Dangerous

Daya Engler · Capítulo 22 de 45

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Dangerous

Capítulo 22

 

— Antonella? Ei, Antonella! O que aconteceu?

— O que aconteceu? Seu irmão aconteceu! O que mais podia ser? Ele é o único que faz questão de atrapalhar a minha vida desde que botou os pés aqui. — Bati a gaveta da cômoda fechada. — Maledetto babaca cabeça de merda! Rato de esgoto! Odio aquele vagabundo! Odio!

— Rebobine aí, per favore. — Ah, eu queria mesmo, mas queria rebobinar até aquela noite trágica de Setembro. — Vocês meio que estavam bem. Quero dizer, você ficou com ele todo o final de semana, o que sugere que fizeram as pazes. Achei que chegaria aqui feliz...

— Felice? Felice! Olhe bem para a minha cara, Pietra, e me diga se eu pareço feliz — exacerbei-me, com as mãos agitadas em fúria. — Feliz está ele por ter tido a honra de eu ter lhe dado umas horas do meu tempo. O que, claro, não vai acontecer mais!

— Calma, va bene? Eu já entendi que você não está de bom humor. Me ilumine aqui, porque eu não estou entendendo nada. O que aconteceu? Vocês estavam bem, não?

Respirei fundo, meus lábios franzindo enquanto eu rolava os olhos.

— Eu não sei o quê você define como "bem" — fiz aspas com os dedos. — Ele não me irritou até hoje de manhã, então, sim, nós estávamos bem. — Até demais para o meu gosto.

— Madre di Dio! Vocês fodem como coelhos e brigam como pitbulls. Isso é o quê? Algum tipo de preliminar pervertida? — Grunhi para ela. — Va bene. E por que vocês brigaram hoje mesmo?

— Perché quel indecente è uno stronzo e bugiardo56! Ele teve a audácia de me mandar embora com a desculpa esfarrapada de que teria uma reunião importante...

Minha língua correu solta intercalando entre os xingamentos e o desabafo. Foi bom tirar aquilo de mim, mesmo que não me fizesse menos raivosa, porém tive um pouco de alívio. Pietra era toda concentração. Só não entendi seu sorrisinho sarcástico quando cheguei ao final da história.

— Macacos me mordam! Realmente, você tem toda razão de estar se remoendo de ciúmes.

— Qual é sua Pietra? Deu para se drogar agora?

— Tô mentindo?

— Não Pietra, você não está mentindo, — seu sorriso ampliou, — você está ficando louca!

— Ah, Ella, per favore! Cale a boca. Não vamos ser hipócritas aqui, sim? Que outra explicação você tem para toda essa sua irritação, se não for ciúme? E, diga-se de passagem, amada, é um ciúme do caralho. Coitado de Thor. É bom alguém avisá-lo para dormir com os olhos bem abertos, caso contrário, ele acordará órfão de bolas. Ou algo pior.

Rangi os dentes e fechei as mãos em punhos.

— Senti Pietra, se for pra falar merda é melhor sair!

— UH... Tá nervosinha? Antonella, será que você não vê que só está assim porque gosta dele?

— Pietra, cara mia, é claro que eu gosto dele — falei, calmamente. — Io non sono stronza! Mas a maneira que eu gosto dele é diferente da que você gosta do Nathan. É sexo. Somente isso! Eu gosto da presença dele, mas não passa de SEXO! Não diga tolices. Porque eu jamais iria me apaixonar pelo seu querido irmão e não é só porque eu não quero me envolver com ninguém. Mas, sobretudo, porque ele é a última pessoa na face da Terra por quem eu me apaixonaria.

— D’accordo. Você não pode se apaixonar por quem já está apaixonada.

Soltei um riso frouxo.

— Em seus sonhos.

— Va bene. Então me explica uma coisa. Por que você está toda bravinha por conta do beijo que eles trocaram? Temos de convir, já que você não gosta dele e que isso entre vocês é só sexo, então você não deveria se importar se ele beija ou não a Norah, ou qualquer outra mulher. Você não acha? A não ser, é claro, que vocês fizeram um pacto de fidelidade.

Eu bufei irritadíssima. Pietra quando queria sabia ser desagradável.

— Quer saber? Vai pentear macaco!

