Dangerous
Capítulo 05
Cristo...
Eu estava indo para a minha morte ou estava bem perto disso quando acordei. Sentia-me sedenta por um copo d’água. Minha cabeça latejava, como se alguém tivesse perfurado meu globo ocular com um furador de gelo. Gemi pelo desconforto. Minhas pálpebras espremeram fechadas, e eu me virei para o lado, tentando fugir da claridade que batia sobre o meu rosto fazendo minha cabeça doer mais.
Eu iria matar o figlio di puttana que tinha aberto as cortinas comigo ainda na cama.
Era domingo, cacete. E eu estava com uma senhora ressaca!
Respirei fundo tentando afastar a sensação de enjoo enquanto massageava as têmporas buscando, em vão, algum alívio para a dor. Ainda estava um pouco zonza e mal conseguia me lembrar de como tinha chegado à mansão quanto mais ao meu quarto. A última coisa da qual recordava era de estar sentada no capô do carro de Brian, bebendo vodka pura e talvez um ou dois shots de Cuervo. E agora, eu tinha bombas explodindo em meu cérebro. Tudo que eu desejava era voltar a dormir por, pelo menos, umas sete horas seguidas, mas antes eu precisava de um remédio urgente e um copo d’água.
Enquanto buscava forças e coragem das profundezas do meu ser para balançar os pés fora da cama, um barulho peculiar chegou até mim, e eu me atentei a ele.
Parecia como se alguém tivesse ligado à torneira da pia do meu banheiro...
Merda. Merda. Merda.
Eu tinha trazido alguém para a mansão quando nunca fiz isso. Pior é que eu nem lembrava. E agora, enquanto morria eu tinha que lidar com essa merda. Saco!
A torneira foi desligada. Fechei os olhos por um breve momento e aspirei profundo. Seja quem fosse eu mandaria embora no segundo que colocasse os pés dentro do quarto.
Ao abrir meus olhos novamente e gritei assustada ao mesmo tempo em que pulei sentando na cama. No outro segundo, xinguei baixinho, segurando minha cabeça prestes a iniciar uma nova e intensa explosão pelo movimento brusco.
Parado na soleira da porta do banheiro estava àquele traste, Heithor, descalço e vestindo apenas um jeans. Ele tinha o cabelo úmido. Seu rosto era uma máscara pétrea de seriedade e frieza.
Ma che...?
Fechei os olhos outra vez. Aquilo não estava acontecendo. Era um pesadelo causado pelos efeitos do álcool, que ainda estavam traindo os meus sentidos. Eu abriria os olhos e aquela miragem dos infernos teria desvanecido. Mas, então, sua voz cortante ondulou em volta.
— Ressaca? — Levantei as pálpebras. — Deve estar se sentindo um lixo, não?
— O que está fazendo aqui?
Heithor cruzou os braços sobre o peito nu e me queimou com seu olhar.
— Eu estou me fazendo à mesma pergunta — ele disse, mantendo seu tom baixo, quase como se soubesse o quanto minha cabeça doía.
Abaixei meus olhos fugindo do seu olhar inquisidor e, enfim, dei-me conta da minha nudez. Nua, como vim ao mundo. E ele estava lá. Merda.
Oh, Dio, que eu não tenha dado para ele de novo.
— Por que eu estou pelada?
No momento que fiz a pergunta, quis trazer as palavras de volta a minha boca.
— Você mentiu para mim — acusou, num tom glacial, ainda baixo. — Você não passa de uma fodida patricinha de merda que só faz loucuras sem medir as consequências de seus atos.
Eu quis mandá-lo ao inferno por falar daquela maneira comigo, porém minha cabeça doía tanto que preferi manter o silêncio. E, bem, ele parecia meio demoníaco.
Ele avançou para a cama, sentando na borda. Eu recuei pregando minhas costas contra a cabeceira enquanto juntava o lençol sobre os meus seios nus.
— Não precisa ter medo de mim. Eu nunca vou te machucar Antonella. Mas é bom que saiba, enquanto eu estiver aqui nem um homem além de mim irá te foder.
