Garota, 11

Amy Suiter Clarke · Capítulo 38 de 50

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Garota, 11

Capítulo 36

 

Elle

19 de janeiro de 2020

 

Assim que terminou de gravar o episódio, ela enviou um e-mail

para Tina com o link do arquivo de áudio. No assunto havia

apenas uma frase: para publicação imediata. Não havia

necessidade de edição ou design de som além do básico, mas

sua produtora fizera o upload dos episódios nos últimos dois

anos, por isso seria definitivamente mais rápido se fosse feito por

suas mãos experientes.

Depois disso, Elle começou a fazer o download de todos os e-

mails classificados com a tag vermelha e salvou algumas

capturas de tela dos tweets e mensagens mais graves. Aquela

que ela abrira havia alguns dias, Cuidado com o que deseja,

saltou aos olhos mais uma vez. Era sinistra em sua simplicidade,

mas algo mais a incomodava naquilo — ela não sabia dizer o

quê. Ela arrastou tudo para uma pasta intitulada e

enviou um e-mail para Ayaan com o link, copiando Tina, para que

ela soubesse que algo estava sendo feito. Se houvesse alguma

chance de o assassino ter sido idiota o suficiente para entrar em contato com ela, os analistas de tecnologia forense talvez

conseguissem rastreá-lo.

Era pouco mais de meio-dia. Elle se levantou e se virou para a

Parede do Luto, encarando-a. Ela tinha adicionado fotos de Kerry

ao lado das de Beverly havia apenas algumas semanas. Ele

sorria em uma foto da época em que era calouro na faculdade.

Kerry era jovem e teria uma vida promissora, mas isso nunca se

concretizou. Alguém tivera coragem de tirar proveito da história

dessas vítimas, dessas vidas jovens que foram ceifadas, para

atingi-la, para obter um senso doentio de notoriedade para si

mesmo. Alguém matara Amanda e levara Natalie, e essa pessoa

soubera como fazer isso por causa dela.

Elle pegou o celular no bolso. Martín havia enviado uma

mensagem enquanto ela conversava com Ayaan para dizer que

fora ao necrotério a fim de acompanhar a autópsia de Amanda.

Essa era a única mensagem. Depois de responder, ela enviou

uma mensagem breve a Sash.

. .

.

.

Quando pressionou o botão para enviar, ouviu uma notificação

vinda do computador. Era uma chamada de Tina.

— Então finalmente está pronta para contar ao mundo — disse

Tina, assim que Elle aceitou a chamada.

Elle estudou o rosto da amiga do outro lado da tela. Tina

estava séria, mas não parecia chateada. — Como ouviu tão

rápido?

Tina gesticulou com a mão. — Ah, por favor, vivo de ler os e-

mails que você me manda. — Ela sorriu para Elle através da

câmera. — Está se sentindo bem? Por abrir o jogo sobre quem

você é, quero dizer.

— Não muito. Estou com vontade de vomitar.

— Por quê? O monólogo ficou animal. Adicionei uma trilha

sonora fantástica.

Elle balançou a cabeça sem conseguir conter uma risada

ansiosa, mas voltou a ficar séria no instante seguinte. — Ayaan

acha que talvez ele tenha começado a matar depois de ter

ouvido o podcast. Como… como se meus episódios o tivessem

treinado para ser como o .

O rosto de Tina se endureceu. — Isso não faz o menor sentido

e você sabe disso. Se alguém quisesse aprender a cometer

crimes como o , bastaria acessar o Reddit ou a Wikipédia.

Você não vai se culpar por isso, Elle. Desde o começo você não

fez nada além de tentar resolver esse caso.

— E olha só no que deu. Estou fazendo tudo errado. As

pessoas que se aproximam de mim acabam morrendo ou

desaparecendo. Tem certeza de que não quer desligar?

