Garota, 11

Amy Suiter Clarke · Capítulo 19 de 50

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Garota, 11

Capítulo 17

 

Elle

15 de janeiro de 2020

 

O sol se punha e Martín ainda estava no trabalho quando Elle

chegou em casa. Ela ligou o celular e uma mensagem dele

apareceu na tela: . Ela suspirou, relaxando os

ombros. Depois de passar um café, começou a trabalhar no

estúdio.

Elle não tinha acesso às bases de dados da polícia, mas as

redes sociais eram gratuitas — e era onde ela fizera suas

maiores descobertas. Hashtags, informações de localização,

fotos de pontos turísticos — tudo isso era útil ao rastrear pessoas

quando se sabia onde procurar.

Não demorou para que ela encontrasse os perfis de Graham

nas redes sociais. O Facebook dele era problemático — montes

de memes racistas e links para blogs misóginos. A última

atividade era de dois dias atrás, quando ele comentou em um

artigo do New York Times sobre a Fundação Clinton com um

meme manipulado de Hillary Clinton contando pilhas de dinheiro

com um exagerado sorriso ganancioso no rosto. O Instagram não era muito melhor e consistia em mais posts de memes e selfies

em várias poses com bandana e óculos de sol tentando parecer

barra pesada. Ele a fazia lembrar de todo avatar da legião de

haters em suas menções no Twitter depois que ela postava algo

ligeiramente liberal.

Uma notificação surgiu na tela de Elle. Era de Sash.

! ?

Elle sorriu e respondeu. :

 

.

.

Os três pontos saltaram na tela por um momento, indicando

que Sash estava digitando uma resposta. Eles desapareceram e

reapareceram algumas vezes até que uma breve mensagem foi

enviada.

?

Enquanto seu sorriso desaparecia, Elle digitou com mais

firmeza do que era necessário. .

. .

.

,

,

. –

.

Elle encarou a tela.

?

Dois minutos se passaram antes de Sash enviar uma resposta.

, , .

.

Ninguém. Querendo dizer não apenas Elle. O comentário foi

como um soco no estômago. Sash nunca havia mencionado o

que Elle lhe contara sobre a razão pela qual ela deixou o Serviço

de Proteção à Criança, mas esse era um lembrete não muito

sutil. Ela errara no passado e pessoas saíram feridas.

Fechando a conversa, ela retornou às redes de Graham. Foi

preciso tentar algumas vezes até encontrar sua página no Twitter,

já que ele não usava o mesmo nome de usuário do Instagram e

do Facebook. Mas Elle sentiu calafrios quando finalmente

começou a explorar a linha do tempo dele. Ela se inclinou para a

frente para ler a tela com mais atenção.

Graham era um hater de Twitter registrado com uma predileção

por enviar longas respostas para as pessoas. Na manhã anterior,

ele estivera envolvido por tempo considerável em uma discussão

perversa com uma conta verificada que aparentemente pertencia

a um blogueiro esquerdista de Montreal.

Elle fez capturas de tela de cada um dos tuítes e depois

analisou os horários, sentindo seu coração afundar.

 

Passava das nove da noite quando Elle saiu do estúdio e foi

envolvida pelo aroma da receita de pollo asado da família

Castillo. Entrando na cozinha, ela observou o marido por um

momento enquanto ele se movia em frente ao fogão.

— Você preparou o jantar — disse ela.

Martín se virou e se aproximou dela, puxando seu corpo

exausto para seus braços. Ela absorveu o perfume de pós-barba

e cominho em seu pescoço enquanto se esvaíam todos os vestígios de raiva que restaram depois da conversa que tiveram

ao telefone.

— Cheguei em casa há uma hora — disse ele. — Estava tenso

demais para ler, então pensei em fazer um jantar fora de hora

para nós.

Ainda com os braços em volta do corpo de Martín, ela levantou

os olhos para ele. — O que te deixou tenso?

Ele a apertou carinhosamente mais uma vez e voltou sua

atenção para a comida. — Estou tendo problemas para identificar

a causa da morte em um corpo que chegou hoje.

Ela pousou a mão nas costas dele enquanto ele regava a

carne com molho caseiro de urucum. — Distraído demais falindo

todo mundo no pôquer?

Seu peito vibrou com um riso baixo. — Eu de fato fiz isso.

Embora não apostemos dinheiro, só papelada a ser feita. —

Depois de virar a carne, ele se voltou para ela outra vez,

apoiando a lombar na beirada do balcão ao lado do fogão.

— Qual é o lance com o corpo? — perguntou ela.

— Cara jovem na casa dos trinta. O colega de quarto o

encontrou morto depois de perceber que ele não tinha saído da

cama no domingo de manhã. Até onde sabemos ele não tinha

nenhum problema preexistente, nada que explicasse uma morte

repentina. Ele não teve um ataque cardíaco, um ou um

aneurisma. Não há nada que indique suicídio. Seus pais estão

obviamente devastados. Queria ter alguma resposta para dar a

eles, mas não sei se há uma.

