Garota, 11
Capítulo 15
Elle
15 de janeiro de 2020
Levou alguns minutos para que Elle conseguisse convencer
Ayaan a permitir que ela fosse com eles até a casa de Graham.
Ela prometeu permanecer no carro enquanto a comandante e os
dois policiais que ela solicitara como apoio entrariam na casa.
Agora, assistindo do carro enquanto a polícia se aproximava
da casa quieta e despretensiosa, Elle estremecia, embora o carro
estivesse aquecido. No caminho, Ayaan dissera a ela que
Graham Wallace fora preso duas vezes por conduta sexual com
um menor de idade. Sua primeira vítima tinha treze anos de
idade e ele tinha dezesseis. Ele fez um acordo judicial e não foi
preso, mas cometeu outro delito ao ter relações sexuais com
uma garota de quinze anos — consensualmente, de acordo com
ela, embora legalmente ela fosse jovem demais para consentir —
quando ele tinha vinte e dois. Graham fora solto quatro anos
atrás depois de cumprir sua pena.
Desde então ele não tivera registros de novos delitos, e
sequestro seria um grande salto de seus crimes anteriores. Ainda assim, ele era um forte suspeito.
Os pais de Graham aparentemente o deixavam ficar em uma
das propriedades que alugavam, uma pequena casa não muito
longe da casa dos Jordan. Todas as outras casas da comunidade
haviam retirado a neve de suas calçadas e quintal da frente,
então não foi difícil identificar a que pertencia a alguém
preguiçoso e cheio de privilégios. Depósitos de neve de cerca de
um metro de altura se acumulavam em frente à casa de Wallace,
sopradas sobre a calçada. Na rua, em frente ao carro de Ayaan,
havia uma pequena parede de neve onde alguém claramente
havia deixado o carro estacionado durante a noite e sido vítima
de um trator limpa-neve que passara por ali. Embora o carro não
estivesse mais lá, a neve permanecia congelada no formato
aproximado de um sedan.
Elle observou enquanto Ayaan organizava os policiais que
chamara como reforço e se preparava para bater na porta.
Sentindo que estava prestes a enlouquecer ali sem fazer nada,
Elle pegou o celular e ligou para Martín.
— Bueno. — Atendeu ele depois de quatro toques. Ao fundo
podia-se ouvir pessoas conversando e rindo. — Tudo certo?
Estou um pouquinho ocupado.
— Ah, tudo bem. — Sua voz trêmula a entregou. — Posso ligar
depois.
Ela ouviu um zunido na ligação e então um clique quando uma
porta se fechou. — Tudo bem, Elle, é só um jogo de pôquer no
horário de almoço. Posso falar. O que houve?
Elle olhava pelo para-brisas enquanto falava.
— Houve um sequestro ontem em Bloomington. Os pais
pediram a Ayaan para que eu ajudasse. É… é uma garotinha. Ela
tem onze anos.
Martín sabia que Elle entendia a situação da menina, ao
menos mentalmente.
Houve uma pausa do outro lado da linha, então Martín inspirou
o ar lenta e sonoramente. Essa era a maneira como Martín a
acalmava — ele sabia que quando respirasse fundo, ela também
respiraria. Era um reflexo, contagioso como um bocejo. Ela
puxou o ar pelo nariz e fechou os olhos, correndo a ponta dos
dedos pelo ponto e vírgula tatuado no pulso.
— Um pouco melhor?
— Sim. Obrigada.
— Está tendo ataques de pânico?
Em vez de responder, ela disse: — Eles pediram por minha
ajuda. Não quero estragar tudo.
— Não vai estragar, amor.
— Já tem mais de vinte e quatro horas. Se ele tinha planos de
matá-la, ela tem menos de um por cento de chance de ainda
estar viva.
— Você é a prova viva de que há exceções para todas as
estatísticas. Por favor, tome cuidado.
Elle franziu as sobrancelhas. — Vou tomar. Não sei quanto
tempo vai levar. Eu liguei porque, bom, queria ouvir sua voz, mas
também queria dizer que talvez eu não esteja em casa para o
jantar, dependendo de como as coisas correrem.
— Elle… — Ele pausou, então disse apenas: — Tudo bem.
Vejo você quando chegar em casa.
— Te amo — disse ela. — Detona eles no pôquer.
Ele riu baixinho. — Pode deixar. Yo también te amo.
