Garota, 11
Capítulo 7
Elle
10 de janeiro de 2020
Assim que ele parou o carro no semáforo ela tentara fugir para
longe dele — abriu a porta e saiu cambaleante para a tarde
gelada. Fora burrice entrar em seu carro, ainda que ele tenha dito
ser amigo de seus pais. Burrice, burrice, burrice. O medo fez com
que suas pernas ficassem pesadas e dormentes e seus passos
eram incertos na rua congelante. Ela correu e correu, mas não
chegou a lugar nenhum.
Uma luva grossa que tinha gosto de gasolina tapou sua boca.
Ela o mordeu, mas ele a ergueu do chão e a jogou no banco de
trás. Ele entrou no carro e trancou as portas.
— Pronto. Agora não está se sentindo boba? — perguntou ele.
Ela não estava. Emotiva, triste, furiosa, ansiosa, sim. Mas não
boba.
Ele voltou a dirigir e ela olhava pela janela, assistindo as
árvores mortas e escuras passarem pelo carro como borrões.
Quando eles passaram pela casa dela, ela sentiu seu coração se
apertando como um punho.
— Passou minha casa, senhor.
Não houve resposta.
— Espera! Você passou minha casa! — Ela levou os pés à
parte traseira do banco do motorista. — Você. Passou. Minha.
Casa. — Cada palavra seguida de um violento chute.
Ele se virou. Toda a preocupação e gentileza que antes
estiveram em seu rosto quando ele a pegou haviam derretido
feito uma vela.
— Cala essa porra de boca.
Quando Elle acordou, seu corpo doía — seus músculos
estavam doloridos com a tensão dos pesadelos. Ela rolou para o
lado buscando o calor almiscarado do corpo de Martín pela
manhã, mas ele aparentemente dormira no sofá. Ela pousou sua
mão sobre os lençóis frios onde ele deveria ter dormido,
detestando sua ausência. Eles frequentemente iam dormir em
horários diferentes, mas costumavam acordar juntos e passar os
primeiros momentos da manhã aconchegados nos braços um do
outro.
Ela se perguntou quem estaria sentindo falta de Leo hoje, se
haveria uma mulher desejando o conforto de um abraço que
jamais voltaria a sentir. Uma onda de tristeza a atingiu como uma
faca afiada quando ela pensou no corpo dele estirado no chão.
Desde que começara o podcast, centenas de pessoas haviam
entrado em contato com ela com informações e teorias sobre os
casos que ela investigava. Até onde ela sabia, ninguém nunca
havia morrido por causa do podcast. Ela não havia puxado o
gatilho, mas se Leo tivesse sido morto por causa da informação que estava prestes a compartilhar com ela, ela não conseguia
evitar o sentimento de culpa.
Mas não havia nada que ela pudesse fazer para mudar isso. A
melhor coisa pela qual ela poderia esperar era encontrar alguém
que conhecesse Leo bem o suficiente para ter uma ideia de
quem era a pessoa da qual ele suspeitava.
Elle jogou os cobertores para o lado e vestiu uma calça de
moletom e uma blusa de moletom de Martín. Depois de prender o
cabelo em um rabo de cavalo e lavar o rosto com água gelada,
ela desceu as escadas em busca de café, já sentindo o aroma
que indicava que ele estava sendo preparado. Martín ocupava
seu lugar de costume na cozinha. Sentado em um dos bancos do
canto alemão, ele lia notícias no celular segurando o aparelho em
uma das mãos e o café na outra.
— Buenos días — disse Elle enquanto se servia de uma xícara
de café.
— Bom dia.
— Vai entrar mais tarde hoje?
Ele assentiu sem tirar os olhos do celular. — Troquei de turno
com a dra. Phillips para que ela pudesse sair da cidade mais
cedo para o fim de semana. Tem uma nevasca vindo.
Elle pressionou os lábios contra as têmporas dele e acariciou
sua nuca, enrolando os dedos nos cachos de seu cabelo. — Sem
problemas. Acho que vou ter que me virar no jantar. Já faz um
tempo desde a última vez em que fiz minha tradicional refeição
universitária que consiste em maçã, queijo e vinho. — Ele não riu
e ela retirou sua mão. — Espero que seu pescoço não esteja doendo por ter dormido no sofá. Você estava tão apagado que
não quis te acordar.
— Não está doendo.
Ela recuou. — Está tudo bem?
Martín abaixou o celular e olhou para ela. — Onde esteve
ontem à noite? Fiquei preocupado.
Ela puxou o banco ao lado dele e se sentou. — Eu recebi um
e-mail na conta do podcast. Um cara, Leo Toca, disse saber
quem era o . Falei com ele ao telefone e ele queria que eu
fosse até a casa dele para me dar a informação.
Martín arregalou os olhos. — Você foi até a casa de um
homem estranho tarde da noite porque ele disse ter uma pista
sobre um serial-killer?
— Eu levei minha arma.
— Dios mío, Elle. Isso é muito perigoso.
