Garota, 11
Capítulo 2
Elle
9 de janeiro de 2020
Elle parou o carro na casa da srta. Turner e pausou o podcast
que tocava no rádio. Era um de seus podcasts de true crime
favoritos, mais focado em questões psicológicas dos criminosos
condenados do que na investigação de casos arquivados como o
dela. O podcast estava quase chegando na parte boa, a análise
comportamental de um estuprador em série lendário no noroeste
do Pacífico, mas o assunto não era exatamente apropriado para
crianças, e a filha de sua melhor amiga já estava no meio do
caminho entre a porta da srta. Turner e o interior aquecido do
carro de Elle.
A porta do passageiro se escancarou, deixando entrar uma
rajada de ar seco e gelado com um quê de cheiro de neve.
Natalie entrou e bateu a porta, soltando um “Brrr!” dramático.
Aumentando a intensidade do aquecedor, Elle perguntou: —
Como foi a aula de piano, querida?
— Boa. — Natalie colocou o cinto de segurança e afastou o
cachecol do pescoço. Mesmo na luz turva de fim de tarde, sua pele normalmente pálida estava rosada pelo golpe de ar frio. —
Quer dizer, ainda estou fazendo escala toda hora. Acho que a
srta. Turner não sabe ensinar algo além disso.
Elle deu risada enquanto dirigia de volta para o trânsito. —
Você está fazendo aula há apenas quatro meses.
— É, eu sei, mas é chato, consigo fazer de olhos fechados.
— Seja paciente. As escalas são a base. Precisa aprender o
básico antes de atacar uma composição completa. — Elle sorriu
ao perceber quão depressa ela conseguia entrar no modo mãe,
ensinando sabedoria de vida e buscando Natalie na aula de
piano como se fosse sua filha.
— Pode ser. Ela também me ensinou a tocar parabéns pra
você hoje.
— Sério? Por quê?
Natalie riu. — Tia Elle, você sabe o porquê.
Ao parar no sinal vermelho, Elle olhou para ela e ergueu os
ombros dramaticamente. — Como assim?
A garota revirou os olhos em meio a uma risada. — Porque é
meu aniversário, nerd.
— Nerd! — Elle levou a mão ao lado esquerdo do peito como
se tivesse tomado uma punhalada no coração. — Você só chama
Martín disso.
— Porque normalmente ele é o único que age como um nerd.
— Tá bom, tá bom. Sem mais brincadeirinhas. Feliz
aniversário, querida.
Ela mal podia acreditar que Natalie já tinha dez anos. Tão
próxima da idade da vítima mais jovem do , que vinha
absorvendo cada minuto de sua vida desde que ela começou as entrevistas para a temporada mais recente de Justiça Tardia
havia seis meses. Ela não conseguia fechar os olhos sem ver o
rosto daquelas garotas, os mesmos que cobriam as paredes de
seu estúdio de gravação. Natalie era o mais próximo que Elle
tinha de uma filha. Imaginá-la no lugar da vítima mais jovem do
causava nela um surto de fúria que a deixava atordoada.
Não fosse por Natalie, Elle provavelmente não teria começado o
podcast. Se ela não soubesse como é amar uma criança a ponto
de matar por ela, talvez nunca tivesse começado a caçar os
monstros que as machucam.
Elle inclinou o corpo por cima do freio de mão e deu um sonoro
beijo na testa de Natalie no momento em que o semáforo ficou
verde. — Fez algo legal pra comemorar o aniversário?
— Cantaram parabéns pra mim na aula e deixaram que eu
levasse cookies para o pessoal — respondeu Natalie, mexendo
distraidamente em uma das tranças que prendiam seu cabelo
louro-escuro. — E eu peguei o terceiro lugar no nado livre.
— Eu não botaria um biquíni nessa temperatura nem que me
pagassem.