Enquanto guardava o celular no bolso, Elle enxergou um
borrão de cor com sua visão periférica. Ela voltou os olhos em
direção à casa. Os policiais haviam desaparecido, mas um jovem
usando pijama saía pela janela lateral da casa. Ao alcançar o
chão, ele se levantou e começou a saltar através da neve alta em
uma tentativa falha de correr. Elle conseguia ver a porta da casa
aberta, mas não enxergava Ayaan ou os outros policiais em lugar
nenhum. Talvez eles não soubessem que Graham estava
fugindo. Ela levou em conta por um segundo a gravidade dos
problemas em que se meteria se fosse atrás dele, mas se esse
homem sabia onde Amanda estava, ela não podia permitir que
ele fugisse. Ela abriu a porta do carro lentamente, tentando não
fazer barulho, e a deixou aberta depois de sair. Graham olhava
para trás na tentativa de verificar se estava sendo seguido
quando Elle ergueu as mãos e gritou: — Pare!
Graham obedeceu, encarando-a enquanto seu corpo tremia
dos pés à cabeça. A pele de suas mãos e de seu rosto
adquiriram um tom rubro devido ao frio. — Quem é você?
Quando ele viu que ela não segurava uma arma, voltou a se
mover. A Ruger estava presa ao seu quadril, mas ela não tinha
permissão para apontá-la para uma pessoa a não ser em
situações de autodefesa, e mesmo ela sabia que ele não
apresentava ameaça alguma. Ele mal conseguia andar quando
se virou e tentou seguir em direção ao gramado do vizinho.
— Aqui fora! — gritou Elle, torcendo para que Ayaan a ouvisse.
— Ele está fugindo! — Então ela disparou em seu encalço e o jogou na neve. Ele a empurrava, mas não conseguia tirá-la de
cima dele. Seu casaco volumoso fazia com que fosse difícil
fechar os braços em volta dele, mas ela estava grata por estar
usando-o. A temperatura lá fora estava abaixo de zero, e ela
percebia que o frio estava deixando-o mais letárgico a cada
segundo. Ele precisava ser levado para dentro.
No momento seguinte, dois policiais o afastavam dela e o
arrastavam para o banco traseiro da viatura policial em que
vieram, onde havia cobertores e um velho par de botas para ele
usar nos pés descalços.
— Onde estava com a cabeça? Você está bem? — perguntou
Ayaan quando Graham já estava na viatura e ela e Elle estavam
de volta ao carro.
— Ele estava fugindo. Saiu pela janela. Eu chamei vocês. —
Elle tentou disfarçar o fato de que estava tremendo ao esquentar
as mãos nas saídas de ar quente. — Suponho que não tenham
encontrado Amanda?
Ayaan balançou a cabeça negativamente. — Ele trancou a
porta e correu para dentro assim que nos identificamos. Tivemos
que arrombar a porta e ele deve ter saído escondido enquanto
revistávamos a casa. Mas ela não está lá, ao menos nós não a
encontramos.
— Acha que ele pode tê-la deixado em outro lugar?
O rosto redondo da detetive estava sombrio. — Talvez. Mas
não imagino por que ele teria razões para fazer isso. A casa não
é exatamente isolada, mas ele mora aqui sozinho. Ele tem uma
garagem anexa onde poderia ter estacionado e a movido para dentro e para fora de um carro sem ser visto. Por que ele a
levaria para outro lugar? A menos que…
O corpo de Elle finalmente parou de tremer. — A menos que
ele já a tenha matado.
Assim que Ayaan conduziu Graham pela porta da delegacia, uma
jovem que estava sentada na recepção se levantou. Ela tinha
cabelos ruivos presos em um rabo de cavalo e cumprimentou
Graham com um sorriso discreto. Elle se perguntou qual dos
detetives teria permitido que ele fizesse uma ligação a caminho
da delegacia, mas ela não estava surpresa. Não era novidade
que homens brancos eram mais bem tratados pela polícia.
— Sr. Wallace. Se manteve em silêncio? — perguntou a
mulher.
— Ele foi informado sobre seus direitos — disse Ayaan, fitando
os olhos acinzentados da mulher. — Venha conosco, senhorita…
— Delaney. — A advogada sorriu de maneira afetada,
provavelmente ao ver o rosto de Elle. Delaney, Block & Gomez
era um escritório de advocacia relativamente novo na cidade,
mas eles já eram famosos por serem implacáveis. O olhar dela
agora estava sob Elle, mas ela continuava se dirigindo a Ayaan.
— Soube que vocês estavam trabalhando com uma consultora
civil. Suponho que o acesso dela não tenha sido autorizado a
nenhuma evidência no caso de meu cliente?
— Ela me atacou! — gritou Graham.
Um sorriso surgiu nos lábios da srta. Delaney. — É mesmo?
Elle cruzou os braços. — Foi uma prisão legal feita por
cidadão. Estou autorizada a impedir qualquer um que esteja cometendo um crime em minha presença, e ele estava fugindo
da polícia. — Ela poderia não ser policial, mas passara anos no
Serviço de Proteção à Criança e conhecia as leis. Seu trabalho
como investigadora independente não serviria de nada se tudo
em que ela se envolvesse fosse parar no tribunal. Ela sabia quais
eram as regras e escolhia cuidadosamente quais quebrar.
