Garota, 11

Amy Suiter Clarke · Capítulo 27 de 50

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Garota, 11

Capítulo 25

 

Podcast Justiça Tardia

9 de janeiro de 2020

Transcrição: Quinto episódio da quinta temporada

NARRAÇÃO NÃO IDENTIFICADA

Você está trancada em um quarto com outra garota. Ela está aqui

há um dia, mas você está há mais tempo. Pelo menos três ou

quatro — você já perdeu a conta. Para comer, você recebeu

apenas alguns restos de comida e teve que trabalhar duro para

consegui-los. Lavou as paredes com uma esponja, tirou o pó de

cada centímetro das cortinas, esfregou o chão com tanta força

que os nós de seus dedos estão em carne viva. Sua pele tem um

cheiro de água sanitária que não vai embora e você tem

queimaduras químicas para provar.

Seu corpo está fraco, débil, e, mesmo movida pelo medo, você

mal consegue se movimentar quando escuta aquele que a

prendeu se aproximando da porta. Mas dessa vez ele está

trazendo comida. É um mingau espesso que você teria

desprezado duas semanas atrás, mas agora você quase derruba

a outra garota ao avançar para pegá-lo. Ele a assiste comer.

Quando você já comeu mais da metade, percebe que ele não

trouxe nada para a outra garota. Oferece o mingau a ela,

relutante, mas ele balança a cabeça. Não, é só para você. Ele

observa enquanto você termina a refeição, até a última colher, e

então leva a tigela embora.

Você fica deitada no colchão sujo por algumas horas, de

estômago cheio pela primeira vez no que parecem ser séculos.

Acaba pegando no sono.

A sensação de ardência faz com que você desperte. Começa

na garganta, uma sensação de queimação como quando você

pegou uma gripe e vomitou seis vezes no mesmo dia. Mais uma hora se passa. Seu estômago, há pouco satisfeito, começa a se

retorcer de dor e náusea. A outra garota tenta ajudá-la quando

vomita pela primeira vez, mas sua garganta dói tanto que mal

consegue falar.

O dia seguinte é ainda pior, mas ele obriga você a trabalhar

mesmo assim. Você limpa o banheiro para ter acesso fácil ao

vaso sanitário, e passa metade do tempo dobrada sobre ele.

Então é hora de voltar para a cama, onde você desaba. Você mal

consegue se mexer quando ele a procura outra vez. No dia

seguinte, você não consegue se mexer nem um pouco. Há pouco

tempo, você teria feito qualquer coisa para escapar desse

pequeno quarto cinza. Até mesmo as horas passadas em outras

partes da casa eram um alívio. Mas agora você não tem forças

para sonhar com uma fuga.

Consegue sentir seu corpo parando de funcionar e sabe que é

o que ele queria. Ele queria assistir toda sua força deixando seu

corpo. Ele queria enfraquecê-la para que fosse mais fácil eliminá-

la completamente.

 

[MÚSICA TEMA + INTRODUÇÃO]

NARRAÇÃO DE ELLE

O formato do episódio desta semana é um pouco diferente. No

lugar das diferentes entrevistas, histórias de apoio e monólogo,

estou dedicando o episódio inteiro a uma entrevista especial. Há

uma pilha de jornais à minha frente com tudo o que consegui

reunir sobre a primeira vez em que ela se tornou uma figura

pública. Embora hoje em dia o nome dela seja reconhecido por

fãs de true crime em todo o mundo, quando ela desapareceu a

manchete do Tribune nem sequer o mencionava. Dizia apenas:

MAIS UMA GAROTA, ONZE ANOS, SEQUESTRADA PELO

ACR?

Depois de muito tempo, de muita ponderação e de uma

persuasão amistosa, Nora Watson concordou em contar sua

história no Justiça Tardia. Como aqueles que estão familiarizados

com o caso devem saber, Nora hoje usa um novo nome e recusa

entrevistas públicas desde que era adolescente. No entanto, ela

concordou em quebrar décadas de silêncio na esperança de que

suas lembranças contribuam para a captura do elusivo assassino

que roubou sua infância — e que chegou perto de roubar sua

vida.

