Garota, 11
Capítulo 29
1989 a 1992
Não foi suficiente para o pai de quando ele apresentou um
desempenho excelente na escola. Não foi suficiente quando ele
foi especialmente selecionado para ser coroinha na missa de
Natal da igreja. Não foi suficiente quando ele recebeu bolsas
para participar do programa de matemática que aconteceria no
verão.
Nada que ele fizesse fazia com que seu pai olhasse para ele
como olhara para seus filhos mais velhos: com orgulho e amor
refletidos em seus olhos. Seu pai continuava sendo apenas a
casca do homem que um dia fora. O exterior de Josiah estava lá
para que todos vissem, mas ele estava oco por dentro.
saiu de casa aos dezesseis anos depois de se formar um
ano mais cedo no ensino médio. Ele juntou todo o dinheiro que
economizara cortando grama nos dois últimos verões e comprou
uma passagem de ônibus para Nova York. Ele não se despediu.
Nova York era muito mais do que ele imaginara, embora ele
tivesse assistido a todos os filmes e séries de ambientados na cidade que encontrara pela frente. Nada o preparara para o
barulho, para a luz incessante, para a falta de espaço ou
privacidade. Ele dividia um pequeno apartamento com três outros
jovens e, por várias semanas, contribuiu com dinheiro para
comprar itens comuns para toda a casa até perceber que ele era
o único a fazer isso. Depois disso, passou a comprar macarrão
instantâneo só para ele. os guardava debaixo do colchão
para mantê-los fora do alcance das mãos leves dos colegas.
Além disso, ele comprava também vegetais frescos, mas esses
pareciam não atrair o interesse de ninguém.
fazia vários bicos, mentindo a idade para conseguir
dinheiro vivo trabalhando como bartender à noite e transportando
encomendas em uma bicicleta durante o dia. Dividir apartamento
com pessoas que eram um pesadelo e economizar cada centavo
valeu a pena quando sua carta de aprovação finalmente chegou,
dezoito meses depois: ele iria para Harvard, e tinha em sua conta
bancária praticamente a quantia exata para a mensalidade do
primeiro ano e alimentação. Ele foi embora do apartamento sem
aviso prévio, levando consigo apenas uma mochila com suas
melhores roupas.
Harvard era um mundo completamente diferente. Depois de
quase dois anos cercado de cerveja barata, fumaça de maconha
e vagabundos sequelados, a comunidade acadêmica foi como
uma pomada que apaziguou uma coceira persistente. Havia
pessoas com a mesma paixão por números que ele. Pessoas
que conheciam equações e fórmulas das quais ele nunca tinha
ouvido falar. Professores de filosofia que não ridicularizavam
suas referências religiosas, mas as desenvolviam junto dele.
Depois de apresentar um excelente desempenho no primeiro
ano, ele se qualificou para bolsas de estudo e conseguiu reduzir
seus turnos de trabalho para três por semana. Todo semestre ele
enviava seu boletim perfeito para Josiah. Era a única
comunicação entre os dois. nunca recebeu uma resposta.
Ele estava no segundo ano em Harvard quando conheceu
Loretta. Ela estudava a mesma coisa que ele, matemática e física
— era uma das únicas mulheres fazendo isso em 1990.
nunca tivera muita sorte com as mulheres, já que crescera em
uma casa só de homens e estudara em uma escola católica só
para garotos. Nas poucas vezes em que se deixara arrastar para
uma festa em Nova York, seus colegas de apartamento
zombaram de sua falta de habilidade com as mulheres. Ele
nunca bebia, nunca tentava abordar mulheres — ele
simplesmente assistia enquanto seus colegas se humilhavam
tentando chamar atenção das mulheres, encorajados pelo álcool
correndo em suas veias. Quando eles levavam suas conquistas
para casa, ele permanecia insone na cama, ouvindo os
movimentos e os gemidos no escuro do apartamento.
Mas Loretta era diferente. Como seu nome sugeria, ela tivera
uma vida tradicional, em uma casa com valores e bons
costumes. Ela usava camisas abotoadas até o pescoço, saias
abaixo do joelho e sapatos pretos de saltos baixos. Seus cabelos
castanhos-avermelhados caíam sobre seus ombros esbeltos e
sua franja grossa emoldurava seus olhos azuis. A coisa mais
intimidante nela era sua mente, e nesse quesito sabia estar à
altura. Então ele a convidou para jantar certa noite, disposto a
gastar o orçamento de uma semana inteira para poder levá-la ao melhor restaurante a uma distância possível de ser percorrida a
pé do campus.
