Garota, 11
Capítulo 28
Podcast Justiça Tardia
16 de janeiro de 2020
Transcrição: Sexto episódio da quinta temporada
NARRAÇÃO DE ELLE
Vinte e um.
Sete.
Três.
Esses são os números que ocupam minha mente a todo
momento, todos os dias. Eu os misturo, os analiso
separadamente e depois os junto outra vez — dividindo,
multiplicando, somando, subtraindo. Eles se repetem de novo e
de novo nas séries do Assassino da Contagem Regressiva,
tantas e tantas vezes que é evidente quando isso não acontece.
Os assassinatos do de 1996 não se encaixam no padrão
estabelecido por ele em 1997, mas estou certa de que podem ser
atribuídos a ele apesar disso. Portanto o fato de serem diferentes
deve significar alguma coisa. Matar não está em nossa natureza,
não importa o que possam dizer. Mesmo aqueles que parecem
ter nascido com o desejo de ceifar vidas alheias precisam
desenvolver a habilidade de matar. E eles cometem erros —
algumas vezes ao longo de suas carreiras, algumas vezes
apenas no início.
Nunca fez sentido que o tenha começado com uma
vítima de vinte anos quando sabemos que ele tem uma obsessão
pelo número vinte e um. Nos últimos dois meses, eu e Tina,
minha produtora, temos investigado todos os registros de
homicídio que conseguimos encontrar de pessoas desaparecidas
na região, na esperança de encontrar algo que possa ter passado despercebido. Na esperança de encontrar o início da
contagem regressiva.
[DESCRIÇÃO SONORA: Um telefone toca.]
SYKES
Alô?
ELLE
Detetive Sykes, pediu para que eu ligasse para você?
SYKES
Elle, acho que conseguiu. Eu… eu acho que é realmente ele.
[MÚSICA TEMA + INTRODUÇÃO]
NARRAÇÃO DE ELLE
Algumas pessoas me perguntam por que faço esse podcast. Elas
me acusam de agir como se eu fosse capaz de algo que a polícia
não é. Mas meu objetivo nunca foi substituir a polícia com o
Justiça Tardia. Meu objetivo sempre foi chamar atenção para
histórias que caíram no esquecimento, para trazer o foco para
novos recursos e ideias em investigações que há muito tempo
foram arquivadas. Há algumas semanas, tomei conhecimento de
um caso exatamente como esse por meio de uma ouvinte. Antiga
moradora de Eden Prairie, Christina Presley vive hoje em dia na
área rural da Dakota do Norte. Ela gentilmente concordou em me
encontrar na metade do caminho, em uma pequena parada de
caminhões na beira da rodovia logo na saída para Fargo. Peço
desculpas caso ouçam mais ruídos de fundo do que o normal.
Fizemos o possível para removê-los, mas havia um jogo naquele
dia, então provavelmente ouvirão comemoração ao fundo em
certos momentos. Skol, Vikings.
Christina é uma mulher branca na casa dos sessenta anos. Ela
passou boa parte da vida adulta como dona de casa, cuidando
dos quatro filhos. Hoje ela tem um emprego de meio período na
biblioteca pública da cidade. Ela é uma mulher de rosto gentil,
mas há marcas de expressão profundas ao redor da boca que se
tornam visíveis enquanto ela me conta sua história.
Conversamos por cerca de duas horas e, apesar de tudo o que
ela relatou, em nenhum momento a vi chorar. O luto pode ser
como uma dor crônica — tão pungente no começo, ele se torna
parte de você até que não consegue mais se lembrar de como é a vida sem ele. Quando a dor é constante por anos, derramar
lágrimas por ela parece exagero.
[DESCRIÇÃO SONORA: Apito distante do juiz; conversa
moderada ao fundo.]
ELLE
Obrigada por concordar em me encontrar aqui. Como disse ao
telefone, meu contato na polícia, o detetive Sykes, conseguiu
acesso ao arquivo do caso. Mas antes de entrarmos nisso, por
favor, pode falar um pouco sobre Kerry?
