Dangerous
Capítulo 44
Não queria sair da cama quando acordei. Estava muito bem acomodada entre os lençóis macios e cansada o bastante para permanecer deitada por mais algumas horas, mas havia essa estranha comoção inquietante agitando-me por dentro até que meus membros estavam formigando.
Eu estava chafurdada na lama até o pescoço. O azar tinha invadido meu ser e proclamado meu dono, com direito a grito de independência e tudo mais. Só podia ser isso!
Tudo que planejei com tanto cuidado caiu por terra. Nada deu certo. Nada! Tudo estaria tão bem, se aquele stronzo tivesse demorado só mais um pouquinho. Ou melhor, se ele não tivesse aparecido na clínica, agora nossas vidas estariam de volta ao rumo certo. Tudo em seu devido lugar.
Estava morta de raiva dele, não apenas por bancar o Superman dentro da clínica, mas, sobretudo, pela maneira que ele me tratou, como se eu fosse uma qualquer. Um nada. Arrastando-me até o carro como se estivesse levando o lixo para fora. Bastardo de merda!
Ele não podia ver que eu estava tentando arrumar as coisas?
Eu só não tinha retrucado a altura porque, bem, ele estava transtornado. Nunca tinha visto Heithor daquela maneira fria e tão funesta. E, para ser franca, aquele Heithor me deu um medo dos infernos.
Com um exalar irritado, joguei os lençóis para o lado e os pés para fora da cama, e em seguida, segui para o banheiro muito autoconsciente da minha bexiga estourando.
Enquanto fazia xixi eu apoiei os cotovelos nas coxas e a cabeça nas mãos, meu olhar sonolento se perdendo a frente quando minha mente reviveu a outra noite num impulso inconsciente.
Heithor tinha me procurado com o acordo em mãos. Um documento por escrito com todas as clausuras que tínhamos estipulado. Limpo e claro. Eu li e assinei.
Ele não tinha me olhado em nenhum momento, nem dito nada além do necessário. E, para ser honesta, não sabia bem como me senti exceto pela raiva espinhosa, minha fiel companheira. Aquele documento dava à garantia de que ao fim de tudo isso ele cumpriria sua palavra, mas também era uma prova irrefutável de que ele não me amava o suficiente, do contrário, Heithor não escolheria o borrão a mim.
Tudo por culpa daquele invasor do caralho!
Maledetto!
Como eu podia ser conivente com isso quando tudo que ele me trazia era dor e rejeição por parte daqueles que um dia disseram me amar e serem meus amigos?
Enquanto ele ganhava fãs, eu, simultaneamente, ganhava odiadores.
Até mesmo aquele ordinário apunhalava-me pelas costas.
Uma palavra. Uma única maldita palavra tinha sido o bastante para Heithor me jogar de lado junto com todas aquelas palavra bonitas que um dia ele encheu a boca para me dizer.
Foda-se!
Que todos fossem a merda junto com o pequeno bastardo!
Era isso que eles queriam, certo? Então que fossem felizes com ele e me deixassem em paz. Porque uma coisa era certa, eu nunca iria perdoar nenhum deles. Nunca mesmo!
O que não me soava muito animador era não ter Heithor mais. Ainda sentia raiva por ter me colocado nessa furada, porém o queria por perto... o queria para mim. Queria que voltássemos a ficar juntos como estávamos antes de toda essa merda explodir entre ele e eu. Pensar que não haveria mais a possibilidade, mesmo remota, da gente ficar juntos, de beijá-lo, de sentir seu gosto e seu cheiro bom, de ter ele todo, era extremamente desanimador e ruim. Muito, muito ruim.
Entretanto, para tudo havia um preço a pagar, um sacrifício a fazer. E se o preço para obtiver a minha vida de volta fosse perdê-lo para sempre, eu pagaria. Com pesar, mas pagaria.
Eu não amava aquele ordinário e tinha feito à coisa certa ao aceitar seu acordo.
Fiz uso da ducha e, logo após, me embrulhei em uma toalha em tempo recorde. Estaquei rente a pia para escovar os dentes ignorando o espelho, deliberadamente. Não precisava olhar meu reflexo para saber que estava um trapo. Sentia meus olhos inchados e, provavelmente, estavam com profundas olheiras.
Inspirei fundo afugentando a vontade súbita de chorar.
