Garota, 11
Capítulo 12
Elle
15 de janeiro de 2020
Assim que Elle chegou à delegacia ficou evidente que havia algo
no ar. Os departamentos de homicídio e de crimes infantis
ficavam próximos — e, infelizmente, trabalhavam em conjunto
com frequência. Ela passou pela porta de entrada e se identificou
na recepção, entregando seu revólver antes de se dirigir para o
escritório de Ayaan, como era de costume. A comandante estava
sentada à mesa, olhando concentrada para a tela do computador.
Ela tinha a mesma expressão de quando elas investigavam
juntas o caso de Jair Brown, uma expressão que dizia “não fale
comigo, estou no meio de algo importante”. Que droga. Elle
estava torcendo para trazer Ayaan para seu lado antes de
conversar com Sam Hyde.
Respirando fundo, ela deu a volta e foi sozinha em direção ao
escritório dele.
Sam esperava por ela. Ele se apoiava no batente da porta com
uma expressão fechada. Ao vê-la, gesticulou para que ela entrasse e se sentasse, fechando a porta em seguida e indo se
sentar do outro lado de sua mesa cuidadosamente organizada.
— Dezesseis semanas — disse ele ao se sentar na cadeira.
— Como?
— Dezesseis semanas. É a duração da academia de polícia.
Depois há mais um ano e meio de treinamento em campo e,
tcharam, você se torna policial. Caso seja essa a carreira que
você almeja.
— Obrigada pelas informações de recrutamento — disse ela.
Ela estava morrendo de vontade de tomar café. As mensagens
que ela lera na noite anterior a mantiveram acordada. Ela não
contara para Martín, não queria que ele se preocupasse. Em vez
disso, ficou acordada sozinha olhando para o teto, no escuro,
alarmada com cada ruído e ranger que soava pela casa.
Sam parecia irritado. — Quer me explicar o que tinha na
cabeça quando saiu por aí entrevistando minhas testemunhas
antes de mim?
Elle ergueu os ombros. — Não sabia que ainda não tinha
falado com elas. Digo, a ex-mulher parece um começo bem
óbvio. Eu imaginei que a teria procurado logo de cara.
A pele pálida do pescoço de Sam adquiriu um tom escarlate.
— Só porque seu programa de rádio em que gosta de brincar de
detetive trouxe resultados algumas vezes, não quer dizer que
pode se intrometer em uma investigação de homicídio e fazer o
que bem…
— Tudo bem, você está certo. Me desculpe. — Elle respirou
fundo, impaciente. — Eu juro que não estava tentando interferir
em sua investigação. De verdade. Eu estava… Eu estava tentando descobrir se alguém conhecia Leo bem o suficiente
para saber o que ele ia me dizer sobre um caso no qual eu estou
trabalhando. O caso sobre o qual fui falar com ele quando
encontrei seu corpo.
— O .
— Isso mesmo.
— Não entendi. De que forma a ex-mulher dele poderia ter
ajudado você?
— Imaginei que se ele realmente soubesse quem é o ,
poderia ter dito a alguém. Eu perguntaria ao sócio dele, mas
estou supondo que ele ainda esteja foragido.
Sam negou com a cabeça. — Não, a polícia o encontrou na
noite do assassinato, correndo em direção à casa dele. Ele e Leo
definitivamente tinham um desmanche juntos, o departamento
responsável estava trabalhando em um caso contra ele por isso.
Mas entre o momento em que Leo conversou com você ao
telefone e o momento em que Duane chegou, temos uma
estimativa bastante precisa da hora em que Leo foi morto, e
Duane foi visto nas câmeras de segurança de um posto de
gasolina no mesmo quarteirão apenas cinco minutos antes de
você chegar. Não encontramos a arma do crime na cena nem
tampouco em seu apartamento ou local de trabalho, mas nosso
melhor palpite é que os policiais o pegaram antes mesmo de ele
chegar em casa. Então ele pode ter se livrado da arma no
caminho, ou pode não ser quem procuramos.
Elle sentiu um calafrio. — Quer dizer que ele não o matou?
— Não posso dizer com certeza, mas não tínhamos provas
suficientes para mantê-lo aqui. Ele está em liberdade desde sexta-feira à tarde.
Ele ia me dizer quem é o . Inclinando-se sobre a mesa, Elle
levou os cotovelos à superfície de madeira e apoiou a testa na
palma das mãos. A sala girava, então ela respirou fundo pelo
nariz.
— Está tudo bem?
— Shhhh, estou pensando.