CHRISTINA
Claro. Kerry estava no último ano em 1996. Ele estudava física.
Era o início do semestre de primavera, faltavam apenas quatro
meses para a formatura. Todo filho é motivo de orgulho para os
pais, mas sabíamos que Kerry tinha algo especial. Todos os
professores pareciam concordar, e ele estava recebendo
propostas de programas de doutorado do país inteiro. Mas
então… apenas algumas semanas depois de retornar ao
campus, ele desapareceu.
ELLE
Quando ficou sabendo?
CHRISTINA
Demorou alguns dias. Ninguém tinha celular na época, e Kerry
normalmente telefonava apenas uma ou duas vezes por semana.
O primeiro indício de que algo estava errado foi uma ligação de
um dos rapazes que morava com ele. Nenhum deles o tinha
visto, então queriam saber se ele tinha vindo nos visitar. É claro
que ficamos imediatamente aflitos. Não era típico dele
desaparecer sem dizer nada. Liguei para a namorada e perguntei
se ele estava com ela, mas ela disse que eles tinham terminado
quatro dias antes. Eles eram muito próximos e eu sabia que
Kerry estava fazendo planos para se casar, então isso me deixou
ainda mais preocupada. Meu marido e eu imaginamos…
imaginamos que talvez ele tivesse ido a algum lugar para
espairecer, talvez tivesse feito algo irresponsável como pegar um
avião para passar uns dias em Las Vegas. Mas isso ainda não
explicava por que ele não estava falando conosco.
ELLE
[Sobrepondo a voz a sons de comemoração ao fundo.] Quando
ele foi dado como desaparecido?
CHRISTINA
Nunca fizemos isso oficialmente. Fomos à polícia, é claro, mas
eles nos disseram que Kerry era uma vítima de baixo risco e que
ele provavelmente tinha apenas tirado alguns dias para si
mesmo. Havia o estresse do último ano, do término de um
relacionamento, sabe como é. E então… então eles nos ligaram
alguns dias depois para dizer que haviam encontrado o corpo.
NARRAÇÃO DE ELLE
Kerry Presley foi encontrado parcialmente coberto por um monte
de neve na margem do rio Mississippi a poucos quilômetros de
distância da casa alugada onde vivia com quatro estudantes.
Inicialmente, a polícia acreditou ter sido um suicídio. Havia uma
corda em seu pescoço que estava amarrada a uma árvore atrás
dele, e seu corpo estava posicionado como se ele tivesse se
atirado para a frente, usando o próprio peso para se enforcar.
ELLE
Pode nos explicar os resultados da autópsia, Martín?
MARTÍN
Certamente. Primeiro, gostaria de fazer um esclarecimento.
Como médico-legista, é minha responsabilidade estabelecer
duas coisas em uma autópsia: a causa da morte e a maneira
como ela aconteceu. Basicamente o que matou o indivíduo e
como ele morreu, seja por homicídio, suicídio, causas naturais
etc. Como disse, a cena foi planejada para fazer parecer que
Kerry havia tirado a própria vida. A forma como ele morreu fora
classificada inicialmente como suicídio, mas depois do parecer
do médico-legista as coisas se tornaram mais complexas.
ELLE
Para os ouvintes que não estão familiarizados com a área,
quando fala sobre o médico-legista ter dado um parecer, quer
dizer que ele realizou uma autópsia, correto?
MARTÍN
Correto. Sem entrar em detalhes sórdidos, o médico-legista
confirmou que o osso hioide de Kerry havia sido fraturado, um
sinal clássico de estrangulamento. No entanto, não havia sinal de
que uma corda, ou item semelhante, tivesse sido usada para
causar sua morte. As marcas comumente encontradas no
pescoço de vítimas de enforcamento — hematomas, hemorragia
— não estavam lá. Na verdade, o relatório de autópsia
demonstrou que, com base na ausência de abrasões na pele, era
altamente provável que a corda tivesse sido colocada em seu
pescoço muito tempo depois de sua morte.
