Garota, 11

Amy Suiter Clarke · Capítulo 11 de 50

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Garota, 11

Capítulo 9

 

Elle

13 de janeiro de 2020

 

A nevasca cobriu as Cidades Gêmeas, interditando as estradas

por todo o fim de semana. A irmã de Martín, Angelica, telefonou

no sábado de manhã. Ela era o único familiar que ele tinha na

região, a maioria dos outros ainda morava em Monterrey ou nas

redondezas. Durante a ligação os filhos dela tomaram o celular e

o levaram para o quintal para mostrar o boneco de neve que

haviam feito em Eau Claire. Os sobrinhos claramente adoravam

a neve e o inverno, mas quando eles devolveram o celular para

Angelica, ela e Martín passaram quase uma hora inteira

reclamando e fazendo piadas sobre o clima de inverno a ponto

de fazer Elle chorar de rir.

Quando encerraram a ligação com Angelica, Elle e Martín

convidaram Sash e Natalie para uma visita. Eles passaram o que

restava do fim de semana assistindo filmes e tomando quantias

obscenas de chocolate quente Abuelita. Além de ter escapado

por algumas horas para desenvolver o esquema de tópicos para

o episódio da semana seguinte, Elle tentou ao máximo relaxar e não pensar no caso. Haveria tempo de sobra para isso quando

as estradas estivessem abertas outra vez.

Sash e Natalie foram embora assim que a neve deu uma

trégua no domingo à tarde e Elle passou a noite gravando o

roteiro para a semana seguinte. Mais tarde Tina editaria todo o

áudio para deixá-lo perfeito. No episódio seis seria abordada uma

conversa reveladora com uma mulher que Elle encontrara na

semana anterior. Ela mal podia esperar para compartilhar suas

descobertas com o mundo.

Já no meio da noite, depois de enviar os áudios a Tina, ela se

jogou na cama e caiu no sono em questão de minutos.

A manhã de segunda chegou clara e radiante, inundando o

quarto pelas frestas da cortina. Martín puxou Elle para perto,

escorregando a mão por baixo de sua blusa e acariciando suas

costas. Elle abriu os olhos, sorrindo para ele.

— Bom dia — murmurou ela. Sua garganta ainda estava seca

devido à gravação da noite anterior.

— Muito bom dia — sussurrou ele antes de pressionar os

lábios contra os dela. Ele rolou para cima de Elle, cobrindo o

torso dela com o seu. — Ficou acordada até tarde.

— Sexto episódio. — Ela beijou o pescoço dele inalando o

cheiro sutil do perfume passado no dia anterior. — Finalizado e

enviado para Tina.

— Esse é o grande episódio? — A mão de Martín escorregou

para o meio das pernas de Elle, que fechou os olhos ao senti-la.

— Hum, sim. Provavelmente ainda vai ser decepcionante perto

do da semana passada, mas vai ser um desafio gozar daquele.

Digo, ganhar daquele. — Ela ofegou enquanto ele a acariciava. Tateando sob o lençol, Elle sorriu ao perceber que ele já estava

sem roupa.

Ele riu. — Se eu não te conhecesse poderia jurar que fez isso

de propósito.

Ela abriu os olhos para fitar o rosto dele. — Fiz o quê?

A outra mão dele desceu a parte debaixo do pijama dela e

então eles se tocaram, pele contra pele. Aproximando a boca do

ouvido dela, ele sussurrou enquanto se movia: — Vai ser um

desafio gozar daquele.

Ela deixou escapar uma risada que foi interrompida por um

gemido quando ele se aproximou ainda mais. O corpo de Martín

vibrou com um riso enquanto ele beijava o pescoço dela. Então

eles interromperam a conversa de vez.

Uma hora depois, após Martín ter saído para o trabalho, Elle

ligou o computador para checar suas mensagens. Havia vários e-

mails da equipe de produção executiva da rede do podcast sobre

a audiência do episódio que havia sido lançado na quinta-feira. A

coordenação de marketing estava planejando o anúncio e o

pagamento da propaganda de rádio que ocuparia o horário de

deslocamento para tentar atrair ouvintes da geração X, que eram

adolescentes ou jovens adultos quando o estava na ativa.

