Garota, 11

Amy Suiter Clarke · Capítulo 12 de 50

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Garota, 11

Capítulo 10

 

Podcast Justiça Tardia

19 de dezembro de 2016

Transcrição: Terceiro episódio da quinta temporada

 

[DESCRIÇÃO SONORA: Campainha de sino tocando quando

uma porta se abre; música indistinta tocando ao fundo.]

ELLE

Olá, você é Simeon Schmidt?

SIMEON

Eu mesmo.

ELLE

Olá, meu nome é Elle Castillo. Falei com você ao telefone.

SIMEON

Ah, sim. Lily! Lily! Pode ficar de olho aqui por um minuto?

NARRAÇÃO DE ELLE

Estou em um posto de gasolina perto da I-94 na saída de

Lakeland, Minnesota. Consigo ver o rio St. Croix de onde estou,

bem perto da ponte interestadual que me levaria até Wisconsin.

Depois de alguns minutos de discussão com sua esposa, o dono,

Simeon, me conduziu até seu apertado escritório nos fundos do

prédio. Depois de nos acomodarmos, o lembrei da razão pela

qual eu estava ali.

ELLE

Estou investigando os assassinatos do Assassino da Contagem

Regressiva no fim dos anos noventa, e entendo que você tem

uma conexão com o caso. Você ajudou a última vítima do a

escapar, correto?

SIMEON

Não foi bem assim. Quando chegou até mim, aquela garotinha já

tinha corrido por quase um quilômetro descalça e na neve. Acho

que o mérito por ter escapado é todo dela. Só dei a ela um lugar

aquecido para ficar enquanto esperava pela polícia.

ELLE

É uma observação justa, mas tenho certeza de que ela ainda

seria grata a você por fornecer um refúgio aquecido e um lugar

de onde ela pode ligar para a polícia.

SIMEON

Qualquer um teria feito o mesmo.

ELLE

Talvez esteja certo. Pode descrever o que aconteceu naquela

noite?

SIMEON

Posso. Bom, tenho esse posto de gasolina há mais de vinte e

cinco anos e trabalho sete dias por semana, do início ao fim do

dia. Eu e minha mulher moramos no pequeno apartamento que

fica aqui em cima, então, quando fechamos, ir para casa significa

simplesmente subir as escadas. Aquela foi uma noite como

qualquer outra. Estava prestes a trancar tudo, eu acho, indo

descansar, quando vejo uma garotinha correndo em direção ao

posto. Ela entrou correndo pela porta e no mesmo instante eu

soube que havia algo errado. O cabelo dela estava todo

embaraçado, parecia que ela não comia há dias e ela só estava

usando uma camisola.

Levou alguns minutos até que ela falasse alguma coisa. Ela

parecia apavorada, de olhos arregalados, olhando para trás a

todo momento como se estivesse sendo perseguida por um

monstro. Minha esposa finalmente acordou depois de eu chamá-

la algumas vezes, e quando a menina viu uma mulher pareceu

relaxar um pouco e começou a falar. Enquanto minha esposa

ligava para a polícia, a menina me contou que ela tinha fugido de

um chalé onde um homem a mantinha trancada obrigando-a a

limpar a casa dele. Ela disse que pulou pela janela, desceu por

um cano e correu até meu posto na neve. Eu não teria acreditado

tão fácil, mas dava para ver que ela tinha passado por poucas e

boas, sabe? Além disso, já tínhamos visto no jornal as matérias

sobre o assassino psicopata que estava assassinando meninas.

Enfim. Ela se acalmou o suficiente para tomar uma água morna e

vestir um par de calças de moletom que minha mulher arranjou para ela, e nessa altura a polícia e a ambulância já haviam

chegado. Eu nunca mais a vi, exceto por fotos nos jornais

algumas vezes.

ELLE

Imagino que a polícia tenha feito algumas perguntas para vocês.

SIMEON

Sim, eles fizeram, eles ficaram aqui até uma ou duas horas

depois e eu tive que ir até a delegacia uma outra vez, acho. Um

detetive das Cidades Gêmeas estava lá, o investigador principal

do caso do , se bem me lembro. Ele queria me fazer umas

perguntas sobre isso, mas não consigo me lembrar quais eram,

para ser sincero.

ELLE

Também recebeu um pouco de atenção da imprensa depois

disso, não foi?

SIMEON

Ah, não sei, suponho que sim. Os repórteres dos jornais ficaram

por aqui por uns dias. Acho que era uma notícia importante. As

vendas foram muito boas por uns dois meses, disso eu me

lembro. Eu e minha esposa pudemos passar uma semana em

Wisconsin Dells.