ELLE
Então foi um suicídio encenado.
MARTÍN
Correto. Pelo menos é o que me parece. No entanto, quando o
médico-legista examinou o estômago da vítima, encontrou
manchas vermelho-escuras e marrons pela parede do órgão.
ELLE
O que isso significa?
MARTÍN
Isso acontece quando há queda na temperatura do corpo,
quando o sangue se redireciona para os órgãos vitais na
tentativa de salvá-los. Apesar das lesões por estrangulamento,
Kerry não morreu por asfixia. A causa de morte oficial foi
hipotermia, e, com base em minha análise dos resultados da
autópsia, eu concordo. O que nos leva à forma como ele morreu.
A investigação determinou que o suicídio foi encenado, o que
automaticamente faz com que a maioria das pessoas deduza que
ele foi assassinado. Mas o médico-legista responsável pelo caso
não foi capaz de declarar se foi um homicídio ou um acidente que
mais tarde foi encoberto na tentativa de fazer parecer que Kerry
tirara a própria vida. A hipotermia é um método muito raro de
homicídio, por isso é compreensível que o médico-legista tenha
se mostrado relutante em concluir isso, apesar de ter sido
pressionado pela família. Mas fazia sentido que eles quisessem
que a morte de Kerry fosse declarada como homicídio, visto que
isso obrigaria a polícia a investigá-la com mais seriedade.
NARRAÇÃO DE ELLE
Infelizmente, a forma como Kerry morreu foi listada como
“indeterminada” em seu atestado de óbito, e o que a família temia
se tornou realidade: sem pistas reais sobre os responsáveis pelo
suicídio encenado e sem evidências de atividades criminosas, a
polícia rapidamente voltou as atenções para casos mais
urgentes. E a família Presley ficou sem respostas por mais de
vinte anos.
ELLE
Obrigada por compartilhar a história do seu filho comigo. Sinto
muito por tudo o que passaram. A falta de respostas, a morte do
seu filho caindo no esquecimento. É extremamente doloroso.
CHRISTINA
Sim, é. Ninguém parece se importar com a razão ou a forma
como ele congelou até a morte, ou com a pessoa responsável
por fazer parecer que ele se matara. Nunca fez sentido para mim.
Como poderiam simplesmente não se importar? De qualquer
forma, quando estava ouvindo seu podcast, você disse algo
sobre tentar encontrar a primeira vítima do . Você queria
saber sobre mortes não explicadas ou não solucionadas na
época da morte de Beverly Anderson, por isso entrei em contato
com você sobre Kerry. Imaginei que não houvesse relação, mas,
não sei… Precisava que alguém me ouvisse, entende?
ELLE
Entendo. E está certa, parece não haver relação. Nada na morte
de Kerry se parece com um assassinato do . Mas seu e-mail
chamou minha atenção. Em grande parte, isso aconteceu porque
você soa como muitas das outras mães com quem eu converso
em minhas investigações. Mulheres que esperaram anos,
décadas, por respostas que nunca vieram. Então nós
investigamos. E, sra. Presley, acreditamos que pode ter razão.
CHRISTINA
[Inaudível.]
ELLE
Por favor, fique à vontade.
CHRISTINA
Você… você tem certeza?
ELLE
O detetive Sykes conseguiu uma cópia do arquivo e nós o
estudamos juntos. Com base nos depoimentos dados por você e
pelos amigos de Kerry, aparentemente ele desapareceu no dia
primeiro de fevereiro de 1996. Três dias antes da primeira vítima
oficial do , Beverly Anderson.
CHRISTINA
Meu deus. Eu… Você sabe algo mais?
ELLE
Sim. Há várias testemunhas que percorreram o mesmo caminho
naquela parte do rio que disseram não ter visto Kerry lá no dia
anterior à data em que seu corpo foi descoberto. O médico-
legista não foi capaz de determinar a hora da morte porque seu
corpo estava congelado, mas as substâncias em seu estômago
estavam apenas parcialmente digeridas e pareciam conter
abacaxi e alguma substância suína. Segundo a namorada de
Kerry, eles comeram uma pizza havaiana na última vez em que
se viram, na noite em que terminaram. Sendo assim, ele teria
sido morto horas depois disso.
