Garota, 11
Capítulo 11
Elle
14 de janeiro de 2020
Sentada em seu estúdio, Elle corria os dedos pelos cabelos
enquanto examinava o Muro do Luto, o nome que Martín havia
dado ao enorme mural de cortiça onde as fotos de seus casos
estavam fixadas. Ela tinha duas fotos de cada garota da série do
Assassino da Contagem Regressiva: uma em vida e outra depois
de morta. Uma foto de rosto e uma foto da cena do crime. Elas
estavam agrupadas de acordo com o ano: 1996, 1997, 1998,
1999. Dentre todos os casos em que se envolvera depois de
abandonar a assistência social para se dedicar à investigação em
tempo integral, esse não era o que estava mais longe de ser
solucionado, mas era quase.
O topo do pódio era do caso Fantasma de Duluth, que
aterrorizou a cidade em 1991 ao roubar quatro bebês de seus
respectivos quartos à noite dentro do período de um ano. Com
ajuda de uma de suas ouvintes, uma genealogista, Elle localizou
todos os quatro através de uma base de dados on-line com
resultados de testes comerciais de . Eles acreditavam ser adotados e não faziam ideia de quem os pais biológicos eram. Ao
serem interrogados pela polícia, os pais admitiram ter pagado
pelo que acreditavam ser uma agência de adoção de elite —
ainda que ela fosse secreta de uma maneira suspeita. A
descrição dada por eles e relatórios duvidosos a levaram até o
sequestrador. No fim das contas, a polícia estivera perto de pegá-
lo depois do sequestro do último bebê em 1991, então ele usara
o dinheiro para desaparecer sem deixar rastros em vez de se
arriscar a continuar construindo sua rede de contatos no mercado
negro.
O Fantasma fez com que o podcast de Elle disparasse de uma
audiência enxuta, mas leal, para um fenômeno cult havia cerca
de um ano, mas o caso do já o havia superado. Esse era o
caso que ela queria resolver mais do que qualquer outro, e ela
tinha uma nova pista. Ela só precisava desvendá-la.
A busca por Luisa Toca a levara para todos os cantos de
Minneapolis nos dois dias anteriores, mas ela não teve sucesso.
A chefe dela ainda não tivera notícias. Ela sumira feito fumaça. A
câmara confirmou que diversas reclamações haviam sido feitas
sobre a condição da casa de Maria Alvarez, então a história do
homem de Falcon Heights batia. Já havia cinco dias desde a
morte de Leo e Elle não estava mais perto de descobrir de quem
ele falava ou o que poderia estar no pen drive em seu bolso do
que quando começara.
Era comum que os ouvintes do podcast agissem como
investigadores terceirizados depois dos primeiros episódios em
que ela apresentava o caso. Mesmo assim, havia um limite de
quais informações ela estava disposta a compartilhar publicamente quando se tratava de pessoas sob suspeita. Se ela
divulgasse o nome de Luisa na subreddit do Justiça Tardia talvez
conseguisse localizá-la mais depressa, mas os ouvintes
deduziriam que ela teria algo a ver com o caso quando não havia
evidência de que ela sequer havia estado envolvida. Também
quebraria as regras que Elle estabelecera para si mesma e seus
ouvintes desde o primeiro episódio. Não exponham uns aos
outros na internet, não exponham suspeitos na internet, não
sejam babacas. Eram regras simples e, no geral, as pessoas as
respeitavam.
Bom, sua audiência normal as respeitava. Desde que
começara a quinta temporada, houve alguns absurdos de novos
ouvintes entupindo o feed porque queriam ser ouvidos. Então
houve dúzias de e-mails de tag vermelha na caixa de entrada.
Elle abriu o laptop e respirou fundo. Uma temporada sobre o
Assassino da Contagem Regressiva seria inevitavelmente
popular, mas nem ela conseguia acreditar quão rápido isso havia
acontecido desde o primeiro episódio em dezembro. Ela foi de
cerca de um milhão de downloads no total para quase dois
milhões. Detetives de sofá e fãs de true crime que vinham
acompanhando o caso do por anos vieram ouvir o Justiça
Tardia pela primeira vez, e pareceu que todos eles tinham um
pitaco para dar sobre a maneira como ela conduzia seu podcast
investigativo. Suas redes sociais e fóruns de podcast —
normalmente lugares de refúgio onde ela participava de
brainstorms com os ouvintes e trocava ideias sobre teorias — se
tornaram incômodos. Havia excelentes teorias e perguntas sendo compartilhadas, mas ela levava mais tempo do que antes para
encontrá-las.