Alterei a voz dela nesse episódio. A entrevista não foi editada,

mas ela também pôde escolher as perguntas que queria

responder. Acima de tudo, minha intenção era que ela contasse

sua história sem se preocupar com perguntas e interrupções.

Vamos para a entrevista.

ELLE

Vamos começar do começo. O que aconteceu quando você foi

sequestrada?

NORA

Você já contou a história sobre como fui enganada e convencida

a entrar no carro do quando estava na casa de uma amiga.

Tudo o que relatou estava correto. Quando percebi que ele não

estava dirigindo em direção à minha casa, comecei a gritar e a

chutar o encosto do assento do motorista. Ele me disse para

calar a boca e ameaçou me agredir, mas assim que ele parou em

um semáforo pulei do carro e tentei correr. Não cheguei muito

longe. Ele me alcançou em segundos e me jogou de volta no

carro, e então picou minha perna com alguma coisa. Deve ter

sido algum tipo de sedativo, porque a próxima coisa da qual me

lembro era de acordar naquele quarto, no chalé. E Jéssica estava

lá.

Ela foi muito protetora comigo logo de cara, agindo como se

fosse minha irmã mais velha. Ela gritou com o homem quando eu

chorava até que ele saísse do quarto. Ela me alertou sobre como

deveria me comportar com ele, mas no começo eu não a ouvi.

Quando ele voltou mais tarde e me chamou para que eu fosse

até a porta, eu o ignorei. Jéssica me disse para ir, mas eu apenas

fechei meus olhos e virei o rosto. Nesse momento, ele abriu a

porta e entrou. Ele se sentou ao meu lado na cama e me olhou

nos olhos. Não me lembro do rosto dele, mas me lembro de seus

olhos duros e cheios de ódio. Ele não disse nada por alguns

instantes, o que foi pior do que se ele tivesse gritado. O silêncio

enquanto eu aguardava para saber qual seria meu castigo quase

me fez urinar na cama. Então ele me deu um forte tapa no rosto, apenas uma vez. Meus pais nunca me bateram, então, em um

primeiro momento, eu fiquei espantada demais para chorar. Ele

disse: — Da próxima vez, venha quando eu te chamar. — Depois

se levantou e saiu do quarto. Eu não o ignorei mais depois disso.

ELLE

O que aconteceu quando ele voltou a chamá-la?

NORA

Jessica tentou convencê-lo a levá-la em meu lugar, mas ela

estava vomitando constantemente. Embora ela tenha dito que

achava que a comida trazida por ele a estava deixando doente,

àquela altura eu estava havia mais de um dia sem comida, eu

sentia que ia morrer de fome. Não parecia ser um problema para

ele que eu visse tudo quando saía no corredor. Era um lugar

bonito: grande e arejado, embora o quarto onde ele nos mantinha

fosse minúsculo. Em retrospectiva, acho que pode ter sido um

escritório. O resto da propriedade era completamente diferente.

Eu lembro de haver quatro quartos, duas salas, uma lareira

enorme. Havia uma Bíblia na mesa de centro em uma das salas,

alguns crucifixos nas paredes. Fora isso, o resto da decoração

seguia uma temática de caça: patos empalhados como se

estivessem em pleno voo, uma dúzia de placas com galhadas,

uma cabeça inteira de um animal. Era de arrepiar.

Ele me levou até a cozinha no andar de baixo e disse que me

daria comida depois que eu limpasse o cômodo inteiro. — Se vai

comer da minha comida, precisa fazer algo em troca — disse ele.

— A Bíblia diz: “Se alguém não quiser trabalhar, também não

coma.”

Eu já decorara dezenas de trechos da Bíblia quando tinha onze

anos, mas nunca tinha ouvido alguém recitá-los com tanto rancor

como aquele homem. Nosso pastor dizia que a Bíblia era como

um martelo: poderia ser usada como uma ferramenta ou como

uma arma, dependia apenas de quem a tinha em mãos. Homens maus a usam como instrumentos de controle, e ele parecia

gostar de nos controlar.

