Garota, 11
Capítulo 8
Podcast Justiça Tardia
19 de dezembro de 2019
Transcrição: Terceiro episódio da quinta temporada
NARRAÇÃO DE ELLE
Há um fenômeno conhecido na área médica como respiração
agonal. Acontece comumente quando uma pessoa está
morrendo. Ela abre a boca, sorve o ar com um chiado, lutando
para respirar. É possível ouvir o ar ficando preso em sua
garganta, impedido de chegar aos pulmões.
Assim é a investigação sobre o Assassino da Contagem
Regressiva: um ofegar final de algo que está próximo da morte,
uma tentativa desesperada para conseguir oxigênio suficiente
para sobreviver.
[DESCRIÇÃO SONORA: Carros passando por uma rodovia; o
estrondo da buzina de um caminhão.]
NARRAÇÃO DE ELLE
Jessica Elerson, de doze anos, foi a última garota de quem se
tem notícia a ser assassinada pelo Assassino da Contagem
Regressiva. Ela desapareceu a metros de distância de onde
estou agora, do lado de fora de um Super Target perto da rodovia
I-694.
[MÚSICA TEMA + ABERTURA]
[DESCRIÇÃO SONORA: Trecho da música tema de Bob
Esponja.]
NARRAÇÃO DE ELLE
Jessica amava o Bob Esponja. Ela era uma nerd legítima que
passava seu tempo livre assistindo desenho animado e jogando
quaisquer jogos que pudesse comprar ou alugar com sua
mesada. Jessica adorava jogos de tabuleiro e kits de
experiências científicas, My Little Pony e microscópios. Ela
mantinha seus pais ocupados com todos os clubes nos quais
entrava na escola, mas sempre arranjava tempo para ajudá-los a
cuidar de seu irmão caçula. Ela amava ser a irmã mais velha
mais do que qualquer coisa no mundo.
BONNIE
Se Jessica não estivesse na escola ou em uma de suas
atividades extracurriculares, estava sempre brincando com
Simon. Ela tinha sete anos quando descobrimos que estávamos
esperando outro bebê e não poderia ter ficado mais feliz. Ela
nasceu para ser uma irmã mais velha.
[DESCRIÇÃO SONORA: Vaporizadora de leite chiando ao
transformar leite em espuma; grãos de café sendo moídos.]
NARRAÇÃO DE ELLE
Esta é Bonnie Elerson, mãe de Jessica. Nos encontramos em um
café na cidade cujo nome não será divulgado por razões de
privacidade. Bonnie se parece com a maioria das mães brancas
do centro-oeste perto das quais cresci: cabelo de cachos curtos e
soltos; mãos macias com unhas discretas e práticas; dentes retos
com algumas obturações prateadas que aparecem quando ela ri,
o que ela faz mais do que eu esperava. Eu gosto de Bonnie. Se
não soubesse pelo que ela passou, provavelmente jamais
adivinharia. A magnitude de dor que uma mulher consegue
suportar com um sorriso no rosto é impressionante.
ELLE
Simon se lembra dela?
BONNIE
Sim. É difícil dizer, na verdade, quantas de suas memórias foram
criadas independentemente e quantas foram criadas por nós
quando as contávamos a ele. Ele tinha cinco anos quando ela
foi… quando ela faleceu. Mas falávamos dela o tempo todo.
Alguns de nossos amigos disseram que talvez fosse melhor
fingirmos para Simon que ela jamais estivera conosco, mas não
poderíamos fazer isso com ele. Tudo o que ele fez por semanas
foi chamar a irmã. No primeiro mês ou coisa assim eu não
conseguia parar de me preocupar com o quão magoado e quão
devastado ele estava por ela não voltar para casa. Então, quando
ele finalmente compreendeu, fiquei apavorada com a
possibilidade de ele esquecê-la completamente. De alguma
forma as duas coisas partiam meu coração igualmente. Eu
precisava garantir que ele se lembrasse de sua irmã e do quanto
ela o amava. Então, sim, falávamos sobre ela. Fizemos questão
de que ele soubesse que ela não o havia abandonado de
propósito.
ELLE
Você cuidou de seu filho mesmo quando ninguém iria culpá-la
por desmoronar por causa de sua filha.
BONNIE
É claro que sim. Nós não poderíamos deixar de ser pais.
ELLE
Entendo que a decisão de falar comigo não tenha sido fácil.
Gostaria que soubesse que estou muito grata por isso. Entre os
pais, você é a primeira a falar comigo sobre a filha, e embora eu
entenda completamente a razão pela qual ninguém mais
conseguiu, poder falar com você é algo inestimável. Conhecia
Jessica melhor do que ninguém. Se não se importa, pode me
dizer o que aconteceu no dia em que ela foi levada?
