Garota, 11
Capítulo 34
Elle
19 de janeiro de 2020
Cinco dias. Havia apenas cinco dias desde o sequestro de
Amanda, e agora ela estava morta.
Na sala de interrogatório da delegacia, Elle olhava fixamente
para a mesa de madeira lascada onde seus braços estavam
apoiados. Seus olhos ardiam.
Toda vez que piscava ela via o rosto da menina outra vez:
ferimentos arroxeados nos lábios, manchas vermelhas cobrindo a
pele ao redor dos olhos. Asfixia, dissera Martín, enquanto eles
esperavam pelos socorristas. Ele estava na sala ao lado sendo
interrogado por Sam. Eles não eram suspeitos, ela sabia, mas a
situação a deixava ansiosa mesmo assim.
Cinco dias, não sete.
Elle não era Cassandra, no fim das contas — não era uma
profeta onisciente que carregava a maldição de não ser ouvida
pelas pessoas. Ela não passava de uma vidente charlatã,
fazendo previsões sem fundamento na esperança de que uma
delas se concretizasse. Os casos de Amanda e de Natalie estavam conectados, nisso ela acertara. Mas elas não foram
sequestradas pelo Assassino da Contagem Regressiva.
Independentemente de como as mortes variaram ao longo dos
anos, ele nunca abandonou sua assinatura. Os corpos sempre
eram encontrados no sétimo dia.
Elle levantou os olhos quando a maçaneta da porta girou.
Ayaan entrou na sala. A exaustão fez com que sua pele,
normalmente brilhante, adquirisse sombras escuras sob os olhos.
Seu hijab era de uma cor sóbria, azul-marinho, e estava
levemente torto em sua testa como se tivesse sido colocado às
pressas.
— Elle, já te ofereceram algo para beber? — perguntou ela.
— Sim. — A palavra saiu áspera de sua boca. — Ronny vai me
trazer um chá.
— Ótimo. — Ayaan se sentou na cadeira do outro lado da
mesa e abriu uma pasta. Lá dentro havia fotos recentemente
impressas da cena do crime.
Elle fechou os olhos, mas as imagens estavam gravadas em
sua mente, já que as vira ao vivo horas antes. Àquela altura,
Amanda provavelmente estaria sendo aberta por alguém do
departamento de seu marido, dissecada em busca de segredos.
Talvez o do assassino fosse encontrado, talvez isso
resultasse em uma pista, em uma oportunidade para salvar
Natalie. Mas isso não mudaria o fato de que uma garota de onze
anos estava morta.
Ela pensou em Dave e Sandy Jordan, se perguntou se a
polícia já teria dado a notícia a eles. Ayaan teria sido a
responsável por fazer isso. A polícia aguardaria um horário mais apropriado para acordar a família Jordan com as piores notícias
que receberiam em sua vida ou Ayaan já teria ido à casa deles e
voltado? Elle se preparou para perguntar, mas as palavras
ficaram presas na garganta. Não importava se eles já sabiam ou
não, o resultado seria o mesmo. O casal ficaria devastado.
Ronny trouxe a caneca de chá de hortelã e colocou-a na frente
de Elle com um sorriso triste. O aroma refrescante desentupiu
seu nariz que estivera congestionado depois das horas de choro.
Ela segurou a caneca com as duas mãos e levantou os olhos
para Ayaan.
A comandante tinha um olhar firme e sua caneta estava pronta
para tomar notas. — Conte-me o que aconteceu.
Entre goles de chá, Elle contou sobre como Martín voltara para
casa depois de ter sido chamado até o local de um assassinato,
contou sobre a conversa com ele na cama, sobre a campainha e
sobre como encontraram o corpo de Amanda. Ela não se
lembrava de quando dormira pela última vez, mas a hortelã e a
adrenalina dispararam uma descarga elétrica por seu corpo,
fazendo com que ela falasse depressa e sem filtros. Ela terminou
o relato falando sobre a mensagem que enviara a Ayaan depois
de eles terem telefonado para a emergência.
Ayaan permitiu que o silêncio pairasse entre elas por alguns
instantes. Ela terminou uma anotação e voltou a olhar para Elle.
— Percebi que não mencionou o que fez ontem no início do dia.
O tempo que passou com o detetive Hyde.
Elle ficou imóvel, interrompendo no meio do caminho o
movimento de levar a caneca aos lábios. Ela pousou a caneca na
mesa devagar. — Ah.
— Pois é. Eu e Sam tivemos uma conversa interessante.
Aparentemente você não contou a ele que eu te pedi para deixar
o caso de Amanda. — Ayaan inclinou a cabeça para o lado e
manteve o olhar em Elle.