Eu tinha ido caminhar na praia mais irritada do que nunca. As declarações ridículas da minha amiga da onça apenas tinham regado limão em meu humor, e eu cheguei à conclusão de que ela havia perdido a mente de vez. Pietra havia mudado muito desde que começou a namorar Nathan.

Ela somente tinha tido razão num ponto.

Eu não deveria ter deixado aquela situação me afetar tanto. Mas poxa! Eu sou mulher e mulher nenhuma aceita ser substituída bem debaixo do próprio nariz. Heithor tinha surrado meu orgulho. O que me dava o total direito de ficar com raiva. Qualquer outra ficaria. Eu fiquei, também.

Ele tinha voltado para a mansão tarde da noite e me despertado quando espreitou o meu quarto. Eu meio que fiquei feliz e a raiva sumiu assim do nada, também posso ter pedido a ele para ficar e dormir comigo, todavia, isso era porque ele próprio tinha me acostumado mal. Eu gostava de adormecer cercada por ele. O calor do seu corpo e seu cheiro eram um calmante natural para o meu sono. Muito aconchegante. Não vou negar que na manhã seguinte quando ele acordou e veio todo sem vergonha para o meu lado, eu dei um chega pra lá nele. Cogitei brigar e tirar satisfação sobre Norah, mas as palavras de Pietra vieram em minha mente.

Só uma besta apaixonada iria ficar dando crises. Não queria que Thor pensasse que eu estava com ciúmes dele. Era só o que me faltava! Ele já era um convencido, iria se achar mais ainda.

Era problema e mau gosto dele, se ele estava comendo aquela porca troia. Nós não tínhamos nada sério mesmo. E eu, certamente, não era nenhuma boba apaixonada para me importar com isso. Mesmo assim eu tinha ficado com raiva. O que não durou muito, devo dizer.

Thor tinha me seduzido com aquele jeito safado de ser, e eu não tinha resistido. Logo estava em seus braços, gemendo o seu nome novamente, como a boa idiota que eu era.

Alguns dias haviam se passado e minha relação com o Castellammare estava um pouco melhor, quero dizer, nós não éramos namorados ou coisa parecida. Eu preferia pensar que ele era um passatempo, o que não deixava de ser verdade. Thor por sua vez tinha mudado muito comigo desde que saí de seu apartamento. Ele estava mais tolerante, diria que até mais carinhoso. Ainda tínhamos algumas discussões bobas que logo eram esquecidas. Às vezes, eu o pegava me olhando com um brilho diferente no olhar. Havia devoção em seus olhos e outra coisa que não sabia exatamente o que era. Mas de uma coisa eu tinha certeza, eu já tinha visto aquele mesmo olhar em outra pessoa.

Pietra não me importunava mais com suas loucuras, apesar de suas palavras sempre rondarem minha mente. Porém, sempre que possível eu ignorava aqueles pensamentos tortos.

Eu não tinha porque me esquentar com algo que acabaria logo que Thor fosse embora, em vez disso, poderia aproveitar seu tempo na mansão e foi o que fiz.

Uma coisa eu não podia negar, desde que ele chegara, nossa rotina tinha ganhado novas nuances de mudanças. Nem tão calmo, nem tão agitado. Entediado e barulhento ao mesmo tempo. E foi numa tarde na semana do Natal que o agito tomou conta da mansão quando um grito desesperado de Pietra levou-me correndo para a escada. Do topo, eu monitorei a sala.

Em um canto Josie amparava uma Pietra chorosa, seu semblante tão aflito que me apertou o peito. Segui a fixação de seus olhos e o aperto se fez mais firme. O desespero emergiu tomando conta de mim numa foto instantânea.

Thor estava entre Eric e Nathan, que o carregavam feito um peso morto. A cabeça dele pendia para frente e sua camisa branca estava ensanguentada.

Desci os degraus tão rápido que foi um milagre eu não ter rolado escada abaixo. Contudo, antes que chegasse até Thor, Adam apareceu do nada, segurando-me pela cintura.

— Santo cielo! O que... o que aconteceu? Ele...?

— Não, — respondeu Adam. — Ele foi baleado, mas não é nada demais realmente.

— Precisamos levá-lo para o quarto — Eric estalou.

Martha agitou-se aparecendo pelas minhas costas.

— O quarto já está preparado. Venham.