BONNIE
Estávamos no mercado fazendo compras depois de sua aula de
natação. Era uma segunda-feira. Sempre fazíamos as compras
da semana naquele dia para que pudéssemos relaxar juntos nos
fins de semana. Como sempre acontecia, no meio das compras
ela ficou entediada e pediu alguns trocados para brincar nos
brinquedos da entrada. Ela gostava do brinquedo de garra em
que você tenta pegar um bichinho de pelúcia. Ela não era muito
boa nele, embora eu ache que essas coisas são programadas
para que você nunca ganhe. Mas o dinheiro ia para caridade,
então eu não me importava.
De qualquer forma, terminei as compras e fui buscá-la, mas ela
não estava lá. Procurei pelo corredor de doces, pela padaria,
chamei por ela. Eu me lembro de sentir tanta vergonha. Me senti
como uma daquelas mães inúteis que perdem os filhos, e Jessica
tinha doze anos. Não era como se ela fosse um bebê. Mas,
finalmente, não tive escolha além de desistir e procurar os
seguranças. Eles anunciaram no alto-falante que ela deveria vir
me encontrar na mesa de informações. Me lembro de pensar que
ela iria ouvir poucas e boas quando voltasse, mas ela nunca
voltou.
ELLE
Se lembra do que aconteceu depois?
BONNIE
Levou um tempinho para que eu me desse conta de que havia
algo errado. O tempo que ela estava levando para voltar era
longo demais para se dizer que ela estava demorando por medo
de ficar de castigo. Isso foi antes que a maioria das pessoas
tivesse celular, então usei o telefone dos seguranças para ligar
para Chris, meu marido. Depois disso, tudo é um borrão. Não sei
dizer quem chamou a polícia, mas eles estavam lá e eles me
perguntavam coisas e eu só conseguia encarar a porcaria da
máquina de garra, esperando que ela surgisse de trás dela
dizendo que tudo não passava de um mal-entendido. Por um
momento, até mesmo cogitei a possibilidade de ela ter entrado
dentro da máquina de alguma forma atrás do pássaro de pelúcia
que há semanas ela tentava pegar. Era um papagaio, o animal
favorito de Simon na época. Ela queria ganhá-lo para ele.
ELLE
Tudo bem, não precisa se apressar.
BONNIE
[Chorando.] Ela tinha um coração tão bom. Essa é minha
memória mais nítida. Tenho certeza de que toda mãe pensa
assim, mas ela teria feito coisas incríveis. Ainda fico triste por
mim e por minha família, mas também me deixa triste pensar que
o mundo foi privado da presença dela.
NARRAÇÃO DE ELLE
Um novo pânico tomou conta da região de Minneapolis quando
Jessica foi sequestrada. De novo, fazia quase exatamente um
ano desde a última sequência de assassinatos do , e,
seguindo a natureza da contagem regressiva, as garotas eram
cada vez mais jovens, mais vulneráveis. Quando uma vítima é
assassinada, uma das primeiras perguntas que a polícia e o
público tendem a perguntar é por quê. Por que essa pessoa? Por
que alguém faria isso?
O público, através da imprensa, quer saber por razões ao
mesmo tempo sensacionalistas e de autopreservação.
Assassinatos rendem boas histórias — nossa obsessão nacional
com podcasts de true crime como este é prova viva disso. Mas
isso é mais do que entretenimento. Se soubermos o que a vítima
fazia quando foi morta, nós sabemos o que não fazer, e assim
nos convencemos de que podemos nos sentir mais seguros —
não importando se as ações da vítima tiveram alguma relação
com sua morte.
A polícia quer saber por outras razões. Vitimologia, o estudo de
vítimas de crimes e suas possíveis relações com seus
agressores, tem um papel crucial na solução de homicídios.
Quanto mais os investigadores sabem sobre a vítima, maior é a
chance de encontrar o assassino. O que fez com que o
assassino escolhesse aquela vítima, naquele momento, naquele
lugar, para ser morta daquela maneira? Isso pode soar como se
estivéssemos culpando a vítima, mas a intenção é virar os holofotes para o criminoso — não para a pessoa ferida por ele.
Pessoas classificadas como sendo de alto risco em uma análise
de vitimologia podem andar por aí todos os dias sem se tornarem
vítimas de fato. Alguém classificado como de baixo risco pode
seguir sua rotina normal e segura e ainda assim ser atacado por
um assassino que simplesmente encontrou uma oportunidade
para atacar. O importante é compreender quem são as vítimas e
com quem elas convivem a fim de mirar em um possível
suspeito. Responder às perguntas-padrão da vitimologia pode
ser a diferença entre pegar um assassino e deixar que ele
escape.
ELLE
Na ocasião em que Jessica Elerson foi levada, você tivera ajuda
do com os assassinatos anteriores, está correto?
