais um galo pra minha coleção.
— Me perdoe. Eu não imaginava que você...
— Não tinha como você saber que eu estava na frente da porta — cortei-o, oferecendo um sorriso amarelo. — Você vai mesmo partir?
— Eu vou chamar uma enfermeira — desconversou. — Você precisa recolocar o soro e ela precisa olhar esse galo na sua cabeça...
— Pare! Responda-me o que eu perguntei.
— Você quer realmente que eu fique?
Calor aqueceu meu rosto e eu lambi os lábios.
— Sim... Não quero que vá.
Ele pareceu congelar, seus olhos focados nos meus com tamanha intensidade que eu me senti nua de corpo e alma. Passaram-se minutos... horas... anos talvez, e ele não dizia nada além de continuar me olhando, me deixando um tanto quanto incomodada.
— Por quê? Por que quer que eu fique?
Engoli saliva e minha mente começou a trabalhar frenética, buscando por uma resposta. Eu não sabia o que falar. Na verdade, eu sabia sim, mas não queria dizer. Não ia dizer.
— P-porque... porque eu q-quero.
— Ou seja, por um simples capricho seu.
Cavei o lábio inferior e me mexi desconfortável.
— No... Eu... eu gosto... de ter você por perto — eu disse constrangida numa pesada exalação enquanto mirava as minhas unhas. Meu rosto muito quente, que me senti suar.
Ele tocou meu queixo para olhar em seus olhos.
— Eu não quero ir.
— Então não vá — assoprei baixinho.
— Eu não irei a qualquer parte enquanto me quiser aqui... com você.
Alívio se afundou em meu peito e um sorriso oscilou nos cantos dos meus lábios. Não queria demonstrar o quanto eu tinha gostado daquilo. Não queria parecer patética por estar tão aliviada, mas não podia ajudar a mim mesma. O sorriso bobo estava cauterizado em meus lábios.
Mirei sua boca e a minha ressecou.
Eu queria beijá-lo. Fazia tanto tempo. Quase um mês. Tempo demais. Eu queria ter de novo seus lábios firmes sobre os meus, sua língua brincando com a minha, o seu gosto.
Minha respiração acelerou sem o meu consentimento e meu corpo vibrou quando sua cabeça se inclinou para baixo. Meu coração se agitou na expectativa. Mas para o meu desgosto, Thor parou a centímetros do meu rosto e não avançou mais um centímetro sequer.
Senti sua respiração quente bater em minha face como se fizesse uma carícia tenra, estava me deixando zonza. Seus olhos estavam presos aos meus. Despindo minha alma.
Eu não esperei mais, fechando o espaço entre nossas bocas.
Seu gosto explodiu no meu cérebro e me amoleceu. Nada poderia se comparar. Nada poderia ser tão doce e tão bom. Tão Thor. Ele tinha gosto de céu, de pecado.
Era mais que um simples beijo. Era um ato cheio de significados.
Sua língua na minha causou-me uma leve vertigem. Enlacei seu pescoço, trazendo-o para mim, enquanto suas mãos seguravam minha cabeça, me freando quando me voltei afoita, porém isso não durou. Ele se rendeu com um suspiro que eu engoli. Inclinei a cabeça e Thor aprofundou o beijo. Eu gemi baixinho. Nossas bocas se devoravam famintas.
Meus pulmões reclamaram, mas nem eu nem ele queríamos cessar o beijo.
Era a falta que sentíamos um do outro, tristeza, alegria, tudo ao mesmo tempo.
Mas para o meu total desgosto, Thor abrandou aplicando pequenos e suaves beijos em meus lábios, mordiscando-os de leve. Nós estávamos igualmente ofegantes.
Levantei as pálpebras e encontrei um par de azeviches me fitando com tanto amor que me senti sem chão e envergonhada. Seus lábios roçaram em minhas bochechas e se afastaram.
