Garota, 11

Amy Suiter Clarke · Capítulo 7 de 50

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Garota, 11

Capítulo 5

 

Podcast Justiça Tardia

12 de dezembro de 2019

Transcrição: Segundo episódio da quinta temporada

NARRAÇÃO DE ELLE

O chá tem suas origens na colonização e no roubo de terras. Os

colonizadores brancos são responsáveis pela experimentação e

exploração do processo de plantio dos chás em todo o continente

asiático, e o Darjeeling é um exemplo clássico disso. Um médico

britânico chamado Archibald Campbell é a pessoa a quem são

atribuídos os créditos por plantar o primeiro chá na região de

Darjeeling, na Índia, usando folhas de chá chinesas. De maneira

semelhante ao Champagne, um vinho espumante proveniente de

uma região específica da França, o Darjeeling tende a sofrer

adulterações por empresas que visam se aproveitar de seu nome

para alavancar as vendas de um produto de qualidade inferior.

Apenas chás da região de Darjeeling devem usar esse nome,

mas identificar as falsificações e impedi-las de serem

comercializadas é uma tarefa praticamente impossível. Como em

muitos aspectos da vida, as pessoas estão dispostas a aceitar

uma fraude a fim de economizar dinheiro. Mas esse não era o

caso com o chá encontrado nas roupas de Tamera. Embora na

época a tecnologia capaz de provar isso não estivesse

disponível, seria descoberto que aquele chá era um dos mais

caros de seu tipo, importado diretamente da região da qual leva o

nome. Mas tudo o que eles sabiam em 1997 era que aquele era

um chá oolong, e foi isso que a polícia compartilhou com a

imprensa.

 

[MÚSICA TEMA + ABERTURA]

ELLE

Pode explicar por que acha que não deveria ter divulgado a

informação sobre o chá?

SYKES

Vamos dizer que isso levantou… suspeitas por parte da

comunidade em relação a um grupo específico de pessoas.

ELLE

Mais especificamente pessoas do continente asiático, certo?

SYKES

Correto. Assim que comunicamos à imprensa sobre a mancha de

chá, nosso escritório foi invadido. Chá oolong não é algo tão

exótico, mas, naquela época, não era uma bebida comum de se

ter em casa para a maioria da população na área, que, em

grande parte, era de imigrantes escandinavos e alemães. Isso

significou que as suspeitas caíram como um raio laser em

comunidades marginalizadas, embora isso fosse completamente

ilógico. Mas, como imagino que saiba, o racismo jamais é lógico.

Sob o disfarce de cidadãos de bem, todos os Toms, Dicks e

Harries no estado que não gostavam de pessoas de pele escura

pareceram encontrar uma razão para nos telefonar. Até onde

suspeitávamos, o assassino era um homem branco e esnobe que

gostava de chá importado, mas na época esse era o maior caso

na cidade. Precisávamos checar cada informação, por mais

absurda que parecesse.

ELLE

E muitas delas eram absurdas, não? Sei que receberam

informações sobre paquistaneses, coreanos, chineses, até

mesmo uma pessoa árabe. Algumas dessas informações

resultou em uma prisão?

SYKES

Não.

ELLE

Algumas dessas pessoas foram interrogadas?

SYKES

Não, não foi necessário.

ELLE

Espero que não interprete isso como se eu estivesse apontando

dedos. Sei que tomou a melhor decisão de acordo com o que

acreditou ser possível na época, mas o caos que se instalou

depois disso resultou em um aumento de crimes de ódio na

cidade. Restaurantes indianos e chineses foram alvo de

vandalismo e ameaças de bomba. A polícia de Minneapolis

desperdiçou cerca de quinhentas horas de recursos policiais nas

semanas seguintes ao tentar organizar as milhares de

informações que receberam.