Elle tomou um gole maior do que pretendia e queimou a
garganta. Seus olhos lacrimejaram enquanto ela tentava não
tossir. — Desculpe. Conversamos no saguão e ele me perguntou
se eu havia descoberto algo sobre Leo, e então tive um palpite
do lugar para onde a van estava indo nas filmagens das câmeras
de segurança… Eu só queria ajudar. Desculpe. Não tenho
justificativas.
Elas olharam uma para a outra em silêncio. Por fim, Ayaan
assentiu. — Suponho que não seja o momento ideal para falar
sobre isso. Mas você devia ter imaginado que eu descobriria.
Queria que você mesma tivesse me contado.
— Você me conhece, Ayaan. Sou do tipo de pessoa que
prefere pedir desculpas a pedir permissão.
Ayaan pareceu frustrada. — Se quisermos trabalhar juntas no
futuro, não pode agir dessa forma comigo. Eu a considero uma
amiga, Elle, não apenas uma colega. Queria que confiássemos
uma na outra.
Elle olhou para o líquido esverdeado em sua caneca,
brincando com o fio do sachê de chá. — Tem razão. Não vai
acontecer de novo.
Ela queria que fosse verdade, mas a promessa soara
superficial. Havia tanta coisa que Ayaan não sabia sobre ela.
Talvez, se Elle tivesse confiado em Ayaan antes, Amanda ainda
estivesse viva. Assim que o pensamento surgiu ela fez questão de reprimi-lo. Ela fizera o melhor que pôde com as informações
que tinha. Sentir culpa não traria Amanda de volta e não a
ajudaria a encontrar Natalie.
Ayaan pigarreou. — Consegue imaginar alguma razão pela
qual o corpo de Amanda teria sido deixado à sua porta?
— Eu… Martín e eu estávamos conversando sobre isso
naquele exato momento. Pensamos que talvez o estivesse
me atacando por estar falando sobre ele no podcast. Mas eu
estava errada a respeito dele, Ayaan. Me desculpe. Eu estava
muito certa disso, mas não é o . A vítima aparecer cinco
dias depois, sem marcas de açoitamento e morta por asfixia?
Não faz sentido.
— Como sabe que ela foi asfixiada?
— Martín. Foi o palpite dele, pelo menos. — Os dedos de Elle
tremiam ao segurar a caneca.
Ayaan assentiu, escrevendo algo.
Elle continuou: — Então eu não sei. Se não é o , não
entendo a razão pela qual eu seria o alvo. O único outro motivo
que consigo imaginar é… — Ela parou de falar, balançando a
cabeça. O pensamento pairava em sua mente havia algumas
horas, horrível demais para ser dito em voz alta.
— O quê? — Ayaan se inclinou sobre a mesa. — Em que está
pensando?
— Com certeza estou exagerando. — Elle desviou o olhar,
analisando o espelho que havia atrás de Ayaan. Ela se perguntou
se Sam estaria do outro lado, observando-a, e então reprimiu a
ideia. Ela não estava sendo interrogada. Por fim, disse: — Tenho
recebido alguns e-mails ameaçadores ultimamente. Algumas mensagens nas redes sociais. Tina reportou algumas para a
polícia, mas, da última vez que falamos sobre isso, a maioria dos
endereços de vinham de outro estado. Algumas vinham até
mesmo de outros países.
— Por que não mencionou isso antes?
Elle olhou para Ayaan, surpresa ao perceber que Ayaan
parecia preocupada. — Eu recebo ameaças o tempo todo por
causa do meu trabalho. Pensei que o aumento de mensagens
fosse porque o podcast se tornou mais popular e estava
ganhando ouvintes. Além disso, as conversas sobre o
sempre atraem haters. Não imaginei que fosse relevante para
nossa investigação, e, como eu disse, Tina reportou aqueles que
pareciam saber onde eu morava.
— Mas você estava preocupada com sua segurança. Não
achou que eu deveria ficar sabendo?
— Uma garotinha estava desaparecida, Ayaan. Comparado a
isso, meus motivos para preocupação pareceram pequenos.
Ainda parecem. — Elle limpou a garganta tentando dissipar o
aperto causado por outra onda de pesar. — Se alguém tiver
sequestrado Natalie para me castigar por causa do podcast… —
A crueldade das pessoas não deveria surpreendê-la hoje em dia,
mas algumas vezes ela ainda se espantava.
— Certo, Elle. Quando chegar em casa, por favor, me envie
tudo o que você e Tina consideraram alarmante, inclusive as
coisas que vocês reportaram aos outros departamentos. Vou
entrar em contato com eles para avisar que nós daremos
continuidade.
