Garota, 11
Capítulo 27
Elle
18 de janeiro de 2020
Havia uma fileira de carros na rua em frente à casa de Sash.
Piscando os olhos contra a luz ofuscante da manhã, Elle
analisava os automóveis tentando reconhecer as placas. Era
estranho pensar em Sash passando tempo com outras pessoas
que não ela e Martín. Além dela e de Tina, Elle não tinha outros
amigos — algumas vezes ela se esquecia de que isso era
esquisito.
Sua melhor amiga não atendera o telefone na noite passada
depois de tudo que acontecera. Sabendo que Sash não queria
vê-la, Elle enviara Martín para saber como ela estava, mas ele foi
mandado embora por um policial que estava em sua porta. Elle
ficou no sofá a noite toda, alternando entre crises de choro e
longos períodos encarando a parede, esperando por uma ligação
dizendo que Natalie fora encontrada.
Mas o telefone não tocou.
Ouvia-se um som de conversas vindo da casa de Sash, como
se uma reunião ou um evento social estivesse acontecendo lá dentro. Espiando pela fresta entre a janela e a cortina do lado de
dentro, via-se uma sala cheia de pessoas vestidas formalmente
com expressões sérias no rosto. Era como um velório.
Erguendo a mão, Elle bateu na porta. Um segundo mais tarde,
alguém a abriu, um jovem de cabelos densos e escuros
penteados em um topete. — Veio para a oração?
Interessante. Até onde Elle sabia, Sash nunca seguira uma
religião, mas talvez tenha começado a fazer isso para apoiar o
interesse de Natalie na Bíblia. E, é claro, se havia um momento
para se rezar, era esse.
Sem dizer uma palavra, Elle assentiu. Com um gesto, o
homem a convidou para entrar e ela o seguiu, desconfortável por
estar sendo conduzida por um estranho em uma casa que ela
conhecia tão bem. Quando entraram na sala de estar, Elle
arregalou os olhos ao ver sua melhor amiga rodeada por, pelo
menos, vinte pessoas. Todas elas tinham a cabeça baixa e uma
mulher vestindo um suéter cor-de-rosa rezava em voz alta com a
mão esquerda erguida e voltada em direção a Sash. O homem
que abrira a porta trouxe uma cadeira da cozinha e ofereceu a
ela, em silêncio. Elle sorriu para ele e se sentou, juntando-se ao
círculo.
— O que está fazendo aqui?
A voz de Sash interrompeu a oração da mulher do suéter cor-
de-rosa. Todos pareceram erguer a cabeça e voltar os olhares
em direção a Elle em um movimento fluido.
— Eu… eu vim ver como você está.
— Não devia estar aqui.
Elle hesitou, mas não se esquivou do olhar furioso da amiga.
Ela ignorou os murmúrios e movimentos desconcertados das
outras pessoas na sala. — Sinto muito pelo que aconteceu,
Sash.
— Você sente muito? Minha filha ligou para você. Você deveria
ter estado lá para ela. Prometeu que estaria. Mas estava
ocupada demais investigando um serial-killer idiota. — Um riso
amargurado escapou de seus lábios. — Na verdade, você ainda
está ocupada demais investigando-o para fazer o que é melhor
para Natalie.
Dessa vez Elle baixou o olhar, encarando o carpete verde com
flores desbotadas. Fora instalado pelo dono anterior e Natalie
costumava dizer que elas tinham um “chão de floresta” quando
era pequena. Talvez Sash estivesse certa. Talvez ela tenha se
deixado levar por esse caso apesar dos anos de preparação e
treinamento que levara para chegar até lá. Se sua obsessão em
encontrar o acabasse ferindo Natalie, ela jamais se
perdoaria.
— O que posso fazer? O que quer que eu faça? — perguntou
Elle.
Sash buscou a mão de uma mulher que estava a seu lado e a
segurou firme, olhando para Elle. Suas narinas se inflaram e
seus olhos ficaram marejados. — Quero que a encontre. E quero
que a traga de volta para casa como prometeu que sempre faria.
Até lá, não quero ver você.
Elle umedeceu o lábio inferior com a língua e assentiu, lutando
contra suas próprias lágrimas. Sem conseguir pensar em mais
nada para dizer, ela se levantou e deixou a sala.
