Garota, 11

Amy Suiter Clarke · Capítulo 35 de 50

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Garota, 11

Capítulo 33

 

1996

 

não gostava de festas, mas decidiu comparecer ao evento da

Universidade Mitchell “PhDs com menos de trinta” porque

garantiram a ele que poderia encontrar mulheres qualificadas lá.

Ele se envolvera com algumas pessoas ao longo dos anos

depois de Loretta, mas nada durou muito mais que uma semana.

Agora que passava quase todo seu tempo livre com um velho

ranzinza que só abria a boca para distribuir insultos, ficava

feliz com toda e qualquer oportunidade para sair de casa. A

pensão por invalidez de seu pai ajudava a pagar a enfermeira de

meio-período, mas, tirando isso, era responsável pelos

cuidados dele, além de seus estudos e dos dois empregos que

tinha para conseguir arcar com as despesas de saúde. Ele

estava pronto para uma noite inteira fora de casa pela primeira

vez desde que voltara para Minnesota seis meses atrás.

Fora decepcionante para ele abrir mão de sua vaga no

programa de doutorado de Yale para cuidar do pai após seu

derrame, mas havia algumas vantagens em continuar os estudos na Mitchell. Aqui, ao menos, ele era um peixe grande em um

aquário pequeno. Ele era reconhecido pelas pessoas. O evento

aconteceria em um local no centro de Minneapolis e era aberto a

todas as universidades, mas nos primeiros cinco minutos em que

esteve no evento foi cumprimentado por no mínimo dez pessoas.

sorria e apertava mãos manchadas de tinta de caneta, roçava

seus lábios em bochechas cobertas de blush, inalava os

perfumes baratos favoritos de acadêmicos de longa data.

— , como vai? — Uma doutoranda que ele conhecia se

aproximou para abraçá-lo com um sorriso, esticando o rosto

redondo. aceitou o gesto e pressionou seus lábios na

bochecha da mulher. Esse era o máximo de intimidade que ele

tivera com uma mulher em semanas. Ele se perguntou o que isso

diria sobre ele. Seu último relacionamento fora breve,

desimportante. Terminou sem grandes emoções quando ele foi

embora de Yale. Ele não exatamente sentia falta de companhia,

mas um corpo quente em sua cama em uma noite gelada de

inverno não seria nada mau.

Ele se afastou com um sorriso em resposta ao dela e sacudiu a

cabeça, tentando parecer adoravelmente esquecido. — Me

desculpe, me deu um branco. Pode repetir seu nome?

Ela riu e balançou a cabeça também. Ele era tão cabeça de

vento! — Maggie Henderson! Lembra? Da lavanderia?

bateu na própria testa. — Claro, agora me lembro. — Ele

não se lembrava, mas isso não importava. — Do dia em que…

— Sim, do dia em que a máquina não aceitou minha moeda.

Foi muito fofo da sua parte ter me emprestado uma. Ainda estou te devendo. — Ela ergueu as sobrancelhas de uma maneira que

despertou algo nas entranhas dele.

Agora ele se lembrava. O incidente acontecera por volta de

seis semanas atrás, mas ele mal a notara. Ele tinha uma

lavadora e uma secadora em casa, mas a lavanderia do campus

era uma excelente fonte de ruído branco quando a biblioteca

estava cheia demais. Todas as máquinas funcionando enquanto

os estudantes aguardavam em silêncio o fim dos intermináveis

ciclos de lavagem. Era um ambiente de estudos profundamente

subestimado.

— Eu estava torcendo para encontrar você aqui — continuou

ela.

Isso provocou um sorriso genuíno nele. Quando Maggie se

apoiou contra a parede atrás dela, ele chegou mais perto,

inclinando a cabeça levemente. — É mesmo? Por quê? — Com

sua visão periférica ele vislumbrou um borrão vermelho. Ele se

voltou para olhar naquela direção e, de repente, ficou sem

reação.

Ali estava ela, como se tivesse saído diretamente de seus

pesadelos.

Loretta.

Por um momento se desequilibrou e quase caiu para a

frente, se apoiando a tempo na parede às costas de Maggie. Ela

recuou como se tivesse visto algo perigoso passar como um

clarão pelos olhos dele.

— Desculpe — sussurrou ele, olhando para ela antes de voltar

o rosto para Loretta. Sem dirigir outra palavra a Maggie,

endireitou a postura e ajustou a gravata. Ele observava enquanto Loretta falava com um dos diretores da Mitchell responsável por

organizar o evento. Os últimos quatro anos tinham sido gentis

com ela, preenchendo os sulcos em suas bochechas, embora

agora houvesse olheiras sob seus olhos. Mazelas da academia.

Ela cortara seus cabelos castanhos em um penteado curto e

arrojado — algo que ele nunca esperaria da garota por quem se

apaixonara. Mas caía bem nela.

