Garota, 11

Amy Suiter Clarke · Capítulo 32 de 50

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Garota, 11

Capítulo 30

 

Elle

18 de janeiro de 2020

 

Não foi muito trabalhoso convencer os seguranças da

Universidade Mitchell que estavam de plantão naquele fim de

semana a confirmar que conheciam um zelador chamado

Eduardo Mendez. Eles deram um número de telefone a Sam e

ele telefonou diversas vezes, mas ninguém atendeu. Sam deixou

algumas mensagens na caixa postal, mas Elle não tinha a ilusão

de que ele entraria em contato. O turno de Eduardo começaria às

seis da tarde naquele dia, então eles concordaram em matar

algumas horas até que pudessem fazer uma visita a ele.

Em vez de atravessar a cidade para voltar à delegacia, Elle

sugeriu que eles se organizassem em um restaurante enquanto

esperavam. Ela ficou aliviada quando Sam concordou, embora

soubesse que Ayaan poderia ligar para ele a qualquer momento

e descobrir o que Elle estava fazendo. Assim que se

acomodaram em uma mesa e pediram dois cafés puros, Sam

pegou seu laptop e começou a pesquisar sobre a vida de

Eduardo. Seu registro criminal não era grave e continha algumas infrações leves e contravenções penais de baixa gravidade, mas

ele evitara confusão ao menos pelos últimos seis meses.

Depois de um tempo, eles decidiram jantar mais cedo e Sam

afastou as coisas para o lado para abrir espaço para a comida

que pediram. A culpa e o pesar que Elle sentia reviraram seu

estômago quando ela pensou em Natalie, mas ela beliscou seu

sanduíche mesmo assim. Era a primeira coisa que comia desde

o dia anterior.

Ela estava na metade do sanduíche quando Sam pousou o

garfo na mesa e endireitou a coluna. — Leo Toca trabalhava

como zelador na Universidade Mitchell.

— O quê? — perguntou Elle com a boca cheia de peito de

peru.

— Leo Toca. Sabia que havia uma razão pela qual esse cargo

soava familiar. Ele e Eduardo devem ter trabalhado juntos.

Elle limpou os dedos engordurados em um guardanapo de

papel e pegou o celular. — É verdade, me lembro de ter visto

algo sobre isso nas redes sociais de Leo. — Ela acessou o perfil

dele e virou a tela na direção de Sam. — Ele e Eduardo são

amigos no Facebook.

— Talvez essa tenha sido a razão pela qual Eduardo levou a

van até a oficina de Duane.

— Talvez. — Ele analisou a foto de perfil dele, um jovem latino

com um sorriso sutil e olhos castanhos e brilhantes, rindo em

frente à câmera com uma mão esticada como se tentasse

impedir o fotógrafo de capturar o momento.

Sam tomou um longo gole de café. — E então? Acha que

Eduardo sequestrou Amanda?

Elle balançou a cabeça. — Se for mesmo ele na foto do

Facebook, ele não se encaixa na descrição. Danika disse que o

homem tinha a pele pálida e a pele de Eduardo é um pouco

escura. E ele não parece ser careca. Mas se a van que ele levou

até a oficina foi usada para sequestrar Amanda, ele certamente

deve saber algo. E se ele conhece Leo, talvez ele tenha alguma

informação sobre quem possa tê-lo matado.

— Mais um motivo para fazermos uma visita a ele então —

disse Sam, levando à boca a última porção de comida em seu

prato.

— Com certeza. — Elle olhou pela janela tentando descobrir o

que poderia significar a relação entre os dois casos. Não era

apenas uma possível conexão entre o sequestro de Amanda e o

desmanche — é provável que Leo tenha conhecido a pessoa a

levar a van até lá. Mas ele já estava morto quando Amanda foi

sequestrada. Por mais que ela detestasse coincidências, essa

situação poderia não passar disso.

Ela tentou se focar, unir os fragmentos em sua mente, mas

algo a estava incomodando. Ela finalmente perguntou: — Sam, o

que fez você mudar de ideia? Em relação a mim?

Ele torceu os lábios, pensativo, e então um sorriso sutil surgiu

no canto de sua boca. — Ouvi seu podcast.

Ela abriu a boca para responder, mas não conseguiu pensar

em nada. Mesmo tendo milhares de ouvintes, ficou

envergonhada ao saber que o detetive era um deles. Pareceu

algo íntimo.