SYKES

É verdade. É claro que não quero dar desculpas. Enquanto

homem negro na polícia nos anos oitenta e noventa,

definitivamente experimentei uma dose de discriminação — tanto

dentro quanto fora do departamento. Hoje em dia reconheço que

me precipitei divulgando informações sem pensar nas possíveis

consequências. Mas ainda acredito que aquela informação é

importante. O chá, quero dizer. Ainda acho que fará diferença,

especialmente agora que temos conhecimento do tipo específico

e até mesmo da marca.

ELLE

Espero que esteja certo.

NARRAÇÃO DE ELLE

O chá é uma pista, mas também pode ser uma agulha num

palheiro. Minha melhor estimativa, com base nos registros

históricos aos quais obtive acesso, é de que aproximadamente

cinco mil latas de Majestic Sterling foram compradas por

indivíduos nos Estados Unidos nos três anos anteriores aos

assassinatos da Contagem Regressiva. Outras setenta e cinco

mil foram compradas por vendedores de chás especiais em toda

a região centro-oeste. Tentar selecionar uma lista de suspeitos,

ainda que a polícia pudesse arranjar intimações para obter

acesso aos registros de todos os vendedores, seria praticamente

impossível — e, é claro, existe a chance de o simplesmente

ter comprado o chá em dinheiro vivo. A pista era importante, mas

não solucionava o caso.

ELLE

Continuando, podemos falar sobre como o caso mudou depois

de o corpo de Tamera ter sido encontrado? Não houve mais

corpos até o ano seguinte, mas naturalmente na época ninguém

tinha noção de quanto tempo o alívio duraria. Conte-me mais

sobre esse intervalo.

SYKES

As pessoas seguiram em frente depois de um tempo, começaram

a se acalmar, mas o ritmo do meu trabalho nunca diminuiu. Eu

sabia que, a menos que fosse pego, estaria só ganhando tempo,

esperando para atacar novamente e continuar a matar. Por

meses, todas as vezes em que uma garota de quinze anos era

dada como desaparecida em qualquer lugar em Minnesota ou

Wisconsin, pedi permissão à equipe local para verificar os

documentos sobre o caso. A má fama de que a polícia tem uma

comunicação interdepartamental precária é, em boa parte,

merecida, mas nunca tive grandes problemas nesse quesito.

Investiguei alguns dos casos das garotas desaparecidas, mas

nenhuma delas se encaixava no perfil. Felizmente todas elas

apareceram, no fim das contas.

ELLE

Como essa época foi para você?

SYKES

Eu… hã. Nunca tinham me perguntado isso antes… Foi bem

difícil. Uma vez fiquei sem dormir por três dias seguidos

pesquisando todos os significados possíveis por trás dos

números três, sete e vinte e um até que passei mal, vomitei na

lata de lixo do meu escritório e me mandaram ir embora para

casa. Quando se é detetive por tanto tempo quanto eu fui, você

começa a dividir os casos nos quais trabalha em categorias. Há

aqueles que se confundem na memória, mas dos quais você se

lembra de maneira fragmentada ao longo do tempo. Há outros

dos quais se esquece completamente, porque não foram

marcantes ou porque você reprimiu as lembranças. E por fim há

casos dos quais você se lembra, não importa o que aconteça —

os que te acordam no meio da noite como uma aranha andando

pelo seu rosto, mesmo décadas depois. Acho que não preciso

explicar isso pra você. Eu só tinha seis anos de carreira quando a

investigação dos assassinatos do foi atribuída a mim, mas

desde o início eu soube que não conseguiria me desvencilhar do

caso até que encontrássemos o culpado.

NARRAÇÃO DE ELLE

Mas o culpado não foi encontrado. O detetive Sykes trabalhou

nesse caso e nos outros pelos quais era responsável, mas foi um

beco sem saída. Então, depois de um ano investigando

informações infrutíferas e examinando informações

extremamente infundadas, ele foi chamado para o local do

assassinato de mais uma garota.

 

[DESCRIÇÃO SONORA: Instrumentos de uma orquestra se

afinam; há um violino particularmente fora de tom.]

ELLE

Por favor, nos diga seu nome e sua profissão.

