Garota, 11

Amy Suiter Clarke · Capítulo 29 de 50

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Garota, 11

Capítulo 27

 

Elle

18 de janeiro de 2020

 

Havia uma fileira de carros na rua em frente à casa de Sash.

Piscando os olhos contra a luz ofuscante da manhã, Elle

analisava os automóveis tentando reconhecer as placas. Era

estranho pensar em Sash passando tempo com outras pessoas

que não ela e Martín. Além dela e de Tina, Elle não tinha outros

amigos — algumas vezes ela se esquecia de que isso era

esquisito.

Sua melhor amiga não atendera o telefone na noite passada

depois de tudo que acontecera. Sabendo que Sash não queria

vê-la, Elle enviara Martín para saber como ela estava, mas ele foi

mandado embora por um policial que estava em sua porta. Elle

ficou no sofá a noite toda, alternando entre crises de choro e

longos períodos encarando a parede, esperando por uma ligação

dizendo que Natalie fora encontrada.

Mas o telefone não tocou.

Ouvia-se um som de conversas vindo da casa de Sash, como

se uma reunião ou um evento social estivesse acontecendo lá dentro. Espiando pela fresta entre a janela e a cortina do lado de

dentro, via-se uma sala cheia de pessoas vestidas formalmente

com expressões sérias no rosto. Era como um velório.

Erguendo a mão, Elle bateu na porta. Um segundo mais tarde,

alguém a abriu, um jovem de cabelos densos e escuros

penteados em um topete. — Veio para a oração?

Interessante. Até onde Elle sabia, Sash nunca seguira uma

religião, mas talvez tenha começado a fazer isso para apoiar o

interesse de Natalie na Bíblia. E, é claro, se havia um momento

para se rezar, era esse.

Sem dizer uma palavra, Elle assentiu. Com um gesto, o

homem a convidou para entrar e ela o seguiu, desconfortável por

estar sendo conduzida por um estranho em uma casa que ela

conhecia tão bem. Quando entraram na sala de estar, Elle

arregalou os olhos ao ver sua melhor amiga rodeada por, pelo

menos, vinte pessoas. Todas elas tinham a cabeça baixa e uma

mulher vestindo um suéter cor-de-rosa rezava em voz alta com a

mão esquerda erguida e voltada em direção a Sash. O homem

que abrira a porta trouxe uma cadeira da cozinha e ofereceu a

ela, em silêncio. Elle sorriu para ele e se sentou, juntando-se ao

círculo.

— O que está fazendo aqui?

A voz de Sash interrompeu a oração da mulher do suéter cor-

de-rosa. Todos pareceram erguer a cabeça e voltar os olhares

em direção a Elle em um movimento fluido.

— Eu… eu vim ver como você está.

— Não devia estar aqui.

Elle hesitou, mas não se esquivou do olhar furioso da amiga.

Ela ignorou os murmúrios e movimentos desconcertados das

outras pessoas na sala. — Sinto muito pelo que aconteceu,

Sash.

— Você sente muito? Minha filha ligou para você. Você deveria

ter estado lá para ela. Prometeu que estaria. Mas estava

ocupada demais investigando um serial-killer idiota. — Um riso

amargurado escapou de seus lábios. — Na verdade, você ainda

está ocupada demais investigando-o para fazer o que é melhor

para Natalie.

Dessa vez Elle baixou o olhar, encarando o carpete verde com

flores desbotadas. Fora instalado pelo dono anterior e Natalie

costumava dizer que elas tinham um “chão de floresta” quando

era pequena. Talvez Sash estivesse certa. Talvez ela tenha se

deixado levar por esse caso apesar dos anos de preparação e

treinamento que levara para chegar até lá. Se sua obsessão em

encontrar o acabasse ferindo Natalie, ela jamais se

perdoaria.

— O que posso fazer? O que quer que eu faça? — perguntou

Elle.

Sash buscou a mão de uma mulher que estava a seu lado e a

segurou firme, olhando para Elle. Suas narinas se inflaram e

seus olhos ficaram marejados. — Quero que a encontre. E quero

que a traga de volta para casa como prometeu que sempre faria.

Até lá, não quero ver você.

Elle umedeceu o lábio inferior com a língua e assentiu, lutando

contra suas próprias lágrimas. Sem conseguir pensar em mais

nada para dizer, ela se levantou e deixou a sala.