SYKES
Isso mesmo. Eles começaram a traçar perfis para cada uma das
vítimas do esperando que houvesse algo na vitimologia
delas que as conectasse de alguma forma e, assim, nos
ajudasse a identificar o assassino. Infelizmente não encontraram
nada específico. Na verdade, concluíram que nenhuma delas
apresentava um alto risco de ser vítima de um crime. Embora
algumas tivessem comportamentos moderadamente arriscados,
como caminhar sozinha ao entardecer ou à noite, todas estavam
em áreas movimentadas e algumas foram até mesmo levadas
em plena luz do dia. Isso fez com que o concluísse que o
assassino deve ter ficado à espreita, observando-as,
possivelmente por semanas a fio, e assim sabia exatamente
quando elas estariam sozinhas ou se aproveitou de um momento
aleatório de vulnerabilidade para atacá-las. Sabemos que ao
menos os casos de Beverly Anderson e Lilian Davis foram crimes
de oportunidade. A rotina normal delas foi interrompida, mas ele
conseguiu atacar exatamente no momento certo, como se
estivesse aguardando uma chance. Mas as demais foram
levadas enquanto faziam algo em sua rotina normal, como se o
tivesse aparecido sabendo exatamente onde elas estariam
naquele momento específico. E por seu padrão e cronologia para
cada sequestro serem tão cruciais, não havia espaço para erros.
ELLE
Já que mencionou o padrão dele, vamos falar sobre isso.
Sabemos que os números três, sete e vinte e um são importantes
para ele. Ele levou as garotas com três dias de diferença, mas
ele também sequestrou a maioria delas em grupos de três.
Isabelle, Vanessa e Tamera foram levadas uma atrás da outra.
Então Lilian, Carissa e Katrina. Mas há apenas duas vítimas de
que se tem notícia, Beverly e Jillian, nos assassinatos de 1996.
Isso é algo que tem sido motivo de especulação e de teorias da
conspiração ao longo dos anos. Sabemos que os assassinatos
de 1996 foram diferentes: Beverly e Jillian não mostraram sinais
de terem sido forçadas a fazer limpeza, por exemplo. E, como
discutimos anteriormente, isso fez com que algumas pessoas
teorizassem que Jimmy matou as duas primeiras garotas antes
de um imitador assumir seu lugar. Mas, detetive Sykes, depois de
duas décadas trabalhando nesse caso, o que você pensa sobre a
disparidade?
SYKES
Antes de mais nada, queria dizer que não sei com certeza. Esta é
apenas minha opinião. Mas, como você mesma disse, ela é
baseada em vinte e três anos dormindo e acordando com esse
caso. Eu acho que Beverly Anderson não foi a primeira vítima do
.
ELLE
Parece hesitante, mas gostaria que desenvolvesse essa ideia.
SYKES
Estou aposentado hoje em dia — ah, que diabos. Quando tive
tempo para respirar, passei meses investigando homicídios não
solucionados em todo o país que se encaixavam com o do
Assassino da Contagem Regressiva. Não fazia sentido que ele
começasse com uma garota de vinte anos quando sabemos que
vinte e um é um dos números pelos quais ele é obcecado. Se os
assassinatos de 1996 foram realmente os primeiros, então faria
sentido que fossem menos organizados. Talvez ele tenha a
matado algumas semanas ou alguns meses antes das demais.
Talvez mantê-las em cárcere por sete dias tenha sido uma
evolução e a primeira garota foi morta logo de cara. Mas por mais
que eu tenha tentado, não consegui encontrar nada que
chegasse perto. Até mesmo procurei por mulheres de vinte e um
anos que tenham sido mortas de diferentes formas:
estranguladas, baleadas, diferentes tipos de veneno. Nada. A
resposta provavelmente está em alguma caixa de casos
arquivados em alguma delegacia do estado, mas embora hoje
em dia eu ainda procure de vez em quando, quando estou
entediado, nunca consegui encontrá-la.
ELLE
Aparentemente encontrar a primeira vítima seria uma pista muito
importante.
SYKES
Com certeza, imagino que sim. É comum que serial-killers
cometam erros com suas primeiras vítimas. Mesmo alguém tão
meticuloso quanto o poderia ter tido um gatilho que o levou
a matar em um surto de fúria, talvez a se livrar do corpo de
maneira apressada. Talvez ele tenha até mesmo deixado
para trás. Milhares de pessoas já tentaram, mas se você
conseguisse descobrir quem foi essa pessoa, acho que seria um
divisor de águas no caso.
ELLE
Garanto ao senhor que faremos tudo o que estiver ao nosso
alcance. Mas voltando ao padrão dele. Desde que você se tornou
responsável pelo caso, ele já havia estabelecido em todos os
assassinatos que levaria três garotas com três dias de diferença
e as manteria com ele por sete dias antes de assassiná-las. Isso
teria requerido intenso estudo e intensa preparação da parte
dele, provável razão pela qual ele levava um ano entre os
assassinatos para se preparar para o grupo seguinte. Para você,
o que isso diz sobre o perfil do assassino?