— Eu já te falei o quão linda você fica toda rosadinha assim? — Neguei com a cabeça, muito entorpecida no carinho que sentia seu polegar fazer na lateral do meu rosto. Seu toque era muito quente e reconfortante, que me permiti fechar os olhos para apreciá-lo melhor. — Me perdoe por tê-la investigado. Eu fui um cretino, mas acredite, eu nunca pensei em usar isso contra você...
Abri os olhos e coloquei meus dedos sobre seus lábios.
— Eu acredito em você.
Thor me lançou um sorriso devastador.
— Isso é bom, neném.
Ele me beijou breve e se afastou indo para a porta.
— Aonde você vai? — Minha voz saiu mais aflita do que eu desejei.
— Vou chamar uma enfermeira, ela precisa recolocar o soro no seu braço.
Dois dias depois
Tinha acabado de tomar banho e já começava a me vestir, com as roupas que me Pietra me trouxera no dia anterior. Thor logo viria me buscar. Enfim, deixaria esse quarto para respirar ar fresco. Dr. Smith tinha passado mais cedo, antes que Thor saísse e me dado alta.
Eu sabia que tinha tido muita sorte por não ter fraturado um osso sequer ou necessitado de uma cirurgia, uma vez que a queda foi feia.
Mas, como Pietra dizia: vaso ruim não quebra fácil.
Amém a isso!
Minha estadia aqui somente não me enlouqueceu por ter Thor comigo. Tínhamos nos acertado após a portada na minha cara, e eu estava estranhamente feliz por isso. Thor esteve comigo desde então apenas saindo por curtos períodos, todavia, nestas ocasiões Pietra tomou seu lugar.
Hoje foi uma dessas ocasiões, mas Pietra não tinha vindo e Thor parecia muito misterioso antes de sair. Eu ainda tentei saber o que estava acontecendo, porém ele disse que não era para eu me preocupar e que ele viria me buscar em uma hora. Eu aceitei, afinal estava saindo daqui.
Cara, eu realmente odiava hospitais!
Terminei de me vestir e sentei na poltrona, lembrando-me da primeira noite que dormimos aqui, depois que eu acordei...
Já era noite e, apesar das minhas pálpebras estarem pesadas, eu não conseguia dormir. Me desloquei para o lado e fitei Thor sentado em uma poltrona, mexendo no notebook. Seus olhos pareciam cansados, aliás, seu semblante estampava o cansaço personificado.
Engoli saliva e mordi o lábio inferior, indecisa.
— Thor — arrisquei.
Ele levantou os olhos para mim.
— Está sentindo alguma coisa?
— Não. É que...
— Sim?
— Você vai dormir aí?
— Sim. Eu já disse que não vou sair do seu lado.
— Nessa poltrona? — Ele assentiu. — Mas ela é muito pequena.
Ele tentou, mas eu bem vi o sorriso no canto direito de seus lábios.
— E o que você sugere?
— Bem, você pode dormir aqui comigo — murmurei com o rosto em brasas.
— Você está tentando me seduzir?
— Claro que não! Eu só acho que a cama é grande o suficiente para nós dois e essa poltrona vai acabar com as suas costas — expliquei o óbvio.
— Mentirosa! Você está querendo se aproveitar de mim. Escuta, sei que sou gostoso, mas é absurdo você não sossegar o facho nem numa cama de hospital.
— Você é muito convencido, seu ordinário — ralhei. — E quer saber? Fica aí então. E tomara que suas costas doam muito amanhã. Boa noite! — acrescentei zangada e virei para o outro lado.
Dio Santo, eu nunca tinha conhecido um cara tão irritante como ele!
— Eu também não consigo dormi sem seu corpo quente colado ao meu. — Sua voz soou próxima a minha orelha, segundos depois. — Tem sido um inferno dormir longe de você.
Dei a volta para olhá-lo.
— Eu não disse isso.
Thor soltou uma risada baixa.
— Certo, certo... Chega pra lá, tarada.