Havia centenas de e-mails não lidos, mas ela viu que Tina já

verificara milhares de outros e os classificara de acordo com o

sistema delas. O mar de mensagens com uma tag vermelha era

preocupante.

Vermelho era a cor usada para mensagens que eram

ameaçadoras o suficiente para que elas considerassem reportá-

las à polícia.

Sem vontade de lidar com elas naquele momento, ela acessou

o perfil de Leo no Facebook novamente. Nenhum dos familiares

dele a havia respondido, embora o mensageiro indicasse que

muitos deles tinham lido as mensagens. Era frustrante, mas ela

já esperava. Elle começou a navegar pelas fotos do perfil,

procurando por um rosto feminino depois da data que ele se

divorciara da esposa. Ele obviamente não havia oficializado

nenhum relacionamento no Facebook, mas ainda era possível

que ele tivesse uma namorada.

Ela não teve sorte. Ele estava sozinho em todas as fotos que

datavam de até três anos atrás, até que ela finalmente encontrou

uma foto dele de rosto colado com uma mulher latina que usava

o cabelo preso e grosso em um rabo de cavalo alto. Elle clicou na

foto e fez uma dancinha vitoriosa em sua cadeira quando viu que

a mulher estava marcada. Luisa Toca. Provavelmente a ex-

mulher. Elle acessou seu perfil.

A foto de perfil de Luisa era a bandeira da Guatemala, uma

faixa branca com um brasão acompanhada de ambos os lados

por faixas azul-celeste. Seus posts oscilavam entre inglês e

espanhol. Um de três meses antes chamou a atenção de Elle: o

post dizia que a mãe de Luisa estava indo morar com ela. Seu

álbum de fotos exibia cortes de cabelo femininos de diversos

ângulos e em diversos estilos e cores. Um salão de beleza no

centro da cidade estava marcado em cada uma delas. Elle ligou

para o salão, mas a gerente a informou de que Luisa não

aparecera para trabalhar nos últimos dias e não estava

atendendo o telefone.

Elle clicou na seção familiar no perfil de Luisa e agradeceu aos

céus mentalmente — o perfil da mãe dela estava basicamente

vazio, mas ao menos ele existia. E agora Elle tinha descoberto

um novo nome.

 

Depois de mandar uma mensagem privada para Luisa, Elle deu

início à busca por seu endereço. Desde que começara seu

podcast de investigação, ela aprendera que as pessoas não

faziam ideia de quão facilmente suas informações privadas

poderiam ser encontradas on-line por aqueles que sabiam onde

procurar. Endereço atual e endereços antigos, telefones, locais

de trabalho, até mesmo documentos de identidade estão

publicamente disponíveis procurando nos sites certos. Apagar

essas informações é possível, mas caro. Há oito anos, Elle

pagara muito dinheiro para se livrar das suas, mas valeu a pena.

Um novo nome de casada, um novo futuro — nunca mais a

pediriam para reviver a pior época de sua vida. Valeu cada

centavo.

Ela encontrou um beco sem saída ao buscar as informações

de Luisa, mas tirou a sorte grande com a mãe dela. Depois de

uma hora, Elle encontrou o endereço de Maria Alvarez e entrou

no carro, seguindo na direção de Fridley.

A neve da noite anterior já havia sido removida da maioria das

estradas, mas o chão ainda brilhava com uma fresca e fina

camada. Por mais que ela odiasse o inverno, havia certa magia

na forma como uma nevasca transformava uma cidade em algo

completamente novo. O dia parecia ser imaculado, puro — puro

até demais para existir em um universo onde ela havia se deparado com o corpo inerte de Leo. O que quer que acontecera

antes, este era um novo começo.

No caminho, ela ajeitava o microfone e o headset por cima de

seu gorro. Ao longo dos anos ela aprendera que é sempre

melhor gravar pensamentos e reflexões ainda que nunca sejam

usados no podcast. Dessa maneira, ela não corria o risco de se

deparar com uma lacuna no episódio sem que tivesse um

monólogo na manga para preenchê-la.