Primeiro, eu fiquei chocada com a calmaria deles, como se o fato de Thor estar praticamente morto não fosse nada, então me desesperei e aborreci ao mesmo tempo.

— Vocês são loucos? Tinham de ter levado ele ao hospital! — gritei enquanto assistia Eric e Nathan desaparecer com ele pelo corredor, que levava aos quartos de hospedes no térreo.

— Sem hospital. O médico já está a caminho.

— Pra quê? Para declarar o óbito dele?

Pietra chorou mais alto.

— Ele não vai morrer — garantiu Adam, num tom feroz, ainda me segurando.

— Me solte Adam.

— Não até que se acalme. Não precisamos de barulho aqui, certo?

Eu ia socar a cara dele. Mas o disgraziato tinha razão, percebi quando trabalhei em minha respiração. Tratei de relaxar. Na verdade, não tinha como eu me acalmar, mas eu fiz.

— Va bene Adam, você já pode me soltar.

Ele ainda hesitou então me soltou, segurando meu braço em seguida quando fiz menção de seguir pelo caminho que haviam levado Thor. Olhei feio para Adam.

— Fique aqui. Pietra precisa de você. — Ele apontou para minha amiga que seguia aos prantos, sentada num degrau do chão da sala de estar.

Meus próprios olhos ardiam ao me aproximar dela, todavia, me segurei. Adam se afastou de nós falando ao celular. Sentei-me com Pietra e cruzei meu braço com o dela.

— Shhh... Tutto andrà bene57 — tentei acalmá-la, mas minha própria voz era insegura.

Ele levantou o rosto, fixando seu olhar alagado e vermelho em mim.

— Você viu a quantidade de sangue na camisa dele? E-ele... ele parecia...

— Não diga isso. Ele ficará bem. Adam disse que não foi nada tão sério e que ele ficará bem para nos atormentar, novamente. Vai ficar tudo bem... Vai... ficar...

Eu repeti o mantra, não sabendo se estava tentando convencer a ela ou a mim mesma. A única coisa que não queria ter era pensamentos negativos naquela hora.

De repente, senti um rastro úmido correr por minha bochecha e limpei isso, rapidamente. Josie se levantou e saiu. Pietra e eu ficamos lá. Não cabiam palavras. Eu também não sabia exatamente o que dizer para acalmar a nós duas. Você sabe. Não ensinavam essas coisas na escola.

Eu nunca tinha visto minha amiga neste estado, com tanta dor nos olhos. Seu desespero era palpável. Eu tentei me fazer de forte e consolá-la, mas estava difícil. O nó espinhoso afligia minha garganta e meus olhos seguiam queimando. Meu coração parecia estar exprimido no peito e um sentimento, que há muito tempo não sentia, se fez presente. Angústia. Angústia por vê-lo naquele estado e não ter certeza de que tudo iria acabar bem, mesmo eu tentando me convencer disso.

O medo que eu sentia era enorme.

Quando Josie voltou entregou dois copos com água – um para Pietra e outro para mim.

— É água com açúcar. É bom para acalmar.

Bebi a contragosto, preferindo mesmo uma dose de algo bem forte para acalmar meus nervos estarrecidos. Uma vez que entreguei o copo a ela, a campainha tocou.

— Boa tarde. Eu sou o Dr. Smith... — A voz forte e masculina dizia.

Me coloquei de pé e fui até ele, dispensando a empregada.

— É o médico que chamaram para ver Thor?

Ele assentiu.

— Gabriel Smith — ofereceu. — Onde ele está?

— Antonella Vicenti. Me acompanhe, por favor.

Acenei com a cabeça para Josie ficar com Pietra e, em seguida, guiei o médico até o quarto. Ao entrarmos, Smith se colocou ao lado de Thor jazendo na cama. Ao ver Thor jogado daquela forma, balbuciando coisas que não faziam sentido, atordoado e quase inconsciente, mexeu comigo. Levei a mão ao peito, deixando-a lá como se o gesto pudesse aliviar o peso repentino em meu coração.

Ele que sempre foi tão imponente, agora, parecia vulnerável demais.

— Venha bambina — Martha me chamou, chorosa. — Vamos deixar o doutor trabalhando.

Balancei a cabeça em negação e desviei de sua mão em meu ombro.