NARRAÇÃO DE ELLE

Os dias que se seguiram à fuga de Nora foram de ansiedade

para o público e para a polícia. Por um lado, todos estavam

aliviados por ela ter sobrevivido e por poder voltar a estar com os

pais depois de um período de recuperação no hospital. Por outro

lado, aquela era a primeira vez em que ninguém fazia ideia do

que o faria a seguir. A segunda vítima de sua tríade

escapara. Ele a substituiria por outra? Seguiria para a terceira, a

menina de dez anos, como se nada tivesse acontecido? Ou será

que ele tentaria fazer o improvável, recapturar Nora? Eles

fizeram tudo o que puderam para prevenir ao menos a última

possibilidade. Por um mês depois de sua fuga, ela e a família

estiveram sob vigilância policial vinte e quatro horas por dia. O

pai dela, um gerente de banco moderadamente rico, contratou

seguranças particulares por vários outros meses depois desse

período. Até o mês de julho nenhuma outra vítima que se

encaixava no padrão do havia sido levada e Nora

completou doze anos de idade.

Mas, àquela altura, a maioria das pessoas acreditava que

todas aquelas precauções haviam sido desnecessárias.

 

[DESCRIÇÃO SONORA: Neve sendo esmagada por passos; um

corvo grasnando.]

NARRAÇÃO DE ELLE

Estou neste momento na propriedade do chalé de dois andares

que a polícia acredita ser o local onde Nora Watson foi mantida

em cárcere. Para não fazê-la reviver o trauma, a polícia nunca

mais a trouxe aqui. Mas com base em fotos da área e na

distância do posto de gasolina, é seguro dizer que este é o lugar

certo. Há mais uma razão para acreditar que este é o lugar onde

Nora esteve presa: quando a polícia localizou a propriedade, o

chalé já se reduzira a uma pilha de cinzas e madeira

carbonizada, ainda ardendo silenciosamente no vento congelante

de inverno.

Já não resta mais nada do chalé agora, apenas uma pequena

clareira no meio da mata. A mata nessa região não costuma ser

densa, mas esse chalé é rodeado pelo maior número de árvores

possível de ser encontrado por aqui. Ela fica a quase dois

quilômetros de qualquer rodovia movimentada e é acessível

apenas por uma estreita trilha de cascalhos que passa por uma

trilha ainda mais estreita que dá acesso ao chalé. O terreno

pertence às mesmas pessoas a quem pertencia na época, um

casal rico que passa os verões no chalé de cinco quartos perto

do rio e os invernos nas praias da Flórida. Quando Nora

escapou, foi confirmado que ambos estavam na casa da Flórida,

fugindo do norte como faziam todo ano assim que o vento

mudava de direção.

O lugar está igualmente abandonado hoje. Punhados de neve

soprados pelos ventos da nevasca se acumulam nas árvores.

Folhas secas molhadas formam tufos marrons onde o solo está à vista. Deveria ser um lugar sereno, mas não encontro conforto

nenhum aqui. É um lugar agourento. A polícia nunca conseguiu

dizer com certeza quantas das vítimas do foram trazidas

até aqui, mas é o lugar onde pelo menos duas jovens garotas

foram mantidas em cárcere — onde pelo menos uma foi

assassinada. E é o lugar onde o corpo de Jessica, junto com

outros dois corpos adultos, foi encontrado entre as cinzas.

ELLE

O que pode me dizer sobre os corpos encontrados no chalé?

SYKES

Estimamos que tenham sido encontrados aproximadamente seis

horas depois do horário em que Eleanor Watson teria escapado,

se calculamos corretamente o tempo que ela passou correndo. O

corpo de Jessica foi o único identificado, como sabe. Baseado no

relatório do médico-legista, determinamos que ela morreu antes

de o incêndio ter sido iniciado, graças a Deus. Era o meio da

noite do sétimo dia, então não é surpreendente que ela já

houvesse sucumbido ao veneno àquela altura. Os outros dois

corpos eram de um homem e uma mulher, ambos entre vinte e

cinco e quarenta e cinco anos, caucasianos e sem qualquer

parentesco. Até o presente momento, 3 de novembro de 2019,

nenhum deles foi identificado. A autópsia determinou que Jessica

sucumbiu aos efeitos da ricina, mas os adultos foram mortos com

uma única bala na lateral da cabeça, e a arma foi queimada no

chalé junto com eles.

ELLE

E o incêndio no chalé foi definitivamente intencional?