Eu não sabia discernir se meus olhos cresceram pasmados por sua promessa, soando mais como uma sentença irrefutável, ou se por sua mão se dobrando em meu queixo. A pressão de seus dedos em minhas bochechas espremendo minha carne contra os dentes não foi gentil e doeu.
Ele continuou sem se alterar:
— Não há nada que me deixa mais fodido do que a mentira então não minta para mim, Antonella. Nunca. E que essa sua saidinha seja a última vez. Esteja ciente que se houver uma próxima, eu vou te colocar em meus joelhos e te dar umas palmadas até que não possa se sentar por uma semana inteira.
— Está me ameaçando?
— Não perco tempo com ameaças, eu prometo e sempre cumpro cada fodida palavra que digo, seja qual for. — Um sorriso arrogante curvou seus lábios. — Já te provei isso, não?
Meu corpo reagiu, estremecendo.
Caramba, eu detestava esse homem!
Sua expressão então ficou muito séria.
— Usou camisinha?
Enrijeci, piscando em assombro.
— Sei que fodeu outro ontem à noite. Foi o que cantou petulante para mim quando tive que cuidar da sua bebedeira quando você chegou não podendo dar um passo sem ter sua cara no chão — explicou ele, brandamente. — Agora, me responda. Usou camisinha?
Minha cabeça moveu, assentindo, involuntariamente.
— Está no controle de natalidade? Você sabe, nós dois fodemos sem camisinha nas duas vezes e nessas duas eu gozei dentro. Estou limpo. Nunca fodi ninguém sem usar proteção exceto com você.
— Eu também não, — empurrei as palavras entre dentes.
— Responda a primeira pergunta.
— Sì.
— Ótimo. Eu tenho exames recentes que provam que estou limpo. Eu te darei isso. Mas marcarei uma consulta numa clínica da minha confiança para fazermos todos os exames necessários. Não quero nenhuma barreira entre nós dois quando eu te comer, novamente.
— Você está me machucando — murmurei baixinho.
Seu aperto afrouxou, ainda assim era firme.
— Você me pertence. Não apronte de novo. — Ele me soltou e ficou em pé quando acrescentou num tom suave. — Beba o leite e tome o remédio que deixei na mesinha ao seu lado.
Pisquei mais desconcertada e movi o olhar para o lado. Minha cabeça doía tanto, que não pensei duas vezes pegando o comprimido e um copo com leite. Levei o comprimido à boca.
— Primeiro beba um pouco do leite, do contrário se sentirá mais enjoada se tomar o remédio sem nada no estômago. — Ele esperou até que eu fizesse o que ele pediu, como se eu fosse uma criança. Sorte dele que eu estava com dor. — Já mandei preparem algo leve para você comer, estará aqui a qualquer momento. Coma e descanse. Depois iremos conversar.
Em choque, o vi caminhar em direção à porta sem nem uma palavra mais e sair.
Santo Dio. Eu bebi e foi ele quem ficou chapado. Esta era a única explicação plausível para o que acabara de acontecer. Definitivamente, ele era um stronzo por excelência.
Quem esse merda estava pensando que era para me tratar daquela forma? E pior, mandando em mim como se eu fosse sua cachorrinha adestrada? Nem meus pais mandavam em mim, porra.
Cretino. Miserável. Babaca.
Ele tinha saído para se divertir com a cadela loura, e ele ainda se achava no direito de ficar putinho por eu ter me divertido? Rá!
Aguardei meu café, ainda remoendo minha raiva. O remédio começava a fazer efeito quando uma das empregadas da mansão apareceu, trazendo uma bandeja. Comi alguns bocados da salada de frutas e metade de um croissant com cream cheese então devolvi a bandeja a ela e pedi que fechasse as cortinas, antes de sair. E em seguida, apaguei.
— Diga que a sua ressaca foi tão ruim quanto a minha. — Pietra exigiu quando pisei na cozinha horas depois, já recomposta da minha manhã infeliz.
Eu fiz uma careta para ela e beijei o rosto de Josie.
— Nem me lembre disso. Acordei pensando que alguém tinha me socado a cabeça até a morte.
Fui até a geladeira, e lá me servi de um generoso pedaço de lasanha e levei ao micro-ondas. Regulei os minutos e apertei iniciar então fui atrás de uma garrafa de suco de laranja.