SYKES
Todos concordávamos que ele era meticuloso. Isso era evidente
devido ao estado em que deixava os corpos: nenhuma célula
epitelial ou cílios a serem encontrados. Deduzimos que a única
maneira através da qual ele teria conseguido ter uma garota
disponível para ser sequestrada em cada dia de sua contagem
regressiva seria se ele tivesse dossiês sobre cada uma delas, e
se houvesse outras que serviriam como opção caso ocorresse
algum problema com as principais. Provavelmente havia dezenas
de vítimas em potencial em cada idade que ele considerou, mas
decidiu descartar por várias razões. Ele deve ter tido garotas de
cada uma das idades com dias diferentes da semana em que
estariam vulneráveis para vitimização. Suzie vai embora sozinha
na terça à tarde, Bess vai à igreja sozinha aos domingos etc. Ele
só pode ter feito isso. Todas as circunstâncias precisavam se
alinhar perfeitamente para que ele levasse cada garota, e seu
padrão para levar as outras duas depois de ter sequestrado a
primeira era inflexível. Precisava acontecer com três dias de
diferença. O assassinato de Jessica foi uma mistura de
oportunidade e planejamento. Sua mãe a perdeu de vista por
provavelmente dez, talvez quinze minutos, e ela desapareceu.
Ele deve ter estudado o hábito delas de fazer compras semanais
porque ele examinou todas as áreas onde havia câmeras de
segurança e sabia exatamente como evitá-las. Mas foi
extremamente arriscado. Ele teve que levá-la de um mercado
movimentado sem deixar nenhum vestígio em uma curta janela
de tempo. Levá-la dessa maneira foi presunçoso, arrogante da parte dele. Ele sabia que era um desafio para o qual estava
pronto.
A única vez em que o vimos criar sua própria sorte foi com a
última vítima. A rotina dela a deixava exposta naquele dia, mas a
vítima se desviou dela, então ele precisou forçar uma abertura.
ELLE
Como ele fez isso?
SYKES
Eleanor Watson, conhecida por todos como Nora, algumas vezes
ficava sozinha em casa por uma hora durante a tarde, entre o
horário em que chegava da escola e o horário em que seus pais
chegavam do trabalho. O caso dela era o clássico da criança que
precisa ficar sozinha em casa enquanto os pais trabalham, o que
naquela época estava se tornando mais raro, mas ainda não
havia saído completamente de moda em 1999 — especialmente
no caso de crianças com a idade dela. Na maioria dos dias, Nora
ficava na casa de uma amiga e sua mãe ia buscá-la perto da
hora do jantar. No entanto, ela estava passando cada vez mais
tempo em casa a fim de provar sua independência. deve ter
apostado que ela estaria sozinha em casa naquele dia, mas, em
vez disso, ela foi para a casa da amiga. Foi aí que ele correu o
maior risco até agora. Ele simplesmente bateu na porta.
ELLE
Quem atendeu?
SYKES
A amiga de Nora. A mãe dela trabalhava de casa, em um
escritório nos fundos da propriedade, e não podia ser
incomodada durante o horário comercial. Por isso sua filha
atendeu a porta. O aparentemente usava um cachecol
estampado e um chapéu vermelho. Usar algo intencionalmente
chamativo é um truque. Caso ache que foi visto, basta descartá-
lo para que se misture ao restante das pessoas. Ele disse à
amiga de Nora que fora mandado até lá para buscá-la pois sua
mãe estava no hospital. Nora não pensou duas vezes. Ela estava
tão preocupada com sua mãe que entrou no carro do homem.
Demorou mais de uma hora para que a mãe de sua amiga saísse
do escritório e percebesse que Nora não estava lá.
NARRAÇÃO DE ELLE
E esse poderia ter sido o fim da história. Se tudo tivesse seguido
de acordo com o plano do , haveria outros dois assassinatos
depois do de Jessica e então mais três no ano seguinte e depois
mais três. Tudo o que a polícia sabia era que ele levava uma
garota nova a cada três dias e a matava uma semana depois,
pontual como um relógio. Eles não tinham motivos para imaginar
que ele pararia — e também não tinham ideia de como pará-lo.
Talvez tivesse continuado para sempre, talvez o tivesse
mudado sua escolha de vítimas depois de a contagem regressiva
ter sido concluída, começado um ritual inteiramente novo. Um
homem como esse não para simplesmente de matar depois de
ter começado.
Mas não é esse o fim da história. Porque Nora Watson não foi
assassinada pelo Assassino da Contagem Regressiva. Ela
conseguiu escapar.