Seus nervos vibravam sob a pele e corriam por suas costelas.

Talvez aquela fosse sua chance. Ele podia mostrar a ela quão

longe chegara, quanto ele tinha conquistado depois que ela o

deixara. Independentemente de sua intenção, a rejeição dela o

havia despertado, feito com que ele mantivesse o foco em suas

ambições. Agora ele podia mostrar a ela que ela cometera um

erro. O fato de ela estar lá provavelmente significava que

também tinha ido para o doutorado e que também estava

solteira.

Endireitando os ombros, se aproximou. Mesmo lá dentro

ela não se despira de um volumoso casaco vermelho, prova do

inverno gelado lá fora. Quando ele estava a poucos metros de

distância, Loretta desviou o olhar do homem com quem

conversava e seus olhos se iluminaram com uma emoção que

não conseguira decifrar. Ele sorriu e estendeu os braços no

que esperava que fosse ser interpretado como um convite

descontraído e amigável para um abraço. Surpresa, ela soltou

uma risada curta, mas aceitou seu abraço. Quando seus corpos

se tocaram, ele percebeu e deu um passo atrás, espantado.

Com as mãos sobre os ombros dela, olhou fixamente para

sua barriga. Ele não notara devido ao casaco, mas agora era óbvio o quanto estava protuberante. Uma onda de calor subiu de

seu pescoço até suas bochechas e ele não conseguiu conter

uma expressão de surpresa.

Loretta sorriu de maneira contida. — Olá, , como você está?

— Estou bem — disse ele, finalmente desviando os olhos de

sua barriga de grávida e voltando-os para o rosto corado dela. —

Desculpe. Eu não esperava.

— Eu também não — respondeu Loretta com uma risada. —

Eu obviamente não planejava ter um bebê durante o pós-

doutorado, mas essas coisas acontecem, acho.

Sim, acontecem, pensou ele, quando se é irresponsável. Mas

seria inútil dizer a ela algo que ela sabia. Quando estavam juntos,

mantiveram a castidade e nunca trocaram mais do que beijos

calorosos devido à origem religiosa de ambos. Apesar de ter feito

muito mais desde então, imaginá-la fazendo outras coisas com

outro homem fez com que ele fosse invadido por uma onda de

ciúmes.

Loretta trocou de posição, coçando a pele atrás da orelha

direita. — O que está fazendo aqui em Minnesota? Jenny me

disse que você estava em Yale.

a atualizou brevemente sobre como começou seu

programa e se mudou logo em seguida para Minnesota depois

que seu pai adoeceu. Então ela contou que se mudara para

Minneapolis logo após a graduação uma vez que aceitara uma

bolsa de estudos na Universidade de Minnesota. Ao erguer a

mão esquerda, notou que ela usava um bonito anel de ouro.

sentiu um aperto no peito.

— Meu marido é daqui e quis ficar mais perto da família. Foi

um pequeno sacrifício a se fazer. A Universidade de Minnesota

tem um ótimo…

— Você é casada?

Loretta pareceu confusa. Sua mão se moveu e pousou sobre o

estômago. — Sim, é claro.

— Então por que está aqui? — Fúria atravessou as veias de

com uma sensação parecida com a que se sente ao ingerir

um café muito forte. — Esse evento é para pessoas solteiras.

Comprimindo os lábios, Loretta se aproximou e baixou a voz

como se quisesse equilibrar o repentino tom alto da voz de .

— Este é um evento de socialização, .

— É desonesto que esteja tomando o lugar de alguém que

realmente precisa conhecer pessoas — disse . — Alguns de

nós estamos aqui para conhecer colegas doutores, não para

flertar com representantes do corpo docente para chegar ao topo.

Por um momento, nenhum dos dois falou. Ele não sabia dizer

se todos ao redor haviam parado para assistir ao show ou se ele

apenas sentia que o barulho e o movimento na sala tinham

cessado. Ele não conseguia desviar o olhar das bochechas

rosadas dela, da barriga imensa e de seu corte de cabelo de

vagabunda.

— Sabe, eu tinha esperanças de que você mudaria com o

tempo, mas agora vejo que não foi o que aconteceu. — A voz de

Loretta estava calma, porém firme. Suas mãos repousavam nas

laterais do corpo e ela alternava entre relaxar os braços e cerrar

os punhos. — O que tínhamos foi bom no começo, . Mas

depois de um tempo deixei de sentir que você realmente me via. Você não tinha nenhum interesse em mim enquanto pessoa, não

de verdade. Depois li aquela carta que você escreveu para seu

pai e tudo fez sentindo. Comecei a prestar atenção na maneira

como falava com seus amigos e compreendi. Para você, as

pessoas ou são obstáculos para seu sucesso ou um meio de

atingir seus objetivos. Eu não queria ser nenhum dos dois.