— Há três dias, recebi um e-mail de alguém que alegava ter

informações sobre o . Fui a seu encontro para descobrir

qual era a informação, mas, ao chegar em sua casa, ele havia

sido assassinado. — Elle pausou e tentou afastar de sua mente a

imagem do corpo ensanguentado de Leo. — Não sei qual era a

informação, se é que ela existia. Há uma chance de que nada

disso seja relevante para o caso e de que eu acabe arquivando

essa gravação como fiz com tantas outras. Mas, por ora, ainda

estou tentando descobrir o que ele poderia saber. Estou indo

para a casa de sua ex-mulher a fim de investigar se eles

estiveram em contato recentemente. Este obviamente é um tiro

no escuro, mas preciso tentar. Eu… eu ainda não consigo

acreditar que foi uma coincidência, o momento em que ele foi

morto, ainda que pareça evidente que foi. O podcast existe há

quatro anos e nunca antes um ouvinte esteve em uma situação

de perigo por me fornecer informações. Pelo menos não até onde

sei. Aos meus ouvintes, gostaria de lembrá-los de que a

segurança de vocês deve vir antes de qualquer outra coisa. Caso

pensem estar em perigo, liguem imediatamente para a polícia. Volto mais tarde com mais informações. — Ela pressionou o

botão para encerrar a gravação e tirou o headset.

Os prenúncios de uma crise de ansiedade começaram a dar

sinal em seu peito. Enquanto entrava no estacionamento de um

conjunto de apartamentos de tijolinhos, ela respirava fundo pelo

nariz, segurando o ar por dez segundos e depois soltando-o pela

boca. Elle fez isso duas outras vezes até que as vias se

desobstruíram dentro de seu corpo e ela pôde voltar a respirar

naturalmente outra vez. Ela desligou o carro, apanhou sua bolsa

cheia de equipamentos de gravação — caso Luisa estivesse

disposta a dar uma entrevista — e abriu a porta, saindo rumo à

tarde fresca de inverno.

De acordo com as pesquisas que Elle fizera, Luisa e Leo foram

casados por cinco anos antes de se separarem no ano anterior.

Agora ela aparentemente morava com sua mãe em um

apartamento antigo próximo à rodovia. Carregando a bolsa com

certa dificuldade, Elle subiu dois andares de escada com cheiro

de mofo e bateu no número 207. Lá dentro, passos lentos

rangeram em direção à porta, seguidos pelo som da proteção do

olho mágico sendo aberta.

— Quién és? — perguntou uma voz rouca.

— Señora, me llamo Elle Castillo. Estoy buscando a Luisa

Toca…

— ¿Sabe dónde está mi Luisa? — A voz da mulher adquiriu

um tom agudo de expectativa.

Elle curvou os ombros. A mulher também procurava por Luisa.

— No, estoy buscándola.

Uma corrente se arrastou do lado de dentro e a porta se abriu,

revelando uma mulher idosa e curvada, que se apoiava

pesadamente sobre um tanque móvel de oxigênio. Havia cânulas

em suas narinas. Sua pele escura era coberta de rugas causadas

pela idade e por preocupações. Ao ver Elle, a mulher tensionou a

mandíbula e levantou o queixo. — Eu sei falar inglês.

— Me desculpe. Não foi minha intenção tirar conclusões.

Podemos conversar no idioma em que estiver mais confortável.

Depois de um momento, Maria assentiu. — Tudo bem. Seu

espanhol é bom, mas podemos conversar em inglês. Você é da

polícia?

— Não, trabalho como investigadora independente. — Elle

mostrou seu microfone. — Não estou gravando, não se

preocupe. Mas investigo casos que não foram solucionados para

um podcast. É como um programa de rádio. Esperava que Luisa

pudesse me ajudar a encontrar uma pessoa.

— Não sei quem ela poderia ajudá-la a encontrar, mas entre,

por gentileza.

Arrastando os pés, Maria se virou e conduziu Elle por um

pequeno corredor até a cozinha do apartamento, onde pairava

um aroma de coentro e cebola. Elle se acomodou em uma

cadeira de madeira, inalando o ar perfumado.