Do lado de fora, a neve refletia a luz do sol em um clarão
ofuscante. Elle fechou o zíper do casaco e olhou para os dois
lados da rua. Uma parte dela esperava ver policiais ainda
procurando por evidências, mas eles devem ter concluído que
não havia mais nada a ser encontrado. Ela voltou para casa
caminhando devagar e estudando o chão congelado enquanto
avançava, para o caso de encontrar algo que passara
despercebido para os outros. Mas não havia nada de Natalie ali,
apenas pedregulhos, sal e neve.
Ao chegar à porta de entrada de sua casa, Elle inseriu a chave
na fechadura e ficou imóvel. Ela não conseguia suportar a ideia
de passar o dia todo em uma casa vazia. Martín fora para o
trabalho para tentar manter a mente ocupada. Tudo o que havia
lá dentro esperando por ela era um estúdio cheio de anotações e
tarefas que ela não tinha a intenção de organizar.
Para cumprir sua promessa e trazer Natalie de volta para casa,
a melhor alternativa seria trabalhar com Ayaan. Se ela
conseguisse convencer a comandante de que suas suspeitas
sobre o foram um lapso momentâneo causado por
exaustão e emoções à flor da pele, talvez Ayaan permitisse que
ela continuasse a ajudar na investigação. Deveria haver algo que
ela pudesse fazer, mesmo que Ayaan não permitisse que ela
voltasse a trabalhar em campo. Ela poderia cuidar da burocracia,
poderia analisar os vídeos de segurança, qualquer coisa que não
fosse ficar sentada em casa.
Tirando a chave da fechadura, ela se virou e foi em direção ao
carro, sentindo-se grata por Ayaan ter solicitado que um dos
policiais o trouxesse de volta da delegacia na noite anterior.
A delegacia estava agitada como sempre. Vários policiais
matavam tempo na cozinha, tomando café e batendo papo em
volta de uma caixa de bolinhos provavelmente trazidos por
Ronny, o recepcionista, cujo marido tinha uma padaria. Alguns
deles acenaram com a cabeça e um deles estendeu um prato de
plástico com doces de padaria na direção dela, que recusou. Ela
não conseguia se lembrar da última vez que comera, mas estava
sem fome. Sam Hyde estava encostado na pia, adicionando leite
ao café enquanto olhava para ela de maneira curiosa. Ela baixou
a cabeça, se odiando por estar parecendo um cachorro com o
rabo entre as pernas.
Através das paredes de vidro do escritório de Ayaan, Elle viu a
comandante inclinada sobre uma pilha de papéis. Ayaan levantou
a cabeça quando ela bateu na porta. Ayaan a encarou em
silêncio por um instante, mas em seguida gesticulou com a
cabeça para que ela entrasse.
— Elle, em que posso ajudar?
Ayaan não a convidou para se sentar, então Elle ficou em pé
atrás de uma cadeira, apoiando o peso do corpo em um pé e
depois no outro.
— Gostaria de falar com você sobre os casos. Eu sei que está
com o pé atrás comigo nesse momento, mas realmente acho que
posso oferecer alguns insights sobre a identidade do
sequestrador.
— Sequestradores.
Elle congelou. — O quê?
— Até onde sabemos, são dois incidentes diferentes.
— Ayaan…
— A vitimologia é completamente diferente. Amanda é uma
criança de uma casa com dois responsáveis. Ela desapareceu
bem cedo pela manhã durante sua rotina normal, quando
esperava no ponto de ônibus. O acontecimento foi orquestrado
de maneira que sua mãe estaria distraída no exato momento em
que ela foi sequestrada, o que indica um planejamento
minucioso. Uma vítima viu o sequestrador, mas quem quer que
ele seja foi destemido o suficiente para seguir em frente mesmo
assim.
Elle cerrou os punhos.
Ayaan prosseguiu. — De modo oposto, Natalie vem de uma
casa com apenas um responsável. Ela desapareceu no fim da
tarde fazendo algo imprevisto que a deixou em uma situação
vulnerável, voltando para casa sozinha. Aparentemente, ninguém
viu ou ouviu nada, o que sugere que ela não tenha gritado ou
feito qualquer barulho que chamasse a atenção. Foi
provavelmente um crime de oportunidade. Ela estava no lugar
errado na hora errada, e alguém tirou vantagem de sua
vulnerabilidade.