Odiava me sentir indefesa e os choros compulsivos não ajudavam, aliás, eles apenas me deixavam mais aborrecida e irritada comigo mesma, pois me transformavam em uma pessoa fraca.
Lavei a boca e usei a toalha de rosto então penteei o cabelo, e, em seguida, dei a volta apoiando meu quadril na borda. Fechei os olhos por um instante, sentindo pena de mim mesma.
Estava tudo tão malditamente errado, que meu desejo era dormir e acordar somente quando esse pesadelo, que se tornou minha vida, tivesse acabado.
A verdade é que não havia certezas para o futuro e eu não tinha ideia de como seria minha vida depois que tudo terminasse. Ansiava com todas as minhas forças que tudo voltasse ao que era antes de Heithor aparecer, queria acreditar nisso, porém, apesar de meus esforços para me agarrar a essa ilusão, eu sabia que não passava disso, ilusão.
Talvez sim, talvez não.
Soltei um riso bufado.
Talvez.
Eu que sempre acreditei que “talvez” era uma palavra de pessoas indecisas, medrosas e estúpidas, que nãos sabiam o que queriam para si mesmas, agora, estava íntima dela, quase uma melhor amiga. Minha vida certa de antes hoje era regida por inúmeros “talvez”, apenas com a única certeza era de que Heithor e seu borrão inútil sairiam da minha vida em um futuro próximo...
Engoli duro e transladei até o closet, onde me vesti de forma confortável — moletom e regata.
De volta ao quarto, escorreguei a bunda na poltrona perto da janela panorâmica, com vista para a área externa do fundo da mansão e o mar mais adiante. Suspirei e encostei a cabeça no respaldo.
Por um sólido momento apenas fiquei parada, respirando de maneira rasa.
Alternei o olhar entre a cama e a porta enquanto tamborilava os dedos nos braços do assento, franzi os lábios e testa, analisando minhas duas possibilidades: a) deixar o quarto para matar a fome apertando meu estômago, mesmo com o risco de ter de olhar na cara dos malditos, e b) ficar trancafiada nessas paredes jogada na cama, como uma morta viva.
Em uma mão, a cama me parecia bem convidativa, porém não suportava mais olhar para aqueles móveis e as malditas paredes em tons pastéis, sem vida e frias. Nada mudava. Era sempre a mesma coisa e isso estava obtendo a merda fora de mim. Em outra mão, sair seria um alento para a minha mente e minhas pernas atrofiadas, principalmente, para o meu estômago dolorido.
No entanto, não queria encontrar Heithor.
E havia Pietra também, aquela cadela traidora.
Ainda não podia acreditar que ela tivesse me dito aquelas coisas horríveis e, embora ainda estivesse raivosa por ela, eu me sentia mal por termos discutido. E, se fosse um pouco mais honesta, diria que me sentia uma merda por haver induzido que nossa amizade não era importante. Eu amava a cadela, mas ela estava ajudando aquele doido a foder com a minha vida, amigas não faziam isso, cazzo!
Que merda mais ela queria de mim?
O filho dele já estava garantido, não estava?
No entanto, isso não era o bastante para nenhum deles. Ela também era crível de que eu tinha a obrigação de sorrir para todos, aceitar seu fratellino e as regras dele de cabeça baixa.
E sabe o quê?
Eu não pedi a porra de amor de ninguém!
Nunca tinha prometido nada a ele. Se Heithor estava ou não sofrendo isso era problema dele, foi ele quem quis assim. Infelizmente, minha melhor amiga parecia não enxergar este detalhezinho, pois em sua cabeça de vento eu tinha o dever de retribuir os sentimentos daquele maledetto.
Porra nenhuma!
Eu não era obrigada a nada. Não era obrigada a amá-lo, como aquele mentiroso dizia me amar. Não tinha de corresponder à bosta de sentimento nenhum!
Não precisei amá-lo para que tivéssemos bons momentos e eu era feliz com isso. Ele idem.
Eu me sentia no meio de um bando de loucos, que insistiam em dizer que o sol era quadrado mesmo eu mostrando que ele era redondo. Isso era desesperador.
Por que era tão difícil enxergar que minha opinião era a mais correta?