Do lado de fora, a neve refletia a luz do sol em um clarão

ofuscante. Elle fechou o zíper do casaco e olhou para os dois

lados da rua. Uma parte dela esperava ver policiais ainda

procurando por evidências, mas eles devem ter concluído que

não havia mais nada a ser encontrado. Ela voltou para casa

caminhando devagar e estudando o chão congelado enquanto

avançava, para o caso de encontrar algo que passara

despercebido para os outros. Mas não havia nada de Natalie ali,

apenas pedregulhos, sal e neve.

Ao chegar à porta de entrada de sua casa, Elle inseriu a chave

na fechadura e ficou imóvel. Ela não conseguia suportar a ideia

de passar o dia todo em uma casa vazia. Martín fora para o

trabalho para tentar manter a mente ocupada. Tudo o que havia

lá dentro esperando por ela era um estúdio cheio de anotações e

tarefas que ela não tinha a intenção de organizar.

Para cumprir sua promessa e trazer Natalie de volta para casa,

a melhor alternativa seria trabalhar com Ayaan. Se ela

conseguisse convencer a comandante de que suas suspeitas

sobre o foram um lapso momentâneo causado por

exaustão e emoções à flor da pele, talvez Ayaan permitisse que

ela continuasse a ajudar na investigação. Deveria haver algo que

ela pudesse fazer, mesmo que Ayaan não permitisse que ela

voltasse a trabalhar em campo. Ela poderia cuidar da burocracia,

poderia analisar os vídeos de segurança, qualquer coisa que não

fosse ficar sentada em casa.

Tirando a chave da fechadura, ela se virou e foi em direção ao

carro, sentindo-se grata por Ayaan ter solicitado que um dos

policiais o trouxesse de volta da delegacia na noite anterior.

A delegacia estava agitada como sempre. Vários policiais

matavam tempo na cozinha, tomando café e batendo papo em

volta de uma caixa de bolinhos provavelmente trazidos por

Ronny, o recepcionista, cujo marido tinha uma padaria. Alguns

deles acenaram com a cabeça e um deles estendeu um prato de

plástico com doces de padaria na direção dela, que recusou. Ela

não conseguia se lembrar da última vez que comera, mas estava

sem fome. Sam Hyde estava encostado na pia, adicionando leite

ao café enquanto olhava para ela de maneira curiosa. Ela baixou

a cabeça, se odiando por estar parecendo um cachorro com o

rabo entre as pernas.

Através das paredes de vidro do escritório de Ayaan, Elle viu a

comandante inclinada sobre uma pilha de papéis. Ayaan levantou

a cabeça quando ela bateu na porta. Ayaan a encarou em

silêncio por um instante, mas em seguida gesticulou com a

cabeça para que ela entrasse.

— Elle, em que posso ajudar?

Ayaan não a convidou para se sentar, então Elle ficou em pé

atrás de uma cadeira, apoiando o peso do corpo em um pé e

depois no outro.

— Gostaria de falar com você sobre os casos. Eu sei que está

com o pé atrás comigo nesse momento, mas realmente acho que

posso oferecer alguns insights sobre a identidade do

sequestrador.

— Sequestradores.

Elle congelou. — O quê?

— Até onde sabemos, são dois incidentes diferentes.

— Ayaan…

— A vitimologia é completamente diferente. Amanda é uma

criança de uma casa com dois responsáveis. Ela desapareceu

bem cedo pela manhã durante sua rotina normal, quando

esperava no ponto de ônibus. O acontecimento foi orquestrado

de maneira que sua mãe estaria distraída no exato momento em

que ela foi sequestrada, o que indica um planejamento

minucioso. Uma vítima viu o sequestrador, mas quem quer que

ele seja foi destemido o suficiente para seguir em frente mesmo

assim.

Elle cerrou os punhos.

Ayaan prosseguiu. — De modo oposto, Natalie vem de uma

casa com apenas um responsável. Ela desapareceu no fim da

tarde fazendo algo imprevisto que a deixou em uma situação

vulnerável, voltando para casa sozinha. Aparentemente, ninguém

viu ou ouviu nada, o que sugere que ela não tenha gritado ou

feito qualquer barulho que chamasse a atenção. Foi

provavelmente um crime de oportunidade. Ela estava no lugar

errado na hora errada, e alguém tirou vantagem de sua

vulnerabilidade.