— Lembre-me de nunca misturar vodka com tequila. Ontem a ideia não pareceu um mau negócio. Mas hoje, per Dio Santo, eu juro a vocês que pensei que não chegaria a ver a luz do dia.
Eu estava totalmente de acordo.
— Não penso em bebê-las juntas tão cedo. Sozinhas elas já são do diabo.
— E não é só isso. — Seu tom chamou a minha atenção. Ela prosseguiu, inclinando a cabeça para nós, como se fosse dizer um segredo. — Acho que falamos umas coisinhas que não deveriam ser verbalizadas, pelo menos não na frente dos caras.
Eu sabia que sim, mas me fiz de sonsa. E, bem, eu realmente queria saber o que tinha dito ontem, além do já revelado por Heithor. Não podia me lembrar de qualquer coisa.
— O quê?
— Você não lembra, não é? — Sacudi a cabeça, ignorando o bip do micro-ondas. Pietra curvou o tronco para frente, deu uma olhada para cima em direção à porta e depois me olhou. — Eu não posso me lembrar de muita coisa, mas Nathan me disse algumas quando acordei hoje de manhã... Ao que parece, eles voltaram para casa antes de nós e ficaram nos esperando. Pela ressaca você pode imaginar como chegamos, não é?
De repente, eu tinha o coração desesperado.
— E então? — Josie sussurrou.
— Então que eu posso ter revelado minhas intenções com Nathan... na frente de Thor! Quero dizer, eu sei que fiz. Nathan deixou isso claro, bem como, que não há esperança de nós termos qualquer coisa. Humpf! Como se eu quisesse algo mais que o pênis dele por algumas horas.
— Ewwww! Não seja tão cadela.
— Por que eu iria mentir se é exatamente isso que quero dele?
— Mas você não precisa ser tão direta e usar isso desta forma, sabe?
— Desculpe, Srta. Pureza. Achei que estávamos entre amigas.
— Estamos...
— O que você disse? — interferi, cortando Josie.
— Algo como mandar Thor ficar longe das bolas dele, depois de Nathan dizer que Thor faria exatamente isso, porque eu ordenei ele me levar para o quarto e fazer o seu pior. E, talvez, eu tenha feito uma referência sobre termos alguns moicaninhos.
Peguei meu almoço no micro-ondas e retornei a ilhota, sentando-me numa das banquetas altas. Enchi meu copo de suco de laranja e comecei a comer.
— Você já falou com ele? Com o seu irmão?
Ela endireitou os ombros.
— Não. Mas, se ele perguntar, e eu sei que ele ainda vai tirar a merda fora de mim por isso, eu vou dizer que foi o álcool. Quero dizer, ninguém pode se responsabilizar pelo o quê diz ou faz quando se está bêbado, verdade? E, se ele não acreditar, eu digo que não me lembro.
Nada sobre mim e o cretino. Eu relaxei então espetei um grande pedaço de lasanha.
— É uma boa desculpa, mas será que ele vai acreditar?
— Ele não terá alternativa, Josie. Além do que, não é de toda mentira. Eu realmente não me lembro de nada disso. — E acrescentou pesarosa. — Sabe o que é pior nisso tudo? Eu estive com Nathan numa cama, pelada e muito bêbada para tentar algo.
— Também não é como se você fosse conseguir algo quando ele, ainda hoje, deixou claro que não quer nada com você — lembrou Josie.
Pietra lhe lançou um olhar mortal.
— Ti odio.
— Foi você mesma quem disse. E se te serve de consolo amiga, eu acho que ele ficou afim de você. E, não, não estou dizendo isso pra te animar. — Josie confessou devagar, após um momento, fazendo os olhos de Pietra brilharem esperançosos. — Ele pode não querer fazer nada a respeito, mas a verdade é que ele não tirava os olhos de você na piscina.
— Ele tem uma maneira bem peculiar de demonstrar interesse — resmungou Pietra.
— Ou talvez tenha sido você que não percebeu. Estava tão chateada por ele neutralizar suas investidas, que não se deu conta de que a todo o momento ele dava um jeito de tirar você de perto do Adam. Isso tem de significar algo, não acha? Sem falar na expressão dele quando você pediu para o Adam passar filtro solar na sua bunda, foi de dar medo.