Tina revirou os olhos em resposta. — Beleza, mas falando

sério. Liguei para confirmar antes de dar enter. Quer mesmo que

eu publique esse monólogo? Pensou sobre isso? Porque estou

vendo só de olhar para você que provavelmente não se lembra

quando foi a última vez em que dormiu, e você teve uma noite

terrível ontem.

Elle encarou a tela. Por alguma razão, as palavras de Tina a

deixaram com vontade de desabar no chão e chorar. Em vez disso, ela apenas acenou positivamente com a cabeça. — Sim.

Publique.

— Você é quem manda. — Ainda na chamada, Tina clicou o

mouse algumas vezes. Elle assistia pelo reflexo de seus óculos

enquanto ela mudava de uma janela para outra. — Feito.

Elle soltou um longo suspiro. — Tudo bem. Ótimo. — Caralho.

Ela realmente fizera isso. Talvez ela tivesse acabado de destruir

a própria vida, mas naquele exato momento ela se sentia em

êxtase.

— Parabéns, Nora. — Tina se inclinou para mais perto da

câmera com um olhar travesso típico dela. — Falando nisso,

tenho novidades para você. Mas é segredo. Tenho um amigo que

trabalha no Departamento de Apreensão Criminal de Minnesota,

e, aparentemente, eles vão divulgar amanhã, em uma coletiva de

imprensa, que receberam os resultados do teste de feito no

homem encontrado no chalé.

— O quê? Eles te disseram quem ele é?

— Bob Jensen: aquele do nome falso, Stanley. O cara que deu

no pé com a amante do escritório.

Elle se recostou na cadeira. — Eles… eles acham que ele era

o ?

Tina negou com um gesto de cabeça. — Não poderia ser. Ele

era de vendas na empresa dele. Morou fora durante todo o

ano de 1997 e não voltou para Minnesota até o fim de 1998. Não

tem chances de ele ser o .

— Isso significa que, se os boatos do escritório sobre o caso

dele e da colega eram verdadeiros, a mulher provavelmente era

casada com o Assassino da Contagem Regressiva. Você se lembra de como disseram que Jensen estava indo pra cama com

uma mulher casada?

— Sim, eu me lembro.

— Caralho. — Em qualquer outro momento, ela teria se

sentado no escritório e gravado espontaneamente um episódio

não programado para o podcast. Esses eram os melhores, os

que receberam as melhores avaliações nas temporadas

anteriores, quando ela encontrava uma nova evidência que

mudava tudo em um caso. Mas ela se sentia enjoada com a ideia

de liberar um novo episódio naquele momento. Ela precisava

manter o foco em encontrar Natalie.

Tina encarou a câmera. — E então, ainda está ajudando

naquela investigação?

— Não, Ayaan praticamente me expulsou da delegacia. — Elle

resumiu os seis dias anteriores, incluindo todos os detalhes que

descobrira sobre Amanda e a razão pela qual ela fora expulsa do

caso por Ayaan. Ela também falou sobre a conversa com

Eduardo e sobre a possibilidade de o assassino ter trabalhado na

Universidade Mitchell.

Quando Elle terminou, Tina respondeu com um assovio. —

Bem, o que estamos esperando? Já verificou os registros dos

funcionários deles?

— Eu tentei ontem à noite, mas o site deles é uma bagunça.

Com um riso sugestivo, Tina voltou os olhos para o monitor.

Algo surgiu na tela e no momento seguinte Elle estava vendo a

área de trabalho dela em seu próprio computador. Tina

compartilhou sua tela com Elle enquanto acessava o site da

Universidade Mitchell e navegava até a seção de funcionários. Como Elle havia visto na noite anterior, havia centenas de links

para diferentes perfis e era impossível saber se a página sequer

estava atualizada. Uma intimação solicitando os registros da

universidade resultaria em melhores informações para a polícia,

mas isso poderia levar semanas.

— O que você sabe sobre a pessoa que procura? — perguntou

Tina.

Elle reproduziu mentalmente a conversa com Eduardo. — Só

que ele é provavelmente um homem branco de meia-idade.