Ela tomou um gole de café puro. — Eu claramente estou bem.
— Só porque não se machucou não quer dizer que tenha sido
seguro ir sozinha.
Suas mãos apertaram a caneca. — É meu trabalho, Martín, e
não preciso de uma babá para fazê-lo. Não aconteceu nada
comigo, está vendo? Você nem sempre precisa imaginar o pior
cenário possível.
— Lidar com pessoas que se meteram no pior cenário possível
é o meu trabalho — respondeu ele, exaltado.
Ela sabia disso, é claro. Martín sempre mantivera o senso de
humor sobre seu terrível segmento profissional, assim como os
policiais e assistentes sociais que ele conhecia. Era a única maneira de impedir que suas cabeças explodissem com toda a
dor que eles viam no mundo.
Mas quando se tratava do trabalho de Elle o humor de Martín
se esgotava, e desde que ela começara a investigar o caso do
ele estivera mais nervoso do que o normal. Era
compreensível, mas ela não deixaria de se colocar em situações
perigosas. Eram ossos do ofício quando se estava tentando
pegar um assassino de crianças.
Depois de alguns momentos de silêncio entre eles, ele pousou
uma mão sobre o braço dela. Havia ternura em sua voz ao dizer:
— Elle, não entende como tenho medo de que você se
machuque?
— Era sobre o . Eu precisava ir.
Ele apertou seu braço. — Bom, você claramente voltou inteira.
O que ele disse?
— Hm. — Elle tomou outro demorado gole.
— Elle. O que ele disse?
— Ele não disse nada.
— Por que não?
Ela baixou os olhos para o líquido escuro dançando em sua
xícara. — Porque ele estava morto quando cheguei lá.
— O quê?! — Correndo os dedos pelo cabelo, Martín deixou
escapar um rosnado de frustração. — Pues, claro que sí estaba
muerto em la casa. Como? O que aconteceu? Quem o matou?
— Não sei, mas aparentemente o cara que fugiu quando eu
cheguei.
Uma veia saltou sobre o olho direito de Martín. Elle engoliu em
seco. Quando ele voltou a falar havia apreensão em sua voz. — Você foi até a casa de um estranho no meio da noite, encontrou
alguém plantado ao lado de um corpo recém-assassinado e não
me ligou? Não me contou quando chegou em casa?
— Não queria acordá-lo — respondeu ela.
Ele respondeu com um riso incrédulo, esfregando o rosto com
ambas as mãos em seguida. — Não quis me acordar. ¡No
manches!
Ela abaixou as mãos dele para que pudesse olhar em seus
olhos. — Cariño, entendo a razão pela qual está preocupado.
Realmente entendo. Mas já falamos sobre isso. Você sabe que
não faço nada pela metade. Se vou pegar esse cara, preciso
correr alguns riscos.
— Não riscos burros como esse. — A expressão dele se
suavizou ao perceber Elle recuar, ofendida. — Desculpe. Soou
errado.
— Sei que está irritado, mas não sou burra.
— Eu sei que não é. E não estou irritado, estou preocupado. —
Ele pousou as mãos sobre os ombros dela, segurando-a a uma
distância curta como se para se certificar de que ela não tinha
ferimentos. — Tem certeza de que não está machucada? Carajo,
mi amor, não acredito que isso aconteceu. Você aparece, um
cara está morto e o outro dá no pé. O que aconteceu depois?
Não tentou impedi-lo, não é?
— Não. Liguei para a polícia. — Elle explica o restante da
história, inclusive o interrogatório subsequente com Sam e
Ayaan, embora omita a parte em que vasculhou o corpo de Leo
em busca de evidências. Martín já estava lidando com
informações suficientes por hoje. Ele estava sentado à sua frente novamente quando ela terminou, seus joelhos se tocando e suas
mãos unidas enquanto o café esfriava no balcão.
— Então o que vai fazer agora? — perguntou ele, finalmente.
— Preciso tentar encontrar alguém próximo o suficiente de Leo
com quem ele teria compartilhado essa informação. Se eu tiver
muita sorte, talvez baste que eu veja o suspeito para identificá-lo,
mas não estou contando com isso. Centenas de pessoas
acreditaram que um tio esquisito ou o pai abusivo eram o
ao longo dos anos. É possível que Leo fosse apenas uma dessas
pessoas, mas preciso investigar.
Ele assentiu e olhou Elle nos olhos. Segurando o rosto dela em
suas mãos, ele inclinou o corpo para a frente e tocou os lábios
dela com os seus. Foi um beijo caloroso, intenso e mais
apaixonado do que ela esperava. Ela se perdeu nele por um
momento.
Quando se afastaram, Martín olhou para ela com olhos
carinhosos. — Elle, você é boa em seu trabalho. Eu sei quão
importante esse caso é para você. Só, por favor, me prometa que
tomará mais cuidado, tudo bem?
Elle tomou o rosto dele em suas mãos e o beijou outra vez
antes de tomar distância suficiente para olhar em seus olhos. —
Eu prometo.