Engoli o alimento em minha boca.
— Você fez isso Best?
Foi Josie quem respondeu, encenando a cena que descrevia:
— Ela não só fez como, praticamente, colocou o traseiro na cara dele. Agora imagine a cena, Pietra usando um daqueles biquínis minúsculos que vocês adoram, sabe? Então ela estava lá, toda trabalhada numa inocência que nós sabemos não existir enquanto empinava a bunda na direção do Adam e dizia: Adam, querido, você poderia, por favor, passar filtro solar aqui. Não quero queimar o meu bumbum.
Eu gargalhei até que meus olhos se encheram d’água e minha barriga doía. Somente não sabia se era pela cena que Josie tinha pintado ou pela imitação ridícula que ela fez de Pietra.
Pietra colheu os ombros e gemeu.
— Você faz isso parecer tão deprimente.
— Se foi deprimente, eu não sei P. Mas que foi engraçado vê-lo arrancando o filtro da sua mão do Adam, pode ter certeza que foi. Ele deu uma olhada feia para o amigo, e eu pensei que ele iria te dar umas palmadas ali mesmo.
Eu somente queria saber de uma coisa.
— Mas, então, no fim quem passou o filtro no seu traseiro?
— Nathan passou. E eu juro pra vocês que quase gozei quando ele roçou os dedos perto da minha vagina. Não teve um só fio de cabelo meu que não tremeu, se querem saber.
— Oh, meu Deus! Você não me contou isso, Pietra. — Josie acusou num tom incrédulo.
— Nem pra mim!
— Eu meio que me esqueci. Mas juro pra vocês, ele estava tentando me matar.
— Bem vi que ele estava demorando mais que o normal para somente passar o filtro.
Fiquei pensativa por um breve momento.
— Esse detalhe muda a história, não? Afinal, se ele foi tão ousado é porque está atraído.
— Sim e não. — Pietra deu um suspiro derrotado. — J tem razão. O fato de ele se sentir atraído não quer dizer que queira levar isso adiante. Bem, ele fez questão de me dizer isso, afinal.
— Talvez você deva ir com mais calma, sabe? Ou use Adam — sugeri.
Por um instante sua face se iluminou então murchou.
— Eles são amigos.
— E daí?
— E daí Amada que o problema é justamente esse, eles são amigos. E não incluo somente Adam e Nathan nesta equação, mas Thor também.
— Que merda seu irmão tem a ver com isso?
— Não grite, cazzo! Mamma tá no jardim com uma amiga e não quero que ela nos ouça. Já tenho muita merda para trabalhar aqui. — Ela respirou fundo e continuou com a voz baixa. — Como eu ia dizendo, eles todos são amigos e se Nathan realmente estiver atraído por mim, coisa que acredito, apesar de..., bem, Adam dificilmente dará brecha para que eu possa provocar o amigo, além do mais, Thor também está na equação.
— Não vai dizer que vai obedecer à proibição do seu irmão?
— Você não entende Amada. Eles parecem ter esse código besta de homens entre eles. São amigos, mais que isso, eles são como irmãos e se respeitam. Isto é, a irmã mais nova do amigo é proibida. E no que diz respeito a Thor, eu acho que ele deixou os limites bem claros para os caras e não acho que Nathan está disposto a arrumar uma briga com ele por uma mera noite de prazer.
–– Agora isso é algo interessante. Não me lembro de já ter te visto interessada num cara antes, como está por ele — Josie comentou. — Você está de quatro por ele, verdade?
— Errado. Eu quero estar de quatro para ele, — piscou.
Josie fez uma careta.
— Obrigada pelos pesadelos.
— Ouçam o que eu digo, ele será meu. — Pietra disse, de repente. Suas palavras foram tão firmes, que eu não duvidei dela. Ela era a determinação em pessoa quando queria algo.
Nathan não sabia, mas sua resistência não tinha qualquer chance.
— Isso me soa paixão. Amor, talvez?
— Não sei J. Porém, garanto uma coisa, o que eu quero dele no momento não tem nada a ver com sentimentos fofinhos e bonitinhos. Depois? Não sei. Veremos.