— Não tia — neguei sem desviar os olhos de Thor.

— Eu preciso cuidar do ferimento — o médico disse, num tom sério.

— Faça o que tem de fazer Dr. Smith, mas ninguém me tira daqui — falei categórica, olhando diretamente para os caras, deixando claro em minha expressão que eles teriam um inferno se tentasse me tirar de lá.

— Tudo bem. Preciso de um ambiente calmo para trabalhar aqui.

O aviso não dito em sua voz estava no ar entre nós. Se eu agisse como uma mulherzinha, os caras me chutariam para fora. Mesmo irritada pela ameaça silenciosa, eu assenti e me acomodei em uma poltrona próxima a janela. Martha saiu acompanhada de Eric e Adam.

Não foi nada fácil ver Thor gemer de dor enquanto o médico trabalhava nele. Tinha as mãos suadas e meu coração pequeno demais. Não podia sair. Precisava estar aqui, garantir com os meus próprios olhos que, apesar de no momento Thor estar vulnerável naquela cama, ele ficaria bem para que eu pudesse bater na cabeça dele por aquele susto infernal.

Lágrimas encheram o fundo dos meus olhos e vazaram. Eu as peguei no meio do caminho.

— Pronto. Eu consegui extrair a bala e o curativo já foi feito, — o médico disse, após uma vida de espera. — Logo esse louco estará novinho em folha — ele acrescentou em tom brincalhão, arrancando um sorriso de Nathan, mas eu bem o vi suspirar aliviado. Eu idem.

Fiquei em pé e me aproximei, ainda havia um vestígio muito forte de insegurança em mim.

Thor estava apagado.

— Tem certeza doutor? Ele não corre nem um risco? Será que não é melhor levarmos ele para um hospital? Lá eles têm recursos, são equipados e...

Ele tocou meu ombro.

— Ei, acalme-se! Diminua o ritmo, do contrário, será você quem precisará de um hospital. — Seu tom era tranquilo assim como os olhos claros. Uma calmaria profissional que irritava e não fiz questão de esconder isso, cruzando os braços sobre o peito, meu olhar sério sobre ele. Ele acrescentou. — Fique tranquila. Thor é forte e saudável. A bala não atingiu nenhum órgão. Foi um ferimento superficial no abdômen, que se ele seguir minhas recomendações ao pé da letra, estará recuperado em poucos dias.

Estreitei os olhos, vasculhando os dele em busca de alguma mentira, todavia, eles pareciam ser muito sinceros. Eu relaxei. Smith foi até a cômoda, anotou algo em um papel que pensei ser uma receita e, em seguida, se dirigiu a Nathan, oferecendo a folha. Ele a pegou.

— Ele está sedado. Os remédios que precisará tomar para evitarmos uma infecção e analgésicos no caso de dor estão anotados aí. Os horários também. O máximo que ele poderá vir a ter hoje é uma febre alta, que pode ser usadas compressas frias para abaixar. Agora, se o sintoma persistir ou houver algo mais, me ligue imediatamente. Quer o projétil?

Enquanto o médico tratava com Nathan percebi duas coisas: (1) eles eram íntimos, (2) eles estavam acostumados com aquilo, como se eventualmente um ou outro passasse por tal situação.

—... Qualquer coisa, você já sabe. — Smith se dirigiu a mim, em seguida. — Senhorita Vicenti, apesar dar circunstâncias foi um prazer conhecê-la.

— Obrigada — agradeci, com um sorriso fraco.

— Na verdade, sou eu quem tem de agradecer esse maluco por agitar minha vida pacata de médico, como se eu não tivesse mais nada para fazer que costurar sua bunda feia. — Ele deu um risinho. — Enfim, é meu trabalho. Thor é um grande amigo meu. É sempre um desprazer ajudá-lo.

Balancei a cabeça.

— Até mais doutor — despedi-me quando ele se encaminhou para a porta. Nathan hesitou em acompanhá-lo então eu acrescentei. — Eu fico com ele.

Ele anuiu e saiu, acompanhando o médico.

Apesar de me sentir um pouco mais aliviada, aquele sentimento ruim não passou, e eu tinha a certeza estranha de que ele somente iria quando Thor acordasse.