Fiz como ele disse e ele se aconchegou do meu lado. Nós somente tínhamos uma posição em que podíamos ficar confortáveis: de lado. A propósito, havia outras bem interessantes, contudo, meu corpo não aceitaria muito bem. Os braços dele rodearam minha cintura. Eu me aconcheguei dentro de seu cerco, adorando sua respiração morna bater em meu pescoço. A temperatura quente e a sensação da solidez de seu corpo era um relaxante natural para o meu.
— Você mente muito mal, neném. Se me quer, apenas diga isso e você me terá aonde quiser.
Em silêncio saboreei aquelas palavras. Ele era meu. Eu gostava de como isso soava, embora meu subconsciente rangesse os dentes para mim, mas o calei com um tapa.
— Eu não transei com Brian — confidenciei alguns minutos mais tarde.
Thor se mexeu desconfortável. É claro que ele não gostava de Brian, pensei, e eu não tinha nada que trazer esse assunto agora. No entanto, precisava que ele soubesse disso.
— Não importa o que aconteceu. É passado — ele murmurou áspero. — Vamos esquecer tudo e começar de novo. Entretanto, não nego que fico feliz em saber disso.
— Me desculpe por ter te dito aquelas coisas, eu estava nervosa. Aquele documento me deixou transtornada...
Ele me virou de frente para ele com facilidade.
— Eu também te disse coisas que eu sei que te machucaram e, confie em mim, eu quase morri por tê-las dito. Perdoe-me por isso também. Se pudesse, acredite, as tomaria de volta.
— Va bene. Nós dois erramos.
— Eu amo você.
— Não fique me dizendo isso.
— Não posso atender a seu pedido querida, sinto muito, se eu não falar eu explodo. Eu te amo. Isso não é vergonha nenhuma para mim, portanto, se acostume.
— Eu detesto esse seu jeito mandão.
— Detesta nada! Você me adora.
Beijei seus lábios. Era um beijo calmo e terno.
— Não faça isso novamente — ele repreendeu quando recuou. — Eu falo sobre esses maus entendidos entre nós. Quando tiver alguma coisa que queira saber ou alguma dúvida chegue a mim e fale. Não tire conclusões precipitadas. Veja o que isso nos causou e o quanto custou para nós dois. Se você tivesse falado comigo no primeiro instante nada disso teria acontecido. Então não faça isso, novamente. Não tem motivo para ter medo de mim. Eu vou responder a tudo que você me perguntar, dentro dos meus limites, é claro. É assim que adultos resolvem os problemas.
— Mi dispiace, eu estava puta da vida com você.
— Eu sei e até entendo. Mas você agiu como uma criança. Prefiro que grite comigo e me bata, qualquer fodida coisa, exceto agir como uma menina de dois anos... Prometa-me Antonella que qualquer dúvida que tenha ou qualquer coisa que se passar nessa sua cabecinha de vento, você não vai tirar suas próprias conclusões e vai me procurar antes de tudo.
— Prometo.
Depois dessa conversa eu me senti mais aliviada. Havia uma verdade irrefutável em suas palavras e em seus olhos. Thor tinha sido sincero quando disse não ter a pretensão de me manipular ou chantagear com aquele dossiê. Foi uma estupidez da parte dele ter me investigado depois que nos conhecemos, mas ele não me oferecia risco, pelo menos eu estava acreditando nisso, a não ser que ele fosse muito dissimulado. Porém preferia acreditar que ele só me disse a verdade. Se ele tivesse a intenção de usar aquilo contra mim não o teria deixado em um canto qualquer, afinal.
Está certo, que dei aquele show e tudo mais. No entanto, eu estava nervosa e, bem, agi por impulso. Agora com tudo em panos limpos ficava mais fácil entendê-lo e compreender suas razões, mesmo não estando de acordo. Isso me fazia lembrar a cobra loura. A Srta. Píton disgraziata.
Como eu não pude perceber que ela estava distorcendo toda a situação a favor dela?