Terminei de comer então me levantei, indo até a pia para deixar meu prato. Em seguida, peguei três colheres na gaveta do armário e voltei entregando uma para cada.
— Acho que teremos mais episódios dessa novela — murmurou Josie, meditativa. — Mas agora, me tire uma dúvida. Por que você nunca nos disse que seu irmão era um tremendo gato?
Minha mão parou a meio caminho do pote de Häagen-Dazs de chocolate com menta. Sacudi a cabeça e peguei o pote então voltei para junto delas.
— Eu disse que ele era charmoso. No entanto, nem você, nem Ella quiseram acreditar em mim. Aliás, Ella nem mesmo acreditava nele sendo real.
Tirei uma colher cheia de sorvete e enfiei na minha boca.
— Charmoso não é o mesmo que gato, lindo e gostoso. Eu não posso falar por Antonella, mas eu sempre acreditei que ele era real. Por que não acreditaria? Só não imaginava que era tuuuudo aquilo, não é mesmo, Ella?
Olhei para Pietra fazendo caso omisso da pergunta de Josie.
— Eu sei que fui uma bruxa com você e já te pedi desculpas por isso. Josie não conta porque ela não viveu na Itália com a gente e só estamos aqui há oito meses. Então há de convir comigo, que pelo tempo que nos conhecemos, e eu nunca ter visto sequer uma foto dele adulto espalhada pela casa junto com as suas e as da tia, além de as visitas dele sempre serem quando eu nunca poderia ir para sua casa era de se estranhar. Qualquer um em meu lugar pensaria como eu.
— E onde fica a confiança?
— Ao lado da razão? Do bom-senso?
— Podemos voltar ao que interessa? — Josie sugeriu, com os olhos brilhando.
Inclinei a cabeça na direção dela.
— Cadê a nossa amiga comportada?
Ela balançou os olhos com chateação.
— Comportada não é sinônimo de cegueira, Antonella.
— Você está muito espertinha hoje, não?
Ela pegou sua parte do sorvete.
— Vai dizer que não reparou naqueles quatro?
— Meio difícil — concordei risonha.
— Meio não. Completamente — particularizou. — Tive de segurar meu queixo para não parecer uma débil mental quando os vi.
— Principalmente o astro, uh? — provoquei, antes de lamber minha colher.
— Astro?
— O louro, com ares de astro hollywoodiano, que você não parava de babar em cima.
Josie corou. Sua desinibição indo para o ralo.
— Bem, o homem é uma coisa. Não posso dizer que vejo um tipo como ele em cada esquina que atravesso, quero dizer, todos eles são de babar...
—... As calcinhas — completei maliciosa.
Josie mordeu os lábios, seu rosto ainda mais corado que há um minuto.
— Talvez eu tenha molhado um pouquinho — ela cochichou como quem confessa um segredo sujo.
Nós três rimos às gargalhadas.
— Isso só prova que você tem sangue quente nas veias, amadinha. Sinal de que a salvação está próxima, não? — Pietra sugeriu quando paramos de rir. — Adam também é um gato.
Meu cenho franziu.
— Achei que você estivesse totalmente na do Nathan.
— Estou. Mas não sou cega. E eu ainda estou puta pela cena de ontem e o episodio de hoje de manhã. — Ela olhou para a porta e depois para nós. — E se querem saber, Adam não me parece uma má opção, se ele continuar a fazer cu doce. Sabe que o tipo me dá calafrios? Tipo, bons calafrios.
— Ele parece ser um tipo selvagem e durão na cama, não acha?
— Totalmente, A. — Pietra fixou Josie. — E você, o que fez?
Ela tirou uma colherada de sorvete e enfiou na boca.
— Eu saí para jantar com um cara.
— Jantar, eh? Com quem?
— Pensei que Pietra tinha dito que você estava toda caidinha pelo astro. Tinha algum cara antes dele, que nós não estávamos sabendo?
Silêncio.
— Então? — Pietra incentivou tão curiosa quanto eu estava.
Josie tentou, mas o sorriso já estava lá, repuxando os cantos de seus lábios.
— Bem..., eu não tinha ninguém na mira. Sai com alguém novo. Com... Eric.
Silêncio completo enquanto Pietra e eu pegávamos nossos queixos no chão.
