Garota, 11
Capítulo 31
Podcast Justiça Tardia
Gravado em 18 de janeiro de 2020
Gravação não divulgada: Elle Castillo, monólogo
ELLE
Eu estava certa. Tudo se encaixa para comprovar isso. Há
coincidências demais para não as levar em consideração, mas
mesmo assim ninguém quer enxergar.
Quando eu era criança, meu pai costumava ler histórias da
mitologia grega para mim. Algo sempre me chamou a atenção na
história de Cassandra, a sacerdotisa a quem foi dado o poder de
prever o futuro com precisão e que depois recebeu o castigo de
as pessoas nunca acreditarem nela. Seu dom de profecia lhe foi
dado por Apolo, que queria seduzi-la. Quando ela não
correspondeu, ele transformou o dom em uma maldição. A
história de Cassandra é familiar. Ela não é diferente das muitas
mulheres cujas vidas são destruídas pelo rancor de um homem
que foi rejeitado — mulheres que dizem a verdade, mas nunca
são ouvidas.
Eu nem sempre tenho razão, mas sei que estou certa nisso.
Outra garota foi sequestrada ontem. O mundo pode não saber
quem ela é, mas ela é especial para mim — o alvo perfeito para
me atingir. Natalie Hunter foi sequestrada enquanto caminhava
pela calçada. Ela percorria os dez quarteirões do lugar onde fazia
aulas de piano até a minha casa. Eu deveria… eu deveria ter
estado lá para ela, mas falhei.
Enquanto eu estiver viva, jamais me perdoarei por isso.
Natalie é o tipo de criança impossível de se esquecer depois
que você a conhece. Talvez seja porque sua mãe é impetuosa e
independente ou porque ela teve que aprender a lidar com o
bullying de outras crianças por não ter um pai. Ou talvez seja simplesmente por ela ser quem é — mas Natalie é a criança mais
valente, mais decidida, mais entusiasmada, e eu não consigo…
Não consigo acreditar que ela se foi.
Me lembro do dia em que nos conhecemos. Eu estava
assistindo quando a campainha tocou. Havia uma criança em
minha porta. Ela mal tinha quatro anos de idade. Seus cabelos
cacheados estavam desordenados e ela tinha pelo menos três
cores diferentes de canetinha pelo corpo. Isso aconteceu na
época em que eu trabalhava no , e por meio segundo pensei
ser uma criança de um dos meus casos. Naquele período eu
estava me esforçando muito para engravidar, mas raramente
passava tempo com crianças fora do trabalho. Eu não conseguia
enxergar mais ninguém por perto, mas ela era nova demais para
sair por aí sozinha. Antes que eu pudesse abrir a boca para
perguntar onde sua mãe estava, ela ergueu uma tigela e
perguntou: — Você tem ovo? Minha mãe está tomando banho.
Eu derrubei o último sem querer.
Aparentemente, a minha foi a quarta porta em que ela bateu, e
eu fui a primeira a abrir. Ela obviamente estava bem, mas eu
tinha visto o suficiente no trabalho para ficar em estado de alerta
— qualquer um que abrisse as portas anteriores poderia tê-la
colocado em perigo. Morávamos ali havia seis meses e ainda
não conhecíamos nenhum dos vizinhos. É possível que, não
fosse por aquele momento, eu nunca teria conhecido a família
Hunter.
Eu peguei um ovo para ela e a acompanhei até o outro lado da
rua para garantir que ela chegasse à casa em segurança. Àquela
altura sua mãe já saíra do banho e notara que a filha desaparecera. Ela correu para o jardim quando nos viu chegando
pela calçada e quase perdemos o outro ovo quando Sash
levantou a filha do chão para segurá-la no colo.
Quando as coisas se acalmaram ela me convidou para entrar.
De certa forma eu nunca mais fui embora.
No fim das contas, o ovo era para um bolo de aniversário
surpresa. Natalie, de quatro anos com ambições de catorze,
conseguiu preparar uma mistura de bolo de chocolate
praticamente sozinha. Sua mãe despejou a massa na assadeira
e a levou ao forno, mas foi só.
Não sei por que estou dizendo tudo isso. Acho que não poderia
usar nada no podcast. É que… quero que fique registrado em
algum lugar que Natalie é uma criança boa. Ela é muito especial
para muita gente — para mim, para Martín. Para a mãe dela,
Sash, acima de qualquer outra pessoa. Natalie tem um coração
puro e uma determinação incansável, e eu mataria qualquer um
que tentasse tirar isso dela. Eu vou…
Eu sei que existe uma relação. Ninguém quer acreditar que o
voltou, mas duas garotas desapareceram com três dias de
intervalo e elas têm a idade certa e isso é mais do que suficiente
para mim. Não precisamos esperar até que Amanda apareça
morta no fim de semana. Conseguiremos impedir isso antes que
o pior aconteça.
Estamos chegando perto. Eu e Sam temos informações sólidas
e vamos resolver isso. Vamos encontrar essas garotas e parar
este homem antes que elas sejam feridas.
Precisamos fazer isso.