Garota, 11
Capítulo 25
Podcast Justiça Tardia
9 de janeiro de 2020
Transcrição: Quinto episódio da quinta temporada
NARRAÇÃO NÃO IDENTIFICADA
Você está trancada em um quarto com outra garota. Ela está aqui
há um dia, mas você está há mais tempo. Pelo menos três ou
quatro — você já perdeu a conta. Para comer, você recebeu
apenas alguns restos de comida e teve que trabalhar duro para
consegui-los. Lavou as paredes com uma esponja, tirou o pó de
cada centímetro das cortinas, esfregou o chão com tanta força
que os nós de seus dedos estão em carne viva. Sua pele tem um
cheiro de água sanitária que não vai embora e você tem
queimaduras químicas para provar.
Seu corpo está fraco, débil, e, mesmo movida pelo medo, você
mal consegue se movimentar quando escuta aquele que a
prendeu se aproximando da porta. Mas dessa vez ele está
trazendo comida. É um mingau espesso que você teria
desprezado duas semanas atrás, mas agora você quase derruba
a outra garota ao avançar para pegá-lo. Ele a assiste comer.
Quando você já comeu mais da metade, percebe que ele não
trouxe nada para a outra garota. Oferece o mingau a ela,
relutante, mas ele balança a cabeça. Não, é só para você. Ele
observa enquanto você termina a refeição, até a última colher, e
então leva a tigela embora.
Você fica deitada no colchão sujo por algumas horas, de
estômago cheio pela primeira vez no que parecem ser séculos.
Acaba pegando no sono.
A sensação de ardência faz com que você desperte. Começa
na garganta, uma sensação de queimação como quando você
pegou uma gripe e vomitou seis vezes no mesmo dia. Mais uma hora se passa. Seu estômago, há pouco satisfeito, começa a se
retorcer de dor e náusea. A outra garota tenta ajudá-la quando
vomita pela primeira vez, mas sua garganta dói tanto que mal
consegue falar.
O dia seguinte é ainda pior, mas ele obriga você a trabalhar
mesmo assim. Você limpa o banheiro para ter acesso fácil ao
vaso sanitário, e passa metade do tempo dobrada sobre ele.
Então é hora de voltar para a cama, onde você desaba. Você mal
consegue se mexer quando ele a procura outra vez. No dia
seguinte, você não consegue se mexer nem um pouco. Há pouco
tempo, você teria feito qualquer coisa para escapar desse
pequeno quarto cinza. Até mesmo as horas passadas em outras
partes da casa eram um alívio. Mas agora você não tem forças
para sonhar com uma fuga.
Consegue sentir seu corpo parando de funcionar e sabe que é
o que ele queria. Ele queria assistir toda sua força deixando seu
corpo. Ele queria enfraquecê-la para que fosse mais fácil eliminá-
la completamente.
[MÚSICA TEMA + INTRODUÇÃO]
NARRAÇÃO DE ELLE
O formato do episódio desta semana é um pouco diferente. No
lugar das diferentes entrevistas, histórias de apoio e monólogo,
estou dedicando o episódio inteiro a uma entrevista especial. Há
uma pilha de jornais à minha frente com tudo o que consegui
reunir sobre a primeira vez em que ela se tornou uma figura
pública. Embora hoje em dia o nome dela seja reconhecido por
fãs de true crime em todo o mundo, quando ela desapareceu a
manchete do Tribune nem sequer o mencionava. Dizia apenas:
MAIS UMA GAROTA, ONZE ANOS, SEQUESTRADA PELO
ACR?
Depois de muito tempo, de muita ponderação e de uma
persuasão amistosa, Nora Watson concordou em contar sua
história no Justiça Tardia. Como aqueles que estão familiarizados
com o caso devem saber, Nora hoje usa um novo nome e recusa
entrevistas públicas desde que era adolescente. No entanto, ela
concordou em quebrar décadas de silêncio na esperança de que
suas lembranças contribuam para a captura do elusivo assassino
que roubou sua infância — e que chegou perto de roubar sua
vida.