Heithor, de uma forma ou de outra, também contemplaria os benefícios de não ir adiante com essa maluquice. Entretanto, o cretino cabeça dura permanecia fiel a sua ideia desvairada. Então pensei sobre isso e, bem, ele sempre tivera o controle da situação, era um prepotente arrogante, que gostava das coisas ao seu modo, mesmo quando errado. E foi aí que me dei conta que isso não passava de um capricho dele. Ele era o macho alfa – pensava – e a opinião dele era a que contava, não a minha.
Se houvesse uma vítima nessa merda toda, certamente, não era Heithor, senão eu. Era a minha vida que estava ruindo ao pó sem que eu nada pudesse fazer.
Se eu apenas pudesse voltar no tempo e obrigar Heithor usar a merda do preservativo...
Cortei o pensamento com um gesto brusco de cabeça, porque a verdade era que não mudaria qualquer coisa remoer os “ses”. O tempo não iria retroceder e eu apenas ficaria mais enervada.
O ronco alto do meu estômago me fez soltar um muxoxo, suspirando derrotada quando minha fome ganhou a luta silenciosa. Coloquei-me de pé decidida a ignorar todos que se interpusessem em meu caminho. Iria comer e tomar alguns minutos no deck. Tracei meu itinerário.
Vá em frente garota!
Foi só fechar a porta atrás de mim para que uma onda de desanimo se quebrasse em meu interior quando cravei os olhos sobre a porta dele de frente para minha. Eu ainda tentei espanar para longe os pensamentos que encheram a minha cabeça sem êxito.
Ele estava lá? Ainda dormia? Ou já tinha saído?
De repente, sentia a estranha necessidade de vê-lo, de saber como estava, como havia dormido e, sobretudo, quando ele viajaria e se iria mesmo...
Bufei indignada, apoiando as costas na porta, com meus punhos cerrados e os olhos fechados, tentando dissipar aqueles pensamentos impertinentes, porque não era minha culpa estarmos vivendo num inferno, senão dele por ser um egoísta e um tremendo machista.
Ele que fosse ao diavolo! Não faria nenhuma falta mesmo, além disso, a distância era a melhor coisa que ele poderia fazer para mim. Enfim, eu teria um pouco de sossego e paz. Mas, mesmo enquanto pensava, eu sabia que estava me enganando. Meu subconsciente atacava desmentindo meu desdém. Era uma bela porcaria que não pudesse sequer confiar em minha mente.
Merda. Não iria chorar de novo, sequer deveria ter lágrimas mais!
Empertiguei os ombros e me aprumei, e então, pisei em direção a cozinha. Por uma razão randômica eu olhei para sala ao chegar ao topo da escada e fiquei mortificada na cena enchendo meus olhos com uma bofetada quando foquei no ponto próximo ao hall de entrada.
Nathan estava na frente de Pietra e ao lado deles estava Heithor abraçando Martha, mas não foi isso que fez meu mundo parar de girar, senão a pequena mala de couro no chão próxima a ele.
Ele estava...?
Expulsei o ar, que não havia dado conta que tinha prendido, num sopro lento e puxei outro enquanto meu coração se afundava de forma gradativa, doendo. Meus olhos queimaram e a garganta se fechou ao mesmo tempo. Os outros sumiram quando foquei no rosto dele. Minha descrença se agigantando.
Ele realmente estava indo embora.
Pietra tinha me deixado consciente de seus planos, no entanto, eu não tinha acreditado que ele realmente seria capaz de ir, não quando me infernizou tanto tempo, quando...
Seu olhar levantou cruzando com o meu e me prendeu, fazendo meu coração tropeçar e minha respiração engatar na garganta. Eu quis desviar os olhos, porque tinha essa necessidade repentina de fugir de seu olhar ferido, mas, como sempre, ele me atraia como um poderoso ímã.
Meus dedos se fecharam com força sobre a barra do parapeito, como se minha vida dependesse desse agarre, depositando nele toda a confusão e frustração que sentia.
O pulsar violento do meu coração se sentia na pele enquanto nos assistíamos, mutuamente.
Ele... ele estava indo sem sequer se despedir de mim. Estava fugindo como um bom stronzo que ele era. Deixando-me sozinha quando prometeu que não me deixaria!
Bastardo maldito mentiroso de merda!
Traguei duro e puxei uma respiração profunda quando meu queixo começou a tremer e senti meus olhos se alagarem, porém segurei cada maldita lágrima enquanto incrédula e com palavras não verbalizadas flutuando entre nós dois, eu entrava em parafuso, ainda incapaz de afastar meus olhos dele.