Ayaan cruzou as mãos sobre o caderno. Seu rosto estava sério
e Elle encolheu os ombros sob seu olhar. Era uma das únicas
vezes em que ela vira Ayaan parecer hesitante.
— O que houve? — perguntou Elle.
— Bom, não sabíamos sobre as ameaças on-line, então essa é
mais uma possibilidade. Mas eu e Sam chegamos a uma outra
teoria que quero compartilhar com você. Na verdade, as duas
podem se encaixar.
Elle assentiu para que Ayaan continuasse.
— Estamos alinhados no que se refere a esse caso estar
relacionado ao seu podcast. Levando em consideração seu
relacionamento próximo com a segunda vítima e o fato de que a
primeira vítima apareceu morta em frente à sua casa, isso é
quase indiscutível. Mas vemos isso de um ângulo diferente.
Acreditamos que é possível que alguém esteja se inspirando nos
métodos do e continuando o legado da contagem
regressiva dele, por assim dizer.
Elle não sabia o que dizer. A possibilidade lhe passara pela
cabeça antes, mas até então todos os detalhes dos sequestros
estavam tão alinhados com o que parecia óbvio que fosse
ele. Mas um erro crasso como esse — apresentar um corpo dois
dias antes quando o nunca fizera isso — indicava um
imitador descuidado.
Ayaan prosseguiu: — Você mesma disse que o sequestrador
de Amanda e Natalie não poderia ser o , já que ele não
apresentaria suas vítimas tão cedo. Mesmo que ele tenha
acidentalmente matado uma delas antes do previsto, ele a teria colocado em um lugar público no sétimo dia. Essa é a única parte
do padrão dele que não mudou nem uma vez sequer.
— Sim. — Os pensamentos de Elle estavam a mil por hora. Ela
tentava juntar as peças do quebra-cabeça e entender o que isso
queria dizer. Ayaan tinha razão: ainda fazia sentido levar em
conta as ameaças on-line. Se o imitador tinha um problema com
o podcast e queria feri-la, não haveria maneira melhor do que
reproduzir os métodos horripilantes do vilão da temporada.
— Mas não podemos negar o fato de que o assassino
realmente copiou alguns dos métodos do — disse Ayaan.
— Você estava certa sobre as semelhanças: os sequestros com
três dias de intervalo, continuar da idade em que o parou
vinte anos atrás. Sendo um imitador, ele quer o que todos os
imitadores criminosos querem: a fama e a notoriedade de seus
ídolos. Qual a melhor maneira de conseguir isso do que usar um
suposto retorno para atacar a pessoa responsável por fazer com
que o assassino viralize em 2020? Todas as informações da qual
ele precisa para ser o estão ao alcance dele.
Elle se sobressaltou. — Ao alcance dele? Você quer dizer no
Justiça Tardia? Está dizendo que o assassino aprendeu a copiar
os assassinatos do ouvindo meu podcast?
A expressão no rosto de Ayaan era sombria. — É possível que
sim, não acha? As autoridades sempre temeram que séries como
Criminal Minds dessem ideias demais sobre como cometer um
assassinato. Por que assassinos não se inspirariam também em
podcasts de true crime?
— Mas não divulgo informações sobre os métodos dele ou
padrões que não estão publicamente disponíveis. — Seus batimentos se aceleraram e ela conseguia ouvir o pânico em sua
voz, mas estava exausta demais para contê-lo. — Além disso, eu
não glorifico o assassino como muitos programas por aí. Estou
buscando justiça para as vítimas, não estou tentando contar a
história sensacionalista de um serial-killer.
Ayaan mordeu o lábio inferior, pensativa. Em seguida,
assentiu. — É verdade. Não estou em dia com a última
temporada, mas você sempre fez um bom trabalho ao manter o
foco nas vítimas em vez de nos criminosos.
— Sempre foi minha intenção — disse Elle. Ela correu os
dedos pelo cabelo, puxando-os sutilmente. A dor repentina
ajudou seu cérebro a manter o foco. Apesar das palavras
tranquilizantes de Ayaan, seu corpo ainda transbordava fúria.
Cada palavra dita por ela no podcast e cada detalhe
compartilhado com seus milhares de ouvintes pareciam ecoar em
sua mente como o coro de uma multidão. Ela estava errada.
Esse caso era diferente e ela sabia. Um usuário no Twitter
insinuara justamente isso há poucos dias.
— Aquele verme — disse ela com desprezo. — Vou acabar
com ele.