— Veremos. — Srta. Delaney segurou o braço de Graham,
liberando-o das mãos de Ayaan.
A expressão da comandante se manteve neutra. — Por aqui,
srta. Delaney. — Ela os conduziu para uma sala de interrogatório
e Elle os seguiu.
A advogada parou em frente à porta. — Gostaria de alguns
minutos a sós com meu cliente.
— Certamente. — Ayaan deu passagem para que entrassem
na sala e fechou a porta antes de sair, virando-se para Elle. —
Não precisa ficar. Mas obrigada por toda sua ajuda. Tem certeza
de que não está machucada?
Elle balançou a cabeça. — Estou bem. Dolorida, mas nada que
um bom banho não cure. — Ela gesticulou com a cabeça em
direção à sala. — O que está pensando em relação a esse cara?
Ayaan mordeu o lábio inferior. Era a primeira vez que Elle via
dúvida em seu rosto. — Não tenho certeza. Ele é um bom
suspeito, mas não gosto do fato de não termos encontrado
nenhum sinal de Amanda na casa. Estão colhendo amostras do
carro dele nesse momento, mas vai demorar pelo menos uns
dias até que saibamos alguma coisa. Se ele a tiver prendido em
algum outro lugar…
— Será tarde demais.
— Ele é um agressor sexual que tem uma relação com a
família e se encaixa na descrição física do homem que a
estudante relata ter visto na área — disse Ayaan, como se
tentasse convencer a si mesma. — É quase como se tivesse que
ser ele.
O telefone no escritório dela tocou e Ayaan passou depressa
por Elle para atendê-lo. Enquanto ela falava ao telefone em um
tom abafado, Elle foi se sentar no escritório ao lado, que estava
vazio e escuro. Ela fitou o relógio na parede. Quase três horas da
tarde. Amanda estava desaparecida havia mais de trinta horas.
Imerso nas sombras, o relógio batia ruidosamente, marchando
em frente sem levar em conta o fato de que cada segundo
passado fazia com que fosse cada vez menos provável que
Amanda fosse encontrada viva. Uma onda inesperada de pânico
a deixou zonza e ela fechou os olhos.
Assim, num piscar de olhos, ela já não estava mais na
delegacia. Ela estava encolhida em um quarto frio e isolado,
sentindo-se sozinha e amedrontada. O medo percorreu seu
corpo quando o som do relógio foi abafado pelo som dos passos
de um homem enquanto ele subia as escadas. Graças a
dobradiças lubrificadas, a porta se abriu silenciosamente e se
fechou com um clique suave. Ele caminhou em direção a ela. Ela
tentou se afastar, mas seu corpo não obedecia à sua mente. A
náusea e a dor estavam prestes a engoli-la e cobriam seus olhos
como uma névoa escura.
O celular de Elle vibrou em seu bolso acordando-a de seu
flashback. Ela o puxou depressa do bolso. Era Martín.
— Oi. — Sua voz estava ofegante.
— Oi, só queria saber de você. Está tudo bem?
Elle se levantou e fechou a porta do escritório. — Sim, estou
bem.
— Tem certeza? Sua voz está meio trêmula.
— Vou ficar bem, Martín. Eu consigo fazer isso.
Ele ficou em silêncio por um momento. Então disse: — Eu sei
que consegue, mas não precisa. Não pode ajudar todo mundo.
Antes disso estava tão focada no caso do que mal tem
dormido há semanas. Então começou a buscar uma família
depois que um cara entrou em contato com você e acabou
morrendo. E agora está se envolvendo em mais uma coisa? O
sequestro de uma garotinha?
Uma dor de cabeça aguda começou no olho de Elle,
irradiando-se para trás. Ela se inclinou para a frente e, apoiando
os cotovelos nos joelhos, começou a massagear as têmporas
com a mão livre. — Consigo fazer isso. O caso de Leo estava
estagnado, de qualquer forma.
— É que da última vez que se envolveu em um sequestro ativo
as coisas não deram muito certo.
De repente, Elle ficou feliz por ter entrado em uma sala onde
ninguém poderia vê-la. A sensação trêmula de vazio causada por
seu flashback deu lugar a um sentimento de raiva que fez com
que ela retesasse os músculos da mandíbula. — Isso foi muito
tempo atrás, Martín. Eu tenho muito mais experiências em casos
como esse agora.
— Mi vida, acredito em você. Confio em você, se isso é o que
quer fazer. Só não quero que sinta que precisa… agradar todo mundo. Só estou querendo me certificar de que você está bem.
Nunca vi você assim, correndo tantos riscos.
— Estou bem. Não preciso que me proteja. — Elle esfregou o
rosto com a mão. — Vejo você em casa se conseguir me lembrar
do caminho sem a sua ajuda.