Com movimentos lentos e cuidadosos, Maria encheu uma

chaleira de água e a levou ao fogão. Em seguida, girou o botão e

uma chama laranja surgiu.

— Mijita — suspirou Maria, num sussurro quase baixo demais

para que Elle pudesse ouvir. Então ela deu as costas para o

fogão a fim de olhar para Elle. — Não tenho notícias dela há dias. Quase uma semana. Ela deveria ter ligado na semana passada,

mas não ligou. Tentei várias vezes. Quem a mandou até aqui?

Elle se inclinou na cadeira resistindo à vontade de ajudar a

mulher a se sentar. Mas não cabia a ela fazer isso. — Encontrei

Luisa nas redes sociais e vi que você era mãe dela. Encontrei

seu endereço lá. Ninguém no trabalho de Luisa teve notícias dela

nos últimos dias, então esperava encontrá-la aqui.

— Então não sabe onde ela está. — Maria pegou duas

canecas marrons de um armário de madeira e as pousou no

balcão. Em seguida, ela abriu uma caixa amarela de Therbal e

colocou um sachê de chá em cada caneca.

— Desculpe, mas não — respondeu Elle. — Ela não mora

mais aqui?

— Ela ainda recebe correspondências aqui, mas passa suas

noites com um homem.

— Um namorado? — Elle não imaginara que Luisa poderia

estar envolvida na morte de Leo, mas caso houvesse um novo

homem na equação, as coisas seriam mais interessantes. Novos

parceiros sempre complicam antigos relacionamentos.

Maria franziu o rosto em uma expressão descontente. — Ele é

velho demais para um namorado. Esse homem, ele é vinte, vinte

e cinco anos mais velho que minha Luisa. Ela ainda é jovem,

ainda pode encontrar um bom homem e se casar novamente.

Mas ela não tenta. Ela só pensa nesse homem velho.

— Como ele se chama?

— Não sei — respondeu a mulher, balançando a cabeça. —

Ela sabe que o odeio, então não o traz aqui. Ele é branco, tem

olhos azuis, com… Cómo se disse… está perdiendo su pelo.

— Perdendo cabelo? Ficando calvo?

A chaleira começou a chiar e Maria se virou para colocar água

nas duas canecas. — Isso mesmo. Luisa é tão linda! Ela poderia

ter qualquer homem que desejasse, e ela escolhe esse… esse

viejo feo.

Elle mordeu o lábio. Luisa tinha sorte por ter uma mãe como

Maria — coruja e cheia de elogios, certa de que ninguém era

bom o suficiente para sua filha. Certamente era muito bom.

Maria tentava equilibrar as duas canecas de chá em uma só

mão para que pudesse mover o tanque de oxigênio com a outra.

Elle se pôs de pé. — Por favor, señora, posso ajudá-la com o

chá?

A mulher idosa olhou para Elle por um momento e assentiu

com a cabeça. — Obrigada.

Quando já estavam sentadas juntas à mesa, Elle ergueu sua

caneca de chá e sorriu. — Muito obrigada pelo chá. É a marca

favorita de meu marido.

— Seu marido é mexicano? — Os olhos de Maria brilharam. —

Não é à toa que seu espanhol é bom. É a linguagem do romance,

sabia?

— Funcionou comigo, sem dúvidas. — Elle riu. Maria parecia

estar mais confortável. Sempre é algo difícil entre estranhos,

mas, na experiência de Elle, quando se tratava de uma mulher

que fazia parte de uma minoria e uma mulher branca era ainda

mais difícil. Enquanto mulher mexicana nos Estados Unidos,

Maria teria milhões de razões para não confiar em alguém como

Elle. Ela estava se esforçando para não lhe dar novas razões.

Alguns momentos se passaram em silêncio. Entre goles de

chá, Maria olhava o líquido rodopiante dentro da caneca.

Finalmente, ela levantou o rosto e olhou para Elle. — Não

explicou o motivo pelo qual está procurando por Luisa. Ela está

metida em problemas?

