Garota, 11
Capítulo 23
1971 a 1978
A primeira mulher que matou foi a mãe. Ela morreu no parto,
gritando ao expelir um corpo que se debatia junto com uma
quantia exacerbada de seu próprio sangue.
A morte dela foi vontade de Deus. Seu pai o lembrava disso
sempre que um de seus colegas de escola zombava dele por não
ter mãe. O senhor havia criado com um propósito, e o último
ato do plano de Deus foi que sua mãe o trouxesse ao mundo.
Quando ele nasceu, o propósito de sua mãe havia sido cumprido
e o senhor a levara de volta para casa. Isso o consolava de certa
forma, saber que ele devia ser especial, já que Deus estava
disposto a sacrificar sua mãe para colocá-lo no mundo.
nunca se sentiu privado de algo por não ter mãe. Os
homens de sua família eram de uma linhagem robusta. Seu pai,
Josiah, era encanador e trabalhava seis dias por semana. Até
onde conseguia se lembrar, ele nunca precisara ir ao médico.
Seus irmãos eram jogadores de futebol e trabalhavam como
ajudantes rurais por meio período quando chegaram à adolescência. Eles jantavam juntos nas noites em que Charles e
Thomas não tinham treino. Iam à missa todo domingo, e Josiah
lia trechos da Bíblia para todos os dias antes de dormir. Não
era uma vida incrível e cheia de acontecimentos, mas a
familiaridade de cada dia o envolvia como um cobertor
aconchegante.
Tudo mudou em uma terça-feira de verão quando tinha
sete anos. Charles e Thomas estavam passando uma semana
fora, no acampamento da igreja, e estava sozinho com o pai.
Eles jogavam xadrez na varanda ao som do canto das cigarras
enquanto a tarde quente e úmida lentamente dava lugar ao
frescor do entardecer. Então o telefone tocou e Josiah entrou
para atender. planejava sua próxima jogada quando um som
alto e brutal veio de dentro da casa.
Ele correu para a cozinha e encontrou o pai no chão. Josiah
segurava o telefone na altura do ouvido e o fio estava enrolado
em seu antebraço. Seu rosto estava molhado de lágrimas.
nunca havia visto o pai chorar antes, e precisou insistir muito
para que ele explicasse o que acontecera.
Na noite anterior, Charles e Thomas haviam saído escondidos
de barco pelo lago Superior e não haviam retornado. Josiah o
colocou na caminhonete e os dois partiram em direção ao
acampamento de verão em Duluth. passou as cinco horas de
viagem calado e atônito. Seu pai revezava entre esbravejar em
negação e orações feitas em um sussurro.
Nada havia mudado quando eles chegaram. O barco ainda
estava desaparecido, perdido no enorme lago que se estendia
além de qualquer porção de água que já vira. Ele se perguntou se esse era o tamanho do oceano. Certamente não
poderia ser maior do que aquilo. Ele varreu o horizonte com os
olhos, como se, de alguma maneira, as outras pessoas apenas
não tivessem conseguido enxergar e seus irmãos fossem estar
ali, acenando em pedido de ajuda ou rindo de um jeito
despreocupado como costumavam fazer, surpresos com a
comoção quando eles só haviam saído para uma aventura.
As horas se arrastavam e mais grupos de busca foram
despachados. Um helicóptero agitava o ar sobre a cabeça de .
— Charles e Thomas vão voltar logo — disse ele ao pai. Seus
irmãos só estavam aprontando. Eles estavam no verão. Eles
provavelmente haviam encontrado algumas garotas e saído com
elas para o que Charles chamava de “brincadeirinhas noturnas”.
Enquanto esperavam, prestou atenção no número de
policiais, veículos, supervisores de acampamento e outras
pessoas que ajudavam na busca, todos aglomerados na margem
do lago. Ele mal conseguia acreditar na quantidade de pessoas
que estavam ali. Ele gostava de números. Não era bom na
escrita e não era um atleta como os irmãos mais velhos, mas aos
seis anos, quando recebeu a primeira atividade de matemática,
sentiu que estava vendo no papel pela primeira vez um idioma
que sempre falara. Os números eram o alicerce do mundo. Todo
ângulo, átomo e célula poderiam ser definidos por uma equação.