— Se parássemos de nadar quando está frio, só nadaríamos
três meses no ano — disse Natalie enquanto o carro parava na
casa de Elle. — Além disso, lá dentro faz uns dezoito graus.
— Fico com os lagos durante o verão, mas estou orgulhosa de
você — disse Elle. O vento mordeu sua pele quando ela saiu do
carro e foi se certificar de que Natalie estava caminhando com
cuidado pelo chão escorregadio. Ela fez uma nota mental para
que lembrasse de pedir a Martín para jogar mais sal depois.
— Que cheiro bom! — disse Natalie assim que entraram pela
porta. Elle ficou com água na boca quando sentiu o aroma
aconchegante e apetitoso dos temperos da cozinha. Elas
seguiram o cheiro até a cozinha, onde Martín estava usando seu
avental florido favorito e torcendo um moedor de sal sobre uma
panela que cozinhava em fogo baixo no fogão. Ele estava
fazendo sua receita de espaguete com almôndegas: a carne era
uma mistura de carne bovina e linguiça com uma pitada de
pimenta chili no molho. Era o prato favorito de Natalie.
— E aí, aniversariante! — Martín soltou a colher na panela e
abriu os braços para receber Natalie, que correu até ele e deixou
escapar um grito alegre quando ele a levantou em seu típico
abraço de urso. Ele a girou no ar e depois a colocou sobre o
balcão, tirando a colher da panela e assoprando antes de
oferecer a ela. — Passei na inspeção, señorita?
Natalie experimentou e seus olhos brilharam, alegres. —
Parece ser sua obra prima, señor.
Quando Martín a levou de volta ao chão, apontou para a
gaveta de talheres. — Sei que é seu aniversário, mas pode
organizar a mesa? Sua mãe deve chegar em breve. — Assim
que a menina amontoou os talheres e se retirou, Martín se voltou
para Elle com um sorriso. Seu cabelo cacheado caía em ângulos
desordenados; ele estava sempre passando a mão pelos belos
cachos quando eles não estavam presos debaixo de toucas
cirúrgicas no trabalho. Sem parar de mexer o conteúdo da
panela, ele inclinou o corpo e deu um beijo carinhoso em Elle.
— O cheiro está delicioso. — Elle se virou para servir uma taça
de vinho tinto.
— Obrigado. Como você está, mi vida? — perguntou Martín.
Elle se lembrou da primeira vez que ele a chamou assim na
frente de Natalie. Foi no ano anterior, logo depois de ela ter
começado as aulas de espanhol. Elle não aprendera nada do
idioma até o ensino médio, e Martín falava inglês fluente quando
eles se conheceram, mas, apesar disso, ela desenterrou os
velhos livros de espanhol da época do colégio um dia depois do
primeiro encontro dos dois. Ela não queria ficar por fora das
conversas quando fosse conhecer a família dele em Monterrey, e
devido ao grande número de imigrantes do México e da América
Central na população de Minnesota, acabou sendo útil no
trabalho também. Mas a sofisticada escola particular que Natalie
frequentava permitia que as crianças começassem desde a
terceira série, por isso ela compreendeu o que Martín dizia
quando chamou Elle de mi vida.
— Por que você a chamou de sua vida? — Natalie perguntara.
— É porque não pode viver sem ela?
Elle esperava que ele respondesse que era uma demonstração
de carinho comum de sua cidade natal no México, especialmente
entre homens e suas esposas, mas em vez disso ele olhou para
Elle ao responder: — Não, é porque quando conheci Elle, ela me
lembrou de que passo tempo demais cercado de morte. Ela me
ajuda a me lembrar de aproveitar minha vida.
Em dias normais Martín já deixava a maioria dos homens no
chinelo no quesito romance, mas ele estava especialmente
romântico naquele dia.
— Elle? — A voz dele a trouxe de volta para o presente.
— Estou bem — respondeu ela, sabendo que seu sorriso
forçado não o enganaria. — Não acredito que Natalie tem dez
anos. Parece que foi ontem que aquela criança magrinha de
quatro anos bateu na porta do nada. — Elle tentou dissipar as
lágrimas piscando os olhos e tomou um gole do vinho.