— Vocês saíram pra jantar?
— Por que o espanto?
— Você estava aí me acusando por não ter dito o lance com Nathan quando você própria não me contou que tinha marcado de sair com Eric, aliás, nem que tinham trocado telefones.
— Porque não tinha nada marcado e nós não trocamos telefones. Ele pegou o meu com tia Martha, foi o que ele disse, — ela assinalou, calmamente. — Enfim, ele me ligou, convidando logo depois que cheguei em casa. Eu aceitei e fomos jantar. Fim de história.
— Cuspa!
— Não há nada para ser dito, Ella, além de que saímos para jantar, caminhamos um pouco depois então ele me levou para casa. O que esperavam? Que eu tivesse perdido minha virgindade com ele? Pelo amor de Deus! Eu acabei de conhecer o cara.
— Claro que não, amiga. Se bem que esta seria a notícia do ano, não é, Amada?
Eu ri. Josie fechou a cara.
— Eu jamais me entregaria para um cara que eu mal conheço, ainda mais sendo virgem. Não sou dessas. Não as julgo por levarem a vida que levam, porém eu não sou assim.
— Minha Nossa! Agora me senti uma puttana.
— Eu idem, — Pietra disse com beicinho.
— Por favor! Deixem de serem fingidas. Sou imaculada lá em baixo, mas não sou idiota, okay?
— J? — Pietra a chamou, com uma expressão perversa. — Diga: buceta.
Josie piscou desnorteada.
— Mas o que...?
— Andiamo, ragazza! É só uma palavra.
Vermelho não fazia jus à cor nas bochechas dela.
— Por que eu diria isso?
— Não é isso. É buceta, vagina, vulva, sexo, intimidade, o caralho que quiser. Porque no fim, qualquer um desses nomes que escolher servirá para denominar o que você tem entre as pernas e guarda a sete chaves. Agora diga. Bu-ce-ta. — Pietra insistiu, pausadamente.
— Eu não tenho de dizer nada disso. Você é doida?
Eu tentei, duramente, todavia, não aguentei e cai na risada.
— Fala sério, Josie, você nem consegue dizer uma palavra tão simples do manual sexual, se é que existe um. Somente a insinuação dela te deixa mais vermelha que essa blusa que está usando. E acha mesmo que nós iríamos pensar que você deu para o cara logo no primeiro encontro? Mesmo que o cara em questão te deixou molhada? Não combina. Não é você e nós sabemos disso. E, se acaso isso acontecesse, levaríamos você ao hospital logo a polícia, porque na certa o cara teria te forçado de alguma forma. Simplesmente, porque não é de você agir assim. Como disse, não combina com a Josie Calcutá que conhecemos.
Eu não poderia acusar de Pietra não saber colocar um ponto quando queria.
— Eu..., — ela esclareceu a garganta. — Eu sei disso, assim como vocês sabem que não as julgo, como disse antes. Quero dizer, cada um vive como quer, não?
Apertei sua mão para tranquilizá-la.
— Sabemos amiga.
— Josie, amada, queremos os detalhes, mesmo que não sejam sórdidos.
Ela revirou os olhos e bufou.
— Certo. Mas se ficarem de gracinhas, se sequer fizerem menção de me sacanear, eu me calo e não digo mais nem um A, mesmo que me matem.
Depois de meia hora dela descrevendo seu príncipe encantado, percebemos que realmente não havia nada demais, a não ser seu interesse genuíno nele. Não era como se Josie se encantasse com o primeiro cara que a tratasse bem, mas Eric era um número 10.
— Será que ele tem potencial?
— Acabei de conhecê-lo, Pietra. Não é como se fossemos nos casar amanhã, aliás, apenas saímos para jantar e nos conhecermos um pouco melhor. — E assinalou com veemência. — Eu ainda me mantenho firme. Não será a beleza dele ou seu cavalheirismo que irá me demover da minha convicção. Ele é muito agradável e doce, mas não vou colocar a carroça na frente dos bois.
— Va bene. Isso, no entanto, faz dele um candidato em potencial para te apresentar a uma parte do cardápio dos prazeres, não? Apenas um aperitivo. Você nunca ficou tão animada com um cara antes, e não sei, eu posso estar errada, porém tenho para mim que não ficarão apenas neste jantar.