Puxei a poltrona para mais perto da cama, tentando fazer o mínimo de barulho e me sentei, com os olhos cravados sobre o corpo imóvel. Inferno. Eu definitivamente não gostava de vê-lo desta forma. E não havia nada que eu pudesse fazer a respeito, exceto esperar.

Eu não tenho nada melhor para fazer mesmo.

Estive tão absorta em meus pensamentos, que somente percebi a presença de Pietra quando ela tocou o meu ombro. Olhei para cima, mas ela fitava o irmão, com os olhos lacrimosos.

— Lui sta bene 58, Pietra — sussurrei mais para mim do que para ela.

— Eu sei amada. Mas é difícil pra eu vê-lo tão vulnerável. — Segurei sua mão. — Você já perdeu alguém da sua família? Eu sim. Mesmo que fosse muito pequena para entender, eu senti... Mamma é maravilhosa, mas eu tinha meus pais, capisce? Eu esperei por eles voltarem para casa por anos, até que a ficha caiu completamente e eu me dei conta de que isso nunca iria acontecer. Sei que a morte é inevitável e um dia todos nós iremos. No entanto, esperamos que a família mais próxima, pais e irmãos, se vão quando estamos bem velhinhos. Ou nunca se possível. Eu já tive a minha cota e seria muito injusto se... Ele é a única família de sangue que me restou.

Engoli o bolo em minha garganta.

— Eu entendo, embora não possa imaginar a dimensão da dor que..., enfim. Sabe o que eu acho? Que devemos espantar esse baixo astral. Thor está bem. O médico garantiu, e eu sei que ele não mentiu, caso contrário, ele não iria permitir que seu irmão se recuperasse em casa, certo?

Ela abaixou seu olhar para mim, um sorriso singelo oscilava nos cantos de sua boca.

— Grazie.

Achei de bom tom dar um tempo a ela com o irmão então saí. Comi algo. Tomei banho. Liguei para minha Mamma. Depois retornei ao quarto e me sentei ao lado de Pietra. Permanecemos lá por algum tempo, reconfortando uma a outra em silêncio, até que bocejei.

— Vai dormir amada.

Sacudi a cabeça.

— Non. Sto bene.

Depois do quarto bocejo, ela insistiu.

— É sério. Vai dormir. Eu fico com ele mais um pouco. Sei que não adianta nada ficar aqui, mas... Quando me cansar, eu revezo com mamma.

Forcei um sorriso amigável, mascarando minha irritação por sua insistência. Sabia que ela tinha mais direitos do que eu, entretanto, não queria ir para o meu quarto.

— Se você não se importar, eu quero ficar — empurrei as palavras em tom baixo. Ela sorriu, e eu acrescentei. — Você pode ir dormir... Eu nem estou com sono ainda.

— Não tem de fazer isso — ela apontou baixinho.

— Sei.

Silêncio.

— Va bene. Eu estou precisando me deitar. Buonanotte.

Seus lábios estalaram um beijo em minha bochecha.

— Buonanotte.

A noite foi um tanto turbulenta. Em algum momento, Thor começou a delirar, não falando coisa com coisa por conta da febre alta. Eu só não entrei em desespero porque o médico já tinha alertado sobre isso. Martha me ajudou com as compressas, que grazie a Dio, ajudaram abaixar a temperatura. Só por precaução, coloquei a mão em sua testa e constatei que a febre tinha abaixado.

Zia Martha saiu com a bacia d’água e as compressas.

Eu voltei para o meu trono e levei um susto quando bati os olhos sobre um despertador em cima da mesinha de noite, devido à hora tardia. Passava das quatro da manhã.

— Bambina, vá se deitar, que eu fico com ele — Martha disse quando retornou.

— Não tia. Sto bene — eu disse, bocejando.

— Vai amanhecer em poucas horas. Precisa dormir um pouco no conforto de sua cama. Amanhã tem aula...

— Grazie per la preoccupazione, ma io resto qui — assegurei convicta.

— Tutto bene, cara mia. Eu vou me deitar no quarto aqui do lado. Qualsiasi problema, chiamami, sì 59? — murmurou ela, passando a mão sobre o cabelo bagunçado de Thor e lhe deu um beijo maternal na testa.

— Eu chamarei.