— Seus instintos são aguçados. Você faz boas perguntas. E

me pareceu que você realmente está ajudando as pessoas. Ayaan é a melhor comandante da delegacia (não conte ao meu

comandante que eu disse isso). Mas ela confia em você, então

acho que também confio.

O rosto de Elle ficou quente de vergonha e ela perdeu o fôlego.

Um momento mais tarde, tudo o que ela conseguiu murmurar foi:

— Obrigada. — Era bom sentir que ele a respeitava, mas não

duraria muito. Em breve ele descobriria que Ayaan a havia tirado

do caso. Sabendo que ela havia mentido, mesmo que

tecnicamente ela tivesse apenas omitido uma informação, ele

passaria a enxergar esse momento como uma traição.

A menos que… a menos que conseguissem encontrar uma

pista suficientemente importante, então o que ela estava fazendo

valeria a pena. Afinal, foi ela quem percebeu que a van estava

indo no sentindo da oficina de Duane.

Depois que escureceu, eles voltaram para o carro de Sam e

partiram em direção à universidade. As luzes vermelhas dos

freios de carros próximos iluminaram o rosto de Elle enquanto

eles circulavam pelas ruas da cidade. As pessoas caminhavam

pelas calçadas, andando a passos largos e rápidos com seus

casacos abotoados até o pescoço. Alguém buzinou e o riso de

uma jovem ressoou na noite. Elle avistou uma fila de jovens mais

à frente no quarteirão. Eles aguardavam do lado de fora de um

teatro, provavelmente esperando a abertura das portas na

esperança de conseguir lugares de última hora para o espetáculo

das sete. Mesmo nos finais de semana mais frios a vida noturna

em Minneapolis era agitada. Era impossível não pensar em

Beverly Anderson, que se despedia de seus amigos em uma noite como aquela vinte e quatro anos atrás. O homem

responsável por tirar sua vida ainda estava solto.

Vinte minutos depois, eles entraram no estacionamento anexo

a um imponente prédio de tijolos e saíram do carro.

— A mulher da equipe de segurança com quem falei disse que

o zelador estaria limpando o prédio da administração esta noite.

Aparentemente houve uma importante conferência hoje. — Sam

conduziu o caminho pelas portas de entrada, que estavam

destrancadas. — O que acha de nos separarmos? Ligue para

mim se o encontrar. Eu farei o mesmo. — Eles trocaram números

de celular e, depois de escolherem direções diferentes,

começaram a busca.

Os corredores eram parecidos com os da universidade que ela

frequentara. As paredes eram bege e exibiam alguns trabalhos

artísticos e poemas escritos pelos alunos. Havia quadros de

mensagens cobertos por flyers de pessoas que buscavam

colegas de quarto ou voluntários para um experimento ou

membros para a união cristã. Em cada um dos flyers havia tiras

de papel penduradas informando números de telefone ou sites da

internet. Havia também portas fechadas pelo corredor. De

madeira azul-escura, elas ostentavam uma grande janela

quadrada de vidro por onde era possível ver as salas iluminadas

apenas pela luz do monitor.

Era estranho estar em uma universidade fora do horário de

aulas, quando não havia toda a agitação e algazarra dos

estudantes.

O celular vibrou em seu bolso. — Onde ele está? — perguntou

ela, sem cumprimentar.

— Perto da secretaria. É no mesmo andar. Siga reto e vire à

esquerda.

Ela andou depressa no sentido oposto do corredor, torcendo

para que Sam não fizesse muitas perguntas antes de ela chegar.

Ela era a razão pela qual eles ao menos sabiam da existência de

Eduardo. Ela não queria perder nenhuma das coisas que ele

tinha para dizer.

Mas ela não deveria ter se preocupado. Quando os encontrou,

Eduardo estava apoiado contra a parede com seus braços

grandes cruzados sobre o peito esculpido. Sua mandíbula estava

cerrada. Em silêncio, ele se recusava a falar. Eduardo ganhara

pelo menos vinte quilos de massa muscular desde a data em que

sua foto no Facebook fora tirada e ele tinha uma tatuagem nova

no antebraço esquerdo. Não era surpresa que estivesse tentando

andar na linha. Aparentemente, tinha encontrado Jesus.

— Oi, Eduardo — cumprimentou ela, seu coração disparado.

Ela não sabia dizer se era por ter corrido até lá ou se era devido

à empolgação por conversar com uma possível testemunha. Ela

não acreditava que ele era o responsável pelo sequestro de

Amanda, mas ele era o mais próximo de um suspeito desde que

Graham Wallace fora liberado. — Meu nome é Elle Castillo, estou

investigando…

— Sei quem você é — respondeu ele. Sua voz grave tinha um

tom irritado. — Esse cara já me falou. Por que estão aqui, me

emboscando no trabalho? O que eu fiz?