— Isso não faz nenhum sentido. — Ele odiava perceber a

tensão em sua mandíbula ao ouvir as palavras dela, odiava como

ela fazia com que seu coração batesse acelerado de raiva e

vergonha. — Não consigo acreditar que está fazendo isso de

novo. Me humilhando diante de dezenas de pessoas outra vez.

Loretta olhou em volta como se tivesse acabado de se lembrar

que eles tinham público. Ele imitou o gesto. As pessoas se

agrupavam ao redor deles fingindo conversar enquanto taças

tilintavam e a banda de jazz tocava, mas ele conseguia perceber

que elas estavam observando. Ouvindo.

Olhando para , ela fechou o casaco ao redor da barriga

protuberante e cruzou os braços sobre ela, como se criasse uma

barreira. — Não me arrependo de ter terminado com você, mas

sinto muito por tê-lo humilhado. Não foi minha intenção.

— “Melhor é morar num canto do eirado do que com a mulher

rixosa numa casa ampla.” — cerrou a mandíbula. — Tenho

pena do seu marido. Esquivando-se do olhar de seus colegas,

ele saiu da sala e correu para fora na fria noite de inverno.

Ele caminhou pela calçada, inalando ar gelado até sentir que

seu peito queimava. Ele abandonara seu casaco, mas a raiva

que sentia fazia com que se esquecesse do frio. Depois de andar

sem rumo por um tempo, ele finalmente voltou para o carro. A noite estava nublada e o céu escuro estava repleto de nuvens

prontas para explodir em neve. Uma tempestade se aproximava

e ele queria estar em casa antes de ela chegar. Os primeiros

flocos estavam começando a cair quando ele chegou ao carro e

deu partida no motor. saiu do estacionamento e entrou no

trânsito.

Uma silhueta franzina cruzou a frente de seu carro e ele

precisou pisar fundo no freio, fazendo com que a pessoa saltasse

para trás, levando as mãos ao peito. Com o coração disparado

mais uma vez, saiu do carro preparado para gritar com quem

quer que fosse, então se deparou com um rosto pálido e molhado

de lágrimas parcialmente escondido por um cachecol. Era um

dos garotos de uma disciplina da qual ele fora professor

assistente.

— ? — perguntou o jovem, arrastadamente. — Caramba,

você quase me pegou. Não vi você vindo.

deu um passo em direção a ele. — Peço desculpas. Saí da

vaga bem depressa lá atrás. Você está bem? Kerry, não é?

Kerry assentiu, trêmulo. — Isso. E, sim, estou bem. — Ele se

virou para continuar seu caminho.

— Espere! — A palavra saiu da boca de antes que ele

tivesse tempo para pensar. Quando Kerry olhou para ele, ele

apontou para o carro. A porta do lado do motorista ainda estava

aberta. — Quer uma carona? Está muito frio para ir andando.

Kerry olhou de relance para o carro e encolheu os ombros. —

Pode ser, obrigado. Esse frio está congelando minhas bolas.

Depois que ambos colocaram o cinto de segurança, Kerry

ensinou a chegar em seu apartamento e eles seguiram juntos.

Vários momentos se passaram em silêncio. Kerry se

acomodou no banco do passageiro e, puxando seu cachecol

para baixo, esfregou uma mão descoberta no rosto.

finalmente quebrou o silêncio: — Por que estava andando

por aí? Está uma noite fria para fazer um passeio.

Kerry respondeu com um sorriso amargo. — Pode crer. Minha

namorada me deu um pé na bunda, na real.

Segurando o volante com firmeza, diminuiu a velocidade do

carro. — Sério?

— Sim. — Kerry limpou a garganta, um som profundo e

gutural. — Mas está tranquilo. Estou bem. Tenho certeza de que

ela vai mudar de ideia. Ela só explodiu depois de uma briga

boba.

— Entendi. — umedeceu o lábio inferior com a língua.

Quando pararam no semáforo, ele se virou para o jovem. — Vai

ficar melhor sem ela. Pode acreditar.

Kerry olhou para ele na luz fraca e vermelha. Seus olhos

estavam molhados, mas não havia mais lágrimas. podia

contar nos dedos de uma mão os homens que ele vira chorar ao

longo da vida. Era uma cena que o deixava desconfortável.

— Eu a amo.

— Ela obviamente não ama você.

O semáforo ficou verde e pisou no acelerador. Kerry se

virou para o outro lado, olhando pela janela.

— Sinto muito se soa ríspido, sei que não é da minha conta,

mas pode acreditar em mim. Já estive em seu lugar e não vale a

pena ficar assim. — pensou em como Loretta estava naquela noite, hostil e inchada com o filho de outro homem. Ela não teria

trazido nada além de problemas.