Martín soltou a colher e a puxou para seus braços. — Essa
investigação está mexendo com você, não está? — perguntou
ele, acariciando as costas de Elle em movimentos circulares.
Ela enrijeceu. — Estou bem — repetiu.
Ele se afastou e buscou seus olhos. — Sei que está. — Ele
parecia querer dizer mais alguma coisa, mas, em vez disso,
assentiu com a cabeça e se virou de volta para o fogão.
Natalie entrava na cozinha para buscar os pratos quando a
campainha tocou. — Pode deixar — disse Elle.
— Meu deus, que frio — disse Sash, estremecendo enquanto
Elle fechava a porta. Sash sacudiu as botas sobre o tapete de
entrada e as tirou, tomando cuidado para não pisar de meia na
neve que derretia sobre o tapete.
— Meu pai costumava dizer que um frio desses era um frio de
pregar a língua — disse Elle, surpresa com a lembrança
repentina. Ela não pensava no pai havia décadas. — Por causa
dos jovens bocós que se desafiavam a lamber algo de metal no
inverno e aí ficavam com a língua grudada.
Os grandes brincos de argola de Sash refletiram a luz quando
ela riu, jogando a cabeça para trás. Depois de desenrolar o
cachecol, ela tirou o gorro roxo de lã e pousou as duas peças no
banco ao lado da porta. Ela raspara a cabeça novamente nos
últimos dias, deixando apenas uma penugem curta que destacava seus traços de elfo. Era um visual estranho para uma
advogada corporativa e frequentemente fazia com que as
pessoas a subestimassem, o que tornava a situação ainda mais
deliciosa quando ela os destruía no tribunal.
— Muito bom. Vou aderir.
Elle a conduziu até a sala de jantar, passando pelo espelho do
corredor que a lembrou de que ela não tomara banho ou
arrumara o cabelo naquele dia. Ela estivera trancada em seu
estúdio até a hora em que teve que buscar Natalie.
— Alguma pista nova sobre o ? — perguntou Sash em
voz baixa.
Elle ficou imóvel. A não ser para fins de investigação, ela não
saía muito de casa, e a maior parte dos familiares e das
testemunhas que ela entrevistara jamais dizia seu nome. Era
inquietante ouvir alguém dizer as iniciais que pairavam em sua
mente havia meses, como um eco que se dissipara se tornando
sonoro novamente.
— Nenhuma novidade — respondeu ela, retribuindo o olhar da
amiga. — Ainda está um pouco cedo.
Sash sorriu. — Alguns sócios estavam falando sobre o caso
numa reunião hoje. Essa com certeza será sua melhor
temporada até agora.
Concordando com a cabeça, Elle tentou manter uma
expressão neutra. Ela se sentira pressionada a solucionar os
casos arquivados que investigara nas temporadas anteriores do
podcast, mas nada se comparava a isso. Só havia algumas
semanas desde o lançamento do primeiro episódio, mas ela já
sabia que esse seria diferente. Sua caixa de entrada estava abarrotada de comentários, teorias e críticas — não apenas dos
ouvintes norte-americanos, mas também da Austrália, Indonésia,
Inglaterra, Holanda. Parecia que o mundo inteiro a estava
observando.
Mas ela daria conta do recado. Todos os casos nos quais
trabalhara antes, as crianças difíceis do Serviço de Proteção
Infantil e as quatro temporadas anteriores do podcast foram o
alicerce, as escalas que ela treinou para poder construir algo
mais complexo. O era sua magnum opus.
— Você está pálida. — Sash segurou o braço dela gentilmente,
fazendo com que ela parasse antes que entrassem na sala de
jantar. — Que merda. Desculpe, Elle. Você provavelmente já está
nervosa o suficiente sem que eu te lembre de quão grande esse
caso é.