Mas ele não parecia mau. Eu me lembro de pensar isso. Eu

não teria entrado em um carro com ele se fosse diferente.

Sempre foi um grande motivo de frustração para mim que eu não

consiga me lembrar de nada específico de seu rosto, mas acho

que isso se dá, em partes, porque ele tinha uma aparência tão

normal. Como se ele devesse ser mais bondoso do que era.

ELLE

Então não se lembra de nada na aparência dele?

NORA

Nada além do que eu reportei à polícia quando tinha onze anos.

Eles tentaram me ajudar a lembrar mais coisas de várias

maneiras: hipnose, terapia, entrevista forense. Mas eu

simplesmente não conseguia. A psiquiatra que me consultou

disse que eu havia reprimido as lembranças dele, que minha

memória havia sido completamente apagada devido à ansiedade

como um mecanismo de defesa. Algumas vezes me pergunto se

eu o reconheceria se o visse na rua, mas não sei se seria capaz.

Eu nunca tive uma boa memória para rostos, não sei se devido

ao que aconteceu ou se sempre foi assim. Não é incomum que

eu “conheça” alguém três ou quatro vezes por não me lembrar de

interações anteriores.

ELLE

Entendo. E o que aconteceu em seguida?

NORA

Quando ele saiu do cômodo, tentei encontrar alguma forma de

escapar, mas não havia porta de saída na cozinha e as janelas

não abriam pelo lado de dentro. Estava escurecendo, tudo o que

eu conseguia enxergar era um denso aglomerado de árvores e

neve sobre o chão. Por ter estado inconsciente enquanto ele me

levava para lá, eu não fazia ideia de quão distante de casa eu

estava. Eu estava desesperada por comida, mas tinha a

sensação de que ele estava me observando e de que saberia se

eu roubasse biscoitos da despensa. Então peguei os produtos de

limpeza no armário que ficava debaixo da pia e comecei a limpar.

Eu já tinha limpado coisas antes. Minha mãe nunca me mimou,

embora ela mesma não fosse a típica dona de casa. Se uma

faxina era o que eu tinha que fazer para conseguir uma refeição,

eu me certificaria de que a cozinha estava limpa o suficiente para

que eu pudesse comer comida do chão se fosse preciso. Eu lavei

os armários todos com água e sabão, limpei os farelos da

torradeira, esfreguei o forno para tirar a gordura, tirei toda a

comida da geladeira para limpá-la por dentro. Esse era um tipo

muito específico de tortura, mexer em toda aquela comida sem

poder comer nada. Mas eu sabia que Jessica estava com fome

também, e imaginei que se eu fizesse um bom trabalho ele me

daria o suficiente para dividir com ela.

Havia mais coisas relacionadas à Bíblia na cozinha: citações

cafonas sobre fé e superação escritas em letras cursivas em

cartões florais. A única coisa que se destacava era um cartão escrito à mão fixado na geladeira com um imã. Êxodo 34:21.

“Trabalharás por seis dias e descansará no sétimo.”

Nesse momento, eu percebi. Eu era jovem, mas já tinha ouvido

rumores sobre o Assassino da Contagem Regressiva na escola.

Naquela época, sabíamos que ele estaria buscando por garotas

da nossa idade, e os garotos na escola brincavam com isso,

diziam que o ia nos pegar se não os beijássemos atrás das

arquibancadas, como se ele fosse uma espécie de bicho-papão.

Jessica tinha me dito que tinha doze anos. Eu tinha onze.

Continuei limpando, mas daquele momento em diante só

conseguia pensar no que faríamos para escapar.

Levei mais de três horas para terminar. Depois de passar pano,

me sentei no balcão enquanto o chão secava e, por um

momento, só por um segundo, senti orgulho do que eu havia

feito. Então o medo e a saudade da minha mãe voltaram a me

atingir em cheio e eu comecei a chorar, soluçando. Não sei por

quanto tempo chorei antes de ouvir que o homem voltava para a

cozinha. Olhei para ele e perguntei: — Por que está fazendo isso

comigo?