Elle balançou a cabeça, mas Ayaan a interrompeu erguendo a

mão. — Elle, está misturando a investigação de seu podcast com

esses sequestros, mas simplesmente não há evidência de que

eles estejam conectados. É compreensível. Já fiquei confusa e vi

conexões entre meus casos antes. Acontece. Mas Natalie é

como sua própria filha. Não há chances de você estar envolvida

no caso dela. Acho melhor que você mantenha distância por ora.

Falei com os pais de Amanda e eles concordaram. Sam está trabalhando em poucos casos no momento, então ele está me

ajudando.

Por alguma razão, a ideia de Sam tomando seu lugar era um

punhado a mais de sal na ferida. Elle engoliu seus argumentos e

tentou conter o pânico que crescia dentro dela. — Mas, Ayaan,

eu… eu preciso fazer alguma coisa.

Os olhos de Ayaan estavam tomados por pena quando ela

disse: — Sei que quer ajudar.

— Quero.

— Mas você claramente é parcial quando se trata do e

isso a impede de enxergar as coisas com clareza. Não posso

mais trabalhar com você. Desculpe. É muito arriscado.

Ao ouvir isso, a última centelha de esperança dentro de Elle se

esvaiu como um pavio em chamas afundando em cera quente

derretida.

 

Enquanto esperava em frente ao elevador, uma voz masculina a

chamou. Ao se virar, ela viu Sam do outro lado das portas de

segurança, caminhando em sua direção com a mão estendida.

— Espere aí — disse ele.

O elevador chegou e ela se sentiu tentada a apenas entrar

nele e ir embora. A última coisa da qual ela precisava era um

discurso sobre como ela era uma detetive de sofá e atrapalhava

investigações policiais reais. Mas ela se deteve, uma mão

segurando a porta do elevador, sabendo que ele iria atrás dela

caso ela fosse embora.

Ele atravessou o saguão e apontou com a cabeça para o

elevador. — Posso acompanhar você?

Ela olhou para ele e para o elevador aberto, confusa. Então

deu de ombros. — Claro, por que não? — Eles entraram juntos e

ela pressionou o botão do térreo antes de se virar para encará-lo,

de braços cruzados. — O que você quer?

Sam desviou o olhar. Era a primeira vez que ela o via sendo

qualquer coisa que não fosse arrogante e presunçoso. Era uma

guinada desconcertante. — Sei que tem trabalhado no caso de

sequestro com a Ayaan, mas queria saber se encontrou algo

mais sobre Leo Toca. Sabe, sobre o que ele ia te dizer a respeito

do .

Ela o observava, aguardando o desfecho, mas a expressão

dele não mudou. Era uma pergunta genuína. Ele estava

realmente empacado. — Não sei, eu tenho estado muito ocupada

com meu falso mestrado e falando com minhas falsas

testemunhas em meu trabalho como falsa detetive.

Ele cruzou os braços. — Por favor, me dê uma colher de chá.

— Por que eu deveria? — Eles chegaram ao térreo e as portas

do elevador se abriram revelando o saguão do prédio. — Você

não pode acordar e decidir que quer a minha ajuda depois de me

dizer pra não meter o nariz no seu caso.

Sam coçou a nuca, desviando o olhar. — Desculpe, tudo bem?

É que… estou em um beco sem saída nesse momento.

Interroguei as pessoas com quem ele trabalhava, estudei o

registro de ligações dele, até mesmo liguei para os pais dele no

México. Fui até Stillwater para tentar encontrar Luisa, mas não

dei sorte. Nem mesmo sei quem era a pessoa com quem ela

estava lá. Duane ainda é um grande suspeito, mas não gosto do

fato de que não consigo localizar a ex-mulher de Leo. Divulguei um alerta com a placa dela, mas até agora, nada. Então Ayaan

basicamente atribuiu o caso de Amanda Jordan para mim porque

ela o está investigando como um homicídio, então passei a noite

toda revisando as anotações e as evidências.

— Espere, o quê? — Elle sentiu um frio na barriga como se

estivesse despencando de um prédio alto. — Disse que Ayaan

está investigando o caso de Amanda como homicídio?

Oficialmente?