TERRI

Meu nome é Terri Rather, sou a professora de música da Hillview

Academy.

NARRAÇÃO DE ELLE

Hillview é uma das escolas particulares mais caras na região de

Minneapolis. Ela oferece turmas do ensino fundamental ao

médio. Embora tecnicamente seja uma escola cristã,

aproximadamente vinte por cento de seu corpo discente é não

cristão. Em 1998, esse número provavelmente era ligeiramente

menor, mas Lilian Davies, de quinze anos, era uma das alunas

não religiosas matriculadas pelos pais na escola pelo excelente

programa de música. Lilian tocava clarinete — na verdade, ela

era o que se pode chamar de um prodígio. Ela estava

determinada a tentar entrar no Conservatório de Música de New

England. No dia 2 de fevereiro de 1998, após um ensaio, ela

saíra do salão de música e caminhava em direção à via principal

quando desapareceu.

TERRI

Naquela época não havia uma via de acesso até a entrada do

salão de música. Ele ficava cerca de duzentos metros afastado e

era um aborrecimento para os pais dar uma volta de carro em

todo o campus até o estacionamento, que ficava nos fundos. Por

essa razão, muitos dos estudantes que iam embora com os pais

cruzavam o enorme gramado a pé, atravessando, portanto, um

aglomerado de árvores para chegar até a calçada próxima à

avenida Hamline. Havia um caminho trilhado no gramado que a

escola mantinha livre de neve durante o inverno. Normalmente as

crianças iam juntas, por isso não nos preocupávamos com a

segurança delas. Mas Lilian precisou sair um pouco mais cedo

naquele dia para uma consulta médica, e por essa razão ela

estava sozinha.

ELLE

Quando percebeu que algo estava errado?

TERRI

Eu estava organizando as coisas após os ensaios e o pai dela

irrompeu porta adentro, preparado para dar um sermão nela por

fazer com que perdessem a consulta, acho eu. Ele pensou que

ela tivesse se esquecido. Quando percebemos que nenhum de

nós sabia onde ela estava, começamos a entrar em pânico.

Ligamos para a polícia no mesmo instante. Uma testemunha

disse ter visto uma garota com as características dela entrando

em uma van não identificada, mas ela usava um gorro cinza e um

casaco preto. Não havia maneira de garantir que a pessoa que

ele vira era Lilian. Além dessa única testemunha possível, era

como se ela tivesse evaporado. Mas então… então, alguns dias

depois…

[Assoando o nariz.] Eu era… Eu era próxima de Lilian e de seu

pai, Darren. Eu e ele estávamos nos conhecendo. Por isso eu

estava com ele, na casa dele, quando o detetive o visitou para

informá-lo de que outra garota havia desaparecido. Ele nos disse

que não poderia afirmar, mas que estava bastante certo de que

Lilian e uma outra garota, Carissa, haviam sido levadas pelo

Assassino da Contagem Regressiva.

ELLE

Deve ter sido desolador.

TERRI

Era como se uma pessoa tivesse amarrado uma bomba no seu

peito e entregado o timer pra você: você sabe exatamente quanto

tempo vai demorar pra que tudo exploda. Darren e eu

aparecemos nos jornais, tentamos falar diretamente com o

assassino. Nós… nós imploramos para que ele não a

machucasse. Imploramos pra que ele mudasse de ideia, ainda

que algumas pessoas nos dissessem que ver a nossa dor

poderia fazer parte da diversão para ele. Que escolha nós

tínhamos? Ela morreria de qualquer maneira. Precisávamos

tentar. Quando o sétimo dia chegou, Darren estava perdendo a

cabeça, aterrorizado, sabendo que a qualquer momento a polícia

telefonaria para dizer que haviam encontrado o corpo de Lilian.

Ele acabou precisando ser sedado. Eu atendi o telefone quando

eles a encontraram.