— Não, tudo bem. Quer dizer, eu sempre soube que ele
colocaria o podcast sob os holofotes. Eu só não imaginava que
seria nessa proporção. — Elle retribuiu o olhar da amiga
enquanto afundava as unhas na palma da mão. — Eu e meu
produtor estamos vendo muita conversa on-line, ideias pairando
em nossas redes, mas nada concreto por ora. Sei que só faz
algumas semanas, mas sinto que estou falhando com elas.
— As garotas na parede — disse Sash. Além de Martín, Sash
era a única pessoa cuja entrada Elle já havia permitido em seu
estúdio no andar de cima. — Não está falhando com elas, Elle.
Está honrando-as. Está contando as histórias delas e tentando
conseguir justiça. Você não é muito justa consigo mesma.
Antes que Elle pudesse responder, a porta da sala de jantar se
abriu e Natalie espiou pela fresta. — Vocês estão vindo ou não? Estou morrendo de fome.
Sash sorriu para Elle, apertou seu braço carinhosamente mais
uma vez e então elas seguiram Natalie sala de jantar adentro,
onde Martín estava servindo a comida.
— Como foi o aniversário, meu bem? — perguntou Sash,
abraçando a filha.
— Bom. Obrigada por sair mais cedo do trabalho — disse
Natalie.
— É óbvio que saí. Acha que eu perderia isso? — Se Elle não
conhecesse Sash tão bem, talvez não tivesse percebido a
sombra que passou pelo rosto da amiga. Era um assunto
sensível entre ela e Natalie o quão tarde Sash chegava do
trabalho em algumas noites. Mas ela sempre estava presente
nas ocasiões que importavam, e agora que Elle estava
trabalhando em casa integralmente, ela conseguia ajudar a
preencher as lacunas. Natação, aulas de piano, ela até mesmo
ocupava de vez em quando o cargo de monitora em excursões.
Nessa altura do campeonato, ela estava entre uma tia muito
engajada e uma babá esplêndida, embora Sash insistisse que ela
estava mais para uma segunda mãe que Natalie tinha adotado
por conta própria. De qualquer maneira, ela adorava.
Puxando a cadeira ao lado de Natalie, Sash ergueu as mãos
como se fosse uma apresentadora de prestes a anunciar a
próxima atração. — Senhoras, senhores e não binários: há dez
anos completados hoje, um evento extraordinário aconteceu. —
As mangas esvoaçantes de sua blusa varreram o topo da mesa,
por pouco não encostando no molho do espaguete. — Minha filha, a primeira e única de seu nome, Natalie Hunter, chegou ao
mundo do tamanho de um burrito e guinchando como um
porquinho.
Natalie riu e cobriu o rosto com as mãos.
— Sei que as coisas nem sempre foram fáceis nos primeiros
anos de sua vida, quando nos mudávamos com tanta frequência.
Mas estou feliz por estarmos aqui hoje, e estou feliz por você
poder celebrar seus dez anos junto de sua família. — Sash olhou
na direção de Elle, mas foi difícil reconhecer a expressão de seu
rosto em meio à repentina cortina de lágrimas. Ela ainda se
emocionava quando Sash se referia a ela como família. Além de
Martín e seus sogros, Sash e Natalie eram a única família que
Elle já tivera.
Natalie se aproximou da mesa olhando para o prato de comida
que esfriava à sua frente. — Beleza, mãe, estou com fome.
Todos riram e Sash ergueu seu copo. — Tudo bem, tudo bem,
processem essa mãe por fazer um discurso no aniversário de
dez anos da filha. Um brinde a Natalie!
— Viva a Natalie — endossaram Martín e Elle, erguendo suas
taças. Eles brindaram com Natalie e seu copo de refrigerante e
começaram a comer.
— Como foi seu dia, Sash? — perguntou Elle, enrolando o
macarrão no garfo.