Ele buscou Loretta em seu dormitório e prendeu a respiração
quando ela passou pela porta. Uma blusa rosa-pastel flutuava ao
redor de seu corpo delgado e ela vestia uma longa saia preta que
pairava na altura de suas panturrilhas. Ela usava o cabelo preso,
expondo seu pescoço e parte de sua clavícula. Loretta estava
deslumbrante, arrumada, e parecia inocente — tudo isso para
ele. estendeu o braço como havia visto os homens fazendo
nos filmes e Loretta passou seu braço pelo dele com um sorriso
tímido.
Durante o jantar eles tiveram uma animada discussão sobre
aulas e colegas de classe, debateram sobre a teoria das cordas e
tiveram a conversa de praxe sobre suas respectivas vidas e
histórias — embora tenha omitido grande parte da sua.
Quando ele a levou de volta para casa, estava convencido de
que ela era a mulher de sua vida.
A partir de então, eles começaram a passar todo tempo livre
juntos, estudando para provas e fazendo perguntas um para o
outro sobre o conteúdo. Depois de alguns meses, ele a
convenceu a pedir demissão do emprego que tinha em um dos
cafés da faculdade para que eles pudessem passar mais tempo
juntos. Assim, eles tinham várias horas a mais durante a semana
quando não estavam em aula e quando não estava
trabalhando de vigia noturno no campus.
No início do terceiro ano dos dois em Harvard,
economizava para comprar uma aliança simples e procurava um
lugar onde pudessem morar juntos. Em uma noite de outubro, ele escreveu uma carta ao pai, a primeira em muito tempo. Após
encontrar coragem em meia garrafa de uísque, ele escreveu
abertamente sobre todas as formas como Josiah o havia
decepcionado e sobre tudo o que ele havia feito para tentar ser
suficiente. Ele contou ao pai sobre como encontrara uma mulher
que o amava, uma mulher inteligente, pura e bonita. Depois,
escolheu duas fotos para mandar: uma dele ao lado de Loretta e
outra só dela: uma foto do anuário que evidenciava seus traços
charmosos e olhos gentis.
Ao chegar para o encontro dos dois no dia seguinte, se
afastou por um instante para pegar um casaco, e, quando voltou,
ela estava em pé ao lado da mesa, segurando a carta.
— O que é isso? — perguntou ela, voltando-se para ele.
— Nada! Por que está mexendo em minha correspondência
particular?
Ela recuou como se tivesse levado uma bofetada, encarando-
o. — Eu vi minha foto e quis ver o que era. Sua carta é tão…
insensível, . Não imaginava que fosse tão cruel.
Ele deu um passo na direção dela, chegando perto o suficiente
para enxergar que os músculos ao redor de sua boca tremiam. —
Não faz ideia do que está dizendo. Não faz ideia de como é a
minha vida. Agora vamos.
Mas em vez de irem ao cinema como planejado, Loretta deu
meia-volta e saiu do apartamento.
Foi a maior briga dos dois até então. Os amigos dele o
aconselharam a deixar a poeira baixar e a esperar que ela o
procurasse, mas depois de três dias se deu por vencido. Ele
foi até o dormitório de Loretta com uma dúzia de rosas e disse a ela que se livrara da carta, o que não era exatamente verdade.
Ele “se livrara” da carta colocando-a na caixa do correio. Por fim
ela cedeu e o deixou entrar.
Depois disso, o relacionamento dos dois mudou. Ao vê-la,
sentia um frio na barriga, não por se sentir apaixonado como
quando se conheceram, mas por pura ansiedade. Ele começou a
segui-la pelo campus, escondendo-se atrás de árvores e prédios
para observar a maneira como ela interagia com outros homens.
Ela estaria sendo infiel? Por que ela olhou para ele daquele jeito?
Ela estaria se preparando para deixá-lo? Ele tentou conversar
com ela, mas Loretta não deu ouvidos quando ele disse sentir
que as coisas tinham mudado entre eles.
Assim como ele, Loretta queria fazer uma pós-graduação e
estava analisando diferentes programas ao mesmo tempo em
que cumpria com as atividades de seu curso. Ela passou a adiar
datas, alegando estar sobrecarregada. Quando ele perguntava
quais universidades ela estava considerando para a pós-
graduação, ela se esquivava da pergunta. conseguia ver toda
a vida de Loretta se estendendo diante dela e tinha cada vez
menos certeza de que faria parte de seu futuro.