Elle balançou a cabeça, mas Ayaan a interrompeu erguendo a
mão. — Elle, está misturando a investigação de seu podcast com
esses sequestros, mas simplesmente não há evidência de que
eles estejam conectados. É compreensível. Já fiquei confusa e vi
conexões entre meus casos antes. Acontece. Mas Natalie é
como sua própria filha. Não há chances de você estar envolvida
no caso dela. Acho melhor que você mantenha distância por ora.
Falei com os pais de Amanda e eles concordaram. Sam está trabalhando em poucos casos no momento, então ele está me
ajudando.
Por alguma razão, a ideia de Sam tomando seu lugar era um
punhado a mais de sal na ferida. Elle engoliu seus argumentos e
tentou conter o pânico que crescia dentro dela. — Mas, Ayaan,
eu… eu preciso fazer alguma coisa.
Os olhos de Ayaan estavam tomados por pena quando ela
disse: — Sei que quer ajudar.
— Quero.
— Mas você claramente é parcial quando se trata do e
isso a impede de enxergar as coisas com clareza. Não posso
mais trabalhar com você. Desculpe. É muito arriscado.
Ao ouvir isso, a última centelha de esperança dentro de Elle se
esvaiu como um pavio em chamas afundando em cera quente
derretida.
Enquanto esperava em frente ao elevador, uma voz masculina a
chamou. Ao se virar, ela viu Sam do outro lado das portas de
segurança, caminhando em sua direção com a mão estendida.
— Espere aí — disse ele.
O elevador chegou e ela se sentiu tentada a apenas entrar
nele e ir embora. A última coisa da qual ela precisava era um
discurso sobre como ela era uma detetive de sofá e atrapalhava
investigações policiais reais. Mas ela se deteve, uma mão
segurando a porta do elevador, sabendo que ele iria atrás dela
caso ela fosse embora.
Ele atravessou o saguão e apontou com a cabeça para o
elevador. — Posso acompanhar você?
Ela olhou para ele e para o elevador aberto, confusa. Então
deu de ombros. — Claro, por que não? — Eles entraram juntos e
ela pressionou o botão do térreo antes de se virar para encará-lo,
de braços cruzados. — O que você quer?
Sam desviou o olhar. Era a primeira vez que ela o via sendo
qualquer coisa que não fosse arrogante e presunçoso. Era uma
guinada desconcertante. — Sei que tem trabalhado no caso de
sequestro com a Ayaan, mas queria saber se encontrou algo
mais sobre Leo Toca. Sabe, sobre o que ele ia te dizer a respeito
do .
Ela o observava, aguardando o desfecho, mas a expressão
dele não mudou. Era uma pergunta genuína. Ele estava
realmente empacado. — Não sei, eu tenho estado muito ocupada
com meu falso mestrado e falando com minhas falsas
testemunhas em meu trabalho como falsa detetive.
Ele cruzou os braços. — Por favor, me dê uma colher de chá.
— Por que eu deveria? — Eles chegaram ao térreo e as portas
do elevador se abriram revelando o saguão do prédio. — Você
não pode acordar e decidir que quer a minha ajuda depois de me
dizer pra não meter o nariz no seu caso.
Sam coçou a nuca, desviando o olhar. — Desculpe, tudo bem?
É que… estou em um beco sem saída nesse momento.
Interroguei as pessoas com quem ele trabalhava, estudei o
registro de ligações dele, até mesmo liguei para os pais dele no
México. Fui até Stillwater para tentar encontrar Luisa, mas não
dei sorte. Nem mesmo sei quem era a pessoa com quem ela
estava lá. Duane ainda é um grande suspeito, mas não gosto do
fato de que não consigo localizar a ex-mulher de Leo. Divulguei um alerta com a placa dela, mas até agora, nada. Então Ayaan
basicamente atribuiu o caso de Amanda Jordan para mim porque
ela o está investigando como um homicídio, então passei a noite
toda revisando as anotações e as evidências.
— Espere, o quê? — Elle sentiu um frio na barriga como se
estivesse despencando de um prédio alto. — Disse que Ayaan
está investigando o caso de Amanda como homicídio?
Oficialmente?