CHRISTINA
Então está dizendo que ele foi morto na noite em que
desapareceu e… e mantido em algum lugar?
ELLE
Sinto muito. Sinto muito por ter que informá-la disso. Mas posso
prometer uma coisa, sra. Presley. Se seu filho realmente foi
morto pelo , acabo de ficar um passo mais perto de
encontrá-lo. Mas não importa o que aconteça, farei tudo o que
estiver ao meu alcance para obter justiça por seu filho.
NARRAÇÃO DE ELLE
Kerry tinha vinte e um anos. Como as outras duas vítimas de
1996, ele era um estudante universitário da região de
Minneapolis. Embora tenha morrido de uma maneira diferente
das garotas, outros aspectos se encaixam no padrão que
conhecemos. Ele desapareceu três dias antes de Beverly. Seu
corpo foi encontrado sete dias depois do desaparecimento. Ele
nunca foi listado como uma possível vítima por ter sido morto de
forma muito diferente, e, é claro, por ser um homem, enquanto as
demais vítimas do foram mulheres. No entanto, ao olhar
nos olhos de Christina Presley, não pude deixar de notar a ironia
das circunstâncias. Mesmo quando sua vítima foi um homem, o
conseguiu encontrar uma maneira de destruir a vida de
uma mulher.
Tudo nos assassinatos de 1996 parece indicar que o
ainda estava descobrindo seu estilo, e para mim faz muito
sentido que sua primeira vítima tenha sido tão diferente. Isso
explica a razão pela qual ele mudou. Ele obviamente não tinha a
intenção de matar Kerry, pelo menos não como o fez. O
assassinato foi desleixado, não foi planejado — nada como o
envenenamento calculado que vimos nos casos das garotas.
Talvez ele tenha estrangulado Kerry em um ímpeto de emoção
e, acreditando tê-lo matado, entrou em pânico e transportou o
corpo para onde quer que tenha mantido os demais corpos mais
tarde. Caso tenha escondido o corpo de Kerry em um galpão ou
outro tipo de estrutura externa e o deixado lá por dias, o jamais saberia que ele, na verdade, morrera de hipotermia. Torço
apenas para que Kerry não tenha recobrado a consciência antes
de isso acontecer.
Acredito que o fato de a primeira vítima ser um homem
também nos diga algo sobre o perfil. Nos diz que o instinto
homicida inicial do provavelmente não tem origens
misóginas, mas que, por não encontrar satisfação assassinando
um jovem rapaz, ele mudou para mulheres e jovens garotas
depois. Se Kerry tiver sido a primeira vítima do , e eu
acredito que seja o caso, isso significa que os números sempre
foram importantes para ele. As evidências médicas provam que
Kerry foi morto horas depois de desaparecer, mas ele só foi
encontrado sete dias mais tarde.
Mesmo que o não tenha encontrado prazer no
assassinato de um homem, ele encontrou uma assinatura, —
esperando até o sétimo dia para permitir que seu corpo fosse
descoberto. Não consigo deixar de pensar no trecho da Bíblia
que Nora viu no chalé do : “Trabalharás por seis dias e
descansarás no sétimo.” Consigo pensar em muitos significados
por trás disso, mas eis o que eu penso. Para mim, apresentar um
corpo no sétimo dia e se certificar de que ele seja encontrado é o
que faz com que o se sinta realizado. Assim ele encontra
paz.
Mas fazer com que a morte de Kerry se parecesse com um
suicídio também me diz algo. Me diz que o não quis o
crédito por esse assassinato, e a única razão pela qual um
assassino investiria tanto tempo encenando um suicídio e
arriscando ser descoberto é se ele tivesse algum tipo de relacionamento ou conexão pública com a vítima. E isso é o que
vou descobrir.
No próximo episódio de Justiça Tardia…