No aniversário de vinte e um anos de Loretta, estava em
frente a um restaurante no rio Charles que os pais dela haviam
reservado para comemorarem. Suor escorria pelo meio de suas
omoplatas e a caixinha de uma aliança fazia volume em seu
bolso. Do outro lado do vidro, uma luz amarelada iluminava cerca
de trinta pessoas que socializavam com bebidas nas mãos.
Garçons e garçonetes pairavam entre eles, equilibrando
bandejas cobertas por aperitivos. A mãe de Loretta organizara tudo, mas fornecera uma consultoria sobre suas comidas
favoritas. Aparentemente os gostos dela haviam mudado desde
que ela deixara a casa dos pais, no sul de Boston, há quase
quatro anos, e ele se sentiu orgulhoso de si mesmo por saber
coisas sobre Loretta que seus pais não sabiam.
Enxugando o suor que se acumulara acima do lábio superior,
abriu a porta do restaurante. Loretta se aproximou para
recebê-lo usando um vestido vermelho-vivo. Era tão diferente de
seu estilo, tão sedutor, tão diferente das roupas que costumava
usar, que ele ficou sem fôlego por um momento.
— Vestido novo? — perguntou ele, beijando-a na bochecha.
— Sim, você gostou? — Seus dedos pressionaram os ombros
dele ao se abraçarem.
— É meio… exagerado — respondeu ele, antes que pudesse
filtrar o que estava pensando. Loretta o encarou, aturdida, e
então ele foi arrastado para longe pelo pai dela.
— Ela sabe? — perguntou o pai de Loretta. Ele dera sua
bênção para que a pedisse em casamento havia apenas dois
dias, com a condição de que ele a apoiasse em qualquer que
fosse a pós-graduação escolhida por ela. se sentira nervoso
ao falar com ele, não apenas pelas razões óbvias, mas também
por suspeitar que Loretta planejava terminar com ele.
Naturalmente ela não compartilhara esse desejo com os pais —
fato esse que fez com que ele se perguntasse se não estaria
imaginando a distância dela nas últimas semanas.
balançou a cabeça. — Será surpresa. Pensei em fazer o
pedido quando o bolo for servido, depois de cantarmos parabéns e antes de ela soprar as velas. Quero uma foto da luz das velas
refletidas em seus olhos quando ela disser sim.
Em meio a uma risada, o pai de Loretta disse: — Você tem
cada ideia, não é?
Por não saber se aquele havia sido um elogio ou um insulto,
apenas assentiu. — Sim, senhor.
A hora seguinte passou em um borrão permeado por comida,
vinho e conversas triviais. Cada um dos membros da família de
Loretta que morava em um raio de aproximadamente 160
quilômetros parecia ter comparecido, e conversou com todos
eles. Em breve ele também seria parte da família, então era bom
que todos o conhecessem.
Então o momento finalmente chegou, e, de repente, se
sentiu despreparado. Ele não tivera a chance de falar com
Loretta desde que ela se afastara, magoada com o comentário
que ele fizera sobre o vestido, e ele não estava certo de que ela
receberia bem um pedido de casamento quando eles estavam
em meio a um desentendimento. No entanto, certamente não
haveria maneira melhor de pedir desculpas do que com um anel
de noivado de diamantes, por mais estranha que fosse a pedra.
endireitou os ombros e corrigiu sua postura enquanto traziam
o bolo até o salão. Era uma obra de arte de seis andares e a mãe
de Loretta parecia mais empolgada do que a própria
aniversariante quando as pessoas começaram a cantar
parabéns.
Quando a canção acabou e Loretta se aproximou para soprar
as velas, ergueu sua taça de vinho com a mão trêmula e, com
um garfo, deu pancadinhas contra o vidro para chamar a atenção dos presentes. Loretta ficou imóvel e se voltou para ele com uma
expressão ilegível no rosto.
Quando todos estavam olhando para ele, pigarreou para
limpar a garganta. Esse era o maior grupo de pessoas diante do
qual ele já falara, exceto pelos seminários durante as aulas. De
repente ocorreu a ele que deveria ter preparado algumas
anotações. Ou seria muito impessoal? Não importava. Agora era
tarde.
