Garota, 11

Amy Suiter Clarke · Capítulo 44 de 50

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Garota, 11

Capítulo 42

 

20 de janeiro de 2020

 

Sentado perto da janela, Douglas tomava chá sob a luz cinzenta

do início da manhã.

Ele ainda se lembrava da primeira vez em que seu pai o

ensinara sobre sacrifícios. A Bíblia falava brevemente sobre essa

prática, sobre a maneira como era preciso rezar e depositar

todos os pecados, falhas e fraquezas a algo externo antes de

parti-lo e oferecê-lo a Deus. Todas as máculas purificadas pelo

sangue alheio. Mais de metade de sua vida fora reivindicada

dessa maneira, cada segundo perdido sob o controle de Loretta,

de seu pai, desde o momento em que seus irmãos morreram.

Então, tão perto da conclusão, o relógio congelou. A garota

escapou.

Por vinte anos, ele esperara. Um dia Eleanor teria uma filha, e

essa filha tomaria seu lugar. Um cordeiro tomaria o lugar da

cabra. Natalie aparecera quando ele estava prestes a perder as

esperanças, e ele assistira de longe enquanto o laço entre elas

crescia. Hoje ela cumpriria seu propósito, morrendo no dia em que Amanda deveria ter morrido. Ele não poderia esperar nem

mais um momento.

Amanda não foi a primeira garota a morrer antes do previsto,

mas ela foi a primeira que ele apresentou antes da hora. Douglas

tamborilava na caneca de chá com a unha. Ele a levara até a

casa abandonada, pronto para deixá-la na garagem gelada até o

sétimo dia. Mas a polícia estava lá, tirando fotos de um carro que

ele deduzira que passaria despercebido na entrada. Era

arriscado demais levá-la para sua casa, e a última opção estava

a mais de uma hora de distância — um trajeto longo demais para

ser percorrido com um corpo.

Mas havia um último lugar a minutos de distância que

proporcionaria a ele uma satisfação branda, como tentar matar

uma sede profunda com uma única gota de água.

Ele planejara esperar até o fim do sexto dia de trabalho de

Natalie, mas ao acordar naquela manhã a necessidade estava

muito intensa. Era o sétimo dia desde que ele levara Amanda, e

ele não conseguia deixar a data passar. A garota descansaria

mais cedo. Hoje ele continuaria o que começara com Kerry

Presley mais de duas décadas atrás.

Depois de estrangular Kerry, Douglas dirigira até a casa do pai

— o único lugar que ele sabia ser seguro. Ele levou o corpo ao

celeiro e trancou a porta. Alguns dias depois, viu uma garota

desobedecendo o namorado na rua, sem nenhuma consideração

pelo orgulho dele. Ele a seguiu e ofereceu a ela uma carona,

mostrando seu documento da universidade. O resto foi fácil.

Quando descobriu sua idade, tudo se encaixou. Havia uma

razão pela qual ter assassinado aquele garoto, ter destruído a versão ingênua e apaixonada de si mesmo, não ter sido

suficiente. Os números se organizaram em uma fórmula. As

Escrituras ganharam vida diante dele outra vez. Ele sabia o que

precisava fazer. Depois disso, a ânsia por continuar a contagem

regressiva se tornou insaciável.

Agora, depois de anos de paciência, ele finalmente ficaria

satisfeito. O mundo voltaria aos eixos. Ele esperara tempo

suficiente.

Em seu celular, Douglas acessou o vídeo da câmera de

segurança do porão. Natalie ainda estava dobrada sobre a

beirada da cama, suas costas desnudas emanavam um tom

branco azulado na luz fraca. Seu corpo se tensionava e

estremecia enquanto ela vomitava no balde que ele deixara para

ela. O veneno estava fazendo efeito rápido. Ele havia adicionado

o veneno à comida dela apenas na noite passada, mas havia

formas de garantir que ela morresse naquele dia.

Douglas foi vê-la. Ele abriu a fechadura e desceu as escadas,

ignorando o cheiro azedo dos fluidos corporais da menina. Ela

estava na cama encolhida em posição fetal, de costas para ele.