Depois que Martha saiu, eu me ajeitei como pude na merda da poltrona, tentando achar uma posição confortável. Eu não queria dormir. Queria ficar acordada caso ele acordasse e precisasse de alguma coisa, contudo, em algum momento meus olhos pescaram e eu fui fisgada.

Antonella? Ella, querida? Neném?

Eu gostava dessa voz na minha cabeça. Até sorri em mente e me mexi, aconchegando-me melhor enquanto ela cantarolava em minha mente.

Antonella?

Pisquei, despertando aos poucos, com a sensação de que o chamado rouco e baixo, em meu sonho persistia. Não queria abrir os olhos ainda.

— Antonella... Neném?

Meus olhos bateram abertos de súbito. Assustada. Encontrei Thor me fitando.

— Thor — sussurrei, me levantando e fiz uma careta ao constatar que minhas costas estavam moídas. Logo me voltei em alerta quando o vi fazer uma expressão de dor ao tentar se mexer. Corri para o seu lado e o repreendi. — Ei, cuidado aí ragazzo! Não pode se mexer.

Ele abriu o sorriso mais lindo que eu já tinha visto dar pra mim. Deixando-me deslumbrada, e eu retribuí, sorrindo feito uma retardada. Internamente me estapeei.

— Sim senhora.

— Você está sentindo dor?

— Não. Sinto somente um desconforto no abdômen e a boca seca. — Ele fez uma pausa, respirando devagar enquanto eu pegava um pouco de água. Dei isso a ele, ajudando-o a beber poucos goles só para molhar a boca mesmo. Ele olhou em volta. — Presumo que esteja na mansão?

— Não se lembra? — Ele negou com um movimento sutil da cabeça. — Os caras te trouxeram ontem à tarde. Estamos num dos quartos de hospedes no térreo... Aqui, deixe-me ajudá-lo.

Ajeitei dois travesseiros macios detrás de suas costas.

— Obrigado.

Aprumei minha postura e o olhei fixa.

— Agora, pode me dizer que merda aconteceu?

— Smith disse que horas virá hoje?

— Não mude de assunto. — Seus olhos diminuíram e eu empertiguei os ombros. — Exijo saber o que aconteceu. E se você não me disser, vou até os caras e um deles vai me dizer.

Ele suspirou fazendo uma careta. Eu esperei.

— Certo, certo. Só que agora não. Senta aqui — pediu sem tirar seus olhos dos meus. Neguei com a cabeça. — Eu prometo que depois eu digo o que você quiser, mas agora eu gostaria que você se sentasse aqui, — ele bateu palminhas no colchão. Mordi os lábios ponderando. — Por favor.

Thor não precisou dizer mais nada, antes que eu respondesse verbalmente meu corpo respondeu, movendo-se e quando percebi já estava ao seu lado na cama.

Tomei cuidado para não tocar nele e assim machucá-lo.

— Você parece cansada — observou, com os olhos fixos em mim.

Aquela maldita poltrona tinha acabado com minhas costas, porém eu não iria dizer isso.

— Sto bene — garanti, mirando minhas mãos. — Levando em conta tudo que aconteceu nessas vinte e quatro horas, posso dizer que eu estou bem.

Sua mão pegou a minha, entrelaçando nossos dedos. A outra pousou em meu rosto, acariciando a linha da minha mandíbula e a bochecha. Eu meio que gostei disso.

— Eu adoro a sua pele. É muito macia e suave. Muito delicada. — Sua voz aveludada afagou meus ouvidos da mesma forma em que seu polegar fazia na minha pele. Fechei os olhos, apreciando o toque tenro. — Incline-se, querida. Quero sentir seu cheiro.

Abri os olhos, atordoada. Não com suas palavras em si, senão com o tom de voz que ele usou, vibrando dentro de mim. Era calmo, sensual... Rouco. Foi impossível não ceder a seu pedido. Sua mão em minha nuca obrigou-me mais perto quando me inclinei e, em seguida, seu nariz roçou a curva do meu pescoço inspirando fundo. Estremeci.