Sam pareceu confuso por um instante. Em seguida ele xingou

e olhou em volta, como se para verificar que não havia nenhuma

testemunha. — Achei que soubesse. Ela está desaparecida há

quatro dias, sem sinal de vida. Há grandes chances de que ela

esteja morta. Por isso estou ajudando Ayaan agora.

Elle balançou a cabeça tentando conter uma onda de raiva.

Era compreensível que Ayaan não compartilhasse informações

com ela, mas ela ainda teve uma sensação de traição. Ela nunca

fora parte dessa investigação, não de verdade. Então ela se deu

conta de uma coisa. Se Sam estava atrás dela, pedindo ajuda

com sua investigação de homicídio, ele provavelmente não sabia

ainda que Ayaan a havia afastado do caso de Amanda Jordan.

Essa poderia ser sua única chance de obter mais detalhes sobre

o progresso do caso antes que ele descobrisse que ela era

persona non grata no departamento de polícia de Minneapolis.

— Algumas das pistas provenientes do retrato falado foram

promissoras? — perguntou ela.

Sam respirou fundo, frustrado. — Não muito. Há alguns dias,

uma pessoa relatou ter visto uma van cuja descrição

correspondia ao veículo que procuramos em Snelling, seguindo na direção norte. Mas foi isso. Vai me ajudar com o caso de Toca

ou não?

— Não. — Ela refletiu por um momento e então voltou a olhar

para Sam. — Ou talvez eu ajude. Sabe o que fica em Snelling,

não sabe?

Ele a encarou. De repente se deu conta. — A oficina. Vamos.

— Eu também? — perguntou ela, tentando não demonstrar

sua empolgação.

— Quer que eu mude de ideia?

— Não.

Ela lia as notícias do dia no celular enquanto Sam dirigia.

Todos os jornais locais haviam publicado artigos sobre Natalie,

embora mencionassem seu nome de maneira superficial. Para

todas as outras pessoas, ela era simplesmente mais uma garota

jovem a desaparecer nos subúrbios de Minnesota. Ela conteve

as lágrimas que invadiram seus olhos e reprimiu a preocupação

por Natalie a um compartimento empoeirado em sua mente que

ela aprendera a desenvolver quando trabalhava no . Era

para lá que ela mandava toda a raiva e o medo e a dor até que

conseguisse respirar outra vez, até que conseguisse recuperar o

foco. Foi a única coisa que a ajudou a suportar seu trabalho. Ela

sabia que Martín fazia isso também, assim como todas as

pessoas que lidavam com o pior lado da humanidade em seus

trabalhos.

Na oficina Simple Mechanic, Duane estava parado diante da

enorme porta que parecia ser grande o suficiente para acomodar

um caminhão semipesado. Suas bochechas estavam coradas e

ele tinha a barba por fazer. Havia uma expressão de mau humor em seu rosto quando Sam e Elle desceram do carro. Não era

necessário sorrir. Eles não eram clientes.

— Olá, Duane — cumprimentou Sam em tom descontraído.

— O que veio fazer aqui? — Duane olhou de Sam para Elle. —

Espere, não é a moça que…

— Sim, fui eu que encontrei você com o corpo de Leo.

O rosto dele se tornou ainda mais vermelho. — Detetive, eu e

os rapazes respondemos todas as suas perguntas na semana

passada. Você fez com que fechássemos a oficina por quase um

dia inteiro, fez com que perdêssemos uma boa grana. Eu já disse

que não tive nada a ver com o assassinato dele e que não sei

quem teve.

— Não vim falar sobre Leo. — Sam olhou para Elle e depois de

volta para Duane. — Nós estamos aqui para falar de um carro.

De uma van, na verdade.

Com um grunhido disfarçado de suspiro, Duane olhou por trás

dos ombros e então fez um gesto com a mão para que eles o

seguissem até uma área interna anexa à oficina. Eles o

acompanharam e Elle saboreou a onda de calor ao entrarem em

um pequeno escritório. Mal havia espaço para dar a volta na

mesa, mas Duane se espremeu para passar com uma facilidade

que só poderia ser resultado de prática. Elle se sentou na única

cadeira disponível, deixando Sam perto da porta.