Thor a tinha descartado, e ela não iria aceitar perdê-lo tão facilmente, ainda mais para mim. Mas o que era dela estava bem guardado. A Srta. Píton iria me pagar caro por isso.
Resolvi não dizer nada para Thor. Eu mesma fazia questão de esfregar na cara dela que ela não passava de uma vadiazinha invejosa e recalcada. Uma inútil. Um nada.
— Um beijo pelos seus pensamentos.
Thor se inclinou para baixo, com as mãos sobre os braços da poltrona e esperou. Eu sorri e dei um selinho em seus lábios, em seguida, me afastei segurando o riso pela careta que ele fez.
— Che? Você pediu só um beijo.
— Mas é assim que quero. — Sua boca estava sobre a minha, num beijo de tirar o fôlego. — É desse tipo de beijo que eu estou falando.
— Eu já estou pronta.
— Então vamos!
Franzi o cenho para sua animação, ele tinha os olhos muito divertidos e um sorriso misterioso, que colocou curiosidade nas minhas veias. Mas não questionei. Logo saímos.
— Thor nossa mansão fica na direção contrária. Você sabe. Tínhamos de ter pego aquela saída lá atrás — falei momentos mais tarde.
Seus dedos acariciaram meu queixo quando ele beijou meus lábios de leve.
— Fico feliz em ouvir você dizer nossa.
— Não desvia do assunto. Onde estamos indo?
Ele riu. Um som gostoso que fez minha barriga tremer.
— Você já vai saber e não me tenta com esse biquinho.
Benjamin entrou em um hangar de uma pista de vôo particular. Hoje estávamos com motorista que no caso era o meu segurança, o que era bem estranho. O carro parou ao lado de um jatinho e Thor desceu ao mesmo tempo em que o motorista-segurança abria a porta para mim.
Desci e olhei em volta e depois para Thor, que esteve falando com um piloto, e agora, caminhava de volta para mim, com um amplo sorriso na face.
— O que significa isso?
— Ajude com as malas Ben e depois você está dispensado — ordenou ele e me olhou, como quem estava prestes a dar a notícia do ano e plantou as mãos em meus quadris. — Vamos viajar.
— Como assim viajar? — indaguei um pouco irritada. Irritação essa que foi para o espaço quando senti seus lábios percorrem meu pescoço me deixando arrepiadinha. — T-Thor, eu não posso viajar assim — ralhei, puxando seus cabelos para que ele me olhasse.
— Por quê?
— Eu não arrumei nada — murmurei com a voz mole.
— Pietra arrumou algumas coisas para você e, se precisar de algo mais, nós compraremos quando chegarmos — ele sussurrou no meu ouvido. — Eu já cuidei de tudo neném.
— E o que eu faço com minhas aulas, oh, grande gênio?
— Você tem alguns longos dias de atestado para ficar em casa, ademais, sei que é a primeira da sua turma então não terá problemas. Eu também conversei com seu reitor. Está tudo resolvido.
— Ma...
— Mas nada. Está tudo resolvido. Só não vamos se você não quiser. E então?
Fiquei em silêncio, nem eu mesma sabia por que estava indecisa. A idéia de ficar a sós com ele sem ninguém para atrapalhar era tentadora e me agradava muito, porém eu tinha medo.
— Tudo bem, querida. Não tem de aceitar, se não quiser. Eu vou dispensar tudo e voltamos para a mansão — ele murmurou num muxoxo. Thor estava desapontado.
— Não! Eu quero ir — me apresei em dizer.
Thor me beijou e como de costume logo o clima esquentou. Suas mãos apertaram meu corpo sem pudor. Eu estava adorando, mas não podia ignorar que havia pessoas nos olhando.
— Thor, diminua — ofeguei, com o rosto quente. — Tem gente olhando.
— É bom que eles vejam que esse corpo gostoso já tem dono. Assim evitamos problemas.
— Você é tão absurdo.
— E possessivo com o quê é meu, lembre-se disso. — Olhei em seus olhos. — Pronta?
— Sempre.