Alterei a voz dela nesse episódio. A entrevista não foi editada,
mas ela também pôde escolher as perguntas que queria
responder. Acima de tudo, minha intenção era que ela contasse
sua história sem se preocupar com perguntas e interrupções.
Vamos para a entrevista.
ELLE
Vamos começar do começo. O que aconteceu quando você foi
sequestrada?
NORA
Você já contou a história sobre como fui enganada e convencida
a entrar no carro do quando estava na casa de uma amiga.
Tudo o que relatou estava correto. Quando percebi que ele não
estava dirigindo em direção à minha casa, comecei a gritar e a
chutar o encosto do assento do motorista. Ele me disse para
calar a boca e ameaçou me agredir, mas assim que ele parou em
um semáforo pulei do carro e tentei correr. Não cheguei muito
longe. Ele me alcançou em segundos e me jogou de volta no
carro, e então picou minha perna com alguma coisa. Deve ter
sido algum tipo de sedativo, porque a próxima coisa da qual me
lembro era de acordar naquele quarto, no chalé. E Jéssica estava
lá.
Ela foi muito protetora comigo logo de cara, agindo como se
fosse minha irmã mais velha. Ela gritou com o homem quando eu
chorava até que ele saísse do quarto. Ela me alertou sobre como
deveria me comportar com ele, mas no começo eu não a ouvi.
Quando ele voltou mais tarde e me chamou para que eu fosse
até a porta, eu o ignorei. Jéssica me disse para ir, mas eu apenas
fechei meus olhos e virei o rosto. Nesse momento, ele abriu a
porta e entrou. Ele se sentou ao meu lado na cama e me olhou
nos olhos. Não me lembro do rosto dele, mas me lembro de seus
olhos duros e cheios de ódio. Ele não disse nada por alguns
instantes, o que foi pior do que se ele tivesse gritado. O silêncio
enquanto eu aguardava para saber qual seria meu castigo quase
me fez urinar na cama. Então ele me deu um forte tapa no rosto, apenas uma vez. Meus pais nunca me bateram, então, em um
primeiro momento, eu fiquei espantada demais para chorar. Ele
disse: — Da próxima vez, venha quando eu te chamar. — Depois
se levantou e saiu do quarto. Eu não o ignorei mais depois disso.
ELLE
O que aconteceu quando ele voltou a chamá-la?
NORA
Jessica tentou convencê-lo a levá-la em meu lugar, mas ela
estava vomitando constantemente. Embora ela tenha dito que
achava que a comida trazida por ele a estava deixando doente,
àquela altura eu estava havia mais de um dia sem comida, eu
sentia que ia morrer de fome. Não parecia ser um problema para
ele que eu visse tudo quando saía no corredor. Era um lugar
bonito: grande e arejado, embora o quarto onde ele nos mantinha
fosse minúsculo. Em retrospectiva, acho que pode ter sido um
escritório. O resto da propriedade era completamente diferente.
Eu lembro de haver quatro quartos, duas salas, uma lareira
enorme. Havia uma Bíblia na mesa de centro em uma das salas,
alguns crucifixos nas paredes. Fora isso, o resto da decoração
seguia uma temática de caça: patos empalhados como se
estivessem em pleno voo, uma dúzia de placas com galhadas,
uma cabeça inteira de um animal. Era de arrepiar.
Ele me levou até a cozinha no andar de baixo e disse que me
daria comida depois que eu limpasse o cômodo inteiro. — Se vai
comer da minha comida, precisa fazer algo em troca — disse ele.
— A Bíblia diz: “Se alguém não quiser trabalhar, também não
coma.”
Eu já decorara dezenas de trechos da Bíblia quando tinha onze
anos, mas nunca tinha ouvido alguém recitá-los com tanto rancor
como aquele homem. Nosso pastor dizia que a Bíblia era como
um martelo: poderia ser usada como uma ferramenta ou como
uma arma, dependia apenas de quem a tinha em mãos. Homens maus a usam como instrumentos de controle, e ele parecia
gostar de nos controlar.