Cerrei os dentes detendo ao anseio brusco partindo de meu coração burro.
Mesmo longe eu podia enxergar claramente a mágoa em seu olhar opaco. Olhos azeviches que até dias atrás brilhavam com amor para mim e que eu gostava de observar. Agora, estavam ressentidos e acusatórios, distantes e frios. Heithor não escondeu a dor neles e mesmo se estivesse tentando, eu podia vê-la nitidamente, sentia-a em minha pele, dentro de mim.
Um monte de sentimentos atordoantes em um só pacote destinado exclusivamente para mim.
Eu peguei, embora não quisesse, e absorvi cada um, me afogando neles.
De repente, eu tinha toda essa dor conflagrando meu peito, queimando e cortando-me ao mesmo tempo. Fazendo-me sangrar tão fundo, que me deixou com os joelhos fracos e eu me agarrei com mais força ao parapeito. Senti os nódulos dos dedos ficarem gelados e doloridos, todavia, a dor funda que estava sangrando sobrepunha qualquer outra.
Eu não podia pensar direito, minha mente e meu coração haviam criado um reboliço dentro de mim, confrontando-se com suas vontades controversas enquanto eu me mantinha neutralizada.
A raiva que eu sentia de Heithor por ele estar me abandonando e por tudo que havia ocorrido nesses últimos dias chocava-se contra a vontade que eu tinha de lhe gritar para que não fosse e correr até ele, e obrigá-lo a ficar a força, depois, é claro, de lhe dar umas boas bofetadas por ele ser um covarde.
Não queria o borrão, estava puta da vida com o bastardo, contudo, queria Heithor e queria que ficasse perto de mim. Eu até tinha assinado o acordo, merda! Não tinha porque ele ir, mesmo que me odiasse nesse momento e eu sabia que ele fazia. Mas, porra, eu não dava a mínima! Não importava se ele e eu não trocássemos mais uma só palavra ou se brigássemos todo o santo dia, ou, se nunca mais trocássemos beijos e carícias calorosas. Não tinha mesmo vontade de falar com ele, a não ser para machucá-lo da mesma forma que ele fazia comigo. Ele apenas não podia virar as costas para mim!
Eu tinha de vê-lo e saber que ele estava aqui, pois mesmo com todo esse pesadelo criado por ele, eu me sentia segura com o maledetto e queria sua proteção mesmo que de longe; esse longe não podia ser do outro lado da cidade, nem do país, tinha de ser aqui.
Per Dio eu era sadomasoquista!
Foda-se, preferia sofrer a dois do que sozinha. Era egoísmo meu, eu sabia, mas e daí? Ele também tinha parte nesse bolo de merda e tinha de comer isso aqui. Comigo. Qualquer fodida coisa. Só não era viável a ideia de sofrer sozinha, de tê-lo longe e sabe-se lá Dio com quem.
Isso não está certo!
Meu olhar se manteve cravado sobre o rosto de Heithor quando ele quebrou o contato. Minha mente buscando frenética por uma solução para esse impasse do caralho, uma em que eu não bancasse a garota frágil e boba, e fraca. A ansiedade me apertou de tal forma que me senti dura.
A incursão selvagem de sentimentos e vontades divergentes irrompendo em meu interior me fez tomar o ar a baforadas curtas quando me senti sufocar. Queria tudo e nada ao mesmo tempo.
Eu comecei a me desesperar de uma maneira insana.
Meu coração bateu nas costelas.
Como poderia isso?
Ele está me deixando! Depois de tudo... ele realmente está me deixando.
Com desgosto, eu respirei fundo e endureci minhas feições.
Heithor não se importava comigo e eu já tinha me rebaixado demais para ele, me entregado além do saudável. E olhem só o magnífico resultado? Não iria ser fraca. Nunca mais. Essa não era eu.
Traguei saliva com dificuldade e mordi o lábio a ponto de quase romper a pele. Estava doendo, tudo doía, mas eu sabia, iria passar. Nada durava para sempre e isso aqui também não iria.
Ele que fosse. Eu não precisava dele mesmo. Sempre tinha sido somente eu.
Ele tinha feito sua escolha, afinal.
Abaixando meus olhos enevoados para o chão, com os dentes ainda prendendo o lábio inferior para reter o tremor insistente, eu soltei o parapeito e me afastei.