Antes de enfrentar sua caixa de entrada, ela ligou para Tina.
Pouco depois, o rosto de sua produtora surgiu, iluminando a tela.
— Elle, o próximo episódio. Cacete, ele por si só vai fazer com
que o Reddit inteiro tenha um orgasmo.
Elle retorceu os lábios, mas riu mesmo assim. — Eca, espero
que não.
Tina se aproximou da câmera e seus olhos ficaram próximos
da tela como se ela pudesse enxergar o fundo da alma de Elle.
— Não, estou falando sério. Se estiver certa sobre isso, é algo
enorme. Você encontrou a primeira vítima do .
Elle cobriu o rosto com as mãos. Sua pele queimava sobre os
dedos. Ela estivera tão ocupada atrás de Leo nos últimos dias
que quase se esquecera de que o próximo episódio poderia
trazer uma revelação ainda maior do que a anterior. Ela olhou
para a tela por entre os dedos. — Eu, não. Nós. Você fez todo o
trabalho pesado, encontrou a informação da qual eu precisava.
— Tá bom, tá bom, nós duas somos fodonas, vamos concordar
e seguir em frente. — Tina sorriu prendendo o cabelo preto e liso
atrás da orelha. — Agora um assunto sério. Estou feliz por ter
ligado. Quero falar com você sobre o e-mail do podcast.
Elle abriu o navegador ao lado da janela da chamada de vídeo.
— Sim, estou vendo que temos um mar vermelho aqui.
— O mar não está tão bravo, eu diria — observou Tina. — Mas
alguns deles insinuam saber sua localização, ao menos a
vizinhança. Eu fiz denúncias à polícia local, mas eles não
parecem ter preparo para lidar com casos cibernéticos como esse. Tentei ajudá-los rastreando alguns dos endereços de
dos remetentes, mas alguns deles foram roteados por s.
Estremecendo, Elle tomou um gole de vinho. Ela abriu um dos
e-mails que Tina classificara com uma tag vermelha.
Você vai custar a vida de pessoas inocentes sua vagabunda
burra. Vou atrás de você se alguém que eu amo se machucar
vou acabar com sua raça. Saiba que essa arminha de merda não
vai te ajudar.
Bom, eles sabiam que ela tinha porte de armas. Poderia ser
um chute ou uma observação acertada. O e-mail tinha vários
parágrafos, mas não havia nenhuma outra informação pessoal.
Ela o arquivou.
Depois de mais alguns ela se sentia como se alguém tivesse
despejado um balde de formigas-de-fogo sobre sua cabeça.
Tina permaneceu em silêncio, observando-a enquanto ela lia
os e-mails. — Tudo bem? — perguntou ela quando Elle voltou a
encher a taça de vinho.
— Estou bem. Obrigada por dar uma olhada nisso. Você está
bem?
A amiga assentiu. — Sim. — Então deu de ombros. — Bom,
não, não de verdade. Tipo, eu sou uma analista comercial, Elle.
Não fui treinada para lidar com esse tipo de gente pirada. A
situação mais perigosa pela qual passo é quando escrevo e-
mails para meus colegas de trabalho falando coisas tipo “como
disse em meu último e-mail”, e em metade das vezes eu nem
sequer mando porque soa muito cretino. Não vou mentir, tive que
fumar um baseado depois de ler essas coisas no fim de semana.
Elle passou a língua sobre o lábio inferior sentindo o sabor
intenso e amargo do vinho tinto. Sua língua estava roxa na
câmera. — Desculpe. Não precisa continuar a lê-los se for muito
ruim. Eu entendo, de verdade.
Tina fez um gesto com a mão que dizia “não esquenta”. — Não
se preocupe comigo. Minha namorada está aqui, ela gosta
quando estou vulnerável. — Ela deu uma piscadela, mas seu
sorriso não foi dos mais convincentes.
— Obrigada, Tina. Mas dê um tempo se for preciso.
— Pode deixar. E você… por favor, se cuide, tá bom? Talvez
deva pensar em ligar para Ayaan, deixá-la por dentro das
ameaças.
Elle assentiu, mas sabia que não faria isso. Até onde ela sabia,
o departamento de Ayaan provavelmente ainda estava
trabalhando para ter certeza de que ela não teve nada a ver com
o assassinato de Leo. Eles provavelmente não a veriam com
bons olhos se ela pedisse um favor nesse momento.
Quando ela desligou a chamada com Tina, fechou o e-mail.
Ainda havia centenas de e-mails não lidos, mas ela já havia
atingido sua cota de ameaças e tags vermelhas naquela noite.