— É aqui — disse Kerry quando eles dobraram a esquina, mas

não diminuiu a velocidade. — Oi? Você passou meu prédio.

olhava para a frente, acelerando o carro.

— O que tá fazendo, cara? Me deixa lá. — Diante da falta de

resposta de , Kerry agarrou a maçaneta da porta e a abriu.

perdeu o controle do carro tentando estacionar, mas Kerry

já tinha saltado do veículo quando ele conseguiu estacionar no

meio-fio. abriu a porta e o seguiu.

Kerry estava claramente ferido devido à queda, mancando

enquanto tentava correr pela calçada fria em direção ao seu

prédio. ia atrás dele sem ter certeza do que planejava fazer.

Ele precisava encontrar uma maneira de impedir isso, de fazê-lo

ouvir. Ele não queria ver outro homem cometer os mesmos erros

que ele cometera, permitindo que uma mulher idiota que não

reconhecia seu valor destruísse sua vida.

rapidamente o alcançou, posicionando-se em frente a Kerry

na calçada. Ele era mais alto que o garoto, mais forte também.

Mesmo usando um agasalho volumoso, Kerry era esguio, fraco.

Não era nenhuma surpresa que a garota o tivesse dispensado,

por mais doloroso que isso fosse.

— Na moral, que porra você tá fazendo? — Kerry respirava

com dificuldade. Seu corpo estava dobrado ao meio e ele

massageava a perna direita sobre a qual caíra ao saltar do carro.

— Por que você tá sendo tão esquisito?

— Só quero que me ouça, Kerry! — deu um passo adiante.

Se conseguisse fazer com que o garoto olhasse para ele, o tivesse como um exemplo, talvez ele conseguisse entender. —

Você está no último ano, já vi você em aula. Tem muito potencial.

Deixe essa vagabunda no passado e viva sua vida.

De repente, Kerry endireitou a postura e no segundo seguinte

havia um punho indo na direção de , que bloqueou o golpe

com facilidade e empurrou o garoto, que caiu no chão. se

posicionou em cima dele e depois se agachou, imobilizando os

braços do garoto no chão e sentado em seu peito, como seus

irmãos faziam com ele quando era criança. Para que ele parasse,

para que ele ouvisse.

Mas Kerry não ouvia. Ele estava gritando, xingando,

esbravejando. A qualquer momento alguém ia aparecer ou

chamar a polícia. Então segurou o garoto pelo pescoço,

interrompendo a torrente de palavras hostis. Os olhos de Kerry

se arregalaram, tomados de terror, e sentiu algo crescer em

suas entranhas — prazer, poder. Ele podia consertar isso.

— Agora ouça, Kerry —, disse ele, apertando a garganta dele.

— Ouça. Kerry, pare com isso. — Mas o jovem continuou se

debatendo, estufando o peito, esperneando, por isso

aumentou a força com que pressionava sua garganta, deixando a

raiva falar mais alto. Ninguém nunca o escutava.

se aproximou do rosto de Kerry. Mesmo nas sombras da

rua, conseguia ver que ele estava ficando vermelho. Por fim, o

garoto ficou imóvel. — Pronto. Está vendo? Vai ter que confiar

em mim, Kerry. — Os braços de tremiam enquanto a tensão

deixava o corpo de Kerry e seus olhos se fechavam. também

fechou os seus, respirando fundo. — Pode confiar em mim. É

melhor assim.

Então tudo ficou em silêncio. Havia um som distante de carros

no trânsito noturno, um sussurro do vento nos ramos secos das

árvores. abriu os olhos e olhou fixamente para o garoto.

Depois olhou ao seu redor. Havia uma fileira de carros

estacionados no meio-fio da outra calçada que funcionava como

uma barreira entre eles e as casas escuras do outro lado da rua.

Até onde ele sabia, ninguém tinha visto nada. Mesmo assim,

cada instante passado ali era um risco.

Com movimentos ágeis, colocou o corpo de Kerry sobre o

ombro e se levantou devagar. Ele caminhou cuidadosamente até

a porta do passageiro de seu carro, escancarada como se

fizesse um convite. Depois de depositar Kerry no banco e

prender o cinto de segurança, ele correu para o outro lado e

entrou no carro, dando mais uma olhada nos arredores.

Ele precisava ganhar tempo de alguma forma para que

pudesse pensar, para que pudesse criar um plano. Ninguém

sabia que Kerry tinha entrado em seu carro. Se ele pudesse

deixar o garoto em algum lugar, teria tempo para se livrar de

qualquer evidência e poderia decidir o que fazer a seguir.

O celeiro. poderia jogar o corpo de Kerry no celeiro, um dos

muitos lugares na propriedade onde seu pai não conseguia mais

chegar desde o derrame. Focando-se na rua adiante, ligou o

motor e foi para casa.