SYKES

Sim, os bombeiros encontraram um agente acelerador de

incêndio, bem como um isqueiro no local.

ELLE

É correto afirmar que os dois corpos causaram um nível

considerável de controvérsia no caso?

SYKES

Foi pior do que isso.

ELLE

Pode explicar o porquê?

SYKES

Como sabe, desde a fuga de Nora Watson nunca mais

conseguimos atribuir outro assassinato ao Assassino da

Contagem Regressiva. Como eu disse antes, embora eu tenha

me aposentado, ainda estudo casos não solucionados quando

tenho a chance. Mas não encontrei nem mesmo um que se

encaixe no padrão do em todos esses anos. A maioria das

pessoas acredita que isso se deve ao fato de ele estar morto,

porque ele era o homem no chalé e aquele foi um homicídio

seguido de um suicídio. Dizem que a mulher que ele matou pode

ter sido sua comparsa nos crimes ou a esposa que não

suspeitava de nada e foi morta porque ele temia que ela pudesse

se voltar contra ele.

Mas há outros, como eu, que sabem que isso era o que ele

queria que as pessoas pensassem. Digamos que ele esteja vivo.

Ele teria que ter se escondido e se reorganizado, reavaliado sua

missão. Ele teria que decidir continuar a contagem ou ir embora e

tentar ter uma vida normal em outro lugar. Se ele de fato está

vivo, se as duas pessoas mortas por ele e queimadas naquela

cabine foram um disfarce, não sabemos o que ele decidiu, não

sabemos que tipo de vida ele escolheu levar. Ele pode estar

aposentado e vivendo em um vilarejo no Arizona. Talvez ele

tenha sido preso por outro crime mais tarde, e por isso nunca

mais voltou a matar.

Independentemente de onde estiver ou do que estiver fazendo

agora, ao incendiar aquele chalé ele conseguiu exatamente o que queria. Quando ficou claro que o não estava mais na

ativa, eles me disseram para deixar esse caso de lado e me focar

nos outros. Há mais de duzentos mil assassinatos não

solucionados nos Estados Unidos. Se todos nós passássemos

tanto tempo em um mesmo caso quanto eu passei, não

conseguiríamos fazer mais nada.

De vez em quando eu abria o caso, investigava as informações

que encontrava, tentava chamar a atenção da imprensa para o

aniversário da morte de uma das garotas ou para o dia em que

Nora escapou, mas nada nunca vingou. Por isso concordei em

ajudá-la com esse podcast, porque acho que a comunidade se

tornou complacente ao longo do tempo. Eles acreditam que o

perigo ficou para trás, que o ficou no passado. E não sei se

isso é verdade. Acho que já passou da hora de a polícia olhar

ativamente para esse caso outra vez, para, no mínimo, tentar

fazer justiça por essas vítimas. Eles não ficarão felizes por eu

estar dizendo isso, mas que seja, já estou aposentado. Já bati o

ponto. Que fiquem bravos.

ELLE

Se pudesse apontar uma coisa que gostaria que as pessoas

soubessem sobre esse caso, qual seria? Algo que, em sua

opinião, ajudaria a solucioná-lo.

SYKES

Que não importa o que digam na internet, não importa o que

relatórios e outros investigadores digam, não há provas — zero,

nenhuma — de que o Assassino da Contagem Regressiva está

morto. E se ele não estiver morto, ele ainda não acabou.

NARRAÇÃO DE ELLE

Obviamente, sei que estou abrindo espaço para ultraje por

sequer sugerir que o ainda está vivo. A maioria das

pessoas está muito confortável com a convicção de que ele está

morto há muito tempo. Mas por razões que ainda virão à tona,

concordo com o detetive Sykes. Concordo que já passou da hora

de o público prestar mais atenção nesse caso, concordo que

devemos exigir que ele seja solucionado. Como ele disse

anteriormente no episódio, acreditamos que algo crucial para isso

seria descobrir quem foi sua primeira vítima, caso não tenha sido

Beverly Anderson. Se conhece algum homicídio não solucionado

antes do de Beverly que aconteceu na área, por favor, entre em

contato. Os links para meu site e meu e-mail estão na descrição

do podcast. Já sabem que eu ouvirei e ao menos lerei suas

ideias.

Agora isso está nas nossas mãos — o povo. É hora de

analisarmos o que já sabemos sobre o Assassino da Contagem

Regressiva. Quem ele era, o que ele fez, por que ele fez. E se a

polícia já não se interessa em investigar o caso, é para isso que

estou aqui.

A seguir, no Justiça Tardia…