Mas ele não parecia mau. Eu me lembro de pensar isso. Eu
não teria entrado em um carro com ele se fosse diferente.
Sempre foi um grande motivo de frustração para mim que eu não
consiga me lembrar de nada específico de seu rosto, mas acho
que isso se dá, em partes, porque ele tinha uma aparência tão
normal. Como se ele devesse ser mais bondoso do que era.
ELLE
Então não se lembra de nada na aparência dele?
NORA
Nada além do que eu reportei à polícia quando tinha onze anos.
Eles tentaram me ajudar a lembrar mais coisas de várias
maneiras: hipnose, terapia, entrevista forense. Mas eu
simplesmente não conseguia. A psiquiatra que me consultou
disse que eu havia reprimido as lembranças dele, que minha
memória havia sido completamente apagada devido à ansiedade
como um mecanismo de defesa. Algumas vezes me pergunto se
eu o reconheceria se o visse na rua, mas não sei se seria capaz.
Eu nunca tive uma boa memória para rostos, não sei se devido
ao que aconteceu ou se sempre foi assim. Não é incomum que
eu “conheça” alguém três ou quatro vezes por não me lembrar de
interações anteriores.
ELLE
Entendo. E o que aconteceu em seguida?
NORA
Quando ele saiu do cômodo, tentei encontrar alguma forma de
escapar, mas não havia porta de saída na cozinha e as janelas
não abriam pelo lado de dentro. Estava escurecendo, tudo o que
eu conseguia enxergar era um denso aglomerado de árvores e
neve sobre o chão. Por ter estado inconsciente enquanto ele me
levava para lá, eu não fazia ideia de quão distante de casa eu
estava. Eu estava desesperada por comida, mas tinha a
sensação de que ele estava me observando e de que saberia se
eu roubasse biscoitos da despensa. Então peguei os produtos de
limpeza no armário que ficava debaixo da pia e comecei a limpar.
Eu já tinha limpado coisas antes. Minha mãe nunca me mimou,
embora ela mesma não fosse a típica dona de casa. Se uma
faxina era o que eu tinha que fazer para conseguir uma refeição,
eu me certificaria de que a cozinha estava limpa o suficiente para
que eu pudesse comer comida do chão se fosse preciso. Eu lavei
os armários todos com água e sabão, limpei os farelos da
torradeira, esfreguei o forno para tirar a gordura, tirei toda a
comida da geladeira para limpá-la por dentro. Esse era um tipo
muito específico de tortura, mexer em toda aquela comida sem
poder comer nada. Mas eu sabia que Jessica estava com fome
também, e imaginei que se eu fizesse um bom trabalho ele me
daria o suficiente para dividir com ela.
Havia mais coisas relacionadas à Bíblia na cozinha: citações
cafonas sobre fé e superação escritas em letras cursivas em
cartões florais. A única coisa que se destacava era um cartão escrito à mão fixado na geladeira com um imã. Êxodo 34:21.
“Trabalharás por seis dias e descansará no sétimo.”
Nesse momento, eu percebi. Eu era jovem, mas já tinha ouvido
rumores sobre o Assassino da Contagem Regressiva na escola.
Naquela época, sabíamos que ele estaria buscando por garotas
da nossa idade, e os garotos na escola brincavam com isso,
diziam que o ia nos pegar se não os beijássemos atrás das
arquibancadas, como se ele fosse uma espécie de bicho-papão.
Jessica tinha me dito que tinha doze anos. Eu tinha onze.
Continuei limpando, mas daquele momento em diante só
conseguia pensar no que faríamos para escapar.
Levei mais de três horas para terminar. Depois de passar pano,
me sentei no balcão enquanto o chão secava e, por um
momento, só por um segundo, senti orgulho do que eu havia
feito. Então o medo e a saudade da minha mãe voltaram a me
atingir em cheio e eu comecei a chorar, soluçando. Não sei por
quanto tempo chorei antes de ouvir que o homem voltava para a
cozinha. Olhei para ele e perguntei: — Por que está fazendo isso
comigo?