Sash tomou um gole de vinho. — Nada mau. Mas a fusão de
empresas na qual tenho trabalhado é de sugar a alma. Ambos os
s insistem em fingir que tudo é um mar de rosas nas
respectivas reuniões de diretoria, mas já nem consigo fazer com
que os dois se sentem na mesma mesa para negociar. Um dos caras faz um comentário sobre o arremesso de golfe do outro e,
de repente, um acordo multimilionário está em jogo. E as
pessoas têm a coragem de dizer que as mulheres é que são
sentimentais.
Martín riu com a boca cheia de macarrão, soltando ar pelas
narinas.
— E você, Martín? Como anda a vida com os presuntos? —
perguntou Sash. Ela pronunciava o nome dele corretamente,
Mar-teen, em vez da pronúncia americanizada que seus
conhecidos preguiçosos usavam.
Ele ergueu o garfo em que um tomate cereja estava espetado.
— Ah, sabe como é, na correria. Nessa época do ano os corpos
brotam feito ervas daninhas.
— Martín! — repreendeu Elle.
Ele levantou as duas mãos em um clássico gesto que queria
dizer “sou inocente”. — Desculpe! Não é como se elas não
soubessem o que faço.
— É, Elle, não é como se eu não soubesse o que ele faz. —
Natalie tomou um gole de sua bebida e sorriu. — Quero ser
médica-legista um dia.
Elle balançou a cabeça e olhou de soslaio para a melhor
amiga. Em segredo, Sash contou a ela algumas semanas atrás
que Natalie desenvolvera uma quedinha inocente por Martín,
embora naquele momento já fosse óbvio. Há um mês ela
repentinamente parara de chamá-lo de “tío”, insistindo em
chamá-lo pelo nome, e ficava encantada com cada palavra que
saía de sua boca. Sash culpava a puberdade. Havia alguns anos
desde que Elle terminara seu mestrado em psicologia infantil, mas, em termos de desenvolvimento, uma garotinha de dez anos
se apaixonando pelo único homem adulto próximo em sua vida
era algo bastante comum.
Embora ele deva ter percebido que elas estavam se divertindo
com a cena, Martín ignorou Sash e Elle e animadamente seguiu
uma conversa com Natalie sobre como construir uma carreira na
patologia forense.
— Acho que você seria uma ótima médica-legista — encorajou
ele. — Mas vai ter que melhorar suas habilidades com a faca.
Ainda estou assustado depois daquele dia em que você me
ajudou a cortar os pimentões para fazer fajitas. — Ele esticou o
dedão, exibindo a pequena cicatriz cor-de-rosa em relevo que se
destacava em sua pele marrom-clara.
Ela o acotovelou no braço, seu rosto corado. — Isso foi há dois
anos e eu pedi desculpas umas mil vezes. Como você é chorão.
Martín levou a mão ao peito, sua mão aberta em um gesto
teatral de ofensa. — Cómo te atreves. Mas acho que está certa.
No trabalho ninguém corre o risco de sangrar até a morte se a
sua faca escorregar de vez em quando. Você vai se dar bem.
Elle riu, mas havia um toque de tristeza sob seu riso enquanto
ela observava seu marido interagindo com Natalie. Era difícil não
se perguntar como Martín teria se saído como pai. Sash e Elle se
conheceram na época em que Elle e Martín mais estavam
empenhados em engravidar, quando o casal se mudara para a
casa nova do outro lado da rua para ter espaço para o que eles
esperavam que fosse pelo menos um casal de filhos. Todas as
garotas férteis e viçosas com quem Elle tinha estudado no ensino
médio pareciam engravidar apenas com a força do pensamento, então foi um alívio quando Sash foi tão transparente sobre sua
experiência com a fertilização in vitro. Ela nunca havia se
interessado por sexo ou por relacionamentos, mas sempre
quisera ser mãe, então tomara o caminho das pipetas e das
agulhadas. Quando Elle contou a ela sobre seus próprios
tratamentos de fertilidade, elas se solidarizaram uma com a outra
e trocaram experiências sobre o pesadelo de ansiedade que era
tentar engravidar através da ciência (embora Sash brincasse que
a ideia de engravidar da outra maneira lhe causava muito mais
ansiedade).