— E ele deve ser bom de cama — comentei.
— Como diabo eu vou saber disso?
— Estou dizendo que seria apenas broxante pensar o contrário. Lindo e todo cavalheiro, mas terrível na cama? Não mesmo! Melhor pensar que ele é bom neste quesito, também. E como Pietra disse e eu concordo, acho que ele é sim um candidato em potencial para que você ao menos se divirta sem chegar à via de fato.
— Depois eu quem sou a sonhadora boba? Pelo amor de Deus! Somente saímos para jantar e vocês já estão supondo isso e aquilo, como se já fosse algo certo.
— E você não gostaria que fosse? — sondei implicante.
Ela abriu a boca, porém não disse nada.
— Caramba! — Exasperou Pietra, certo tempo depois. — De nós três foi a mais recatada que teve o que queria primeiro. Percebem a ironia disso?
— Por que nós três? Ella está tentando agarrar Adam? Ou é Thor?
Pietra me olhou continuamente, e eu fingi não ver.
— Nem um, nem outro — respondi com desdém enquanto me ocupava de manter a calma.
Certo como o inferno, eu não estava indo tentar agarrar o cretino.
— Por quê? Dizer que não se sentiu atraída por eles seria mentira. Todas nós, e eu quero dizer isso, todas nós babamos por eles, incluso por Thor. Quero dizer, não Pietra porque ela é irmã, mas enfim. Não posso acreditar que seja totalmente imune. Ou é?
— Bom ponto Josie. — Pietra apoiou os antebraços em cima da bancada, olhando-me fixa. Eu me senti espreitada. Não gostei disso. — Então?
— Não nego. Eles são bonitos de doer, mas estão fora do jogo.
Pietra deu um risinho, que eu não entendi.
— Onde se ganha o pão não se come a carne?
— Exatamente.
— Acho que essa frase não se aplica aqui. — Josie discordou, brandamente. — Ele não parece ser do tipo grudento, que fica pairando sobre a garota porque se envolveu por uma noite. Quero dizer, seria apenas uma noite. Além do que, ele não ficará hospedado aqui. Ou ficará?
— Não. Somente Nathan ficará. Os outros ficarão em LA.
— Aqui é meu templo sagrado, onde quero agir sem qualquer constrangimento. E Josie, assim como você não mudou sua convicção de se manter lacrada até o casamento, eu também não mudei a minha de não trazer qualquer conquista minha para casa.
Momentos mais tarde nós nos dirigimos até a sala e nos esparramamos nos dois grandes sofás brancos. Logo Eric apareceu e Josie saiu com ele mais feliz que pinto no lixo.
Teríamos uma semana inteira para colocarmos as fofocas em dia, pensei, ao me lembrar da saga de Pietra também. Era estranho ter homens na mansão, quero dizer, fora os empregados masculinos, mas estes não contavam. Heithor e Nathan sim. Isso fazia uma questão me atormentar os miolos.
— Best?
— O quê?
— Você acha que o seu irmão vai implicar com a gente? Você sabe. Nosso ritmo?
— Eu...
— Excelentes perguntas, Antonella. É sobre isso mesmo que quero falar com vocês. — A voz do assunto soou atrás de mim, me fazendo pular, endireitando a postura ereta.
Olhei para trás, para ele, e não tive um bom pressentimento.
Ele nos ignorou, se voltando para Adam e Norah, que o aguardava, e os levou até a porta. Plissei a testa quando a loura oxigenada enlaçou o pescoço dele para beijá-lo na boca, contudo, ele virou o rosto e o beijo pegou na bochecha. Eu sorri, vendo o embaraço dela pela rejeição sutil dele.
Heithor fechou a porta e, em seguida, se aproximou sentando na poltrona de frente para nós, então fixou seu olhar em Pietra. De soslaio observei Nathan se retirar de fininho.
— Então? — especulei impaciente.
O sorriso dele foi breve, antes de sua face se fechar numa expressão imperturbável.
— Eu serei direto, porque odeio rodeios. — Ele fez uma pausa dramática. — Essas reuniões, saidinhas e a vidinha leviana que levam acabam agora.