Ele se aproximou e agora eu já sabia que não deveria me

afastar, então deixei que ele me tocasse e brincasse com meu

cabelo. — Ah, Nora — disse ele. — Nora, eu escolhi você. Você

é especial. Deveria se sentir sortuda.

Então ele me disse para pegar os produtos de limpeza e me

conduziu por um corredor até chegar no banheiro. As regras

haviam mudado: agora, enquanto eu esperava que ele

preparasse a comida, eu deveria limpar o banheiro também. Eu

fiquei furiosa, mas àquela altura teria feito qualquer coisa para poder comer. Não levou muito tempo, e, quando terminei,

conseguia sentir o cheiro de tomate e manjericão vindo da

cozinha. Ele estava fazendo macarrão. Ainda não sei se ele

sabia que era minha comida favorita ou se era uma coincidência.

De qualquer forma, precisei me controlar para andar em uma

velocidade normal até a cozinha. Quando abri a porta, acho que

não consegui conter uma exclamação de espanto.

Havia molho vermelho em todo lugar: espalhado pelos balcões,

espirrado por todos os armários, respingado até mesmo no teto

branco. Havia panelas e frigideiras sujas na pia. O homem estava

sentado em um banco na ilha da cozinha, girando o garfo em um

prato de macarrão. Ele ergueu o garfo com comida e o levou à

boca enquanto olhava para mim. Ainda me lembro de seus olhos

azuis inexpressíveis, parecidos com os de um lagarto.

Depois de engolir a comida, ele disse, com um sorriso: — Veja

a bagunça que você fez. Infelizmente não sobrou nada pra você.

Cozinhar me deixou com muita fome. — Nunca vou me esquecer

da maneira como ele me olhava, como se eu fosse patética,

como se ele esperasse me ver chorar. Então ele me disse para

limpar toda aquela sujeira e talvez, mais tarde, ele me desse algo

para comer.

Mas ele não deu. Quando terminei de limpar pela segunda vez,

ele me pegou pelo braço e me arrastou de volta para o quarto

onde eu ficava com Jessica. Eu estava com tanta raiva que tentei

me desvencilhar dele e correr de volta para a cozinha, mas

quando vi o estado em que Jessica estava me esqueci

completamente de que estava com fome. Ela estava claramente

muito doente, mas ele não parecia se importar. Eu gritei que ele tinha que levá-la ao médico e ele olhou para mim como se eu

fosse uma idiota. Porque, é claro, ele estava tentando matá-la e

iria me matar também.

ELLE

Jessica conseguiu ajudar você de alguma forma?

NORA

Não, ela estava muito mal. Era perfeito, na verdade, o sistema

dele. Ele enfraquecia a primeira garota e a deixava paralisada de

medo antes de trazer a próxima e começar o processo do zero.

Isso fazia com que sobreviver, revidar, parecesse impossível.

Você assiste a vida se esvaindo de uma pessoa sabendo que

você será a próxima. Se o é bom em alguma coisa, é em

saber como causar e intensificar o medo até um nível

excruciante.

Eu tentava convencer Jessica de que ela deveria vir comigo,

de que nós precisávamos encontrar uma maneira de escapar,

mas ela mal conseguia se mexer. Ele veio e a levou uma vez,

acho que em minha segunda manhã lá, mas a trouxe de volta

depois de vinte minutos. Ela mal conseguia se mexer. Ela me

disse que ele saía bem cedo todos os dias de manhã e ficava

fora por cerca de uma hora. Aparentemente ele ia para a zona

rural. Aquela era nossa chance, mas a única forma de sair do

quarto era por uma janela. Era muito pequena e ficava no alto,

então não tinha fechadura. Ele nos dissera que havia cachorros

agressivos na propriedade, que estávamos a quase cinquenta

quilômetros da cidade mais próxima. Durante o inverno em

Minnesota, sem casaco e sem sapatos, aquela era uma sentença

de morte por si só. Ele fazia qualquer possibilidade de fuga

parecer impossível. Acho que ele também ficou um pouco

arrogante. Ninguém conseguira fugir dele antes — ele passou a acreditar que exercia um controle tão grande sobre nós que nem

sequer tentaríamos.