— Olá a todos. Hm, como sabem, sou o , namorado de
Loretta. — Depois de correr os olhos pelas pessoas reunidas, ele
olhou mais uma vez para Loretta. Seu rosto estava ruborizado.
Assim como ele, ela não gostava de ser o centro das atenções.
— Hm, eu conheci Loretta na saída de uma aula de mecânica
quântica há um ano e meio, e naquele momento soube que ela
era especial. — A audiência murmurava prazerosamente,
encorajando a continuar. — Eu nunca havia conhecido
alguém que parecesse compreender como minha mente funciona
e que se envolvesse tão profundamente em coisas que me
interessam também. Loretta é pura e íntegra de dentro para fora,
e tenho sorte de poder dizer que ela é minha namorada.
Ele pausou e voltou a olhar para Loretta. Seus olhos brilhavam
como brasa sob a luz das velas.
— Loretta, desde o momento em que conheci você soube que
seria loucura não a querer sempre ao meu lado. Passamos todos
os momentos possíveis juntos, mas, para mim, ainda não é
suficiente. — colocou a mão no bolso e tirou a caixa da
aliança.
As pessoas deixaram escapar exclamações de surpresa e
guinchos de alegria ecoaram no salão. Loretta permaneceu
imóvel, a boca entreaberta, enquanto atravessava o salão e
se colocava diante dela, de joelhos.
— Loretta, quer se casar comigo? — Ele abriu a caixa exibindo
o anel como uma humilde oferenda.
Por um momento ela permaneceu parada, boquiaberta. Está
tudo bem, pensou ele. Só a peguei de surpresa. Será que ela
não queria um pedido em público? afastou o pensamento. As
mulheres adoravam grandes gestos românticos, e, além disso,
ele queria que todos soubessem o quanto ele a amava, quão
orgulhoso ele se sentia por estar com ela.
Então Loretta mordeu o lábio inferior e ele percebeu que seus
olhos estavam marejados. Eram lágrimas de tristeza, não de
alegria. sentiu seu estômago despencar como se houvesse
sido puxado por uma nova força gravitacional.
— , me desculpe — disse ela em um sussurro. Os olhos
dela correram pelo salão, fitando todas as pessoas reunidas
atrás dele. sentiu olhares de pena queimando suas costas,
sentiu a dor de seu constrangimento por ele de maneira
semelhante ao que sentiu vindo de seus amigos quando seu pai
aparecera bêbado na escola gritando por ele. — Eu… Eu não
acho que devemos nos casar.
Ele abaixou lentamente a mão que segurava o anel. Sem
conseguir olhar para ela, ele encarava o chão. — P-por quê?
Achei que estivéssemos felizes.
— Podemos conversar lá fora?
Uma onda de raiva tomou seu peito e ele tomou coragem para
encará-la. — Lá fora? Não pareceu um problema para você me
humilhar na frente de todo mundo. Por que ir lá para fora agora?
Loretta ergueu o queixo de maneira desafiadora como sempre
fazia quando eles discutiam. A luz da chama quase extinta das
velas dançava em suas bochechas. — Tudo bem! Quer saber por
que não quero me casar com você? Porque não quero passar o
resto da minha vida sendo uma de suas conquistas. Acha que
não sei como fala sobre mim para seus amigos? Nas cartas para
seu pai? Como se eu fosse um prêmio que você ganhou.
“Inteligente, pura e bonita”, como se eu fosse uma estatueta em
formato humano, não uma mulher de verdade. Mas eu sou de
verdade e sou mais do que um troféu na sua estante.
— Nunca vi você dessa maneira! — protestou ele, esticando os
braços para segurar seus ombros. Seus movimentos foram mais
bruscos do que ele antecipara e Loretta recuou com um grito,
afastando-se dele com uma emoção que ele nunca antes vira em
seus olhos: medo. Então seu pai apareceu com o irmão dela e
outros convidados homens, empurrando-o para fora. Em uma
confusão de gritos e empurrões desajeitados, foi jogado para
fora e aterrissou de quatro na calçada.
Quando recuperou o fôlego, ele se sentou no chão e olhou
para a caixa da aliança, ainda em sua mão. Erguendo os olhos
para enxergar o lado de dentro, ele assistiu Loretta sendo
cercada pela família e amigos que lhe ofereciam abraços e bolo e
bebidas enquanto ela chorava. Então ele jogou a cabeça para
trás e gritou com todas as forças de seus pulmões.