À direita de Elle, gaveteiros e caixas de plástico estavam

empilhados contra a parede do chão ao teto, tão perto dela que

seu cotovelo roçou em um deles quando ela o pousou no apoio

de braço da cadeira. Os pequenos trechos de carpete que ela

conseguia ver estavam encardidos devido aos anos de acúmulo de sujeira e areia. Havia manchas de óleo automotivo na

superfície da mesa de madeira onde Duane descansava as mãos

fechadas em concha.

— Certo, que van é essa? — perguntou Duane. Ele tirou o

gorro que usava e passou uma das mãos pela cabeça calva.

— Estou investigando um caso — disse Sam. — Uma van

Dodge Ram 1500 azul, de 2001 e sem placas fugiu de uma cena

de crime. Viu algo assim por aqui nos últimos dias? — Sam

pegou o celular e mostrou uma foto a Duane. Elle percebeu ser o

mesmo material estudado por ela e Ayaan dias atrás no

computador.

Esticando o lábio inferior em reflexão, Duane deu de ombros.

Ele mal olhou para a foto. — Está me perguntando se troquei o

óleo de um carro desse recentemente? Provavelmente. Eu vejo

cerca de trinta carros por dia aqui, algumas vezes mais.

Sam riu. — Ah, Duane, você pode não ser um assassino, mas

nós dois sabemos que também não é mecânico. Ou, pelo menos,

não é apenas mecânico. Fiz algumas pesquisas sobre você na

semana passada, falei com alguns amigos seus que estão

cumprindo pena em Hennepin County, e parece que você tem um

negócio muito lucrativo de “reaproveitamento de peças” aqui.

A expressão no rosto de Duane não se alterou, mas ele não

respondeu. Sam continuou: — Talvez eu não possa pegar você

pelo assassinato de Leo, mas fiquei sabendo de algumas

histórias interessantes. Para mim seria muito fácil compartilhar

minhas descobertas com o departamento de roubos para ver o

que eles têm a dizer sobre elas, ou eu poderia reportar seus amigos como informantes de cadeia que diriam qualquer coisa

pra conseguir alguma vantagem. Depende de você.

Alguns instantes mais tarde, Duane passou a língua pelos

dentes e gesticulou com a cabeça em direção a Elle. — Sério,

cara, que diabos ela está fazendo aqui?

Elle cerrou os dentes e Sam respondeu: — Não se preocupe

com isso. O que pode me dizer sobre essa van?

— O que quer saber?

Sam sorriu outra vez. — Quero saber se alguém trouxe uma

van Dodge Ram 1500 azul até sua oficina nos últimos quatro

dias, e, se sim, gostaria que nos levasse até ela agora mesmo.

Duane olhou para Elle novamente. Ela retribuiu o olhar.

Suspirando, ele disse: — Certo, está bem. Trouxeram uma van

como essa outro dia.

— Que dia? — perguntou Sam.

— Não sei. Umas três noites atrás, eu acho.

Elle se intrometeu. — Em que noite? Segunda ou terça? Onde

ela está?

— Não sei! Não… não está mais aqui.

Ela bateu as duas mãos no apoio de braços da cadeira e

deslizou para a beirada do assento, prestes a segurá-lo pelo

pescoço. — Como assim não está mais aqui? — Então ela se

deteve, horrorizada. — Você… você já a desmanchou, não é?

Duane nem mesmo pareceu envergonhado. — O que vai

fazer? — perguntou ele. — Me prender?

— Nós, não. — Sam cruzou os braços imitando o gesto de

Duane. — Vamos deixar a unidade de roubos cuidar disso.

— Ei, ei, ei, espere aí. — Duane levantou as mãos com as

palmas voltadas para cima. — Eu posso não estar mais com a

van, mas posso te dizer quem a trouxe. — Ele levantou as

sobrancelhas.

Elle emitiu um som de escárnio e olhou para Sam. — E ele não

vai nos contar a menos que entremos em um acordo.

Aparentemente isso é o que merecemos ao pedir ajuda para um

picareta como ele.

Duane ergueu os ombros, exibindo um sorriso arrogante em

seu rosto rubro. — É o que dizem: cuidado com o que deseja.

— Sabe quem trouxe a van? Tem certeza? — perguntou Elle.

— Não se dê ao trabalho de tentar escapar com uma mentira

— interrompeu Sam. — Não será difícil encontrá-lo se sua

informação se provar falsa.