Sam pareceu confuso por um instante. Em seguida ele xingou
e olhou em volta, como se para verificar que não havia nenhuma
testemunha. — Achei que soubesse. Ela está desaparecida há
quatro dias, sem sinal de vida. Há grandes chances de que ela
esteja morta. Por isso estou ajudando Ayaan agora.
Elle balançou a cabeça tentando conter uma onda de raiva.
Era compreensível que Ayaan não compartilhasse informações
com ela, mas ela ainda teve uma sensação de traição. Ela nunca
fora parte dessa investigação, não de verdade. Então ela se deu
conta de uma coisa. Se Sam estava atrás dela, pedindo ajuda
com sua investigação de homicídio, ele provavelmente não sabia
ainda que Ayaan a havia afastado do caso de Amanda Jordan.
Essa poderia ser sua única chance de obter mais detalhes sobre
o progresso do caso antes que ele descobrisse que ela era
persona non grata no departamento de polícia de Minneapolis.
— Algumas das pistas provenientes do retrato falado foram
promissoras? — perguntou ela.
Sam respirou fundo, frustrado. — Não muito. Há alguns dias,
uma pessoa relatou ter visto uma van cuja descrição
correspondia ao veículo que procuramos em Snelling, seguindo na direção norte. Mas foi isso. Vai me ajudar com o caso de Toca
ou não?
— Não. — Ela refletiu por um momento e então voltou a olhar
para Sam. — Ou talvez eu ajude. Sabe o que fica em Snelling,
não sabe?
Ele a encarou. De repente se deu conta. — A oficina. Vamos.
— Eu também? — perguntou ela, tentando não demonstrar
sua empolgação.
— Quer que eu mude de ideia?
— Não.
Ela lia as notícias do dia no celular enquanto Sam dirigia.
Todos os jornais locais haviam publicado artigos sobre Natalie,
embora mencionassem seu nome de maneira superficial. Para
todas as outras pessoas, ela era simplesmente mais uma garota
jovem a desaparecer nos subúrbios de Minnesota. Ela conteve
as lágrimas que invadiram seus olhos e reprimiu a preocupação
por Natalie a um compartimento empoeirado em sua mente que
ela aprendera a desenvolver quando trabalhava no . Era
para lá que ela mandava toda a raiva e o medo e a dor até que
conseguisse respirar outra vez, até que conseguisse recuperar o
foco. Foi a única coisa que a ajudou a suportar seu trabalho. Ela
sabia que Martín fazia isso também, assim como todas as
pessoas que lidavam com o pior lado da humanidade em seus
trabalhos.
Na oficina Simple Mechanic, Duane estava parado diante da
enorme porta que parecia ser grande o suficiente para acomodar
um caminhão semipesado. Suas bochechas estavam coradas e
ele tinha a barba por fazer. Havia uma expressão de mau humor em seu rosto quando Sam e Elle desceram do carro. Não era
necessário sorrir. Eles não eram clientes.
— Olá, Duane — cumprimentou Sam em tom descontraído.
— O que veio fazer aqui? — Duane olhou de Sam para Elle. —
Espere, não é a moça que…
— Sim, fui eu que encontrei você com o corpo de Leo.
O rosto dele se tornou ainda mais vermelho. — Detetive, eu e
os rapazes respondemos todas as suas perguntas na semana
passada. Você fez com que fechássemos a oficina por quase um
dia inteiro, fez com que perdêssemos uma boa grana. Eu já disse
que não tive nada a ver com o assassinato dele e que não sei
quem teve.
— Não vim falar sobre Leo. — Sam olhou para Elle e depois de
volta para Duane. — Nós estamos aqui para falar de um carro.
De uma van, na verdade.
Com um grunhido disfarçado de suspiro, Duane olhou por trás
dos ombros e então fez um gesto com a mão para que eles o
seguissem até uma área interna anexa à oficina. Eles o
acompanharam e Elle saboreou a onda de calor ao entrarem em
um pequeno escritório. Mal havia espaço para dar a volta na
mesa, mas Duane se espremeu para passar com uma facilidade
que só poderia ser resultado de prática. Elle se sentou na única
cadeira disponível, deixando Sam perto da porta.