Tina riu ironicamente — Ainda bem que isso é difícil de

encontrar na academia.

Apesar de tudo o que acontecera naquele dia, Elle sorriu. —

Nem me fale. Ah, sei também que ele tinha uma chave para o

prédio de física. Prédio J. Mas não sei ao certo se ele é

estudante ou zelador ou professor ou qualquer outra coisa. A

testemunha nos disse que só era permitido o acesso de

funcionários antes das dez da noite, e aparentemente o homem

abordou a testemunha por volta da uma da manhã.

— Então podemos descartar pelo menos os estudantes —

disse Tina.

Elle assentiu. — Em teoria, sim. A menos que um estudante

consiga o passe de acesso de outra pessoa.

— Mas se formos analisar todos os cenários hipotéticos, pode

ser literalmente qualquer um. Somente funcionários que

trabalham naquele prédio podem ter acesso a ele durante a noite

ou qualquer funcionário da universidade pode fazer isso?

— Não sei.

Elle via o rosto focado de Tina no pequeno quadrado de vídeo

ao lado da tela compartilhada. — Esta é a página das disciplinas

de matemática e física.

— Cheguei nisso ontem à noite, mas foi aí que empaquei. O

nome do professor responsável está informado ao lado de cada

disciplina, mas não consegui encontrar um link com informações

de todo o corpo docente e não tive energia para ver dezenas de

disciplinas, um por um.

— Hm, deve haver algo aqui… — Tina digitou algumas coisas

e deu mais alguns cliques.

— Ei, o que é aquilo? — Elle se sentou na beirada da cadeira.

— Ali, onde diz “conheça nossa equipe?”— Havia um link perdido

em um bloco de texto na página principal do curso de física.

Tina clicou no link e se recostou na cadeira com um sorriso de

vitória no rosto. Na tela surgiu uma página com fotos, nomes e

perfis de cerca de trinta homens e mulheres.

Elle leu o título da página em voz alta: — Corpo Docente dos

Cursos de Física e Matemática. Bom, você demorou longos dois

segundos para encontrar isso.

— Você teria levado dois segundos também se andasse

dormindo.

— Shhh — respondeu Elle, estudando a lista de nomes. Pelo

menos dois terços dessas pessoas se encaixavam na descrição

dada por Eduardo. Tina rolou a tela e um novo rosto apareceu.

— A menina que viu o homem conversando com a Amanda

não disse que ele era calvo? Tem, tipo, uns dez caras calvos

aqui.

— Espere… — sussurrou Elle.

Tina parou de movimentar a barra de rolagem. — Achou algo?

Elle apontou para a tela. — Já vi esse cara. O terceiro de baixo

para cima, com uma camisa de colarinho branco. Dr. Stevens.

Estive na casa dele na semana passada. Ele é o homem com

quem Luisa Toca estava saindo, segundo a mãe dela.

— Luisa Toca? A ex-mulher de Leo?

— Sim — disse Elle, encarando a foto. O homem tinha a barba

feita e não estava usando boné como no dia em que ela o

visitara, mas ela o reconheceu mesmo assim. — Ele me disse

que era vizinho da mãe de Luisa e que flertou com a filha uma

vez. Deduzi que a mãe dela tinha se confundido. A explicação

dele bateu.

— Hm, que esquisito. Mas você sabe, Minneapolis é a típica

pequena grande cidade. E há vários homens aqui que se

encaixam na descrição.

— É verdade. — Mesmo assim, Elle abriu o retrato falado no

celular e posicionou o aparelho ao lado do monitor, segurando-o

na altura da foto do homem. Ela balançou a cabeça,

desapontada. — Ele não tem nada a ver com o retrato falado.

Mas o cara três fotos acima tem. Ao menos um pouco. Dominic

Jackman.

— Massa. Por que não vai até a casa de Stevens novamente

para checar se ele tem um álibi? Vou continuar investigando os

outros carequinhas.