Ele se aproximou e agora eu já sabia que não deveria me
afastar, então deixei que ele me tocasse e brincasse com meu
cabelo. — Ah, Nora — disse ele. — Nora, eu escolhi você. Você
é especial. Deveria se sentir sortuda.
Então ele me disse para pegar os produtos de limpeza e me
conduziu por um corredor até chegar no banheiro. As regras
haviam mudado: agora, enquanto eu esperava que ele
preparasse a comida, eu deveria limpar o banheiro também. Eu
fiquei furiosa, mas àquela altura teria feito qualquer coisa para poder comer. Não levou muito tempo, e, quando terminei,
conseguia sentir o cheiro de tomate e manjericão vindo da
cozinha. Ele estava fazendo macarrão. Ainda não sei se ele
sabia que era minha comida favorita ou se era uma coincidência.
De qualquer forma, precisei me controlar para andar em uma
velocidade normal até a cozinha. Quando abri a porta, acho que
não consegui conter uma exclamação de espanto.
Havia molho vermelho em todo lugar: espalhado pelos balcões,
espirrado por todos os armários, respingado até mesmo no teto
branco. Havia panelas e frigideiras sujas na pia. O homem estava
sentado em um banco na ilha da cozinha, girando o garfo em um
prato de macarrão. Ele ergueu o garfo com comida e o levou à
boca enquanto olhava para mim. Ainda me lembro de seus olhos
azuis inexpressíveis, parecidos com os de um lagarto.
Depois de engolir a comida, ele disse, com um sorriso: — Veja
a bagunça que você fez. Infelizmente não sobrou nada pra você.
Cozinhar me deixou com muita fome. — Nunca vou me esquecer
da maneira como ele me olhava, como se eu fosse patética,
como se ele esperasse me ver chorar. Então ele me disse para
limpar toda aquela sujeira e talvez, mais tarde, ele me desse algo
para comer.
Mas ele não deu. Quando terminei de limpar pela segunda vez,
ele me pegou pelo braço e me arrastou de volta para o quarto
onde eu ficava com Jessica. Eu estava com tanta raiva que tentei
me desvencilhar dele e correr de volta para a cozinha, mas
quando vi o estado em que Jessica estava me esqueci
completamente de que estava com fome. Ela estava claramente
muito doente, mas ele não parecia se importar. Eu gritei que ele tinha que levá-la ao médico e ele olhou para mim como se eu
fosse uma idiota. Porque, é claro, ele estava tentando matá-la e
iria me matar também.
ELLE
Jessica conseguiu ajudar você de alguma forma?
NORA
Não, ela estava muito mal. Era perfeito, na verdade, o sistema
dele. Ele enfraquecia a primeira garota e a deixava paralisada de
medo antes de trazer a próxima e começar o processo do zero.
Isso fazia com que sobreviver, revidar, parecesse impossível.
Você assiste a vida se esvaindo de uma pessoa sabendo que
você será a próxima. Se o é bom em alguma coisa, é em
saber como causar e intensificar o medo até um nível
excruciante.
Eu tentava convencer Jessica de que ela deveria vir comigo,
de que nós precisávamos encontrar uma maneira de escapar,
mas ela mal conseguia se mexer. Ele veio e a levou uma vez,
acho que em minha segunda manhã lá, mas a trouxe de volta
depois de vinte minutos. Ela mal conseguia se mexer. Ela me
disse que ele saía bem cedo todos os dias de manhã e ficava
fora por cerca de uma hora. Aparentemente ele ia para a zona
rural. Aquela era nossa chance, mas a única forma de sair do
quarto era por uma janela. Era muito pequena e ficava no alto,
então não tinha fechadura. Ele nos dissera que havia cachorros
agressivos na propriedade, que estávamos a quase cinquenta
quilômetros da cidade mais próxima. Durante o inverno em
Minnesota, sem casaco e sem sapatos, aquela era uma sentença
de morte por si só. Ele fazia qualquer possibilidade de fuga
parecer impossível. Acho que ele também ficou um pouco
arrogante. Ninguém conseguira fugir dele antes — ele passou a acreditar que exercia um controle tão grande sobre nós que nem
sequer tentaríamos.