— Não, não está, mas o ex-marido dela está… estava…

— Leo? Adoro Leo. Ela não devia ter se separado dele. — Os

olhos de Maria se encheram de afeto fazendo com que Elle fosse

tomada por culpa. Talvez ela devesse apenas ir embora sem

contar a Maria o que havia acontecido. Deixar que ela

descobrisse pela polícia ou por sua filha, na hora certa. Mas ela

não podia permitir que a senhora continuasse a acreditar que Leo

estava vivo quando ele não estava. Não parecia ser justo.

— Señora Alvarez, sinto muito, mas tenho más notícias. Leo foi

morto há alguns dias. Ele foi baleado em seu apartamento.

O rosto da mulher idosa ficou paralisado e o afeto em sua

expressão deu lugar a olhos marejados. — ¿Qué?

— Eu sinto muito. Ele está morto.

De repente a mandíbula de Maria se enrijeceu, transformando

suas rugas em linhas retas que corriam até seus lábios

contraídos. — Foi aquele hijo de puta. O pelado com quem Luisa

está. Tenho certeza. Ele a roubou de Leo, mas não foi o

suficiente. Ele sempre teve ciúmes do casamento dela com Leo,

um homem de verdade que a amava. — O corpo da mulher se

curvou na cadeira. Ela apoiou o cotovelo na mesa, apoiando o

rosto em sua mão.

Elle baixou o olhar para que ela tivesse privacidade em seu

luto. Outra possibilidade a ser considerada. Se Leo realmente tiver sido morto pelo namorado ciumento de sua ex-mulher no dia

em que tentava dar uma pista sobre o a Elle, esse era o

pior timing possível.

Alguns momentos mais tarde, ela tentou falar com Maria

novamente. — Señora, existe alguém para quem eu possa ligar

que possa vir te fazer companhia? Eu sinto muitíssimo, mas

realmente preciso continuar a procurar por sua filha. Se estiver

certa sobre o homem com quem ela está, Luisa pode estar em

perigo também.

Secando os olhos, Maria se levantou e arrastou os pés até

uma gaveta, a abriu e tirou uma nota adesiva. Ela escreveu duas

linhas no papel e o entregou a Elle. — Esse é o endereço onde

ela vive com aquele homem. Nunca vou até lá. Ela sabe que não

aprovo.

Elle segurou o papel e estava prestes a afastar sua mão

quando Maria a segurou e a olhou nos olhos. — Encontre-o.

Encontre-o e o mantenha longe de minha filha. Por favor.

Elle assentiu, cobrindo a mão de Maria com sua mão livre. —

Vou fazer tudo o que puder.

 

Após deixar o apartamento de Maria, Elle ligou o carro para

aquecer o motor. Enquanto esperava, usou o celular para visitar

os perfis de Luisa nas redes sociais mais uma vez, analisando

suas atividades recentes. Elle deu uma rápida olhada em suas

fotos, mas não encontrou nenhum homem mais velho que

batesse com a descrição da mãe dela; todas as suas fotos eram

selfies ou cabelos finalizados de clientes. Ela não postava ou

interagia com nada havia mais de uma semana. Seu último status postado dizia apenas, Haja O Que Houver seguido de um

emoji de mãos em oração. Enigmático, mas não exatamente

sinistro. Elle torcia para que ela estivesse morando com o rapaz

indicado por Maria em Falcon Heights para que pudesse ao

menos descobrir o que ela sabia sobre as suspeitas de Leo.

Embora, estando em um relacionamento com outro homem,

havia chances de que ela não tivesse nada útil a dizer sobre o

ex. Sem falar da possibilidade de que um dos dois poderia estar

envolvido em seu assassinato.

Quando as saídas de ar finalmente começaram a liberar ar

quente, ela deu partida no carro.

Depois de passar no drive-thru de uma Dunn Bros para

comprar um mocha, Elle dirigiu em direção a Falcon Heights

tomando goles da bebida quando parava no semáforo. O sol da

tarde diminuía lentamente com a chegada do entardecer,

causando nela uma comichão de saudade dos dias em que o sol

não começava a se pôr às cinco e meia. Embora Elle tenha

morado em Minnesota sua vida inteira, ela nunca conseguira se

reconciliar com os invernos frios e escuros.