Em meu terceiro dia, eu soube que não tinha mais tempo. Não

sabia se ele mataria Jessica antes de sequestrar outra garota ou

se ele saíra naquela manhã para seguir e sequestrar a próxima

vítima. De qualquer maneira, eu disse a Jessica que

precisávamos fugir naquele momento ou jamais fugiríamos. As

garotas antes de nós provavelmente eram grandes demais, mas

nós duas éramos pequenas para passar pela janela se

saíssemos primeiro pela cabeça. Pensei que, se nos

esticássemos, conseguiríamos alcançar o cano e escorregar para

baixo. Eu não fazia ideia se o cano aguentaria nosso peso, e

assim que chegássemos no chão teríamos que lidar com os

cachorros e a neve vestindo apenas os pijamas que ele nos dera,

mas era a única forma.

[Em prantos.] Eu estava errada. Tentei alcançar o cano, mas

não consegui segurar com firmeza e perdi o equilíbrio, caindo

dentro do quarto. Não havia espaço suficiente para que eu

passasse uma perna pela janela para me apoiar de maneira

firme. Então, quando eu estava me esticando pelo que pareceu a

décima vez, no momento em que eu comecei a cair para a frente,

senti uma mão segurar minhas roupas. Jessica estava atrás de

mim, me impedindo de cair no chão congelado. Eu disse que

não, que nós duas tínhamos que ir, mas ela apenas balançou a

cabeça. Ela não disse nada. Tudo o que ela fez foi segurar minha

mão e acenar com a cabeça em direção à janela.

Quando ela me segurou, consegui me esticar o suficiente para

segurar o cano sem perder o equilíbrio. Ela se inclinou para fora da janela, escorando os pés na parede dentro do chalé para

apoiar suas pernas trêmulas. Ela me segurou até que eu

conseguisse me apoiar no cano com meus pés, e então ela

soltou.

Eu não tive tempo para pensar, não tive tempo para chorar.

Isso viria depois. Eu já estava congelando quando cheguei no

chão. Até onde eu sei, os cachorros eram só mais uma das

mentiras contadas por ele. Eu nunca os vi ou ouvi, mas não fiquei

lá por muito tempo. Eu corri o mais rápido que pude no escuro do

início da manhã. Em retrospectiva, acho que essa foi a única

razão pela qual sobrevivi. Se o sol já tivesse nascido, não teria

conseguido ver as luzes do posto de gasolina. Havia luz

suficiente no céu para que eu soubesse que direção seguir, e o

posto estava apenas a cerca de oitocentos metros. Mais uma

mentira contada pelo — e essa salvou minha vida.

ELLE

Por que você decidiu ficar longe da mídia até agora? Você com

certeza ganharia uma fortuna contando sua história.

NORA

Não quero lucrar com o que aconteceu comigo. Quero que o

seja encontrado. Quero que ele seja punido pelo que fez

comigo, com Jessica — com todas aquelas garotas.

ELLE

O que acha que as pessoas devem saber sobre o com

base em sua experiência?

NORA

Duas coisas pareciam importantes para ele: controle e medo.

Tudo o que ele fazia, cada ação com as garotas que ele

sequestrou e cada palavra dita para mim enquanto eu tremia em

seu chalé alimentava essas duas necessidades. Acredito que a

imagem que se tem dele hoje e o status místico que ele criou

para si mesmo tenham alimentado essa necessidade pelos

últimos vinte anos. Acho que essa é a razão pela qual ele não

voltou a matar. Não porque eu escapei e estraguei tudo, mas

porque ele já estava conseguindo o que queria mesmo que não

estivesse cometendo assassinatos. Por nunca ter sido pego, ele

controla a narrativa, e ainda é temido.

Mas se isso acabar um dia, se ele vier a sentir que seu

trabalho ou legado estão sendo ameaçados, ele vai voltar. E se

ele voltar, será muito, muito pior.