Em meu terceiro dia, eu soube que não tinha mais tempo. Não
sabia se ele mataria Jessica antes de sequestrar outra garota ou
se ele saíra naquela manhã para seguir e sequestrar a próxima
vítima. De qualquer maneira, eu disse a Jessica que
precisávamos fugir naquele momento ou jamais fugiríamos. As
garotas antes de nós provavelmente eram grandes demais, mas
nós duas éramos pequenas para passar pela janela se
saíssemos primeiro pela cabeça. Pensei que, se nos
esticássemos, conseguiríamos alcançar o cano e escorregar para
baixo. Eu não fazia ideia se o cano aguentaria nosso peso, e
assim que chegássemos no chão teríamos que lidar com os
cachorros e a neve vestindo apenas os pijamas que ele nos dera,
mas era a única forma.
[Em prantos.] Eu estava errada. Tentei alcançar o cano, mas
não consegui segurar com firmeza e perdi o equilíbrio, caindo
dentro do quarto. Não havia espaço suficiente para que eu
passasse uma perna pela janela para me apoiar de maneira
firme. Então, quando eu estava me esticando pelo que pareceu a
décima vez, no momento em que eu comecei a cair para a frente,
senti uma mão segurar minhas roupas. Jessica estava atrás de
mim, me impedindo de cair no chão congelado. Eu disse que
não, que nós duas tínhamos que ir, mas ela apenas balançou a
cabeça. Ela não disse nada. Tudo o que ela fez foi segurar minha
mão e acenar com a cabeça em direção à janela.
Quando ela me segurou, consegui me esticar o suficiente para
segurar o cano sem perder o equilíbrio. Ela se inclinou para fora da janela, escorando os pés na parede dentro do chalé para
apoiar suas pernas trêmulas. Ela me segurou até que eu
conseguisse me apoiar no cano com meus pés, e então ela
soltou.
Eu não tive tempo para pensar, não tive tempo para chorar.
Isso viria depois. Eu já estava congelando quando cheguei no
chão. Até onde eu sei, os cachorros eram só mais uma das
mentiras contadas por ele. Eu nunca os vi ou ouvi, mas não fiquei
lá por muito tempo. Eu corri o mais rápido que pude no escuro do
início da manhã. Em retrospectiva, acho que essa foi a única
razão pela qual sobrevivi. Se o sol já tivesse nascido, não teria
conseguido ver as luzes do posto de gasolina. Havia luz
suficiente no céu para que eu soubesse que direção seguir, e o
posto estava apenas a cerca de oitocentos metros. Mais uma
mentira contada pelo — e essa salvou minha vida.
ELLE
Por que você decidiu ficar longe da mídia até agora? Você com
certeza ganharia uma fortuna contando sua história.
NORA
Não quero lucrar com o que aconteceu comigo. Quero que o
seja encontrado. Quero que ele seja punido pelo que fez
comigo, com Jessica — com todas aquelas garotas.
ELLE
O que acha que as pessoas devem saber sobre o com
base em sua experiência?
NORA
Duas coisas pareciam importantes para ele: controle e medo.
Tudo o que ele fazia, cada ação com as garotas que ele
sequestrou e cada palavra dita para mim enquanto eu tremia em
seu chalé alimentava essas duas necessidades. Acredito que a
imagem que se tem dele hoje e o status místico que ele criou
para si mesmo tenham alimentado essa necessidade pelos
últimos vinte anos. Acho que essa é a razão pela qual ele não
voltou a matar. Não porque eu escapei e estraguei tudo, mas
porque ele já estava conseguindo o que queria mesmo que não
estivesse cometendo assassinatos. Por nunca ter sido pego, ele
controla a narrativa, e ainda é temido.
Mas se isso acabar um dia, se ele vier a sentir que seu
trabalho ou legado estão sendo ameaçados, ele vai voltar. E se
ele voltar, será muito, muito pior.