NARRAÇÃO DE ELLE

Um tatuador em St. Paul encontrou o corpo de Lilian Davies

sobre um pedaço sujo de papelão em frente à porta do seu

estúdio sete dias depois de ela ter desaparecido. O detetive

Sykes foi o segundo policial a chegar na cena do crime, mas,

como sempre, não havia nada a ser encontrado. Nenhuma

evidência física, nenhum não identificado. O jovem futuro

de Lilian havia sido sufocado da mesma maneira que o das

outras garotas — com veneno e vinte e uma açoitadas.

ELLE

Compreendo que essa não seja uma conversa fácil para você.

SYKES

Em todas as décadas nesse trabalho, nunca vi o espírito de um

homem deixar seu corpo como aconteceu com Darren Davies

quando soube que sua filha já não estava mais neste mundo. Ao

presenciar isso, fiquei mais determinado do que nunca a

conseguir justiça por ela — por todas elas. Saí de sua casa

acreditando que poderia salvar a próxima. Eu tinha que salvar.

Ela só tinha mais três dias, mas era só uma criança.

NARRAÇÃO DE ELLE

Carissa Jacobs tinha catorze anos. Era uma ginasta talentosa

que adorava andar a cavalo e visitar a vinícola dos avós na

Califórnia durante as férias de inverno. Na verdade, ela voltara

para Minnesota duas semanas antes do dia em que

desaparecera. Durante a semana, Carissa passava as tardes na

casa de sua tia enquanto esperava que seus pais voltassem do

trabalho. Havia mais de trinta minutos desde que Carissa deixara

a escola e iniciara a caminhada de seis quarteirões até a casa de

sua tia quando sua prima perguntou por que ela ainda não havia

chegado. Elas saíram em busca da menina, e, depois de ligar

para seus amigos e para os pais dela, finalmente a reportaram

como desaparecida. Quando a polícia foi notificada, ela

provavelmente estivera desaparecida havia mais de duas horas.

Não consegui entrevistas de nenhum dos familiares ou amigos

de Carissa sobre seu assassinato e respeitarei a privacidade

deles. Como sabem, algo que sempre tento fazer é manter o foco

nas vítimas. Como em todos os casos, as vítimas se estendem

muito além daquelas que foram mortas. Suas famílias, amigos e

comunidades sofreram um mal irreparável. Sei o que é passar

por um trauma, vivê-lo e respirá-lo todos os dias. Sei como é

quando o luto se incorpora à sua pele, corre por suas veias, é

liberado em seu suor. E sei como é quando as pessoas pedem

para que você o reviva, o repita, até que você se sente como se

estivesse sofrendo cada segundo dele outra vez.

Nada reverterá o mal que o causou a essas pessoas. Eu

quero que a justiça seja feita, quero que ele pague pelas vidas

que arruinou, mas não tenho a intenção de ferir ainda mais as

vítimas no caminho. Isso dito, se você está ouvindo e conhecia

Carissa Jacobs, eu adoraria conversar com você —

confidencialmente ou não. Adoraria poder honrar a memória dela

como ela merece.

ELLE

É verdade que não teve a confirmação de que havia uma oitava

vítima até que ela já estivesse desaparecida por quase quatro

dias? Isso deve ter sido confuso. Meus registros indicam que

Katrina Connelly não apareceu em seu arquivo policial até horas

antes de o corpo de Carissa ser encontrado. O que você achou

que havia acontecido? Que o havia quebrado seu padrão?

SYKES

Para ser sincero, as coisas estavam caóticas. A imprensa estava

em polvorosa com o corpo de Lilian sendo encontrado e por

faltarem apenas algumas horas para o horário em que sabíamos

que Carissa morreria, e nós ainda não fazíamos ideia se o

havia ou não levado sua terceira vítima da série. Ela teria

desaparecido no dia em que Lilian foi morta, mas não tínhamos

denúncias novas. Me lembro da centelha de esperança que senti

imaginando que talvez ele tivesse morrido ou sido preso, e assim

não haveria novas garotas desaparecidas. Então recebemos a

ligação. Katrina estava desaparecida havia três dias inteiros

antes que seus pais percebessem o que havia acontecido. Eles

haviam se divorciado recentemente e ela mentira para ambos,

dizendo a um que iria para a casa do outro, para passar o fim de

semana com uma amiga. Coisa de adolescente, você sabe como

é. Ela tinha treze anos, estava furiosa com a separação dos pais,

enfim. Tudo isso. Ela só queria se distrair.