Pouco antes da saída para a I-694, um logo familiar chamou a

atenção de Elle. Havia mais de um ano desde que a rede do

podcast começara a divulgar anúncios do Justiça Tardia em

outdoors, mas ela ainda não tinha se acostumado a ver seu logo

prata sobre um fundo preto ampliado em uma propaganda à

margem da rodovia. A equipe de marketing piedosamente

permitiu que ela recusasse a proposta original de divulgar uma

foto dela nos anúncios. As pessoas conheciam sua aparência

pelos jornais locais nos quais ela aparecia de vez em quando para comentar um caso, mas ela não queria ficar exposta nos

outdoors espalhados por todos os lados das Cidades Gêmeas.

Divulgar seu nome era algo arriscado o bastante. Ela tomou a

saída, respirando fundo.

O endereço da señora Alvarez a levou até um sobrado simples

de tijolos. Havia uma garagem para dois carros anexa e a neve

do trecho de acesso até ela havia sido meticulosamente retirada.

Olhando de perto, só poderia ser um chão com sistema de

aquecimento — nem mesmo o trabalho mais meticuloso do

mundo teria eliminado cada vestígio de neve e gelo, mas o

caminho estava molhado e completamente limpo. Ela deixou seu

café pela metade no carro e se preparou para o vento gelado

antes de sair do carro.

Elle caminhou em direção à porta, estudando a casa: tijolos

acinzentados e janelas rústicas de acabamento branco e vidros

cobertos por cortinas pesadas. Havia um jardim florido sob a

janela, bem ao lado do caminho de acesso completamente

coberto por neve, exceto por alguns galhos secos de uma moita

grande que se erguiam em meio à neve fofa.

Lembrando-se de que Maria tinha certeza de que esse homem

matara Leo, Elle posicionou sua mão sobre a Ruger presa sob

seu casaco. Usando sua mão livre, ela pressionou e segurou o

botão da campainha até ouvi-la ressoar porta adentro.

Não houve resposta. Com um passo para trás, ela espiou a

porta fechada da garagem. Não havia forma de saber se alguém

estava em casa. Havia janelas na porta de entrada, mas eram

feitas de vidro fosco e não se via luz do outro lado. Mesmo

assim, ela tocou a campainha de novo.

Depois de um momento, Elle ouviu passos dentro da casa.

Soava como se alguém estivesse descendo as escadas. Ela

endireitou a postura e tentou controlar a respiração inspirando e

expirando dentro de suas mãos fechadas em concha.

Finalmente, a porta se abriu alguns centímetros. Uma corrente a

impediu de se abrir por completo. Por trás dela apareceu o rosto

de um homem na casa dos cinquenta anos. Ele usava óculos de

lentes azuis parecidos com o de Bono, e sua barba grisalha por

fazer se encontrava com seus cabelos ralos que apareciam sob

um boné desbotado das Cidades Gêmeas. Os vincos nas laterais

de sua boca tinham uma textura de couro. Por um momento a

expressão dele foi de confusa para tensa e por fim se estabilizou

em um educado e gentil sorriso típico de Minnesota. Ele

provavelmente estava esperando por outra pessoa.

— Posso ajudar? — perguntou ele.

— Olá, sr.… — Elle esperava que ele completasse a frase,

mas ele permaneceu imóvel, encarando-a. Ela pigarreou quando

o silêncio não foi rompido e continuou a falar. — Estou

procurando por uma jovem chamada Luisa. Me disseram que ela

mora aqui.

Ele se mexeu, apoiando o peso do corpo no outro pé. — Acho

que está na casa errada — respondeu ele, começando a fechar a

porta.

— Não, espere. — Por instinto, Elle esticou o braço e segurou

a porta com a mão. Ele parou. — Por favor, preciso muito

encontrar essa mulher. Tem certeza de que não conhece

ninguém com esse nome? A mãe de Luisa, Maria Alvarez, me deu esse endereço. Ela parece acreditar que Luisa está morando

com você, ou ao menos passando quase toda noite aqui.

Ele franziu o cenho. — Maria Alvarez? Aquela velhota? —

Rindo, ele balançou a cabeça. — Ah, essa Luisa. A filha de

Maria. Não acredito. Maria Alvarez morava do outro lado da

minha rua e já vi sua filha visitando-a algumas vezes. Flertei com

ela, tudo bem, mas nós nunca nem sequer saímos juntos. Ela

disse que tinha namorado.