— Está brincando? Eu jamais mentiria para um detetive digno

e honrado como você. — Os olhos de Duane pousaram em Elle e

ele gesticulou em sua direção. — Ou para uma detetive de sofá

intrometida que tem um programa de rádio.

Antes que Elle pudesse responder, Duane continuou. — Isso

mesmo, sabia que reconhecia sua voz. Leo costumava ouvir

suas baboseiras o tempo todo na oficina. Essas porcarias

mentirosas e sensacionalistas. Talvez se você não o tivesse

deixado todo perturbado, crente que poderia brincar de detetive,

ele não teria se metido nessa e não estaria morto agora. Você

não é investigadora coisa nenhuma. Você só é uma vagabunda

convencida com um microfone e sem ninguém pra te mandar

calar a boca.

Por um instante, Elle o encarou em silêncio. Tudo o que ele

disse era exatamente o que a preocupava havia dias, desde que

ela encontrara o corpo sem vida de Leo. Mas o zunido de medo

em sua mente quando ela pensava em Amanda e Natalie, a ideia

de que ele sabia mais do que estava dizendo a eles, essas

coisas deram coragem a ela. Fizeram com que ela se tornasse

destemida.

O rosto dela se esticou em um largo sorriso que deixava seus

dentes à mostra. — Não entende, Duane? Essa é a melhor parte.

Eu não sou policial. Sou apenas uma cidadã que quer encontrar

aquela van. Sou apenas a criadora de um podcast com milhares

de ouvintes que ficariam felizes em divulgar seu nome e local de

trabalho para toda a internet. Além, é claro, da informação de que

você não apenas destruiu as evidências do sequestro de uma

garotinha, mas também nos fez de bobos quando pedimos sua

ajuda para encontrar a pessoa que trouxe a van até você. Mas

não se preocupe. As pessoas na internet são conhecidas por

estarem abertas a ouvir ambos os lados da história quando se

trata de crimes infantis.

O rosto de Duane empalideceu. — Que porra é essa? — Ele

se virou para Sam. — Vai deixar que ela me ameace assim?

Sam franziu a sobrancelha com uma expressão dissimulada de

confusão. — Desculpe, o que foi? Não estava prestando atenção.

— O nome dele é Eduardo, tudo bem? Não sei qual é o

sobrenome. — Os olhos de Duane iam de Elle para Sam. Gotas

de suor surgiram em sua testa e entre os fios ralos em sua

cabeça. — Não fale sobre mim em seu podcast, está bem? Sei o

tipo de coisa que você faz, tirando do contexto trechos do que as pessoas dizem e fazendo análises para que soem de maneira

diferente. Estou dizendo a verdade, é só isso que eu sei. E vocês

não me disseram que isso era sobre a porra do sequestro de

uma criança. Eu teria contado tudo logo de cara. Meu Deus.

Elle ignorou os insultos. Os homens que tinham problemas

com sua voz e com suas teorias nos casos que ela investigava

não eram novidade a essa altura.

— É sério? Isso é o que tem a nos dizer? — Sam deu a volta

na mesa para ficar de frente para Duane. Seu tom de voz era

informal, amigável. Fazia com que ele soasse ainda mais

amedrontador. — Viemos de tão longe, cara. Tenho certeza de

que você tem mais informações sobre ele. Você provavelmente

conhece todos que frequentam a oficina, não conhece?

— Hm, sim, acho que sim.

— Claro que conhece! Um profissional com jogo de cintura

como você. Sabe que não pode esquecer um rosto. Com certeza

consegue se lembrar de mais coisas sobre esse cara.

A expressão de Duane mudou e seu rosto recuperou as cores

habituais. Ele olhou para Sam em um misto de medo e

admiração. — O-o nome dele é Eduardo. Ele tem mais ou menos

sua altura e é mexicano. Ou é centro-americano, eu não sei. Ele

trabalha na Universidade Mitchell, limpando o chão e essas

coisas. Isso é tudo que sei, eu juro.

Sam endireitou a postura com um sorriso largo e genuíno no

rosto e, num gesto amigável, apertou o ombro de Duane. Duane

se retraiu e Elle sorriu maliciosamente ao perceber a força no

aperto de Sam. — Beleza, valeu, cara. — Ele se voltou para ela, ainda sorrindo, e fez um gesto de conclusão com a mão. —

Podemos ir.