ELLE

A maioria das garotas foi pega enquanto fazia algo rotineiro,

certo? Ou pelo menos algo que o assassino poderia ter

descoberto ouvindo ligações ou as observando em suas casas.

Mas essa situação foi diferente. Foi algo que nem mesmo os pais

dela sabiam que ela estava fazendo.

SYKES

Isso mesmo. O que quer dizer que provavelmente ele a estava

observando, a seguindo, enquanto esperava por uma

oportunidade.

ELLE

Então ele pega Katrina quando ela está esperando pelo ônibus

para ir até a casa de sua amiga, e ambos os pais demoram três

dias para perceber que ela desapareceu?

SYKES

Correto. Eles não estavam mantendo contato naquele momento,

então cada um deduziu que o outro estava com ela. Enquanto

isso, eu abandonei minhas esperanças de que o havia

parado e tentei tudo o que pude para garantir que Katrina não

acabasse sendo morta também — mas, àquela altura, acho que

todos nós sabíamos que era tarde demais.

A todo momento eu sentia que o tempo estava se esgotando, e

também que os dias se arrastavam até o desfecho, que era

inevitável. No treinamento contra Sequestros de Crianças nos

ensinam que, de todas as crianças sequestradas e mortas,

quarenta e quatro por cento são mortas na primeira hora. Quase

três quartos são mortas nas primeiras três horas e noventa e

nove por cento são mortas no primeiro dia. Todos os

assassinatos do faziam parte daquele um por cento dos

casos que desafiavam as estatísticas, mas o intervalo de tempo

ainda era curto. Ele era obstinado. E ainda que parecesse que,

para ele, o envenenamento por ricina fosse uma ciência exata,

ele cometeu erros com Katrina.

 

[DESCRIÇÃO SONORA: Papéis sendo rearranjados, dedos

tamborilando na mesa.]

ELLE

Martín, o que pode me dizer sobre a autópsia de Katrina?

MARTÍN

Embora ela tenha sofrido os efeitos do envenenamento por ricina

além das vinte e uma açoitadas nas costas, havia algumas

diferenças cruciais em sua morte quando comparada às outras

vítimas do . Primeiro, ela não estava morrendo ao ser

açoitada; ela sangrou por muito mais tempo do que as outras

garotas. Segundo, a causa de sua morte não foi falência dos

órgãos devido ao envenenamento. Ela morreu por um trauma na

cabeça que causou uma hemorragia cerebral.

ELLE

O que acha que isso significa?

MARTÍN

Bom, o médico-legista que trabalhou no caso concluiu ter sido

por um ataque de raiva. Basicamente, o assassino ficou furioso

com ela por ter tentado enfrentá-lo — havia lesões de defesa em

seus braços — e a matou por desafiá-lo.

ELLE

Concorda com essa análise?

MARTÍN

Acho que é plausível.

ELLE

Há outras explicações possíveis?

MARTÍN

Sim. Acho que é evidente que ele estava com raiva dela. Esse

tipo de trauma geralmente é uma maneira de homicídio não

calculado, normalmente causado por emoção ou fúria repentinas.

Mas não estou convencido de que foi porque ela o enfrentou. A

autópsia mostrou que seus órgãos estavam falhando quando

ela morreu. É impossível saber com certeza, mas se eu fosse

especular diria que ela tinha meras horas de vida. Mas o veneno

não havia agido tão depressa nela quanto nas outras garotas.

Como mencionei anteriormente, ricina não é como cianeto.