Elle o olhou com um sorriso triste. — As pessoas acham que

vão se sentir melhor se tiverem uma explicação sobre como uma pessoa querida morreu. Mas saber não melhora nada, não é?

Martín balançou a cabeça. — Não, não melhora. Enfim, não se

preocupe com isso. Talvez eu sonhe com uma resposta e

perceba algo que não notei. Não estava muito focado hoje à

tarde.

Os olhos de Elle se desviaram para o frango que estalava na

panela e em seguida para a panela com polenta que ele cobrira

para manter aquecida. — Sim, entendo. — Elle foi até a geladeira

e pegou uma garrafa de vinho branco. Martín colocou duas taças

na ilha onde eles costumavam jantar quando estavam sozinhos.

— Teve sorte com seu caso? — perguntou ele, pondo a mesa.

Ela se sentou e serviu as duas taças. — Temos um suspeito na

delegacia, um cara muito esquisito, mas acho que infelizmente

acabei de provar que não foi ele. Mandei uma mensagem para

Ayaan, mas acho que ela foi para casa para tentar dormir um

pouco.

Martín pousou um prato em frente a Elle e deu a volta na ilha

para se sentar ao seu lado. Ela fez um beicinho como pedido de

trégua e Martín se inclinou para beijá-la, acariciando sua

bochecha ao afastar o rosto. — Conte-me sobre o suspeito.

Ela levou um pouco de polenta à boca e revirou os olhos,

satisfeita, o que provocou um sorriso em Martín. — Os Jordan

tinham certeza de que era ele — disse ela enquanto mastigava.

— Os Jordan são os pais da menina que desapareceu. Ele é um

agressor sexual com passagem pela polícia e trabalhava para o

pai da menina. Mas encontrei evidências nas redes sociais que

mostram que ele estava no meio de uma discussão na hora do sequestro, então basicamente o dia de investigação foi por água

abaixo. E ela já está desaparecida há mais de trinta e seis horas.

— Se alguém pode ajudar a encontrá-la, essa pessoa é você.

Ela olhou pra ele, surpresa, mas Martín tinha a atenção voltada

para seu prato. — Só está dizendo isso porque eu fiquei brava

mais cedo — disse ela depois de um momento.

— Não estou falando da boca pra fora. Eu estava preocupado.

— Ele espetou um pedaço de frango com o garfo. — Ainda

estou. Mas acho que entendo a razão pela qual quer estar nesse

caso. Trabalho com detetives todos os dias, mas você é uma das

melhores investigadoras que conheço. Você sabe mais sobre

sequestros infantis do que a maioria deles, ainda que esteja

começando a investigá-los. Se acha que só estou dizendo isso

para me redimir, não está se dando o crédito que merece. — Ele

finalmente levantou o rosto, olhando para ela. — Não vou pedir

desculpas por me preocupar com você, mas peço desculpas por

ter feito você se sentir como se não pudesse tomar suas próprias

decisões.

No entanto, uma parte dela queria que a decisão estivesse fora

de suas mãos. Talvez fosse o vinho ou a refeição pesada, mas a

exaustão dos últimos dias estava batendo forte.

— Você me vê de maneira melhor do que eu realmente sou —

respondeu ela, por fim. As palavras trouxeram uma inesperada

onda de emoções e ela precisou conter as lágrimas que

marejaram seus olhos enquanto olhava para ele.

— Não, Elle. — A voz de Martín era firme. — Apenas sei que é

melhor do que pensa.

Enquanto lavava as louças do jantar, a tela do celular de Elle

se acendeu com uma notificação de mensagem. Ela secou as

mãos ensaboadas no pano de prato e desbloqueou a tela. Era

uma mensagem de Natalie.

.

Elle suspirou e respondeu. .

 

?

.

.

Natalie respondeu com um emoji dando de ombros.

17. .

.

:*

Elle riu e deixou o celular de lado. Depois de terminar a louça,

apagou todas as luzes e subiu para o quarto. Martín não

conseguira esperar por ela e roncava levemente. Conseguir

dormir a qualquer momento, em qualquer lugar, era parte da

carreira de médico. Quando Martín estava na residência, Elle o

obrigara a passar uns meses sem dirigir quando o viu piscar na

direção enquanto esperava o semáforo abrir.

Ela se deitou ao lado de Martín, envolvendo seu corpo com um

braço e o puxando para mais perto. Mas quando fechou os olhos

ela estava em um quarto diferente. Ela ouviu a voz de outro

homem dizendo seu nome, chamando-a até ele. Ela sentiu as

mãos dele, fortes e geladas, em sua pele.

Elle escondeu o rosto no ombro do marido, encolhendo seu

corpo como se isso pudesse bloquear as memórias.