Descobrir isso permitira que ele compreendesse um mundo que
normalmente o escapava. Ele tentou calcular as chances de os
garotos retornarem em segurança conforme as horas passavam,
mas havia variáveis demais, incógnitas demais.
Vinte e uma horas. Esse foi o tempo que a polícia levou para
encontrar os corpos de seus irmãos. Eles foram levados pelas
águas até a margem da ilha Manitou, uma das ilhas Apostle na
região costeira de Wisconsin. Uma tempestade os arrastara para
lá, destroçando o barco e seus corpos contra as pedras. foi
proibido de vê-los, o que tornou tudo pior. Ele imaginou os ossos
quebrados dos irmãos, suas peles retorcidas, suas cabeças
esmagadas. Ele visualizou seus últimos momentos, quando eles
sabiam que morreriam. descobriu mais tarde que eles haviam
se afogado, que já estavam mortos antes de seus corpos serem
destruídos, mas as imagens permaneceram.
Na noite em que foram encontrados, o pai de o levou para
casa. Ele não disse nada no carro, não proferiu uma palavra
sequer quando chegaram na casa abafada e vazia. Eles
receberam visitas de hora em hora durante aquela primeira
semana. Vizinhos e amigos da igreja abasteciam a geladeira com
lasanha e outros pratos estranhos. Então veio o funeral e, depois
disso, o silêncio.
Josiah não falou por dias. tentou perguntar coisas a ele.
Tentou fingir cair e se machucar. Fez as coisas que sabia que
seu pai mais odiava: tocou a bateria de Charles no celeiro,
assoviou alto enquanto urinava, bebeu suco de laranja direto da
garrafa. Nada disso fez diferença.
Então ele se lembrou da planta. Ficava no solário de sua mãe,
o santuário especial que o pai construíra para ela quando eles se
mudaram para aquela casa. A folhagem da planta era de um tom
vermelho, vibrante e vistoso. A mãe a plantara usando sementes
da versão maior que crescia selvagem na fazenda. Certa vez, sem contar ao pai, ele levara a planta para a escola para exibi-la.
Quando Josiah descobriu, gritou com até que a veia em sua
mandíbula adquirisse uma cor arroxeada. Ele disse que as
sementes da planta o deixariam doente e que era perigoso
demais levá-la para a escola.
Talvez a planta acordasse seu pai.
a levou para a sala de jantar e a colocou no meio da mesa,
empurrando uma semana de pratos acumulados para liberar
espaço. Ele a deixou lá e subiu para seu quarto quando ouviu
Josiah se aproximando. Ele esperava ouvir os passos furiosos do
pai subindo as escadas a qualquer momento, mas isso nunca
aconteceu.
Quando desceu para o jantar no dia seguinte, seu pai estava
sentado à mesa e bebia seu café sentado bem de frente para a
planta. Era como se ele nem sequer a estivesse vendo.
Uma onda de raiva tomou conta de como se corresse em
suas veias feito lava. Seus irmãos estavam mortos, mas ele
ainda estava ali, e se seu pai nem sequer notava os brotos
coloridos da planta intocável, então que chances ele tinha? Então
ele teve uma ideia: se ele ficasse doente, seu pai teria que cuidar
dele.
Quando Josiah saiu para o trabalho, puxou um dos frutos
da planta e, depois de abri-lo, levou a semente marrom à boca.
Era oleosa, mas não amarga.
pegou sua mochila e foi para a escola.
Na hora do intervalo, o estômago de começou a doer
enquanto ele comia seu sanduíche de pasta de amendoim com geleia. Sua boca e sua garganta queimavam como se ele tivesse
engolido um fósforo aceso. No fim do dia, seu corpo ardia em
febre. Ele voltou para casa aos tropeços e se jogou no sofá
deixando um copo de água morna na mesa de centro.
acordou com uma sensação que nunca sentira antes: a pressão
da mão áspera do pai em sua testa. Josiah o carregou e o levou
para sua própria cama, deitando-o no lado que pertencia à mãe,
embora ele não tenha tido a chance de vê-la descansando ali.
Ele voltou a pegar no sono.