Se pudesse agir de acordo com sua vontade, ela desligaria tudo
e iria assistir a um filme com Martín lá embaixo.
Mas ela vinha evitando isso há dias e precisava continuar
engajada. Seus ouvintes se esforçavam para encontrar boas
informações para compartilhar com ela. O mínimo que ela
poderia fazer era ouvi-los.
Ela acessou as redes sociais. O post com o link para o quinto
episódio, da quinta-feira passada, tinha mais de dez mil comentários. Elle sorveu um generoso gole de vinho e começou
a lê-los.
@doidoooportruecrime
@casillomn amei o último episódio — caralho!! *mic drop*
@tckestavivo
@doidoooportruecrime @castillomn total! N acredito q ela
descolou aquela entrevista. Mas ela manda mto bem. Se
alguém consegue chamar a atenção p/ esse caso de novo, é a
Elle Castillo.
@fadinhadeiowa
@castillomn . Como encontro
ela???
Descendo a barra de rolagem, Elle curtiu os comentários
positivos e tweets empolgados, respondendo perguntas quando
podia. Mas quando ela seguiu para as mensagens diretas viu as
muitas notificações da caixa de entrada de Solicitações, essas de
pessoas que ela não seguia. Ela tomou mais um gole de vinho e
abriu as mensagens.
Ela já devia ter esperado. As pessoas se tornaram mais
descaradas em comentários públicos ao longo dos anos, mas as
mensagens privadas eram sempre piores, e essas não fugiam à
regra. No ano anterior, ela participara de um painel na CrimeCon
junto com outras quatro mulheres de podcasts investigativos
famosos para discutir assédio on-line. O moderador preparara
slides com comentários retirados da aba de menções. Os nomes
de usuário estavam desfocados. Elas mal puderam identificar se um comentário era direcionado a elas mesmas ou às demais —
todas recebiam coisas semelhantes em seus feeds todos os dias.
A única exceção foi a mulher negra, que precisava lidar com
racismo além do sexismo em suas redes.
Ser uma mulher que se expressa on-line significa lidar com
insultos constantes pelas coisas que se faz ou se diz, não
importa quão insignificantes ou inocentes.
Elle começou a passar os olhos pelas mensagens. Diferente
dos e-mails do podcast, suas contas nas redes sociais eram só
dela. Tina não tinha acesso e por isso não podia filtrar nada.
A maioria era haters, pessoas que acreditavam conhecer o
caso melhor do que ela e que estavam determinadas a
desmerecer tudo o que ela dizia. A maior parte das mensagens
seguia a mesma linha de raciocínio: ela estava mentindo sobre
as fontes; estava enganando as pessoas sobre a investigação
policial; estava sendo alarmista ao dizer que o ainda estava
vivo quando a maioria dos especialistas concluíra que o corpo no
chalé incendiado era dele. Ninguém era explicitamente
ameaçador, mas havia um tom sinistro nas mensagens. Uma
pessoa enviara uma simples frase, Cuidado com o que você
deseja, e essa mensagem, por alguma razão, havia provocado
calafrios piores do que as demais. A investigação dela estava
sendo assistida de perto e algumas pessoas não estavam felizes.
Ela deu um salto quando seu celular vibrou, pegando-o com as
mãos trêmulas. O número da delegacia apareceu na tela.
— Alô? — Atendeu ela, soando mais embriagada do que se
sentia.
— Castillo, está trabalhando no meu caso?
Ciente de que o irritaria, Elle se acomodou na cadeira e
perguntou: — Quem está falando?
— É o detetive Sam Hyde. Sei que está xeretando o meu caso
e gostaria que viesse até a delegacia para se explicar. Isso é
completamente antiético e eu poderia abrir uma queixa por
obstrução de uma investigação.
Isso a despertou imediatamente de seu torpor. — Detetive
Hyde, acredito que esteja ciente de que trabalhei com a polícia
de Minneapolis em vários casos recentes. — Foi apenas um,
mas o vinho tinto a deixara tagarela. — Estou certa de que não
está sugerindo que eu não tenho o direito enquanto cidadã de
falar com quaisquer outros cidadãos sobre quaisquer assuntos
de minha escolha.
— Contou a uma mulher que seu filho foi assassinado.
— Contei a ela que seu ex-genro foi assassinado. Vários dias
depois de isso ter acontecido, devo dizer.
Por um momento a ligação ficou em silêncio. Então ele disse:
— Gostaria que viesse até a delegacia e me dissesse o que
sabe. Talvez amanhã, já que você claramente não deveria dirigir
hoje. E depois, se não se importar, gostaria que ficasse longe da
porra do meu caso.