Ele tirou a corrente da porta e a abriu o suficiente para que

pudesse apontar para uma pequena casa branca atrás de Elle. A

casa ficava na direção diagonal à casa dele, do outro lado da rua.

Em contraste com a casa do homem, a antiga casa da señora

Alvarez precisava urgentemente de uma demão de tinta e,

provavelmente, de uma reforma no telhado. O acesso à garagem

estava escondido por uma camada de neve da mesma altura da

que cobria o quintal, espessa o bastante para quase cobrir a

triste plaquinha marrom com os dizeres .

— Não quero ser cruel, mas Maria não bate bem da cabeça,

sabe? Não ficaria surpreso se ela pensasse que “roubei a filha

dela” ou sei lá. Ela já pensa que eu roubei sua casa.

— Roubou a casa? — Quando Elle voltou a olhar para ele,

seus braços estavam cruzados sobre o peito. A blusa de

moletom cinza que ele vestia fazia com que ele parecesse macio,

aconchegante. Ele poderia ser pai dela, um homem que ela

interrompera no meio de um jogo de futebol de segunda-feira à

noite.

— Está vendo o estado daquilo? Ano passado eu reclamei na

câmara que ela não estava cuidando da casa. A grama estava alta, havia mais ervas daninhas do que flores no jardim, a frente

da casa parecia prestes a despencar. Ainda parece, não acha?

— Suas bochechas ganharam um tom avermelhado. Algo em

sua raiva tinha um quê de familiar, mas a ira dos homens não era

especial — todas tinham em comum os rostos vermelhos e

contorcidos, o discurso inflamado cheio de perdigotos.

Ele continuou: — Enfim, eu fiz algumas reclamações na

câmara, como disse. Alguém finalmente veio fazer uma vistoria e

percebeu que ela não estava vivendo bem. Ela estava doente e a

casa dela aparentemente estava mais desastrosa por dentro do

que por fora, então acho que ligaram para a filha, que veio e

levou a velha para morar com ela.

— Fez com que uma senhora fosse expulsa da própria casa?

— Ela se esforçou para que a pergunta não soasse como se ela

o estivesse julgando.

— Fiz com que uma senhora recebesse a ajuda da qual

precisava, mas era teimosa demais para pedir. — Ele a olhou por

trás de suas lentes coloridas. — Por que está procurando por ela,

afinal? É amiga da Luisa?

— Pode-se dizer que sim. — Elle tamborilava os dedos na

perna. O homem estava sendo gentil, mas ele não tinha nada

para ela e a situação se tornava oficialmente uma perda de

tempo. — Então, quando flertou com Luisa, ela o dispensou por

ter um namorado?

O sorriso do homem se tornou mais largo. — Ela não me

dispensou.

— Mas você disse…

— Se eu a quisesse, teria conseguido. Troquei algumas

palavras com ela em frente à casa da mãe, fiz alguns elogios.

Acabou sendo perda de tempo. — O homem olhava a casa do

outro lado da rua como se estivesse se lembrando da conversa.

Então voltou o olhar para Elle. — Ela era cabeleireira. Estou

procurando por algo mais em uma mulher, entende?

Elle manteve sua expressão neutra. Ela nem sequer conhecia

Luisa. Até onde sabia, ela poderia ser um pesadelo, talvez até

mesmo quem matara Leo. Mas isso não a impediu de sentir

vontade de dar um soco na garganta do homem.

Ele ergueu o queixo, acenando a cabeça em um gesto esnobe.

Seus olhos reluziam. — Bom. Tudo bem, então, obrigado pela

visita. Vou voltar para o jogo.

Quando a porta se fechou, Elle se virou para caminhar em

direção ao carro, analisando a casa depredada que,

aparentemente, ainda estava à venda. O plano do homem de

despejar Maria Alvarez para que o lugar fosse mais bem cuidado

parecia ter saído pela culatra, e ela não conseguiu conter um

ligeiro prazer ao se dar conta disso.