No dia seguinte, o pai não foi para o trabalho e cuidou dele,
pressionando compressas frias sobre a testa do menino e
alimentando-o com caldos mornos. Ele se sentou ao lado da
cama de e leu a Bíblia como fazia toda noite antes de Charles
e Thomas morrerem. Havia um conforto nisso, a voz de seu pai
conduzindo a poesia dos Salmos e a sabedoria dos provérbios.
Aqueles eram os dois livros favoritos dele. Todos os conselhos
dos quais precisaria na vida estavam ali — era o que Josiah
sempre dizia.
revezava entre o sono e o estado de vigília sem se dar
conta. Certa vez ele abriu os olhos e seu pai estava deitado ao
seu lado. Seus olhos estavam fechados e lágrimas corriam por
seu rosto. — Por favor — sussurrava ele. — Por favor, ele não.
Você me prometeu.
Ele se sentia pior a cada vez que acordava. Um médico, amigo
de Josiah, o visitou para examiná-lo, e pensou em contar a
ele, mas seu pai se recusou a sair do quarto e ele não conseguiu
suportar a ideia da fúria que sua confissão causaria.
Mas quando o médico voltou no dia seguinte, nem mesmo
conseguia se mover, seu corpo inteiro era uma massa de
músculos dolorida e atrofiada depois de todos os dias de vômito
e diarreia. Quando viu a expressão sombria no rosto do médico,
a expectativa ingênua de que tudo ficaria bem finalmente foi
substituída por um leve terror. — Posso falar com você a sós? —
sussurrou ele para o médico. O homem olhou para o pai de ,
que hesitou antes de deixar o quarto.
Assim que contou em um cochicho o que havia feito, o
médico o tirou da cama e o carregou para fora da casa. Josiah os
seguia em um interrogatório desesperado enquanto o garoto era
acomodado no banco de trás do carro do médico. Os dois
homens entraram no banco da frente e o médico saiu em
disparada.
O período no hospital passou em flashes. Havia a agulha no
braço de e o bipe das máquinas e os rostos preocupados
pairando sobre ele quando ele abria e fechava seus olhos
pesados. Então, de repente, ele estava acordado e conseguia se
lembrar como era não sentir dor o tempo todo, como era não
sentir que alguém estava virando seu estômago do avesso. Seu
pai estava a seu lado, mas ele não pareceu aliviado quando
abriu os olhos. Havia algo diferente em seu olhar, uma escuridão
que nunca vira até então.
Ele recebeu alta depois de três dias.
Ao chegarem em casa, Josiah não disse nada a ele. se
dirigiu à cozinha, seu corpo ainda débil e fraco depois dos dias
de doença e pouco movimento. Ele se serviu de um copo de
água e se sentou à mesa. A planta ainda estava lá, no centro do móvel, como se lá sempre tivesse sido seu lugar. Ele bebericou a
água enquanto fitava os estranhos e coloridos frutos. Quando
seu pai entrou na cozinha, não tirou os olhos da planta. Não
queria ver a expressão de raiva e decepção que, agora ele sabia,
poderiam nunca mais desaparecer.
— Isso é o que quer? — perguntou Josiah, finalmente.
continuou a encarar a planta. A imagem do rosto do pai,
retorcido em angústia quando os policiais finalmente bateram na
porta do quarto de hotel onde eles estavam em Duluth, não
deixava sua mente.
— Responda, garoto. Você quer jogar no lixo a vida que Deus
te deu? Você quer me torturar? Você quer ser o centro das
atenções? Quer que eu e o médico fiquemos rodeando a sua
cama? — levantou o olhar a tempo de ver um lampejo nos
olhos do pai. — Então vá em frente. Coma mais um pouco. —
Ele empurrou a planta, que deslizou para a outra extremidade da
mesa. saiu do caminho e a planta foi ao chão. O vaso
explodiu no piso cinzento, espalhando pelo chão terra e frutos
vermelhos espinhentos que se assemelhavam a coágulos de
sangue.