— Peço desculpas, mas Sam tentou falar com você pelo

telefone várias vezes. — Ela forçou uma expressão de

camaradagem. — Tenho certeza de que você apenas não teve tempo para verificar suas mensagens. Eu entendo

completamente. Odeio atrapalhar as pessoas no trabalho, mas,

infelizmente, não podíamos mais esperar.

Eduardo olhou para o carrinho de transporte repleto de

produtos de limpeza. — Eu preciso trabalhar. Estamos com

poucos funcionários, então estou tendo que dar duro para

terminar tudo a tempo.

— Claro, eu entendo. Na verdade, já que tocou no assunto,

posso fazer uma pergunta sobre isso? Soube que você conhecia

um rapaz que trabalhava aqui até pouco tempo atrás. Leo Toca.

E possivelmente o amigo dele, Duane Grove. Reconhece esses

nomes?

Os olhos de Eduardo se acenderam quando ele compreendeu.

Por um segundo, ela imaginou que ele pudesse sair correndo,

mas em vez disso ele simplesmente deslizou com as costas

contra a parede até desabar no chão, seu rosto enterrado nos

joelhos. — Eu sabia que não iria funcionar. Sabia que era inútil

tentar.

Sam se ajoelhou ao seu lado, segurando seu ombro com uma

das mãos. — Nunca é inútil tentar fazer a coisa certa. Sabemos

sobre a van que você levou até a oficina de Duane algumas

noites atrás, uma Dodge Ram 1500 azul. Podemos perguntar

onde a arranjou?

Eduardo levantou a cabeça. Seus olhos verdes estavam

vermelhos, mas ele não chorava. Apenas parecia exausto. —

Não vou dizer mais nada. Pode me prender se foi isso que veio

fazer.

Assim como Sam, Elle também se abaixou, mas, em vez de se

ajoelhar, ela se sentou de pernas cruzadas na frente dele como

se estivessem em um acampamento de verão contando histórias

ao lado da fogueira. — Onde conseguiu a van, Eduardo? É muito

importante que nos diga a verdade.

Ele não se mexeu, mantendo os lábios franzidos e os olhos

focados no chão.

— É importante que você nos diga a verdade porque a van foi

usada para sequestrar uma garota quatro dias atrás.

Ele olhou para ela com olhos arregalados e amedrontados. —

O quê?

— É verdade — confirmou Sam. — Amanda Jordan. Ela tem

onze anos de idade. Ela foi sequestrada em um ponto de ônibus

na terça-feira de manhã por um homem que dirigia uma Dodge

Ram 1500 azul.

Eduardo pareceu recuperar a energia bem depressa. Ele se

levantou e, apontando o dedo para Sam, disse: — Eu não

sequestrei menina nenhuma. Não sou um pervertido!

— Então conte-nos quem foi, Eduardo, já que não foi você.

Onde conseguiu a van? Você a roubou? — perguntou Sam.

Eduardo balançou a cabeça. — Me deram.

— Quem?

— Eu não sei. Não sei o nome dele. Ele… ele veio até mim

quando eu estava indo para o estacionamento depois do

trabalho.

— Qual era a aparência dele? — perguntou Elle.

Eduardo fez um gesto ao redor da cabeça. — Ele estava todo

enrolado em um casaco grande, usava um chapéu, daqueles aveludados por dentro, com abas que cobrem as orelhas, e um

cachecol. Não consegui ver o rosto dele. Ele era branco… talvez

estivesse na casa dos cinquenta ou algo assim. Tinha mais ou

menos minha altura. Ele me entregou um molho de chaves e

disse que me pagaria dois mil dólares para dar um sumiço na

van. Ele disse que sabia que eu conhecia um desmanche na

região. Não sei como ele sabia disso. Eu só conhecia o

desmanche por causa de Leo. — Ele riu mesmo sem achar

graça, balançando a cabeça com o olhar fixo no teto. — Eu

pensei: dois mil paus. Juntando isso com o dinheiro que eu sabia

que conseguiria pelo veículo, eu poderia pagar meu cartão de

crédito e ficar sem dívidas de vez. Viver honestamente, pagar

meus impostos, criar meus filhos. Todas as coisas que preciso

fazer, tudo certo.

Elle olhou para Sam esperando encontrar uma expressão

impassível em seu rosto, mas, em vez disso, ele parecia estar

sentindo pena do sujeito. Ela meio que sentia também.

