Garota, 11
Capítulo 24
Elle
17 de janeiro de 2020
Os primeiros policiais chegaram à casa de Elle menos de dez
minutos depois de ela ter telefonado para Ayaan. Martín chegou
em seguida, entrando depressa pela porta, aflito. Ele puxou o
corpo de Elle para si em um abraço apertado que cheirava a
desinfetante. Então Sash chegou, sua aparência a de uma
estátua cuja vida fora ceifada, praticamente incapaz de dizer
qualquer coisa que não fosse. Onde ela está? Onde ela está?
Onde ela está?
Em pares, eles vasculharam o bairro — Martín e Elle
acompanhados por um policial de um lado da rua e Sash
acompanhada por outro policial do lado oposto — e bateram em
todas as portas. Ninguém vira a menina. Então voltaram andando
até a casa da srta. Turner e verificaram a casa novamente, mas a
propriedade ainda parecia abandonada. A única coisa que
encontraram foi um objeto de vidro e plástico avistado por Martín
na rua congelada.
Era o celular de Natalie. A polícia levou o aparelho como
evidência e percorreu a área ao redor, mas não encontrou nada
além dele. O celular estava destruído; fora esmagado por um
pneu.
Eles finalmente voltaram para a casa dos Castillo e esperaram.
Esperar, nesse caso, envolvia muitas lágrimas, passos ansiosos
de um lado para o outro e olhares pela janela, de novo e de novo
e de novo.
Tudo era um borrão. Elle permanecia encolhida no sofá com os
olhos fitando o chão quando, de repente, Ayaan estava ajoelhada
à sua frente. Com uma voz nítida, ela se dirigiu a Elle,
despertando-a de seu torpor:
— Elle, me diga o que sabe.
Ela contou a história novamente com todos os detalhes dos
quais conseguia se lembrar. Contou sobre como dormiu e
acordou com a sensação de que algo estava errado, sobre as
chamadas perdidas e mensagens de Natalie. Elle falou até
mesmo sobre o vazio gelado da casa de Natalie e sobre como
ela percebeu que a menina não voltara para casa.
Depois de terminar seu relato, um pensamento subitamente
surgiu em sua mente e ela finalmente levantou o rosto para
retribuir o olhar sério de Ayaan. — Amanda foi sequestrada há
três noites, Ayaan.
Os lábios cheios de Ayaan se comprimiram em uma linha fina
e reta. — Elle.
— Não entende? Esse é… — Ela não concluiu a frase.
Lágrimas de horror tomaram seus olhos. — Esse é exatamente o padrão dele. Natalie tem dez anos. Ela é a próxima na contagem
regressiva.
Martín vinha da cozinha com uma caneca de chá, mas parou
no meio do caminho, imóvel, ao ouvir o que Elle dissera. Ele e
Ayaan trocaram olhares carregados de pena, e Elle estava
prestes a abrir a boca para dizer algo quando Sash surpreendeu
a todos com um grito.
— Você está falando sério, Elle? — bradou ela, se levantando
da poltrona favorita de Martín onde estivera sentada. —
Realmente acha que isso gira em torno do seu podcast? Minha
filha… desapareceu… e você está falando sobre a porra do
?
Pousando o chá diante de Elle, Martín se voltou para Sash,
posicionando ambas as mãos à frente de seu corpo em um gesto
que pedia calma. — Sash, sinto muito. É uma circunstância
traumática para todos. Por favor, dê uma chance para que Elle
possa…
— Possa o quê? — Elle interrompeu, se levantando do sofá.
Ayaan também ficou de pé. — Você disse que sempre acreditaria
em mim. Então acredite em mim agora, Martín. É o . Tudo
se encaixa, isso é exatamente o que ele faz.
Com um rosnado furioso, Sash arremessou sua caneca de chá
pela sala. Ela se partiu contra a parede próxima a Elle e o líquido
âmbar respingou sobre as roupas dela e escorreu pela parede.
Elle recuou quando o líquido tocou sua pele. Um policial correu
até elas, mas Ayaan acenou com a mão para que ele se
afastasse. Sash estava em pé, suas pernas plantadas
firmemente ao chão. Seu peito arfava e ela olhava furiosa para Elle. — Cale. A. Boca. — Seu rosto tinha uma expressão que Elle
nunca vira, seu peito e seu pescoço estavam avermelhados e
havia um clarão em seus olhos. — O morreu, Elle. Ele se
matou naquele chalé há vinte anos, e você sabe disso. Todo
mundo sabe disso, as pessoas só entram na onda dessa sua
fantasia idiota de encontrá-lo porque sentem pena de você.