À direita de Elle, gaveteiros e caixas de plástico estavam
empilhados contra a parede do chão ao teto, tão perto dela que
seu cotovelo roçou em um deles quando ela o pousou no apoio
de braço da cadeira. Os pequenos trechos de carpete que ela
conseguia ver estavam encardidos devido aos anos de acúmulo de sujeira e areia. Havia manchas de óleo automotivo na
superfície da mesa de madeira onde Duane descansava as mãos
fechadas em concha.
— Certo, que van é essa? — perguntou Duane. Ele tirou o
gorro que usava e passou uma das mãos pela cabeça calva.
— Estou investigando um caso — disse Sam. — Uma van
Dodge Ram 1500 azul, de 2001 e sem placas fugiu de uma cena
de crime. Viu algo assim por aqui nos últimos dias? — Sam
pegou o celular e mostrou uma foto a Duane. Elle percebeu ser o
mesmo material estudado por ela e Ayaan dias atrás no
computador.
Esticando o lábio inferior em reflexão, Duane deu de ombros.
Ele mal olhou para a foto. — Está me perguntando se troquei o
óleo de um carro desse recentemente? Provavelmente. Eu vejo
cerca de trinta carros por dia aqui, algumas vezes mais.
Sam riu. — Ah, Duane, você pode não ser um assassino, mas
nós dois sabemos que também não é mecânico. Ou, pelo menos,
não é apenas mecânico. Fiz algumas pesquisas sobre você na
semana passada, falei com alguns amigos seus que estão
cumprindo pena em Hennepin County, e parece que você tem um
negócio muito lucrativo de “reaproveitamento de peças” aqui.
A expressão no rosto de Duane não se alterou, mas ele não
respondeu. Sam continuou: — Talvez eu não possa pegar você
pelo assassinato de Leo, mas fiquei sabendo de algumas
histórias interessantes. Para mim seria muito fácil compartilhar
minhas descobertas com o departamento de roubos para ver o
que eles têm a dizer sobre elas, ou eu poderia reportar seus amigos como informantes de cadeia que diriam qualquer coisa
pra conseguir alguma vantagem. Depende de você.
Alguns instantes mais tarde, Duane passou a língua pelos
dentes e gesticulou com a cabeça em direção a Elle. — Sério,
cara, que diabos ela está fazendo aqui?
Elle cerrou os dentes e Sam respondeu: — Não se preocupe
com isso. O que pode me dizer sobre essa van?
— O que quer saber?
Sam sorriu outra vez. — Quero saber se alguém trouxe uma
van Dodge Ram 1500 azul até sua oficina nos últimos quatro
dias, e, se sim, gostaria que nos levasse até ela agora mesmo.
Duane olhou para Elle novamente. Ela retribuiu o olhar.
Suspirando, ele disse: — Certo, está bem. Trouxeram uma van
como essa outro dia.
— Que dia? — perguntou Sam.
— Não sei. Umas três noites atrás, eu acho.
Elle se intrometeu. — Em que noite? Segunda ou terça? Onde
ela está?
— Não sei! Não… não está mais aqui.
Ela bateu as duas mãos no apoio de braços da cadeira e
deslizou para a beirada do assento, prestes a segurá-lo pelo
pescoço. — Como assim não está mais aqui? — Então ela se
deteve, horrorizada. — Você… você já a desmanchou, não é?
Duane nem mesmo pareceu envergonhado. — O que vai
fazer? — perguntou ele. — Me prender?
— Nós, não. — Sam cruzou os braços imitando o gesto de
Duane. — Vamos deixar a unidade de roubos cuidar disso.
— Ei, ei, ei, espere aí. — Duane levantou as mãos com as
palmas voltadas para cima. — Eu posso não estar mais com a
van, mas posso te dizer quem a trouxe. — Ele levantou as
sobrancelhas.
Elle emitiu um som de escárnio e olhou para Sam. — E ele não
vai nos contar a menos que entremos em um acordo.
Aparentemente isso é o que merecemos ao pedir ajuda para um
picareta como ele.
Duane ergueu os ombros, exibindo um sorriso arrogante em
seu rosto rubro. — É o que dizem: cuidado com o que deseja.
— Sabe quem trouxe a van? Tem certeza? — perguntou Elle.
— Não se dê ao trabalho de tentar escapar com uma mentira
— interrompeu Sam. — Não será difícil encontrá-lo se sua
informação se provar falsa.