Normalmente demora dias para levar à morte quando é ingerida

em sementes de mamona. Com as outras garotas talvez tenha

funcionado de acordo com o cronograma dele, mas minha

hipótese baseada nos resultados da autópsia é que Katrina

metabolizou o veneno mais lentamente do que as demais. Acho

que ele estava furioso com ela por não morrer quando ele queria

que ela morresse. Era mais importante para ele que ela morresse

quando ele queria, ainda que ela não morresse da forma como

ele queria.

ELLE

Explique o que você quer dizer com “talvez tenha funcionado”.

Todas as vítimas dele foram encontradas mortas no sétimo dia,

então tudo indica que realmente funcionou, exceto no caso de

Katrina.

MARTÍN

Assim é relatado pela polícia e pela imprensa. Mas sempre me

perguntei por que o deu um intervalo de um ano entre os

assassinatos e por que sempre agiu no inverno. Poderia apenas

fazer parte de seu padrão. Mas também pode ser por

conveniência. No inverno, Minnesota é um grande congelador ao

ar livre. Se alguma de suas vítimas sucumbisse às sementes de

mamona antes do sétimo dia, ele poderia mantê-las sem grandes

problemas em um ambiente externo ou em um ambiente sem

aquecimento onde elas seriam preservadas. Seria muito difícil

para o legista determinar a hora da morte, especialmente porque

as vítimas quase sempre eram encontradas horas depois de

serem deixadas em um lugar público, então elas estariam

completamente congeladas, de qualquer maneira.

ELLE

É uma teoria interessante. E responde outra de minhas

perguntas, que é sobre como Katrina poderia ser a única vítima

que não morreu na hora certa. Em meu entendimento, ricina é

relativamente previsível, mas o período que leva à morte tem

muitas variáveis.

MARTÍN

Isso mesmo. Sempre tive dificuldade para acreditar que todas as

outras garotas simplesmente morreram bem no momento certo.

Seria muita sorte para ele, por assim dizer. Acho mais provável

que algumas delas tenham morrido antes, mas ele apenas

esperou até o dia sete para “exibi-las” às pessoas, porque essa

era a parte mais importante pra ele.

NARRAÇÃO DE ELLE

Ao longo das décadas, analistas de comportamento criminal,

detetives, detetives de internet e jornalistas tentaram descobrir o

que os números significam. Por que o era tão obcecado

com eles e por que — se Martín estiver certo — a hora da morte

das vítimas era ainda mais importante do que o método. Esta é

uma anomalia entre os serial-killers até onde sei. Na maioria das

vezes, o ato físico de tortura é o que os motiva. Psicopatas e

assassinos compulsivos podem literalmente passar meses

fazendo planos e então revivendo-os depois.

De acordo com John Douglas, o ex-agente especial do

que fez carreira entrevistando e analisando serial-killers, há uma

diferença entre o modus operandi — a forma como um crime é

cometido — e a assinatura. A assinatura é o que o assassino faz

para se sentir realizado. A forma como mata pode mudar ao

longo do tempo e isso não necessariamente vai impactar a

satisfação dele. Mas todo assassino tem uma assinatura, algo

que eles precisam fazer, ou a morte não vai dar a eles a

satisfação que buscam. Com base no que sabemos, os números

são a assinatura dele. As três garotas, uma a cada três dias; os

sete dias de cativeiro; as vinte e uma açoitadas.

Os números importavam mais do que qualquer outra coisa. E

isso nos diz algo.

Nos diz que respeitá-los era inegociável, que a morte por

envenenamento era preferível, mas não essencial. Se Martín

estiver certo, isso nos diz que mesmo que morressem cedo demais, ainda assim era crucial esperar até o sétimo dia para

revelar seus corpos. Acho que as evidências mostram que o ato

de matar provavelmente não era o que trazia prazer ao e,

sim, a satisfação de fazê-lo dentro do padrão construído por ele.

Isso é importante ao classificá-lo em uma categoria de serial-

killers.

A morte violenta de Katrina prova que a cronologia era

inflexível. No sétimo dia, uma garota tinha que morrer. E ainda

assim os detetives continuariam chegando tarde demais.

No próximo episódio de Justiça Tardia…