Fechando os olhos, ela tentou se lembrar do apartamento
exatamente como estava quando ela chegou: Leo estava deitado
de barriga para cima no chão, Duane estava ajoelhado ao seu
lado. O ambiente estava inalterado, os móveis, gastos, mas
organizados. Duane não tinha uma arma, não que ela tenha
visto. Não havia mais ninguém na sala. Alguém poderia ter se
escondido perto da porta e fugido quando ela entrou? Não. Um
dos dois teria notado. Eles e o assassino devem ter se
desencontrado por questão de segundos. Talvez quem quer que
tenha sido tenha passado por ela nas escadas, embora ela não
se lembre de ver ninguém. Ele pode ter subido um lance de
escadas, esperado até que ela entrasse. Isso significaria que ele
sabia que ela estava a caminho. A ideia a fez estremecer.
Elle estava se segurando para não perguntar se a polícia já
havia tido acesso ao pen drive que estava no bolso de Leo. Ela
acreditava que ele estaria parado em uma pilha de evidências
naquele momento, esperando para ser processado. Mesmo se já
tivesse tido acesso, Sam jamais lhe diria e ele parecia vingativo o
suficiente para abrir uma acusação contra ela por vasculhar as
roupas de uma vítima de homicídio.
Por fim, ela olhou para ele. — Sei que não é muito fã de
investigadores independentes. — Ele abriu a boca para
responder, mas ela continuou. — Prometo tentar ficar fora do seu
caminho, mas não posso prometer que vou ficar fora desse caso.
Se Leo sabia algo sobre o , vou descobrir o que era. E se
ele morreu porque ia me dar essa informação, devo a ele
descobrir quem o matou.
Sam a observou em silêncio por um momento. Então um
sorriso incrédulo apareceu em seu rosto. — Você acha que o
o matou.
Elle sentiu seu rosto ruborizar, mas se recusou a baixar o olhar.
— Eu não disse isso.
— Mas você acha. Você acha que esse cara foi baleado pelo
por ter mandado um e-mail para o seu podcast?
Suas palavras soavam mais como espanto do que como
deboche, mas Elle se irritara. Ela se levantou e saiu da sala,
ignorando os pedidos de má vontade de Sam para que ela
voltasse.
Ela estava esperando pelo elevador quando Ayaan apareceu à
porta de seu escritório. — Elle, tem um minuto? — Quando Elle
se voltou para ela, Ayaan recuou. — Caramba, está tudo bem?
— Hyde — disse Elle, cansada demais para explicar.
Ayaan assentiu. — Entendo. Ele acabou de ser transferido
para cá. É bom no que faz, mas é meio babaca.
— Não diga.
— Bom, talvez isso ajude você a mudar de ares. — Ayaan foi
até o saguão entre o elevador e a porta da delegacia, cruzando
os braços sobre o blazer branco. — Estou com um caso de uma pessoa desaparecida que supostamente foi sequestrada ontem
de manhã enquanto esperava pelo ônibus escolar. A mãe da
menina adora seu podcast. Ela está desesperada de
preocupação, mas não para de dizer que quer que você esteja no
caso. Acabei de conseguir a aprovação dos meus superiores
para convidá-la a colaborar como consultora, caso esteja
interessada.
Os olhos de Elle se arregalaram e ela endireitou a postura. Até
então ela tinha certeza de que a polícia não confiava nela,
mesmo depois de tudo que fizera para se mostrar confiável. Ela
perguntou: — Consultora em um caso ativo?
Ayaan assentiu. — Se quiser. Adoraria contar com seus
insights.
Isso significaria menos tempo para trabalhar no podcast, para
investigar informações e para gravar novo conteúdo. Por outro
lado, a distrairia de todo o chorume em sua caixa de entrada.
Além disso, se ela recusasse o convite de Ayaan agora, ela
poderia nunca mais ter a oportunidade de ajudar em um caso da
polícia de Minneapolis.
Mordendo o interior da bochecha, Elle varreu a delegacia com
os olhos. Ela conseguia ver o escritório onde Sam estava
sentado à mesa, de costas para onde elas estavam. Ele odiaria
se ela estivesse trabalhando em um caso ativo. Isso era um
bônus, mas quanto mais ela pensava nisso, mais ela sentia
vontade de aceitar. Alguém pediu por ela. Alguém acreditou que
ela era uma investigadora boa o suficiente a ponto de confiar
nela com o caso de sua própria filha.
Elle voltou o olhar para Ayaan novamente e assentiu,
determinada. — Eu topo.