Elle recuou. Seu rosto queimava. — Não é verdade.
Mas Sash não terminara. Ela avançou um passo na direção de
Elle com o dedo em riste. — Pare de se esquivar. É culpa sua
que Natalie tenha ido embora sozinha daquela casa. Você me
prometeu que sempre estaria lá para buscá-la. Você me
prometeu e eu confiei em você como se fosse uma irmã.
As pernas de Elle falharam e ela abruptamente voltou a se
sentar. As palavras cheias de ira de Sash batiam em seus
tímpanos como punhos, eram dolorosamente certeiras. Era
mesmo culpa dela. Ela não devia ter pegado no sono. Ela deveria
ter estado lá no instante em que Natalie percebeu que a srta.
Turner não estava em casa.
— Srta. Hunter, nós vamos fazer tudo o que estiver ao nosso
alcance para encontrar sua filha — disse Ayaan. Sua voz era
uma força tranquilizadora que nenhum deles conseguia
contrariar. Então, para a surpresa de Elle, ela se sentou ao seu
lado e acolhedoramente envolveu um braço por suas costas. —
Já vi relações sendo destruídas quando algo assim acontece,
mas acredite em mim quando digo que isso é mais fácil de
suportar se permanecerem unidos. Apontar um culpado não vai
nos ajudar a encontrar Natalie mais depressa. Tentem não se
voltar uns contra os outros, tudo bem?
Sash olhou de Ayaan para Elle por um momento e depois, sem
dizer uma palavra, pegou o casaco e saiu da casa.
Elle secou os olhos enquanto a amiga saía e olhou para
Ayaan. — Acredita em mim?
Ayaan desviou o olhar, um gesto sutil, mas desolador. — Acho
que precisa dar um passo atrás nessa história, Elle. Nem mesmo
sabemos se os sequestros estão conectados e você já está certa
de quem é o responsável. Essa situação é familiar demais para
que você consiga ver com clareza, especialmente agora que
Natalie desapareceu também.
— Ayaan… — Elle interrompeu com um soluço. Entre as
lágrimas, ela conseguia ver que Martín ainda estava de pé do
outro lado da sala, mas ela não tinha forças para encará-lo. A
vergonha queimava em seu pescoço, enrolada em seus ombros.
— Sei que está sofrendo, Elle. — Os olhos castanhos de
Ayaan pareciam preocupados quando olhou para Elle. — Espero
que consiga ajuda.
Alguns minutos se passaram em silêncio depois que Ayaan foi
embora. Sentada no sofá, Elle encarava a parede e deixava que
suas lágrimas rolassem livremente. Martín finalmente atravessou
o cômodo e se sentou ao lado dela. Devagar, ele posicionou uma
mão no meio de suas costas como se para impedi-la de cair.
— O que aconteceu? — murmurou ele. — O que posso fazer?
Enrijecendo o corpo, Elle mudou de posição e se afastou da
mão dele. — Não pode fazer nada, Martín. — No entanto, ao
olhar para ele, a dor em seus olhos a deixou sem fôlego. Ela
sentiu uma súbita onda de culpa. Ele também perdera Natalie.
— Preciso fazer alguma coisa — respondeu ele, sua voz
rouca. — Deve haver algo que podemos fazer.
— Você acredita em mim? — perguntou ela. Ela se levantou e
andou a passos largos até a janela que dava para a rua. Estava
completamente escuro lá fora. Se alguém estivesse na rua
poderia vê-la perfeitamente, mas do lado de dentro a janela
estava tão opaca que parecia ser um espelho. Seu cabelo escuro
estava armado e bagunçado, havia mechas se soltando do rabo
de cavalo. Ela não conseguia ver os próprios olhos, mas sua
testa exibia uma ruga de preocupação. Ela via no reflexo o
marido sentado atrás dela, onde ela o deixara no sofá. A cabeça
dele estava apoiada nas mãos e ela sabia que ele estava
rezando e pedindo por força.
— Acredito que esse caso está te afetando mais do que você
pensou inicialmente — disse Martín. — Acredito que você está
vendo pistas aqui que talvez não veria se não tivesse estado tão
profundamente imersa nesse caso pelos últimos meses.
— Estou imersa nesse caso há anos.
— É verdade. — Ele levantou a cabeça e ela imaginou que seu
olhar poderia encontrar o dele no reflexo azul escuro da janela.