— Nunca o tinha visto antes? — perguntou Sam.

— Não sei. Eu acho que não.

Tirando o celular do bolso, Elle abriu a galeria buscando o

retrato falado que Danika ajudara o artista policial a esboçar. Ela

o mostrou para Eduardo. — Ele se parecia com esse homem de

alguma forma?

Eduardo pegou o celular e olhou para a tela de olhos

semicerrados. — É… é difícil dizer. Como eu falei, ele estava

todo empacotado. Mas talvez se pareça. O nariz… o nariz é meio

parecido. — Ele devolveu o celular a Elle.

— Esse homem abordou você nesse estacionamento? O

estacionamento do lado de fora desse prédio? — perguntou ela.

— Não — respondeu Eduardo. Ele apontou para a outra

extremidade do corredor onde havia portas duplas que levavam

para o lado de fora. — A dois prédios daqui, no edifício J. É o

prédio de física. Há um estacionamento pequeno lá, deve ter

umas trinta vagas.

— Havia algum outro carro no estacionamento além da van?

— perguntou Sam. Seus braços estavam cruzados e ele

concentrava o próprio peso sobre a ponta dos pés como se

estivesse preparado para saltar para fora do corpo.

— Não sei.

— Então tente se lembrar! Isso é de extrema importância, cara.

Você não entendeu? A vida de uma menina está em jogo.

— Está bem, está bem! — Eduardo fechou os olhos, suas

sobrancelhas se unindo, franzidas. Ele estendeu as mãos,

gesticulando com a esquerda. — A van estava aqui, bem na

frente da porta. Ele estava estacionado na vaga preferencial, me

lembro disso. Meu carro estava nos fundos do estacionamento,

bem no canto. Ele apontou para a esquerda. — Acho que havia

outro carro. À direita. Me lembro de ter achado estranho porque

imaginei que não haveria mais ninguém aqui no horário em que

termino meu turno. Acho que era por volta de uma da manhã.

Mas, sim, havia outro carro além da van. Isso. — Ele abriu os

olhos, encontrando o olhar de Elle.

— Você se lembra de como ele era? De que cor? De que

marca?

Ele balançou a cabeça. — Só me lembro de ser um sedan

escuro. Não consegui ver a cor. Não sei se pertencia a ele. Ele

entrou no prédio depois de ter me dado as chaves da van. Como

ele teria levado a van até lá se também estivesse de carro?

— Há um ônibus que entra no campus e vai para o centro da

cidade — disse Sam. — Ele pode ter tomado esse ônibus,

especialmente se mora nos arredores. Ou pode ter chamado um

táxi. Você se lembra de mais alguma coisa?

— Não, desculpe. Eu… Eu nunca teria me envolvido se

soubesse…

— Nós sabemos — disse Elle. Ela não podia falar por Sam,

mas se alguma coisa fosse capaz de tirar Eduardo do crime,

provavelmente seria esse caso.

— Obrigado pela conversa — Sam agradeceu, estendendo a

mão. Parecendo surpreso, Eduardo a segurou e eles trocaram

um aperto de mãos firme.

— Caso se lembre de qualquer outra coisa, por favor, ligue

para nós imediatamente. Não importa o horário — disse Sam,

entregando um cartão a Eduardo.

Eduardo aceitou o cartão e olhou para Sam. — É só isso?

Você não vai me prender?

— Você não é quem estamos procurando, Eduardo. Considere

isso como um presente de Natal atrasado.

Sam e Elle se viraram e seguiram na direção do

estacionamento onde Eduardo disse ter encontrado a van.

Provavelmente não encontrariam nada, mas seria bom ter ao

menos uma ideia do tamanho do estacionamento.

— Espere, acabei de perceber uma coisa — disse Sam

quando eles estavam quase na saída.

— O quê?

Mas ele a ignorou e deu meia-volta. — Eduardo? — gritou

Sam.

Eduardo estava prestes a colocar fones de ouvido na orelha.

Ele pausou e olhou para eles.

— Você disse que o homem entrou no prédio depois de ter

dado a van para você?

— Foi.

— Você o viu entrar?

Eduardo assentiu mais uma vez.

— Acha que ele trabalha aqui?

Eduardo refletiu por um segundo. — Sim, acho que teria que

trabalhar.

— Por quê? — perguntou Elle, dando alguns passos na

direção dele.

— Porque ele precisaria de uma chave para entrar no prédio

depois do horário comercial.