— Eu já te disse o quão entorpecido seu cheiro me deixa? — Neguei com a cabeça, minha voz sumiu. Minha pulsação saiu dos eixos, batendo tão forte, que me perguntei se ele podia ouvir. Eu podia. Alto e claro. — Seu cheiro é delicioso, neném. Sempre me deixa zonzo. — Engoli seco, enquanto ele continuava seu passeio por meu pescoço. — E seu gosto, bem... Põe-me completamente louco. É inigualável. Eu diria mais. É o mais doce que já provei. — Seus lábios roçaram nos meus levemente, sua respiração quente batendo em minha pele, envolvendo-me numa carícia sedutora. — Amo seus lábios — disse ele, antes de me beijar.

O beijo, no entanto, era um leve roçar de lábios sem línguas. Uma degustação do que estava por vir. Sua língua contornou meus lábios suavemente e sugou meu lábio inferior sem pressa, sem força. Experimentando. E fazendo outra coisa que eu não sabia, mas gostava. Meus lábios formigaram. Eu quis mais. Porém, ele não aprofundou, não demandou, apenas ficou lá me testando.

— Eu poderia ficar aqui, neste mesmo tempo, neste mesmo lugar, te beijando o resto dos meus dias Antonella — roucamente, ele disse contra meus lábios. — Eu nasci para isso.

A hipótese de eu ter um AVC pulou de zero para cem porcento de chances. O beijo seguiu calmo e casto. Ele com certeza estava na minha lista dos melhores do século.

— Buongiorno! — A voz estridente de Pietra soou atrás de nós. Afastei-me de Thor de imediato e olhei para ela, levando uma bandeja nas mãos. Ela franziu o cenho e, em seguida, pareceu ficar encabulada. — Oh! Scusi. Eu não queria atrapalhar.

— Então dê meia volta e saia pela mesma porta que entrou.

— Thor!

— Caspita60! Quanta gentileza logo pela manhã, cavalo. O doutor não aparou seus cascos e trocou suas ferraduras, fratellino? — Thor rosnou. — Achei que cavalos relinchassem. — Um risinho baixo me escapou enquanto Thor a fuzilava com os olhos. Ela deu a língua para ele. — Não faça essa cara, sei que não está morrendo então eu posso dizer o que quiser.

— Va bene, bambini! Já deu por hoje — me intrometi quando Thor fez menção de falar.

Pietra ficou séria.

— Come stai?

— Bem.

— É, não será dessa vez que ficarei podre de rica — ela disse, com falso pesar.

— Pietra!

Ela colheu os ombros, ainda segurava a bandeja.

— Foi só uma brincadeirinha para distrair — desculpou-se, olhando para mim com um biquinho fingido. — Eu trouxe o café — acrescentou, com um sorriso de orelha a orelha.

— Não estou com fome.

— Mas você vai comer mesmo assim — avisei, num tom firme. Ele e Pietra me encararam. Dei os ombros. — O Dr. Smith disse que você precisa se alimentar adequadamente para que se recupere mais rápido. Portanto, não adianta me olhar com essa cara não. Quero a bandeja limpa.

— Ouviu? — Pietra ajeitou a bandeja no colo dele. — Se não comer, ela vai te chicotear. Se bem que isso é bem natural para você, eh? É um cavalo!

Pietra riu às gargalhadas.

Tive de respirar fundo para não rir também enquanto Thor a mirava carrancudo.

— Pietra, ti prego!

— Tá, tá, tá. Não está mais aqui quem falou. — Ela passou o dedo pela boca, zipando-a. Sacudi a cabeça e me adiantei para ajudar Thor, mas ela me freou. — Suba, tome banho e café.

Travei o maxilar com força e respirei fundo, tentando controlar a irritação, ameaçando estalar sobre ela. Levou uma vida para eu não expressar meu aborrecimento na cara dela.

— Não.

— Amada, eu não sei se você reparou, mas você está um caco!

— Agora sei — resmunguei.

Seu olhar suavizou sobre mim em consideração.

— Pode ir. Eu fico com ele.

Na verdade, eu não queria sair daqui. Va bene. Ela era a irmã dele com o pacote de direitos. Sem contar que ela não oferecia risco algum para ele, mas o meu subconsciente não entendia isso, muito menos os meus pés que pareciam ter sido soldados no chão.

Mas que merda é essa que você está pensando? Pietra colocar Thor em perigo?

Eu não estava batendo bem das ideias. Precisava procurar um médico o mais rápido possível.

Alternei olhares entrei Thor e Pietra, e por fim, forcei meus pés se moverem.