— Mas agora é diferente. Você não tem dormido. Mentiu para
mim quando foi encontrar uma testemunha. Concordou em
trabalhar em um caso ativo sem nem mesmo conversar comigo,
e você, de todas as pessoas, sabe como isso pode ser perigoso.
Só estou preocupado com você.
Elle se voltou para ele. — Não quero que se preocupe comigo.
Quero que acredite em mim.
— E eu acredito, Elle. Acabei de dizer que acredito. Mas
acreditar em você e concordar com você são coisas diferentes.
Acredito que você tenha razões para deduzir que seja o ,
mas não pode me pedir para dizer que está certa quando não
tenho certeza de que está.
Sua visão se tornou um borrão novamente e ela balançou a
cabeça. — Mas tudo bate com o padrão do : as cidades, os
acessórios de cores vibrantes, o planejamento meticuloso. A
única coisa que não consigo entender é onde está a srta. Turner,
como ele sabia que ela não estaria lá para a aula de Natalie.
Talvez o tenha dado um jeito de tirá-la de casa para que
Natalie não tivesse escolha a não ser voltar andando sozinha
para casa.
— Mas como ele saberia que você não atenderia o telefone
quando Natalie telefonasse? — perguntou Martín, gentilmente.
Ela apertou a ponte do nariz com os dedos. — Não sei.
— Tudo o que eu sei sobre o indica que ele é
extremamente cuidadoso. Meticuloso, como disse no podcast.
Ele teria planejado cada detalhe.
Elle olhou para ele. — Então talvez ele não soubesse que eu
não atenderia o celular. Talvez ele tivesse um plano caso eu
atendesse. — A boca de Martín se retorceu em uma expressão
incrédula, mas ela continuou. — Acredita-se que ele tenha feito
isso antes. Feito planos para todos os cenários.
Ele a observou por um momento, tamborilando os dedos sobre
o joelho. — Isso tem algo a ver com os dois últimos episódios? —
perguntou Martín, finalmente.
Elle se virou para ele. — O quê?
— Eu vi as respostas dos episódios. Seus fãs apoiam você,
mas alguns dos comentários são terríveis. Seria completamente
compreensível se eles despertassem algo em você, mi vida. As
coisas que as pessoas têm dito. Alguns dizem que você está
mentindo. Se eles soubessem…
— Estou bem, Martín. Não tem nada a ver com isso. — Elle
fechou os olhos. Naquele momento, as ameaças na internet
pareciam distantes, imaginárias. O que alguém poderia fazer com
ela que fosse pior do que o que estava acontecendo naquele
momento?
Quando ela voltou a abrir os olhos, Martín caminhava em sua
direção. Ele a segurou pelos ombros e olhou para ela de olhos
marejados. Então ela foi atingida em cheio novamente: Natalie
desaparecera. A nova onda de pesar poderia tê-la derrubado não
fosse a firmeza gentil das mãos do marido.
Martín a segurou perto de si e ela sentiu uma das lágrimas
dele caindo em sua cabeça. — Sei que não quer ser o centro das
atenções, mas deveria falar com Ayaan sobre aqueles e-mails,
Elle.
Elle recuou e olhou para ele, surpresa. Martín tinha uma
expressão sombria no rosto. — Como sabia sobre os e-mails? —
perguntou ela.
— Tina. Quando não atendeu o telefone enquanto cochilava
hoje à tarde, ela me ligou para dizer que rastreou algumas das
pessoas que estavam ameaçando você. Ela queria te dizer que
nenhuma das que ela havia encontrado até agora morava por
aqui.
Elle baixou os olhos, mexendo nos botões da camisa dele. —
Desculpe por não ter dito nada. Só não queria deixar você
preocupado.
— Sempre diz que eu deveria confiar em você, Elle. Bom, você
também pode confiar em mim. Confie que eu sei lidar com meus
próprios sentimentos. Já chega de esconder de mim coisas
importantes como essa.
— Sim, tudo bem, já chega.
Martín cobriu a mão de Elle com a sua para que ela parasse de
se mexer e levou sua outra mão ao queixo dela, erguendo seu
rosto para olhá-la nos olhos. — Só quero que fique em
segurança.
— Eu jamais estarei em segurança fazendo o que faço. — As
palavras soavam ríspidas, mas eram verdadeiras, e algumas
vezes a verdade é a coisa mais cruel de todas.
— Então tenha astúcia. Se não pode estar segura, precisa
conseguir passar a perna em qualquer um que queira te fazer
mal. Consegue fazer isso?
Depois de pensar por um instante, ela assentiu. — Posso
tentar.