— Está brincando? Eu jamais mentiria para um detetive digno
e honrado como você. — Os olhos de Duane pousaram em Elle e
ele gesticulou em sua direção. — Ou para uma detetive de sofá
intrometida que tem um programa de rádio.
Antes que Elle pudesse responder, Duane continuou. — Isso
mesmo, sabia que reconhecia sua voz. Leo costumava ouvir
suas baboseiras o tempo todo na oficina. Essas porcarias
mentirosas e sensacionalistas. Talvez se você não o tivesse
deixado todo perturbado, crente que poderia brincar de detetive,
ele não teria se metido nessa e não estaria morto agora. Você
não é investigadora coisa nenhuma. Você só é uma vagabunda
convencida com um microfone e sem ninguém pra te mandar
calar a boca.
Por um instante, Elle o encarou em silêncio. Tudo o que ele
disse era exatamente o que a preocupava havia dias, desde que
ela encontrara o corpo sem vida de Leo. Mas o zunido de medo
em sua mente quando ela pensava em Amanda e Natalie, a ideia
de que ele sabia mais do que estava dizendo a eles, essas
coisas deram coragem a ela. Fizeram com que ela se tornasse
destemida.
O rosto dela se esticou em um largo sorriso que deixava seus
dentes à mostra. — Não entende, Duane? Essa é a melhor parte.
Eu não sou policial. Sou apenas uma cidadã que quer encontrar
aquela van. Sou apenas a criadora de um podcast com milhares
de ouvintes que ficariam felizes em divulgar seu nome e local de
trabalho para toda a internet. Além, é claro, da informação de que
você não apenas destruiu as evidências do sequestro de uma
garotinha, mas também nos fez de bobos quando pedimos sua
ajuda para encontrar a pessoa que trouxe a van até você. Mas
não se preocupe. As pessoas na internet são conhecidas por
estarem abertas a ouvir ambos os lados da história quando se
trata de crimes infantis.
O rosto de Duane empalideceu. — Que porra é essa? — Ele
se virou para Sam. — Vai deixar que ela me ameace assim?
Sam franziu a sobrancelha com uma expressão dissimulada de
confusão. — Desculpe, o que foi? Não estava prestando atenção.
— O nome dele é Eduardo, tudo bem? Não sei qual é o
sobrenome. — Os olhos de Duane iam de Elle para Sam. Gotas
de suor surgiram em sua testa e entre os fios ralos em sua
cabeça. — Não fale sobre mim em seu podcast, está bem? Sei o
tipo de coisa que você faz, tirando do contexto trechos do que as pessoas dizem e fazendo análises para que soem de maneira
diferente. Estou dizendo a verdade, é só isso que eu sei. E vocês
não me disseram que isso era sobre a porra do sequestro de
uma criança. Eu teria contado tudo logo de cara. Meu Deus.
Elle ignorou os insultos. Os homens que tinham problemas
com sua voz e com suas teorias nos casos que ela investigava
não eram novidade a essa altura.
— É sério? Isso é o que tem a nos dizer? — Sam deu a volta
na mesa para ficar de frente para Duane. Seu tom de voz era
informal, amigável. Fazia com que ele soasse ainda mais
amedrontador. — Viemos de tão longe, cara. Tenho certeza de
que você tem mais informações sobre ele. Você provavelmente
conhece todos que frequentam a oficina, não conhece?
— Hm, sim, acho que sim.
— Claro que conhece! Um profissional com jogo de cintura
como você. Sabe que não pode esquecer um rosto. Com certeza
consegue se lembrar de mais coisas sobre esse cara.
A expressão de Duane mudou e seu rosto recuperou as cores
habituais. Ele olhou para Sam em um misto de medo e
admiração. — O-o nome dele é Eduardo. Ele tem mais ou menos
sua altura e é mexicano. Ou é centro-americano, eu não sei. Ele
trabalha na Universidade Mitchell, limpando o chão e essas
coisas. Isso é tudo que sei, eu juro.
Sam endireitou a postura com um sorriso largo e genuíno no
rosto e, num gesto amigável, apertou o ombro de Duane. Duane
se retraiu e Elle sorriu maliciosamente ao perceber a força no
aperto de Sam. — Beleza, valeu, cara. — Ele se voltou para ela, ainda sorrindo, e fez um gesto de conclusão com a mão. —
Podemos ir.