No entanto, após anos de tentativa, Elle já não conseguia
submeter seu corpo a todo o estresse e aos hormônios. Ela e
Martín finalmente concordaram que não estavam destinados a
ser pais. Naquele momento, no entanto, estavam muito próximos
de Natalie, o que amenizou o peso da decisão — ao menos um
pouco.
— Sabe que vai ter que trabalhar muito com ciência para ser
uma médica-legista, não sabe, meu bem? — perguntou Sash. —
E provavelmente terá que superar seu medo de agulhas.
Natalie ergueu o queixo. — Eu posso fazer isso.
Elle levou uma garfada de comida à boca para esconder o
sorriso. Natalie era o tipo de criança que sempre estava
empolgada com alguma coisa diferente. Havia seis meses, ela
estava interessada em direito dos animais: ela encontrou um
vídeo no YouTube e jurou que nunca mais comeria carne. Ela
não ficava um dia sequer sem falar sobre grades ou métodos
cruéis para controle de gado. Então um dia Elle foi visitá-la e ela
estava comendo um hambúrguer e tagarelando sobre mudanças climáticas. Na maioria das vezes ela partia para outra depois de
alguns meses, mas um dos interesses que continuavam firmes
era a religião. Uma colega de escola deu a ela uma Bíblia dois
anos antes, e desde então as garotas têm ido à igreja juntas
quase todo domingo. Para dar algum crédito a Sash, ela nunca
tentou convencer Natalie a ficar em casa, embora ela mesma não
tivesse interesse no assunto.
Elle adorava o entusiasmo da menina. Ela sabia melhor do que
ninguém que a coisa que mais tira você do sério na vida pode
resultar em uma ótima carreira. Natalie ainda era jovem demais
para escolher uma coisa só, mas um dia escolheria. Elle era
apenas um ano mais velha que Natalie quando sua vida ardeu
em chamas, selando à sua frente um caminho inconfundível.
Esse pensamento a lembrou dos rostos na parede do estúdio
no andar de cima, todos os futuros sufocados daquelas jovens, e
de repente Elle se enrijeceu na cadeira, piscando, aturdida, ao
tentar se desvencilhar das cenas gravadas em sua mente.
Tomando um gole de vinho, ela olhou para as pessoas à mesa.
Sash e Natalie não pareciam ter notado, mas Martín a observava
com uma sobrancelha erguida, como se fizesse uma pergunta
silenciosa. Ela acenou com a cabeça brevemente e pegou o
garfo outra vez.
Quando terminaram de comer, Sash se levantou e começou a
empilhar os pratos vazios.
— Ah não, Sash, não precisa fazer isso. — Martín também se
levantou, tentando tirar os pratos das mãos dela.
— Relaxa, Martín, não vou lavá-los nem nada. Natalie pode
fazer isso. Considere como pagamento pela grana da gasolina que vocês gastam para levá-la pra lá e pra cá enquanto estou no
trabalho.
— Ei, o prazer da minha companhia já serve de pagamento —
diz Natalie, jogando uma de suas tranças para trás.
Martín deu uma gargalhada e Sash gritou o nome da filha da
cozinha. Afastando as imagens de sua mente, Elle também riu.
Quando se levantou para ajudar Sash na limpeza, seu celular
vibrou no bolso. Elle se dirigiu ao corredor e desbloqueou a tela.
Havia uma dúzia de notificações do e-mail do podcast. Ela
ignorou os alertas das redes sociais; veria isso mais tarde. A
maioria das linhas de assunto era a mesma de sempre, mas uma
delas chamou a atenção como um letreiro luminoso:
Eu sei quem ele é.