— Elle…
Ela encerrou a chamada e desligou o telefone, colocando-o de
volta no bolso. Respirando irregularmente, em intervalos curtos,
ela parou para inspirar pelo nariz, profunda e lentamente. Muita
gente parecia acreditar saber melhor do que ela o que ela era
capaz de aguentar ou não. Mas normalmente seu marido não era
uma dessas pessoas. O caso do estava fadado a ser
grande desde o começo, algo que demandava cento e dez por
cento de seu tempo. E como ela poderia saber que sua ajuda
seria solicitada em um caso de sequestro? Como ela poderia
dizer não? Se ela podia ajudar, precisava estar aqui. Martín
provavelmente estaria tentando ligar para ela de novo, mas ela
resistiu à vontade de religar o celular para checar. Eles
resolveriam quando ela chegasse em casa.
O som da voz de Ayaan no corredor a sobressaltou. —
Encontramos o suposto veículo usado no sequestro nos registros
de uma câmera de segurança — informou ela, os olhos brilhando
de empolgação. — Você está bem?
— Estou. — Elle forçou um sorriso, se levantou depressa e
seguiu Ayaan até o escritório dela. Ela puxou uma cadeira para
se sentar à mesa ao lado da comandante, olhando para as
janelas abertas lado a lado no monitor.
Ayaan apontou para a tela. — Temos a filmagem de seis
câmeras de segurança de comércios naquela área. Começa uma
hora antes e vai até uma hora depois do sequestro de Amanda.
— Você assistiu? — perguntou Elle.
— Sim, acreditamos que essa é a van usada para o sequestro.
Ao menos se encaixa na descrição da motorista de ônibus: azul-
escuro liso, sem placas.
Ayaan pressionou uma tecla e todos os vídeos começaram ao
mesmo tempo. Dígitos brancos no canto inferior da tela
contabilizavam a passagem do tempo desde os milésimos de
segundo. Depois de alguns segundos, ela pausou novamente e
apontou para uma van na tela. — Olhe só, aqui no vídeo número
quatro em 8:35:31 há uma van de cor escura passando pelo
posto de gasolina Super America e seguindo na direção norte em
Lyndale.
Elle cerrou os olhos para enxergar a tela. — É Graham? Não
consigo ver o rosto dele.
Ayaan balançou a cabeça. — Não tenho certeza. O para-brisas
tem insulfilme e há um reflexo que nossos técnicos não
conseguiram remover na edição.
Elle voltou a barra de progresso do vídeo e o pausou. — Ele
não é descuidado, isso é certo. Se ele está com uma garota
sequestrada no carro, demonstra muita disciplina o fato de
continuar dirigindo na mesma velocidade que os outros carros
para não chamar atenção em uma situação de tanto estresse.
— Sim, está certa, mas ainda assim parece muito arriscado —
disse Ayaan olhando para Elle. — Acho que, para ele, talvez
valha mais a pena correr o risco de ser parado por não ter placas do que correr o risco ainda maior de ser pego em alguma
filmagem ou por uma testemunha que pudesse rastrear a placa.
Elle observava a van. — Ele provavelmente dirigiu por poucos
quilômetros nesse veículo, e durante o horário de pico na manhã
de um dia de semana, quando ele sabia que eram pequenas as
chances de ser parado por algo tão pequeno. Sendo ele um
homem branco, pelo menos.
Ayaan esboçou um sorriso irônico, assentindo. — Demonstra
um certo nível de sofisticação criminal que se encaixa com quão
perfeitamente ele executou o sequestro. É pouco provável que
seja a primeira vez dele fazendo isso. Talvez Graham não esteja
se comportando tão bem quanto sua ficha sugere.
— Sabemos se ele tem acesso a uma van como essa? —
perguntou Elle.
— Não, mas tudo indica que é roubada, de qualquer forma.
Estou investigando o álibi dele. Ele tem outro emprego além de
trabalhar com Dave Jordan. Ele lava janelas para uma empresa
de limpeza de escritórios. Disseram que ele estava trabalhando
ontem até às duas da tarde. Comprova a história do pai. —
Ayaan olhou para Elle. — Vou precisar investigar melhor esse
álibi, mas pode tentar encontrar alguma coisa usando seus
métodos investigativos hoje à tarde? Podemos nos encontrar
amanhã e comparar nossas descobertas. Aviso você se algo
mudar enquanto isso.
— Claro. Com certeza. Nos falamos amanhã.
Ela não queria ir para casa onde teria que falar sobre o caso
com Martín, mas não tinha muita escolha. Elle reprimiu o pânico
crescente em suas entranhas enquanto se levantava e deixava o escritório. Nesse momento, uma garotinha dependia dela. Ela
não poderia se dar ao luxo de desmoronar.