— Seu merdinha mimado — atacou o pai. Ele avançou até o
outro lado da mesa e segurou pela nuca, arrastando-o da
cozinha e levando-o para o quintal. A tarde de verão estava
abafada e repleta de mosquitos que se apinharam em volta da
boca e dos olhos de , que chorava. Seu pai nunca o tocara
assim antes, segurando seu pescoço como se ele fosse um cão
que se comportou mal. Quase erguendo-o pelo pescoço, Josiah
arrastava para os fundos do velho galpão, onde havia um capim alto em que ele e os primos costumavam brincar de polícia
e ladrão. O assento de um trator muito antigo separava as
lâminas de grama que chegavam à altura da cintura, uma relíquia
da época em que a casa pertencia ao avô de seu pai.
adorava brincar ali, e agora seu pai posicionara suas mãos no
assento e dissera a ele para ficar imóvel. Josiah desceu as
calças do menino, e sentiu o ar gelado em sua pele exposta
embora lá fora fizesse quase quarenta graus.
— “Ensine uma criança a seguir o caminho certo e, quando
adulto, ela não se desviará dele.”— A voz de Josiah ressoava
sobre o canto das cigarras. — “Aquele que poupa a vara
aborrece a seu filho.” Eu sabia que era maleável demais com
vocês. Primeiro seus irmãos pegam aquele barco, e agora
você… — Ele não terminou.
O primeiro golpe atingiu com tanta força que ele teve
certeza de que sua pele se rompera. Ele endireitou os joelhos,
tentando se manter de pé.
— Meu pai me batia aqui. Eu jurei que jamais seria como ele,
mas talvez nisso ele tenha acertado.
Ele disparou um segundo golpe com o cinto, seguido de outro
e de outro. Josiah arfava entre as cintadas enquanto as palavras
ferviam em sua boca como gordura em uma panela quente.
— É… culpa… sua… — Uma palavra para cada golpe, que se
repetia de novo e de novo.
O cinto se chocava com a pele nua das pernas de ,
deixando suas coxas e as batatas de suas pernas em chamas.
Ele tentou contar os segundos entre elas, mas os números se
embaralhavam. Isso o deixou em pânico, fez com que sua respiração se tornasse entrecortada e cerrada enquanto ele se
segurava na parte de metal do encosto do assento. Os números
eram a única coisa que importava para ele, a única coisa que
fazia sentido. Se ele não pudesse pensar em números, jamais
conseguiria escapar daquilo.
Em vez de contar os segundos, ele tentou contar as cintadas,
tentando lembrar a si mesmo o significado dos números, o que
eles representavam. Sete, o número de oceanos, o número de
continentes, o número de anões da Branca de Neve, o número
da plenitude e da perfeição. Oito, o maior número par de apenas
um dígito, divisível por dois e por quatro, o menor cubo de
números primos, o número dos recomeços.
Sua mente se agitava, levando-o para longe.
Treze, azar, o sexto número primo, um número da sequência
de Fibonacci, o número da depravação e da pecaminosidade.
Dezessete, o único número primo que é a soma de quatro
números primos consecutivos, o número da vitória plena.
Vinte e um, um número triangular, a soma dos seis primeiros
números naturais, o número da rebeldia e do pecado.
A surra finalmente cessou.
ficou imóvel pelo que pareceu ser horas. O metal do
assento se enterrava nas juntas sobre os nós de seus dedos e
seus joelhos tremiam. Por fim, Josiah pousou a mão sobre o
ombro dele. O menino estremeceu e conteve um grito ao sentir
uma nova onda de dor, embora tenha se mantido em completo
silêncio até então.
— “Golpes que ferem exterminam o mal.” — Era um verso da
Bíblia que Josiah lera alguns dias atrás, um dos provérbios. Quando olhou para o pai, seus olhos e seu rosto estavam
vermelhos e lágrimas corriam por suas bochechas. A fúria de
momentos antes foi substituída por pânico. O homem virava o
corpo do filho, fitando de olhos arregalados os ferimentos que ele
deixara. — Me desculpe, filho. Me desculpe. Me desculpe.
se desvencilhou do pai. Por alguma razão, a vergonha de
seu pai era ainda mais insuportável do que a surra que levara.
Talvez isso fosse parte do que o tornaria limpo, puro e santo.
Talvez agora ele pudesse ser perdoado por mentir para seu pai,
por ter causado mais sofrimento quando ele já havia sofrido tanto
na vida. Esse era um novo começo. Ele seria tudo o que seu pai
desejava dos filhos. Ele seria o melhor em tudo o que fizesse.
Ele seria suficiente por três filhos.