Ele se sentou ao lado dela e se pôs a acariciar suas costas

como um pai faria com uma filha, mas ela se esquivou e saiu da

cama, caindo no chão do outro lado do quarto. Ela tentou gritar,

mas sua voz soou como um grasnar rouco. Levando o joelho ao

peito para cobrir o corpo, ela passou os braços em volta das

canelas e tentou fazer de si mesma tão pequena quanto possível.

— Está doente, Natalie. — Ele fez com que sua voz soasse

amável. Uma mentira gentil. — Deveria estar na cama.

— Minha cama está cheia de merda. — Ela cuspiu a última

palavra.

Menina mal-educada. Ele se levantou e avançou um passo na

direção dela, mas ela ergueu o queixo e não desviou o olhar. Ela

era muito parecida com Eleanor. O Senhor claramente as unira

por uma razão, para prepará-la para esse propósito.

— Uma boca suja dessas não cai bem para uma jovem —

disse ele. — “Não negligencie a disciplina de uma criança. Se

castigá-la com uma vara, ela não morrerá. Castigue-a com uma

vara e resgate sua alma do inferno.”

Ela o encarou no escuro. — Não é isso que esse trecho

significa. Conheço a Bíblia também, seu imbecil.

Ele foi tomado por um acesso de fúria, e, em um passo

comprido, ele estava perto o suficiente para pegá-la pelos

ombros e levantá-la do chão. Natalie gritou, toda sua petulância

desaparecendo quando ele bateu as costas dela contra a parede.

— Não é a primeira vez que ameaço cortar uma língua afiada,

mas as outras pessoas tiveram o bom senso de ficar de boca

fechada depois de serem advertidas. — Ele aproximou o rosto do

dela. — Vou precisar adverti-la mais uma vez?

Ela finalmente baixou o olhar e cobriu o peito desnudo com as

mãos enquanto a resistência em seu corpo se esvaía como suor.

Ele a colocou de pé alguns segundos mais tarde. Ainda olhando

para o chão, ela sussurrou: — Estou doente. Por favor. — Ela

engoliu em seco — Por favor, me leve para o hospital. Eu direi o

que você quiser. Eu só… não quero morrer.

Quão depressa ela se tornara humilde diante dele. Douglas riu,

observando-a com um dos ombros apoiado na parede. — Você é mesmo uma criança idiota.

Natalie retribuiu o olhar dele. Então, endireitando sua postura e

ainda cobrindo o corpo com as mãos, ela recitou: — “Aquele que

fizer mal para os pequenos que em mim creem estarão melhor

amarrando uma pedra de moinho no pescoço e se afogando nas

profundezas do mar.”

Aturdido, Douglas olhava para ela.

Ela continuou: — “Não provoquem seus filhos à ira.”

— Cale a boca.

Ela se moveu ao redor dele até ficar de costas para a estrutura

da cama. O corpo dele seguiu os movimentos da menina,

mantendo o contato visual. Ela se abaixou para pegar sua blusa

no chão e a vestiu, então esticou os braços abertos como se o

desafiasse a tentar pegá-la. Movido por raiva e emoção, a

pulsação de Douglas se acelerava. Quanta força nessa garota,

mesmo depois de tudo o que ele fizera para destruí-la.

— Acha que tenho medo de você? — perguntou ela, recuando.

Acho, pensou ele, mesmo enquanto ela falava. — Está usando a

Bíblia como desculpa para torturar meninas, seu monstro. Pode

apenas me matar, mas você… — Ela soltou um riso penetrante,

beirando o insano, e apontou para ele com o dedo indicador. —

Você vai queimar no inferno pelo que fez.

Uma chave se virou dentro dele pela segunda vez nos últimos

dias. Primeiro com Amanda, e agora com ela. Cego de raiva,

seus olhos não viam mais nada, estavam focados apenas no

corpo pequeno e ofegante de Natalie. Ele avançou na direção

dela, saltou como se estivesse prestes a dar o bote. No último instante ela se moveu, e só então ele viu a estaca afiada de

metal erguendo-se da estrutura da cama.